A polarização política que se observa no país dias antes das eleições pode ser explicada pelo “ressentimento social” de uma “sociedade já devastada e abandonada pela institucionalidade”, diz o economista
Por: Patricia Fachin, em IHU
“A causa fundamental do descontentamento social no Brasil (e no resto do mundo) não é um enigma sociológico: é a insegurança material crônica e o esgotamento biológico da classe trabalhadora”. Essa é uma das teses defendidas por Daniel Negreiros Conceição nesta entrevista, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail. O economista analisa a situação do país à luz das políticas econômicas adotadas no governo Lula 3, do endividamento de 82% das famílias, dos trabalhos precários, salários rebaixados e oferta de acesso aos bens públicos.
A maioria dos brasileiros, contextualiza o entrevistado, enfrenta uma corrida diária pela sobrevivência. “O trabalhador acorda de madrugada, passa horas esmagado em transportes coletivos precários, cumpre jornadas extenuantes, recebe um salário que mal cobre a cesta básica, vê os filhos sem acesso a uma escola decente, teme a fila do SUS diante da menor doença e volta para casa endividado até o pescoço com o cartão de crédito e a conta de luz”, exemplifica.
Diante desse cenário e da falta de perspectivas para o futuro, pontua, “a esquerda aparece como a gestora fria de um sistema que só produz exaustão e dívidas” e “a extrema-direita valida a raiva do trabalhador. Ela oferece bodes expiatórios fáceis – o pânico moral, a demonização das minorias, a retórica punitivista e o individualismo armamentista – para canalizar uma fúria que tem raízes puramente materiais”.
Para enfrentar os inúmeros desafios do país, o economista defende a atuação do Estado em três eixos: como garantidor de empregos com salários dignos, investidor público a fim de estruturar e reindustrializar a economia e agente da desmercantilização do custo de vida. As possibilidades de implementação dessa proposta, afirma, “são totais. O Brasil tem mão de obra sobrando, capacidade ociosa em setores industriais estratégicos, engenharia e riqueza territorial”.
Os impeditivos para levar esse projeto adiante, argumenta, não são técnicos nem econômicos, mas “a capitulação ao dogma fiscalista da Faria Lima e da Federação Brasileira dos Bancos (FEBRABAN)”. O regulador do gasto social, insiste o economista, “não deve ser uma meta cega de superávit ou déficit primário. O gasto público deve ser julgado exclusivamente pelos seus resultados funcionais no mundo real: a fila do SUS diminuiu? A mortalidade materna caiu? O saneamento básico chegou a 100% das favelas e periferias? O planejamento público orienta o gasto para onde a carência social é mais aguda”.
Daniel Negreiros Conceição é economista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-graduação pela Universidade do Missouri, em Kansas City. Leciona no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) da UFRJ. É um dos autores de Teoria Monetária Moderna: a chave para uma economia a serviço das pessoas (Fortaleza: Nova Civilização, 2016).
Eis a entrevista.
IHU – Recentemente, ao comentar os dados de que 70% dos trabalhadores brasileiros têm renda de até dois salários mínimos, o senhor disse que o cenário nacional “exige políticas públicas mais agressivas”. Que políticas seriam essas? Quais as possibilidades de implementá-las?
Daniel Negreiros Conceição – Antes de apontar as políticas necessárias e viáveis para contribuir para vidas mais dignas para os trabalhadores brasileiros, é indispensável desmontar uma das ilusões mais convenientes – e perigosas – alimentadas pelo próprio discurso governista: a tese de que a economia estaria indo muito bem e que haveria apenas um “descolamento” entre a realidade material e a percepção das pessoas.
