Como Eduardo Galeano narrou a democracia chilena antes e depois das bombas 

Em ‘O século do vento’, autor narra a ascensão e queda de Salvador Allende

No Brasil de Fato

Nesta sexta-feira (11), completam-se 53 anos do golpe de Estado que derrubou o governo de Salvador Allende no Chile. O golpe abriu o caminho para 17 anos de ditadura pinochetista, uma das mais duras da história da América Latina. Allende morreu dentro do palácio, negando-se a renunciar, como exigiam as lideranças militares através de bombardeios ao Palácio de La Moneda, precedidos por uma longa campanha de desestabilização orquestrada pelas elites locais e pelos Estados Unidos. 

Eduardo Galeano reconstruiu os três anos de Allende em seu livro “O Século do Vento”, o último da trilogia “Memória do Fogo”, uma de suas obras mais emblemáticas. A obra percorre a história da América Latina entre 1492, ano da chegada dos colonizadores ao continente, e 1986, ano de publicação do último livro, além de fragmentos não datados. Com um estilo único de escrita, que converge diversos gêneros textuais, Galeano escreve para cada ano, dos quase 500 que o livro abarca, fragmentos narrativos. Sejam eles pequenas cenas baseadas em documentos, testemunhas e notícias, ou episódios históricos, momentos particulares da vida do autor ou mesmo mitologia.

Para o ano de 1970, Galeano escolheu como um dos fatos mais importantes a vitória de Allende. O autor começa a falar do Chile já apontando para os obstáculos: o líder progressista foi eleito ao mesmo tempo que dois outros presidentes também tentaram impedir sua chegada. O primeiro, presidente da ITT, International Telephone and Telegraph Corporation, Harold Geneen, financiou com um milhão de dólares campanhas contra Allende e favoráveis ao candidato e ex-presidente Jorge Alessandri. O segundo, mais poderoso, foi o presidente dos EUA Richard Nixon. Galeano denuncia que “Nixon encarrega a CIA de impedir que Allende se sente na poltrona presidencial, ou que o derrube no caso de ele se sentar”. Por pouco, o plano se frustrou. 

Linha do tempo

A eleição foi feita de maneira direta em 4 de setembro, com 36,63% para Allende contra 35,29% de Alessandri, o segundo colocado. Como nenhum dos dois alcançou maioria absoluta, o pleito foi decidido pelo Congresso, como mandava a Constituição de 1925. Em 24 de outubro, 153 deputados, ou 78,46% do Congresso, votaram a favor de Allende. A vitória, democraticamente alcançada, anunciava a disposição e a adesão chilenas, do povo e do Congresso, à transição ao socialismo.

A disposição do inimigo de impedi-las, no entanto, também era para valer: dois dias antes, em 22 de outubro, René Schneider, comandante-chefe do Exército havia um ano, “se nega ao golpe de Estado e cai fulminado em uma emboscada”, escreve Galeano. Era uma das tentativas de impedir a posse de Allende, que entende o recado: “Essas balas eram para mim”. O militar morreu 3 dias depois. 

As agressões, pressões e sabotagens seguiram após a posse. São multitudinárias, violentas e covardes. “Ficam suspensos os empréstimos do Banco Mundial, e de todos os bancos oficiais e privados, exceto os empréstimos para gastos militares. O preço internacional do cobre despenca”. Desde Washington, Henry Kissinger, antigo inimigo da América Latina e ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, já anunciava: “Não vejo por que deveríamos ficar de braços cruzados, contemplando como um país se faz comunista devido à irresponsabilidade de seu povo”, como coloca Galeano. Mas a asfixia econômica age conjuntamente com outros mecanismos tão vis quanto. 

Depois, já para 1971, Galeano escolhe falar sobre a propaganda, interrompendo a cronologia chilena no fragmento literário “O Pato Donald”. Lá, Galeano dota o personagem ficcional de seu verdadeiro papel e responsabilidade histórica: “[o Pato Donald] e seus sobrinhos difundem as virtudes da civilização de consumo entre os selvagens, em algum subdesenvolvido país com paisagens de cartão-postal. Os sobrinhos de Donald oferecem bolhas de sabão aos estúpidos nativos, a troco de pedras de ouro puro, enquanto o tio Donald combate contra os foragidos revolucionários que alteram a ordem”.

