A organização israelense B’Tselem denuncia, em um novo relatório, o “projeto” que busca desmantelar a sociedade palestina nos territórios ocupados, que se acelerou desde a formação, em 2022, do governo ultradireitista de Benjamin Netanyahu.
por Francesca Cicardi, publicada por elDiario.es, em IHU
Desde ir ao trabalho ou à escola, receber tratamento médico ou outros serviços, até visitar familiares ou amigos e ter uma casa e um terreno para cultivar, tudo se tornou atividades complicadas e perigosas para os mais de 3 milhões de palestinos que vivem sob a ocupação israelense na Cisjordânia. Embora essa realidade não seja nova, ela se degenerou desde a formação do atual governo, no final de 2022, e, especialmente, a partir de 7 de outubro de 2023, quando começou o genocídio em Gaza, na sequência do ataque do grupo Hamas naquele dia.
A ONG israelense B’Tselem reuniu, em um amplo relatório, todas as violações sofridas pelos palestinos em seu dia a dia, no âmbito do que classifica como um “ataque combinado” contra os indivíduos e contra toda a sociedade, com o objetivo de eliminar “as condições materiais, sociais e políticas que possibilitam a existência palestina” no presente e também no futuro.
“As ações de Israel na Cisjordânia não são simplesmente uma série de violações isoladas de direitos individuais e coletivos. Elas fazem parte, isso sim, de um mecanismo integral de eliminação”, afirma a organização, que documenta as violações há anos e reuniu cerca de 2 mil depoimentos de palestinos em seu relatório “O projeto de eliminação”.
Esse projeto está reconfigurando a Cisjordânia (ocupada por Israel desde 1967), de modo que “o controle e a presença israelenses se tornam contínuos, enraizados e permanentes, enquanto a existência palestina se torna fragmentada, vulnerável e dependente”. E esse projeto é colocado em prática por meio de vários “mecanismos de eliminação” detalhados no relatório: violência e intimidação; restrições de circulação; estrangulamento econômico; destruição social e política; e limpeza étnica e apropriação territorial.
As restrições de circulação e o estrangulamento econômico afetam os vínculos sociais e a possibilidade de os palestinos ganharem a vida, o que também enfraquece as instituições e a vida política, explica o relatório. O dano à vida política e social faz com que os palestinos tenham menos recursos para defender seus direitos e manter seus vínculos com a terra. Tudo isso facilita o controle israelense do território e a expulsão dos habitantes palestinos, o que destrói as comunidades, seus meios de vida e sua memória coletiva. A violência está presente em todo o processo, sendo a principal forma de coerção.
A B’Tselem destaca que esse projeto não é novo, mas “se acelerou e se intensificou” desde o final de 2022, quando se formou o atual governo liderado por Benjamin Netanyahu, com alguns ministros abertamente racistas, e ainda mais desde outubro de 2023. “Autoridade, financiamento estatal e poder político têm sido concedidos a atores comprometidos com a expansão dos assentamentos, o avanço da anexação e o deslocamento dos palestinos; os recursos são canalizados para os assentamentos, ao mesmo tempo em que a aliança entre as instituições estatais, o Exército, o movimento colono e as milícias de colonos se tornou mais estreita e evidente”.
A ONG destaca o chamado “Plano Decisivo” que o atual ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, apresentou em 2017, quando ainda não estava à frente dessa pasta nem de um departamento fundamental nas decisões relativas à colonização da Cisjordânia. “O plano oferece aos palestinos três opções: viver sob a supremacia judaica, renunciando às suas reivindicações políticas; partir; ou enfrentar uma repressão violenta caso resistam. Embora o plano não tenha sido formalmente adotado em sua totalidade como decisão governamental nem promulgado como lei, elementos centrais de sua lógica se traduziram, nos últimos anos, em políticas, alocações orçamentárias, delegação de poderes e práticas implementadas no terreno”, adverte a B’Tselem.
O relatório sublinha que não se pode separar o que ocorre na Cisjordânia do genocídio em Gaza, nos últimos quase três anos. “Em Gaza, a lógica de eliminação alcançou sua expressão mais extrema; na Cisjordânia, ela se manifesta de outras formas”, detalhadas no relatório. “A normalização da matança em massa e da destruição colossal que Israel perpetrou na Faixa de Gaza ampliou drasticamente os limites da violência que o regime israelense considera legítima e exerce contra os palestinos”.
Alguns dos métodos empregados em Gaza, antes muito raros na Cisjordânia, estão sendo vistos com mais frequência, como a destruição de amplas áreas residenciais e infraestrutura civil ou o deslocamento em massa dos palestinos. O número de vítimas fatais também aumentou na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, ambas ocupadas por Israel. De 7 de outubro de 2023 a 30 de junho de 2026, Israel matou 1.087 palestinos, dos quais 242 eram crianças, segundo dados do relatório.
Nesse período, além disso, “Israel ampliou o uso do sistema de encarceramento como meio de repressão e intimidação, dirigido tanto a indivíduos quanto ao coletivo palestino como um todo”, afirma a B’Tselem, que já havia denunciado anteriormente que os centros de detenção e as prisões israelenses se converteram em “uma rede de campos de tortura” para os palestinos (32 deles, da Cisjordânia ocupada, morreram nos últimos quase três anos).
Da mesma forma, desde outubro de 2023, Israel prendeu cargos eleitos, ativistas, acadêmicos, estudantes e jornalistas; realizou incursões em escritórios de organizações palestinas; restringiu manifestações e protestos não violentos e ampliou a vigilância e as detenções relacionadas a publicações em redes sociais. “Dessa forma, o encarceramento não serve apenas para punir os indivíduos, mas também para dissuadir a população e restringir as possibilidades de ação coletiva”.
Além da violência e da repressão exercidas pelas autoridades, os colonos israelenses que habitam os territórios ocupados da Cisjordânia aumentaram seus ataques violentos contra comunidades palestinas, suas propriedades e seu gado. A B’Tselem denuncia que há milícias de colonos que recebem apoio do Estado e colonos que atuam dentro das forças de segurança oficiais, e todos eles fazem parte de um “sistema único” de violência contra os palestinos. “Civis israelenses, colonos, receberam armas, equipamento, treinamento e financiamento do Estado de Israel. Eles executam a violência para o ‘projeto de eliminação’, embora, tecnicamente, o que fazem seja ilegal”, afirma Yuli Novak, diretora executiva da B’Tselem, em um vídeo.