Por mais difícil que seja para o intelectual orgânico progressista conceber que o eleitor médio não enxergue uma diferença abissal entre um projeto abertamente saqueador de riquezas públicas e antidemocrático e um governo respeitoso ao Estado de Direito – fenômeno idêntico ao que vimos nos Estados Unidos com o retorno triunfal de Donald Trump mesmo após uma tentativa explícita de golpe –, a investigação séria desse drama exige coragem. Precisamos identificar com clareza aquilo que o governo deixou de oferecer materialmente à população para que esses dois projetos se tornassem indistinguíveis ou equivalentes aos olhos de quem luta diariamente pela sobrevivência.
Vulnerabilidade e desamparo econômico
Costuma-se atribuir à insatisfação popular e à resistência eleitoral das periferias, cujos interesses de classe deveriam aproximar de projetos progressistas, uma suposta fanatização cultural e religiosa irreversível, como se o trabalhador brasileiro tivesse subitamente deixado de avaliar sua vida de modo pragmático para se guiar apenas por pânicos morais fabricados em redes sociais ou nos púlpitos. Esse diagnóstico comete um duplo erro: por um lado, ele subestima a racionalidade material do povo; por outro, inverte causa e efeito. A própria vulnerabilidade das massas a discursos de guerra cultural e a redes de solidariedade teocráticas é o resultado direto do desamparo socioeconômico crônico, alimentado em grande parte pela autossabotagem macroeconômica de governos que preferem agradar ao rentismo a transformar a base produtiva do país.
Mas há algo ainda mais grave nesse discurso: o autoengano deliberado de quem seleciona indicadores estatísticos a dedo para pintar um cenário maravilhoso. Comemora-se a queda numérica na taxa de desemprego como se ela fosse sinônimo absoluto de bem-estar generalizado. Não é. Depois de anos de recessão prolongada, do desastre duplo da pandemia e do governo Bolsonaro, de reformas trabalhistas precarizantes e do desmonte de proteções sociais, a recuperação do emprego dá-se sobre um terreno completamente degradado. O que temos hoje é um mercado de trabalho marcado por rendas rebaixadas, contratos flexibilizados e jornadas exaustivas. Estar estatisticamente “ocupado” ganhando um salário e meio ou dois salários mínimos, sem estabilidade, endividado até o pescoço e sem tempo para respirar, não devolve a dignidade à vida de ninguém. É essa precarização objetiva – e não uma misteriosa cegueira ideológica – que ainda explica a insatisfação popular.
Políticas públicas mais agressivas
Por isso, quando digo que o cenário nacional exige políticas públicas mais agressivas, não me refiro a medidas cosméticas ou a pequenos ajustes de compensação focalizada. Falo de usar o poder de coordenação e o orçamento do Estado criador de moeda para intervir na raiz da distribuição primária da renda e da oferta de bens públicos. Isso envolve três eixos imediatos:
- Garantia de emprego com salário digno (o Job Guarantee defendido pela teoria monetária moderna): O Estado precisa e pode assumir o papel de empregador de última instância. Não se trata de criar funções artificiais, mas de remunerar dignamente o trabalho que a sociedade desesperadamente necessita – transição ecológica, saneamento, infraestrutura de cuidados, reconstrução urbana –, estabelecendo um piso salarial e de direitos abaixo do qual o setor privado não conseguirá mais explorar ninguém. Isso forçaria uma elevação estrutural de todos os salários básicos da economia.
- Investimento público estruturador e reindustrialização: O retorno massivo do investimento público direto em infraestrutura logística, energia, habitação e no complexo produtivo da saúde, mobilizando capacidade produtiva ociosa para romper os gargalos de oferta. É o que faz a China, onde o gasto público sem medo de esgotamento financeiro é usado para aumentar capacidades produtivas, tornando a economia chinesa cada vez menos dependente material e tecnicamente de outros países.
- Desmercantilização radical do custo de vida: Aumentar a renda real das famílias passa fundamentalmente por retirar despesas essenciais do mercado privado precarizado. Se o trabalhador tem transporte público gratuito e eficiente, creche integral para os filhos, saneamento de qualidade e acesso imediato a exames e remédios no Sistema Único de Saúde (SUS), a pressão sobre o contracheque diminui drasticamente. Ter acesso a bens e serviços públicos gratuitos e de qualidade contribui tanto para melhorar a qualidade de vida da população quanto para o aumento nas suas rendas reais.
