Pochmann: os contornos da possível IA soberana

Tecnologia não precisa eliminar ocupações. Pode requalificar a estrutura produtiva e o trabalho. País tem ativos estratégicos para tanto; bases de dados públicas e centros de pesquisa qualificados. Faltam, porém, políticas que enfrentem a dominação das big techs

Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras

A inteligência artificial já chegou ao Brasil. Mais importante do que perguntar se ela destruirá empregos é decidir o que o Brasil pretende fazer com essa nova tecnologia, pois toda grande transformação tecnológica modifica a maneira de produzir, trabalhar e viver. No passado, a máquina a vapor, a eletricidade, a linha de montagem e a informática ampliaram extraordinariamente a capacidade humana de produzir.

A inteligência artificial abre agora uma nova fronteira, uma vez que, pela primeira vez, as máquinas podem apoiar não apenas o esforço físico, mas também parcelas crescentes das atividades intelectuais. Para o Brasil, isso pode representar uma inegável oportunidade histórica.

O país reúne condições singulares para aproveitar essa transformação, pois conta com um enorme mercado interno, ampla conectividade incorporada pela população, sistema financeiro digitalizado, universidades, centros de pesquisa, empresas inovadoras e uma das maiores estruturas públicas de produção de dados do mundo. O desafio está na capacidade de transformar esses ativos em uma estratégia nacional de aumento da produtividade e do bem-estar.

Os dados recentes do IBGE mostram que o mercado de trabalho brasileiro atravessa um momento particularmente favorável, com recordes históricos da série tanto no número de trabalhadores ocupados quanto na menor taxa de desemprego, ainda que a informalidade persista. Esses resultados permitem olhar para a inteligência artificial não como uma resposta à falta de trabalho, mas como uma oportunidade para melhorar a qualidade, a produtividade e a remuneração do trabalho existente.

A pergunta correta não é quantos trabalhadores a inteligência artificial poderá substituir, mas quantos trabalhadores brasileiros poderão fazer mais e melhor com o apoio da inteligência artificial. Substituir o atraso, não as pessoas constitui uma mudança fundamental de perspectiva histórica.

Um agricultor pode combinar sua experiência com informações climáticas, imagens de satélite e modelos preditivos para decidir melhor quando, o que e como plantar. Uma pequena empresa pode utilizar IA para administrar estoques, preços e relacionamento com clientes, afastando-se da inadequada prática de misturar as finanças pessoais com as do negócio. Um professor pode preparar conteúdos mais personalizados, profundos e de fácil compreensão para seus alunos. Um profissional de saúde pode ampliar sua capacidade de diagnóstico e acompanhamento dos pacientes. Um servidor público pode reduzir tarefas burocráticas e dedicar mais tempo ao atendimento da população.

Assim, a inteligência artificial pode funcionar como uma espécie de multiplicador das capacidades humanas. A Organização Internacional do Trabalho estima, por exemplo, que uma parcela significativa dos empregos latino-americanos está exposta à inteligência artificial generativa, mas ressalta que exposição não significa necessariamente substituição. Em muitos casos, a tendência é de transformação e complementação das atividades humanas.

Isso é particularmente relevante para o Brasil, que possui uma estrutura ocupacional heterogênea e grande quantidade de pequenas empresas e trabalhadores autônomos. Uma prioridade importante para o país poderia ser assumir o compromisso de fazer com que a tecnologia alcance justamente aqueles que historicamente tiveram menos acesso às novas ferramentas produtivas.

Para isso, seria importante ampliar essa agenda em direção a uma política nacional de produtividade. O que significaria poder combinar a inteligência artificial com a educação, ciência, infraestrutura, indústria, agricultura, serviços, saúde, meio ambiente e planejamento territorial. A IA não deve ser tratada como um segmento isolado da economia, pois constitui uma tecnologia de uso geral, capaz de modificar praticamente todos os setores produtivos.

Um grande pacto nacional pela produtividade e pelo bem-estar na era digital poderia resultar da articulação entre governo, empresas, universidades, trabalhadores e instituições de pesquisa. O objetivo seria simples e ambicioso: converter cada avanço tecnológico em maior capacidade produtiva e melhores condições de vida.

Nesse processo, uma das vantagens brasileiras está no lugar central ocupado pelos dados. O Brasil dispõe de grandes bases públicas sobre população, território, saúde, educação, trabalho, agricultura, meio ambiente e assistência social. Esses dados representam uma infraestrutura estratégica para compreender o país e orientar políticas públicas.

