Ciclo que debate os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, organizado por Outra Saúde e Icict, terá novo seminário realizado em Salvador, em parceria com o ISC/UFBA. Discutiremos o racismo, as tecnologias digitais e o trabalho. Veja programação completa
Por Gabriela Leite, em Outra Saúde
Há espaço para pensar o futuro do SUS em um processo eleitoral tão decisivo quanto conturbado? A 8ª Conferência Nacional de Saúde, evento que completa 40 anos em 2026 e que Outra Saúde tem feito o esforço de analisar, sugere que sim. Isso porque, como mostrou a Reforma Sanitária brasileira, lutar pelo direito à saúde significa lutar por um país menos desigual, que garanta “vida digna e decente”, com educação, terra e trabalho para todos. Essas foram as palavras do sanitarista Sergio Arouca, em seu discurso no evento que plantou as sementes para a criação do Sistema Único de Saúde brasileiro.
O ciclo Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS: 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde chega a Salvador nos dias 28 e 29 de setembro (inscreva-se!). Cinco dias separam o evento do primeiro turno das eleições, o que fará dele um momento único para pensar sobre o que poderá ser feito do SUS e do Brasil no próximo ciclo. O seminário está sendo pensado e construído em parceria com o histórico Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia, além do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict), da Fiocruz, parceiro de longa data do Outra Saúde.
Esse será nosso quarto encontro de 2026, depois de seminários organizados no Rio de Janeiro (veja aqui), em São Paulo (veja aqui), e da mesa redonda que será realizada em Manaus na semana que vem, na programação do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, da Abrasco. Como temos divulgado em nosso boletim ao longo dos últimos meses, nos dedicamos a discutir quais os reflexos da Oitava Conferência no Brasil de hoje e como foi possível criar e sustentar um SUS em meio ao ascenso do neoliberalismo. Quais suas dificuldades históricas? Quais os novos obstáculos em seu caminho? Por que é importante defender o seu projeto original?
Para Salvador, reservamos alguns debates que merecem ser aprofundados. Como o racismo e outros tipos de discriminação impedem que o sistema atenda todos da mesma forma e reduza desigualdades? Como resistir aos ataques à soberania brasileira que visam especificamente a fronteira digital do SUS – com suas potencialidades e fragilidades? O que as más condições dos trabalhadores do SUS têm a ver com a economia e o financiamento do sistema? Qual tem sido o papel da comunicação, informação e educação na Reforma Sanitária?
Programação e nomes confirmados
Para recuperar a importância da Oitava Conferência e debater seus desdobramentos para a Reforma Sanitária ao longo das últimas quatro décadas, a programação começa no início da tarde do dia 28, com a mesa “40 Anos de Conferências Populares de Saúde”. Reuniremos dois militantes históricos do SUS: os sanitaristas Lucia Souto e Itamar Lages, com mediação de Monique Esperidião (UFBA). Em seguida, Elisa Costa (Associação Internacional Maylê Sara Kalí – AMSK/Brasil), Sophia Rosa Benedito (UERJ), Vanessa Pataxó (UFBA) e Yeimi López (UFBA) refletirão sobre “A Luta pela Saúde Negra, Indígena e Romani/Cigana no Brasil”.
À noite, o evento promove um grande debate com um convidado especial: o reitor recém-empossado da UFBA, o filósofo João Carlos Salles. Ao seu lado, estarão Maria Inês Barbosa, assistente social e doutora em Saúde Pública pela USP, pioneira nos estudos de racismo e saúde; Carmen Teixeira, uma das formuladoras do pensamento sanitário baiano, que recentemente foi homenageada pela UFBA por suas contribuições ao ISC; e, como coordenador do debate, um dos grandes nomes da Reforma Sanitária e pensador do SUS, Jairnilson Paim. Todas as mesas do dia 28 acontecem no Salão Nobre da Reitoria da UFBA.
No dia seguinte, com mais três debates centrais, o evento se desloca para a casa dos co-organizadores: o auditório Instituto de Saúde Coletiva. Começa pela manhã, com a mesa “A Fronteira Digital da Saúde: Soberania Sanitária e Tecnológica”, que provocará Carolina Carvalho (Icict/Fiocruz) e Leandro Modolo (EPSJV/Fiocruz) para refletirem sobre esse que é um dos desafios mais prementes do SUS, sob coordenação de Luis Eugenio de Souza (ISC/UFBA).
Na sequência, “O Papel da Informação, Educação e Comunicação na Reforma Sanitária” aborda a importância da produção de conhecimento e da comunicação para a construção e a defesa do SUS, com os debatedores Rogério Lannes (Radis/Fiocruz), Pedro Cruz (UFPB e Abrasco) e Lígia Rangel (Rede UNA-SUS/UFBA). O seminário se encerra com a mesa “Trabalhadores da Saúde: Como Enfrentar os Desafios Persistentes”, que debate a terceirização e a precarização enfrentadas pelos trabalhadores do SUS, além dos caminhos para combatê-las, com a presença de Flávio José Domingos (UFAL), Cristiane Lemos (UFG) e Francisca Valda (CNS), coordenados por Isabela Cardoso Pinto (UFBA).
O ciclo se encerra na capital baiana poucos dias antes de o Brasil decidir sobre seus governantes e parlamentares para os próximos quatro anos – mas com consequências que se prolongam para muito além disso. Nosso seminário não tem o poder de interferir nesse processo imediato. Mas busca manter acesa a chama que começou há mais de 40 anos, na Reforma Sanitária, e que pode ser uma das chaves para construir um país radicalmente diferente.
Em seu discurso de posse como reitor da UFBA, há cinco dias, João Carlos é um dos que nos inspira nessa busca. Ele ensina: “Nenhuma crise há de nos destruir, nem nos redefinirá. Nossa aventura poética é agora um deslocamento das paixões tristes, como o medo ou o ódio, rumo às paixões alegres, que nos produzem por meio da solidariedade e de nossa resistência. […] Nós somos a Universidade Federal da Balbúrdia e haveremos de arrancar alegria ao futuro”.