Possibilidades
As possibilidades materiais de implementação são totais. O Brasil tem mão de obra sobrando, capacidade ociosa em setores industriais estratégicos, engenharia e riqueza territorial. A única barreira que impede essa virada não é técnica nem de escassez de moeda, mas uma barreira político-ideológica autoimposta: a capitulação ao dogma fiscalista da Faria Lima e da Federação Brasileira dos Bancos (FEBRABAN), que insiste em manter a maioria da população à míngua para garantir as condições que maximizam o banquete da minoria rentista.
Por mais difícil que seja para o intelectual orgânico imaginar que o eleitor médio realmente não enxergue a diferença entre um saqueador de riquezas públicas antidemocrático e um governo abertamente respeitoso ao Estado de Direito (como nos EUA quando Trump acabou reeleito mesmo depois de sua tentativa frustrada de golpe), a investigação deste fenômeno precisa incluir a identificação daquilo que o governo deixou de oferecer à população para que os projetos se tornassem muito mais obviamente diferentes aos olhos da população.
IHU – O que o endividamento de 82% das famílias brasileiras significa e sugere sobre as opções da política econômica?
Daniel Negreiros Conceição – Esse número estarrecedor revela, antes de tudo, o colapso do poder de compra dos salários frente ao custo de reprodução da vida e a infelicidade das escolhas de gestão macroeconômica vigentes.
Para compreender o endividamento crônico das famílias, podemos recorrer à mais elementar identidade contábil macroeconômica dos saldos setoriais, desenvolvida por um grande economista chamado Wynne Godley. Em termos estritamente contábeis, o setor privado nacional só consegue acumular ativos financeiros líquidos (poupar além da riqueza gerada pelo seu próprio investimento) se o governo operar em déficit ou se o país tiver superávits externos. Quando o governo se recusa a aproveitar sua capacidade soberana de emissão de moeda, e impõe metas obsessivas e desnecessárias de contenção fiscal – retirando da economia mais recursos do que injeta –, ele transfere compulsoriamente a pressão financeira para o resto da economia.
Na ausência de momentos de sorte econômica, quando outros países nos ajudam a manter nossa saúde econômica exportando muito do que podemos produzir (como durante o boom de commodities em que a economia brasileira pode crescer generosamente sem a necessidade de crescimento muito substancial no endividamento público), essa pressão inevitavelmente recai sobre o setor privado nacional. E como o topo da pirâmide e os grandes monopólios corporativos preservam suas margens e concentram liquidez às custas da base, o déficit recai praticamente por inteiro sobre as costas da classe trabalhadora. Ou seja, é o empobrecimento do trabalhador médio brasileiro que explica o seu endividamento.
Bets
Aqui reside outro autoengano recorrente de setores da esquerda e da opinião pública liberal: a tendência moralizante de atribuir a culpa desse endividamento à proliferação das plataformas de apostas eletrônicas (as bets) ou à suposta falta de educação financeira do povo. É o velho erro de culpabilizar a vítima. O trabalhador não está afundado em dívidas porque decidiu subitamente se tornar um jogador compulsivo; a esmagadora maioria das famílias se endivida no cheque especial e no rotativo do cartão de crédito – a juros extorsivos que passam de 400% ao ano, operados pelo cartel da FEBRABAN – simplesmente para pagar aluguel, colocar comida na mesa, comprar remédios na farmácia, pagar a conta de luz ou comprar o botijão de gás. O endividamento tornou-se um mecanismo compulsório de subsistência.