A instalação de um sistema nacional de integração das múltiplas fontes de dados permitiria ampliar sua interoperabilidade e seu pareamento com segurança, proteção da privacidade e governança democrática. Não se trata de abrir indiscriminadamente bases individuais, mas de construir ambientes seguros para que diferentes informações possam dialogar, permitindo produzir conhecimento mais preciso sobre a realidade brasileira.

Nesse campo, o Brasil possui uma vantagem institucional importante, dada a tradição consagrada de produção de estatísticas públicas, informações territoriais e registros administrativos. A combinação entre estatística oficial, ciência de dados e inteligência artificial pode inaugurar uma nova geração de políticas públicas baseadas em evidências e predição.

O Estado poderia atuar como indutor das inovações, acrescido do poder de compra do próprio setor público. O governo brasileiro compra diariamente serviços, equipamentos, sistemas e tecnologias em grande escala. Essa capacidade pode ser utilizada para estimular empresas nacionais e centros de pesquisa a desenvolver soluções para problemas concretos do país.

Em vez de simplesmente comprar tecnologia pronta, o Estado pode encomendar inovação. A inteligência artificial aplicada à saúde pública, à educação, à agricultura, à prevenção de desastres, às mudanças climáticas, à mobilidade urbana, ao planejamento territorial e à gestão de serviços oferece exemplos de missões nacionais capazes de aproximar ciência e necessidades sociais.

O objetivo não seria criar uma tecnologia brasileira isolada do mundo, mas inserida de forma mais qualificada nas redes internacionais de inovação e capaz de promover a descentralização do desenvolvimento diante da enorme diversidade territorial do país. O Brasil possui milhares de municípios e uma diversidade econômica, social e ambiental extraordinária. A transformação digital pode ajudar a levar conhecimento e serviços especializados para regiões que historicamente estiveram afastadas dos grandes centros.

Universidades, institutos federais, escolas técnicas, empresas, laboratórios e centros de processamento podem formar uma rede nacional de inovação. A inteligência artificial permite, em princípio, que o conhecimento produzido em São Paulo, Recife, Belo Horizonte ou Porto Alegre seja utilizado por uma pequena empresa no interior do Nordeste, por uma cooperativa agrícola no Centro-Oeste ou por um município amazônico e vice-versa.

A tecnologia pode ajudar a transformar a distância geográfica em uma barreira cada vez menor. Essa talvez seja uma das maiores oportunidades brasileiras. Mais produtividade pode significar mais tempo, e há ainda uma dimensão social frequentemente esquecida.

O objetivo último do desenvolvimento não é produzir indefinidamente mais mercadorias, mas ampliar as possibilidades de uma vida melhor. Se a inteligência artificial aumentar a produtividade, parte desses ganhos pode ser convertida em melhores salários, serviços públicos mais eficientes, redução das jornadas, maior tempo para educação, cultura, cuidado, convivência e participação social.

O progresso tecnológico pode, portanto, ajudar a deslocar o centro do debate econômico da produção de riqueza para a sua transformação em bem-estar. Quanto mais uma sociedade consegue produzir com menos esforço repetitivo, maior deveria ser sua capacidade de ampliar o tempo destinado às atividades que dão sentido à vida.

Essa é uma oportunidade para um Brasil que não parte do zero. O país possui instituições científicas, universidades, empresas, infraestrutura digital, um mercado de grande escala e longa experiência na produção de informações sobre sua população e seu território. Possui também algo ainda mais decisivo para enfrentar problemas concretos cuja solução pode gerar enorme retorno socioeconômico.

A questão parece estar na organização desses recursos em torno de uma estratégia. No plano internacional, há experiências com diferentes caminhos. Os Estados Unidos, por exemplo, combinam forte capacidade empresarial e inovação tecnológica, enquanto a China articula tecnologia, planejamento e capacidade estatal. A União Europeia, por sua vez, enfatiza regulação, direitos e confiança ao passo que os países nórdicos demonstram como a tecnologia, qualificação profissional e proteção social podem caminhar juntas.

O Brasil pode aprender com todos eles sem simplesmente reproduzir qualquer modelo. Pode construir sua própria trajetória, com uma transformação digital soberana, aberta à inovação, socialmente inclusiva e orientada ao desenvolvimento nacional.

Por isso, a inteligência artificial não deve ser recebida com medo, mas com ambição para fortalecer a ciência brasileira, democratizar o conhecimento, aumentar a produtividade, melhorar os serviços públicos e reduzir desigualdades regionais, traduzindo os ganhos tecnológicos em maior qualidade de vida. O Brasil pode tornar-se mais desenvolvido e melhor para a sociedade viver. Uma inegável oportunidade histórica.

*Economista, pesquisador e político brasileiro. Professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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