Para Galeano, o Pato Donald entra na alma de milhões de crianças. Claro, muitas delas chilenas. “Donald não se pronuncia contra Allende e seus amigos subversivos, mas nem faz falta”. A Disney criou um universo em que patos, ratos, cachorros, lobos e porquinhos são um reflexo e, simultaneamente, uma ode à sociedade de consumo. Ou um “simpático zoológico do capitalismo”, como coloca. Há de tudo: praticam o livre mercado, se entregam à publicidade, pagam prestações de dívidas voluntariamente contraídas, e competem entre si para verificar quem tem mais poder. Através do inconsciente, a Disney mata nos pequenos a possibilidade de pensar num mundo diferente. 

Apogeu e queda

Voltando à linha do tempo, no segundo ano do governo de Allende, em 1972, Galeano não disfarçava sua empolgação com a efervescência política do país. “Povo em fogo, povo quebrando o costume de sofrer: em busca de si, o Chile recupera o cobre, o ferro, o salitre, os bancos, o comércio exterior e os monopólios industriais”. Não se tratava apenas de uma multidão entusiasmada, mas de pessoas em busca de mais participação e mais poder. De fato, o país viveu uma longa noite democrática. Sendo o penúltimo a entrar em uma ditadura dos que participaram da Operação Condor, atrás apenas da Argentina, o Chile de Allende levou ao país o socialismo con sabor a empanada y vino tinto, como era chamado o processo chileno, com forte caráter nacionalista, com autenticidade e teor democrático.

Mais participação operária na gestão de empresas operárias, conselhos comunais para os camponeses, democratização do sindicalismo, a democratização da cultura e as famosas JAP’s, Juntas de Abastecimento e Preços. Tudo isso e muito mais foram conquistas da revolução que chegava, apesar de posteriormente deletadas. Outro episódio importante na história chilena retratado no livro foi a nacionalização da ITT. Em uma jogada louvável, Allende estatizou a empresa com base nos valores que a empresa alegava valer em sua declaração de impostos. 

Mesmo com todos os avanços, a cronologia segue para o final de seu governo, já em 1973, momento em que o clima geral era de tensão. As sabotagens financiadas desde o exterior atuavam conjuntamente com uma campanha de desabastecimento, friamente planejada pela burguesia empresarial do país, que empurrava, sem formalidades, as pessoas ao mercado negro para buscar os itens mais básicos.

A campanha mediática, liderada pelo El Mercurio, principal jornal do país, exigia dos militares um golpe de Estado urgente para evitar chegar ao comunismo. Campanha esta que ganha eco nas rádios, nos pequenos e médios jornais e em canais de televisão. Os burocratas do Estado, juízes e parlamentares, conspiravam junto com os altos mandos militares contra o presidente democraticamente eleito. Ao mesmo tempo, há resistência:

“Nestes tempos difíceis, os trabalhadores estão descobrindo os segredos da economia. Estão aprendendo que não é impossível produzir sem patrões, nem abastecer-se sem mercadores. Mas a multidão trabalhadora marcha sem armas, vazias as mãos, por este caminho de sua liberdade”.

Assim descreveu Eduardo Galeano o Chile de 1973 nos meses que antecederam o dia 11 de setembro. Há 53 anos atrás, as tensões sociais e as contradições da sociedade chilena atingiram seu máximo com o golpe de Estado que depôs Salvador Allende, que chegara ao poder 3 anos antes. 

O presidente, o mesmo que disse que “vale a pena morrer por tudo aquilo sem o qual não vale a pena viver”, recusou as ofertas anteriores de um avião para deixar o país, assim como recusou seu pedido de renúncia. “Junto a um punhado de homens, Salvador Allende escuta as notícias. Os militares se apoderaram do país inteiro. Allende põe um capacete e prepara seu fuzil. Soa o estrondo das primeiras bombas. O presidente fala pelo rádio, pela última vez: ‘Eu não vou renunciar..’”. Não renuncia, e comete suicídio no mesmo dia. 

Regime de exceção

Em seu discurso final, Allende jurou pagar com sua própria vida a lealdade do povo chileno e disse que a semente plantada jamais poderá ser ceifada. Poderão ser postos como vassalos, mas jamais a força e o crime poderão deter os processos sociais feitos por quem está em luta. “A história é nossa e é feita pelos povos”, anunciou diretamente de La Moneda. Afirmou sua fé no Chile, em seu destino e em como sabe que logo mais chegará o momento de “abrir as grandes alamedas por onde passe o homem livre para construir uma sociedade melhor”. Ele sabia que não haveria mais volta, que o Exército estava decidido. Sabia, também, que seu sacrifício não seria em vão. 