A invasão predatória das bets e do mercado de “criptoporcarias”, longe de ser a causa primária do endividamento, é um sintoma mórbido do desespero material das pessoas. Quando o trabalho assalariado entrega apenas exaustão, salários rebaixados e nenhuma perspectiva de mobilidade social ou tranquilidade futura, a promessa de um milagre financeiro se torna quase irresistível. As apostas e as ilusões especulativas preenchem o vácuo de um horizonte de vida destruído pela precarização. Quem aposta a sobra do que não tem não está exibindo um desvio de caráter; está buscando uma saída desesperada num labirinto sem saídas aparentes.
Política econômica assiste famílias serem drenadas por juros escorchantes
O que esse cenário sugere sobre a política econômica é devastador: sob o mito da necessidade de combater o endividamento público, o governo optou por terceirizar a sustentação da demanda para o crédito bancário privado precarizante. Em vez de alimentar a economia real por meio de gastos públicos estruturadores, salários valorizados e investimentos do Estado – o que injeta renda limpa e sem ônus para o povo –, a política econômica mantém o torniquete fiscal apertado e assiste passivamente as famílias serem drenadas por juros escorchantes para sustentar o próprio consumo básico. É a privatização da política fiscal em benefício direto do sistema financeiro, operando uma gigantesca bomba de sucção que transfere renda do prato do trabalhador diretamente para os balanços dos bancos. E o mais cruel disso tudo é que, embora o endividamento soberano crescente seja perfeitamente sustentável para um governo criador de moeda como o brasileiro, o endividamento privado não é e dá sinais claros de esgotamento.
IHU – O que impediu o governo Lula III de abraçar uma política de investimento público mais agressiva?
Daniel Negreiros Conceição – O que impediu o governo não foi a falta de recursos, nem qualquer barreira econômica real. O verdadeiro obstáculo foi a política travestida de contabilidade pública: uma mistura paralisante de covardia política, miopia tecnocrática, presença de defensores dos interesses rentistas nos principais cargos de gestão macroeconômica e a conveniente desculpa da “correlação de forças desfavorável”.
Sempre que se cobra de um governo progressista o uso corajoso dos poderes de emissão e gasto soberano para garantir pleno emprego, reindustrialização e infraestrutura, a resposta da burocracia governista vem pronta: “Não há alternativa, o Congresso é hostil, o mercado manda, a correlação de forças exige responsabilidade fiscal”. Isso não é análise séria; é preguiça intelectual e capitulação preventiva. Invocar uma correlação de forças abstrata como destino imutável serve apenas para eximir as lideranças de sua responsabilidade histórica, escondendo-se atrás dos interesses da Faria Lima em vez de enfrentá-los com ferramentas soberanas.
Lula III
O governo Lula III caiu na armadilha trágica de acreditar que poderia comprar a tolerância e a “paz social” da elite financeira adotando a cartilha fiscalista do adversário. A formulação do Arcabouço Fiscal pelo Ministério da Fazenda é a certidão de óbito dessa audácia: criou-se uma regra legal autoimposta para resolver um problema que simplesmente não existe para um emissor soberano de moeda – o fantasma da insolvência estatal. Enquanto o Estado brasileiro tem a prerrogativa constitucional de gastar criando seus próprios passivos nominais sem risco de ficar sem reais, o governo optou por amarrar os investimentos e o custeio social a travas fiscais arbitrárias, tratando o orçamento federal como se fosse a caderneta de despesas de uma família falida.
Essa escolha desarma o governo em todas as frentes:
- Perante o Congresso Nacional: Parlamentares fisiológicos e oportunistas só invocam o dogma do déficit quando isso enfraquece o Executivo. Se o governo desenhasse grandes programas materiais populares e transformadores – tarifa zero no transporte, investimento maciço no SUS, moradia digna e alimentos baratos –, colocaria os parlamentares contra a parede, forçando-os a votar abertamente contra os interesses mais vitais dos seus próprios eleitores. Ao recuar para a mesquinharia da disputa por migalhas do superávit primário, o governo transformou o orçamento no balcão de chantagens e extorsões das emendas parlamentares.
