Ibama considera insuficiente estudo sobre impacto ambiental da Usina Termelétrica Candiota III

Órgão aponta necessidade de estudos complementares mais aprofundados antes de decidir sobre renovação de licença de operação

Por Lucas Azeredo, Sul21

Em análise publicada nesta segunda-feira (31), o Ibama apontou insuficiências no estudo de impacto ambiental encaminhado pela Âmbar Energia — empresa da J&F Investimentos — sobre a Usina Termelétrica Candiota III, que tenta renovar a sua licença de operação. O órgão ambiental demandou estudos complementares para aprofundar a análise antes de tomar uma decisão sobre a renovação, que tem data-limite no dia 5 de novembro. 

A UTE Candiota III é uma usina termelétrica localizada em Candiota, na região  da Campanha do Rio Grande do Sul, que opera a base de carvão mineral em meio a uma disputa judicial com entidades socioambientais. As entidades apontam que a termelétrica é fonte de danos graves à saúde pública e violação de diversos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.

O documento apresentado pela Âmbar é o estudo de impacto de emissões de gases de efeito estufa. Além dos impactos dos poluentes, o estudo deve contemplar dados sobre as emissões e propostas de redução, mitigação e/ou compensação. A UTE Candiota III é a quarta maior emissora de gases de efeito estufa em termos absolutos e possui a segunda maior taxa de emissões para cada gigawatt-hora produzido.

O estudo destacou o “inventário de emissões de gases de efeito estufa”, o que seria, para a empresa, uma ferramenta de gestão ambiental para determinar estratégias e metas para redução das emissões do empreendimento. Entretanto, segundo o Ibama, as estratégias e metas não estão bem definidas no escopo, nem as etapas que permitiriam avaliar a evolução da proposta ao longo do tempo.

Em outra parte do documento, a empresa informa que uma “versão completa” do Estudo de Dispersão Atmosférica e estudos complementares ao Estudo de Impacto serão entregues em um “momento oportuno”. Conforme o Ibama pontuou, o material não indica o que será entregue na complementação, muito menos se essas informações adicionais serão suficientes para atender às solicitações.

Ainda, é responsabilidade da empresa elaborar propostas de redução, mitigação e compensação das emissões. Mas, como avalia o Ibama, as medidas apresentadas no estudo são limitadas. Na realidade, a medida.

A empresa apresenta como única proposta o projeto de biofixação de CO2 por microalgas. Entretanto, essa iniciativa é uma condição anterior da Licença de Operação da usina e ainda está em fase de desenvolvimento. Além disso, segundo o Ibama, a escala da biofixação por microalgas não é “remotamente comparável à escala das emissões da UTE”.

Por fim, a avaliação do estudo conduzida pelos analistas ambientais do Ibama conclui que o documento atende parcialmente à solicitação do Instituto por permanecer “predominantemente estruturado como um inventário, sem aprofundar a avaliação dos impactos e sua relação com os compromissos climáticos brasileiros”. Outros apontamentos críticos são sobre a falta de metas, estratégias de redução de emissões e a falta de diversidade de medidas.

O Ibama indica que o estudo deverá ser complementado e aprimorado para a avaliação dos impactos climáticos da UTE Candiota III antes da decisão sobre a renovação.

A avaliação de entidades socioambientais

Emiliano Maldonado, professor da Faculdade de Direito da UFRGS e integrante do Preservar, explica que a demanda por estudos está prevista no processo de renovação da licença. Ele observa que o Ibama pede um plano que neutralize as emissões, porém não menciona uma taxa “aceitável” de emissões.

Ainda segundo Maldonado, o Ibama reconhece que o que foi enviado ao órgão é um “relato sobre o que está sendo emitido”. “O indicativo do Ibama é: “tá, vocês vão seguir operando, mas que estratégia vocês vão tomar daqui para frente?’. E é isso que está faltando”, comenta.

O que o Preservar e entidades que participam do Comitê de Combate à Megamineração no Rio Grande do Sul defendem é que o Estado deveria estar sob uma situação de emergência climática. Neste cenário, a continuidade de um empreendimento tão poluidor não deveria ser permitida, portanto o objetivo é que o Ibama reconheça essa situação.

“O Ibama indica que a continuidade da operação da [UTE] Candiota III não é adequada nesse contexto de emergência climática”, diz Emiliano Maldonado. “A gente sabe que existe todo um lobby para tentar manter a operação dela”.