Apesar do prévio e cauteloso aviso sobre os tempos que se avizinhavam, o momento do golpe foi duro e asfixiante, assim como as horas seguintes, as semanas, os meses e os próximos 17 anos. “Uma grande nuvem se eleva do palácio em chamas. O presidente Allende morre em seu posto. Os militares matam milhares pelo Chile afora”, escreveu Galeano. Os fuzilamentos, que segundo o general Tomás Opazo Santander não mataram mais do que 0,01% da população e, portanto, não deveriam receber tanta importância, foram justificados pelo diretor da CIA, William Colby, como necessários para evitar a chegada de uma guerra civil. 

Dos 4 membros da Junta Militar que assumiram o poder depois do cerco total, Galeano se atenta para um detalhe: os 4 foram formados na Escola das Américas, no Panamá. Eram os comandantes-chefes do Exército Augusto Pinochet Ugarte; da Marinha, José Toribio Merino Castro; da Força Aérea, Gustavo Leigh Guzmán; e o diretor-geral dos Carabineros César Mendoza Durán, a instituição da polícia ostensiva chilena, o equivalente à Polícia Militar brasileira. A escola, que instruiu militares que posteriormente se tornaram ditadores de seus países, foi fundada pelos Estados Unidos em 1946, com o objetivo de formar militares estadunidenses que estavam no Caribe. Com o tempo, passou a receber militares de todos os países da região, controlando direta e indiretamente toda uma rede de altas patentes militares na América Latina. A formação era marcada pelo anticomunismo, pela promoção da violência e uma orientação de se preparar para enfrentar o “inimigo interno”, ou seja, se preparar para ameaças internas e não para uma ameaça externa.

“As rádios emitem decretos e proclamas que prometem mais sangue, enquanto o preço do cobre se triplica subitamente no mercado mundial”, escreveu Galeano. Hoje, a Escola das Américas funciona nos Estados Unidos, mudou de nome e passou por um rebranding, mas segue cumprindo a mesma função que foi projetada para cumprir. 

Um poeta em sua viagem final

Galeano descreve a cena da casa de Allende, bombardeada antes do palácio, uma semana depois do golpe. Desrespeito à memória da família, destruição do espaço físico e a cadela de Allende parindo no sofá amarelo, um dos poucos móveis ainda de pé na residência. Também em Santiago, outra residência foi destruída pelos gorilas: a de Pablo Neruda, um dos maiores escritores chilenos.

Oito dias depois do golpe, em 19 de setembro, Neruda foi internado na Clínica Santa María de Santiago, na capital. Morreu em 23 de setembro. “Morto de câncer, morto de pena”, anuncia Galeano. O uruguaio não sabia, mas 37 anos depois da publicação do livro e 50 da morte do poeta, peritos internacionais confirmaram em 2023 que o corpo possuía a bactéria Clostridium botulinum, que causa o botulismo – as chances de que Neruda possa ter sido assassinado por envenenamento são muito altas, ideia compartilhada pela família.

Dali, o corpo envenenado saiu, rodeado de homenagens, admiradores e flores, para o cemitério. Os militares tentavam impor a meia-volta, a desistência e o retorno através da intimidação. Mesmo com seus caminhões militares, guardas, soldados, motos e carros blindados para impor o medo, fracassaram. Insistindo na desobediência, os chilenos mostravam seu amor e sua admiração pelo poeta de uma revolução sonhada, mas precocemente assassinada.

“Hoje faz doze dias do golpe, doze dias de calar e morrer, e pela primeira vez ouve-se a Internacional no Chile, a Internacional sussurrada, gemida, soluçada mais que cantada, até que o cortejo se faz procissão e a procissão se faz manifestação, e o povo, que caminha contra o medo, desanda a cantar pelas ruas de Santiago a viva voz, com voz inteira, para acompanhar como se deve Neruda, o poeta, seu poeta, em sua viagem final”, escreve Galeano. A apenas 12 dias de sua chegada, o regime militar já mostrava o porquê vinha: bombardear a política e envenenar a poesia. 

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