- Perante o rentismo e o Banco Central: Em vez de usar os instrumentos de soberania monetária para neutralizar ataques especulativos, estabilizar a curva de juros e peitar a chantagem da taxa Selic extorsiva, a equipe econômica optou por recrutar operadores do mercado financeiro e legitimar o terrorismo das previsões privadas do Boletim Focus. Trataram o rentismo, que lucra justamente com a estagnação e o endividamento do povo, como parceiro a ser agradado, e não como um adversário estrutural que precisa ser subordinado ao interesse público.
- Na disputa pela opinião pública: Nenhuma campanha ideológica ou manipulação midiática sobre o “perigo da dívida pública” é capaz de resistir à experiência concreta e cotidiana da melhora de vida. Quando o hospital tem médicos e remédios, o transporte é gratuito e de qualidade, a creche funciona e a comida cabe no bolso, o terrorismo fiscal perde toda e qualquer eficácia sobre a população.
Ao se render à austeridade, o governo cometeu a incoerência suprema: abriu mão dos poderes soberanos que lhe permitiriam entregar a prosperidade tangível necessária para construir apoio popular e esmagar o discurso da extrema-direita. O sucesso material na vida do povo é o único argumento politicamente persuasivo. A austeridade do governo Lula III não foi uma fatalidade imposta de fora; foi uma rendição autoimposta por quem preferiu o aplauso de banqueiros à transformação material da vida da maioria.
IHU – O senhor é um dos defensores do investimento público em saúde e bem-estar para a população e tem chamado a atenção para a necessidade de mudar a forma de pensar finanças públicas no Brasil. Pode desenvolver essa ideia? O que propõe para superar os impasses entre gasto social e fontes de financiamento de modo a ampliar o bem-estar social? O que significa “usar o planejamento como ferramenta reguladora do bom gasto público”?
Daniel Negreiros Conceição – Sempre que proponho a expansão maciça do investimento público em saúde, educação e bem-estar, a reação imediata e quase pavloviana de economistas liberais e comentaristas da grande mídia é a clássica pergunta de auditório: “Mas de onde o governo vai tirar o dinheiro para pagar por isso?” Ultimamente, tenho respondido a essa provocação com outra pergunta, muito mais incômoda e funcionalmente cirúrgica: “E de onde você acha que a população tira o dinheiro com que paga os impostos (ou compra títulos públicos)?”
A não ser que alguém consiga demonstrar a existência de um colossal e clandestino esquema nacional de falsificação de papel-moeda e de depósitos bancários – o que seria um delírio que jamais explicaria a rigorosa coerência aritmética dos balanços do sistema financeiro –, a resposta é uma verdade contábil inviolável: o povo só tem reais nos bolsos ou nas contas bancárias porque o governo soberano gastou esses reais primeiro.
Gasto público
O governo emissor de moeda não opera como uma família, uma prefeitura ou uma empresa privada, que precisam ganhar ou tomar emprestado antes de gastar. Quem usa essa analogia está sendo desonesto ou não sabe o mínimo necessário sobre economias monetárias para que sua opinião seja útil. O Estado brasileiro é o emissor monopolista do Real. Operacionalmente, todo e qualquer gasto do governo federal é feito mediante a criação de nova moeda – através de simples toques de teclado que creditam reservas no sistema bancário, que por sua vez creditam saldos em contas bancárias. A cobrança de impostos não financia o gasto público; ela vem depois, destruindo parte da moeda que o próprio governo emitiu, além de ajudar a abrir espaço para o setor público operar sem causar pressões inflacionárias excessivas. Portanto, a ideia de que o governo precisa “encontrar fontes de financiamento” ou “juntar dinheiro antes de gastar” em saúde e bem-estar é uma miragem contábil, uma fraude teórica desenhada para justificar a escassez artificial de direitos básicos.