O professor ressalta que o documento comprova o que a sociedade civil e pesquisadores vêm dizendo sobre o assunto: não há um plano de transição energética e não há um plano, por parte das usinas, de reduzir e atender à necessidade de neutralizar as emissões. O próprio estudo da Âmbar indica que, apesar de quaisquer esforços para redução das emissões de gases de efeito estufa, é certo que emissões significativas marcarão a operação da UTE Candiota III.

Para o diretor-presidente do Instituto Internacional Arayara, Juliano Bueno de Araújo, o novo parecer do Ibama reforça a cobrança feita ao longo do processo de que “não basta contabilizar o quanto uma termelétrica a carvão emite”. O Instituto é outra entidade socioambiental envolvida no tema, inclusive ajuizando uma ação civil pública que determinou o prazo de 5 de novembro para a decisão sobre a renovação da licença.

Na opinião de Bueno, a decisão sobre a continuidade da UTE Candiota III precisa, além de trazer os impactos socioambientais das emissões, estabelecer formas concretas de reduzi-las. O diretor-presidente do Arayara também reitera a necessidade de consideração se a operação da usina é compatível com os compromissos climáticos do país.

Emiliano Maldonado ratifica essa visão, afirmando que a usina não vai permitir que o Brasil atenda às metas climáticas estabelecidas internacionalmente no Acordo de Paris de 2015. Para o integrante do Preservar, uma renovação iria na “contramão dos compromissos”.

“Tanto o que o Brasil se comprometeu no Acordo de Paris quanto os dados que vão sendo apresentados nas pesquisas exigiriam que a gente não renovasse essa licença”, avalia Maldonado.

Já Juliano Bueno defende que o assunto tem suma importância para o Rio Grande do Sul, atingido de forma recorrente pela crise climática nos últimos anos. “Apenas na tragédia de maio de 2024, foram confirmadas 185 mortes e 25 pessoas desaparecidas, além de mais de 600 mil desalojados. Ao todo, a crise afetou diretamente 2,4 milhões de pessoas e impactou 478 dos 497 municípios gaúchos — dos quais mais de 90% decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública”, relembra Bueno.

Longa história

A história da usina é longa.Em 1961, foi inaugurada a Usina Termoelétrica (UTE) de Candiota, que durante a ditadura civil-militar foi batizada como Presidente Médici, e já encontra-se em sua terceira fase. Ou seja, em 2026, completam-se 65 anos da extração do carvão em escala industrial na cidade de Candiota, de 11 mil habitantes.

O motivo para tantas décadas de impacto socioambiental da indústria em terras gaúchas é a abundância do mineral no Rio Grande do Sul. De todas as reservas brasileiras, 89% estão no estado. Só a jazida de Candiota representa 38,7% da produção nacional, a maior mina a céu aberto do Brasil.

Como mencionado acima, a usina tenta renovar sua licença em meio a denúncias de irregularidades ambientais. A proprietária do empreendimento, a J&F Investimentos, solicitou ao Ibama a renovação da sua licença para que a termelétrica siga operante, pedido que ainda está sob análise do órgão. Porém, mesmo sem o “ok” do Ibama, a usina segue funcionando normalmente.

E a questão de Candiota III não vem sendo nada simples. Em 2025, uma decisão judicial determinou a suspensão de licenças relacionadas à cadeia do carvão em Candiota, incluindo a UTE Candiota III. Essa decisão foi posteriormente derrubada por instâncias superiores da Justiça, permitindo a retomada das operações.

Contudo, o mérito da controvérsia segue em disputa judicial, inclusive com impugnações apresentadas pelas entidades ambientalistas autoras. A ação foi movida pelas organizações Núcleo Amigos da Terra Brasil, Instituto Preservar e pela Instituição Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

A licença vigorou por uma década e foi o suficiente para a UTE Candiota III acumular uma dívida de mais de R$ 125 milhões em multas de infrações ambientais,. Entre as irregularidades apontadas estão a contaminação de águas, a retomada da operação sem comunicação formal, o desligamento do sistema de monitoramento atmosférico e a apresentação de relatórios com conteúdo repetitivo, fraudulento e com informações falsas.

Enquanto isso, paralelamente, o Senado aprovou uma medida provisória do Governo Federal em que o relator Eduardo Braga (MDB-AM) agregou ao texto uma emenda do senador Esperidião Amin (Progressistas-SC) que garante a continuidade de termelétricas a carvão por mais 15 anos e prorroga outorgas por 25 anos.

O tema da transição energética vem tomando o debate na região de Candiota. No último dia 21, o Sul21 acompanhou um encontro que reuniu agricultores assentados, parlamentares da região carbonífera e entidades socioambientais para discutir o assunto.

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