Superar o suposto impasse entre “gasto social” e “fontes de financiamento” exige simplesmente alinhar a legislação à realidade operacional. A restrição que um governo monetariamente soberano enfrenta nunca é financeira; é material e produtiva. O limite do gasto público não é um teto arbitrário em uma planilha da Secretaria do Tesouro, mas a capacidade real da sociedade de mobilizar recursos: temos médicos, enfermeiros, cientistas, leitos, equipamentos, capacidade de construir hospitais e saneamento, moedas estrangeiras para importar o que é indisponível domesticamente, sem gerar pressões inflacionárias descontroladas?
Se a resposta for sim – e num país com milhões de desempregados, ampla capacidade ociosa e riquíssimo em recursos naturais, a resposta é um retumbante sim –, a recusa em gastar não é “prudência fiscal”, é negligência covarde.
E a gente já viu isso acontecer na prática. Quando estourou a pandemia de Covid em 2020 e o governo brasileiro precisou expandir os seus gastos até que o déficit chegasse a 700 bilhões de reais, inexplicáveis sob a visão convencional sobre finanças públicas, o governo não precisou identificar um único centavo adicional de fonte arrecadatória, nem sequer precisou inventar alguma operação de financiamento nova. Bastou suspender as restrições legais ao gasto deficitário, primeiro através do Decreto de Calamidade, depois como Emenda Constitucional do “Orçamento de Guerra”. Os reais apareceram com uma facilidade somente compatível com a hipótese de que o Estado os cria sem restrição além daquelas de natureza legal.
Planejamento como ferramenta reguladora do bom gasto público
É aqui que entra o conceito fundamental de “usar o planejamento como ferramenta reguladora do bom gasto público”, resgatando a essência das finanças funcionais formuladas por Abba Lerner:
- Substituir metas nominais por metas materiais: O regulador do gasto não deve ser uma meta cega de superávit ou déficit primário. O gasto público deve ser julgado exclusivamente pelos seus resultados funcionais no mundo real: a fila do SUS diminuiu? A mortalidade materna caiu? O saneamento básico chegou a 100% das favelas e periferias? O planejamento público orienta o gasto para onde a carência social é mais aguda.
- Monitorar gargalos reais em vez de limites contábeis: O bom gasto público é regulado pelo risco de inflação e pela capacidade instalada da economia. O papel do planejamento econômico é mapear onde estão os verdadeiros limites físicos e técnicos da economia. Se faltam leitos hospitalares ou insumos farmacêuticos, o papel do gasto público não é recuar e cortar investimentos; é usar o poder de coordenação estatal para planejar a expansão da capacidade produtiva desses setores estratégicos, superando os gargalos pela via da oferta enquanto houver viabilidade material.
- Impostos como reguladores de poder e demanda, não como cofre: No marco do planejamento coerente, os impostos cumprem sua verdadeira função macroeconômica: drenar o poder de compra excessivo dos super-ricos para combater a hiperconcentração de poder político e desinflacionar mercados monopolizados, e não como uma “vaquinha prévia” sem a qual o Estado estaria impedido de melhorar e salvar vidas.
Mudar a forma de pensar as finanças públicas significa parar de gerir um país continental como se fosse uma mercearia de esquina e passar a gerir o poder de emissão e coordenação do Estado como um instrumento de sobrevivência, soberania e civilização.
IHU – Entre os analistas que buscam compreender as razões do mal-estar social nas democracias contemporâneas, alguns insistem no fato de que a extrema-direita está captando melhor o descontentamento social e a esquerda não faz as reformas necessárias para atender aos anseios da população. No contexto brasileiro, quais são as causas do descontentamento social?
Daniel Negreiros Conceição – A causa fundamental do descontentamento social no Brasil (e no resto do mundo) não é um enigma sociológico: é a insegurança material crônica e o esgotamento biológico da classe trabalhadora. A vida da imensa maioria do nosso povo foi transformada em uma corrida de sobrevivência sem dignidade. O trabalhador acorda de madrugada, passa horas esmagado em transportes coletivos precários, cumpre jornadas extenuantes – muitas vezes sob a violência da escala 6×1 cujo fim muito corretamente tem mobilizado o governo –, recebe um salário que mal cobre a cesta básica, vê os filhos sem acesso a uma escola decente, teme a fila do SUS diante da menor doença e volta para casa endividado até o pescoço com o cartão de crédito e a conta de luz.
Mal-estar social
O mal-estar social é o resultado direto de uma sociedade submetida a um moedor de carne cotidiano, onde qualquer esperança de um futuro mais promissor parece ter sido cancelada.
Para compreender a relação entre essa tragédia e a ascensão da extrema-direita, vale resgatar o trabalho brilhante e corajoso da economista política Clara Mattei (autora de A Ordem do Capital) e os debates cruciais que comunicadores populares como meu amigo Steve Grumbine têm promovido no podcast Macro N Cheese. Mattei demonstra com farta evidência histórica que a austeridade nunca foi uma ferramenta neutra para “equilibrar orçamentos” ou restaurar a solvência dos governos. Desde as suas origens modernas no entreguerras europeu, a austeridade é uma arma de guerra de classes concebida para disciplinar o trabalho, suprimir a imaginação e ambição política da maioria, e proteger a ordem do capital a qualquer custo – pavimentando diretamente o caminho para o fascismo original de Mussolini.
O que assistimos hoje no Brasil e no mundo é a repetição trágica dessa mesma dinâmica. Quando a centro-esquerda institucional capitula ao neoliberalismo e assume o papel de zeladora da austeridade, ela se torna cúmplice direta da barbárie. Ao abraçar o Arcabouço Fiscal e as metas de superávit para agradar à Faria Lima, essa (pseudo)esquerda abdica de usar o poder do Estado para resolver as carências materiais do povo. Pior: passa a celebrar indicadores estatísticos abstratos que em nada alteram o desespero de quem está na base da pirâmide.
Ao agir assim, a esquerda institucional comete um crime político duplo:
- Despolitiza a economia e naturaliza a miséria: Transmite a mensagem paralisante de que “não há alternativa” e que a precariedade é um dado natural da realidade que nenhum governo pode mudar.
- Entrega o monopólio da rebeldia à extrema-direita: O fascismo contemporâneo não precisa fabricar o ressentimento social; ele encontra uma sociedade já devastada e abandonada pela institucionalidade. Enquanto a esquerda aparece como a gestora fria de um sistema que só produz exaustão e dívidas, a extrema-direita valida a raiva do trabalhador. Ela oferece bodes expiatórios fáceis – o pânico moral, a demonização das minorias, a retórica punitivista e o individualismo armamentista – para canalizar uma fúria que tem raízes puramente materiais.
O descontentamento social brasileiro é real, legítimo e urgente. Se a esquerda que tem oportunidade de governar continuar se recusando a liderar a revolta contra a asfixia econômica e persistir no papel covarde de administradora “responsável” da austeridade rentista, a extrema-direita continuará colhendo os frutos da frustração popular, posando de antissistema enquanto prepara a destruição final de qualquer resquício de democracia.
IHU – Quais anseios sociais estão por trás do debate sobre a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6×1 e propostas de maior autonomia, flexibilidade e liberdade do mercado de trabalho?
Daniel Negreiros Conceição – O anseio primordial que explode na revolta contra a escala 6×1 é elementar, quase biológico: o direito de existir além do trabalho voltado ao enriquecimento alheio. O ser humano quer tempo para viver, conviver com a família, cuidar da saúde mental e física, descansar, ter lazer e estudar. A escala 6×1 é um regime análogo ao cativeiro moderno, desenhado para sugar até a última gota de energia vital do trabalhador, impondo um esgotamento crônico que adoece a sociedade e inviabiliza qualquer horizonte de emancipação pessoal ou organização coletiva.
Autonomia, flexibilidade e liberdade
Ao mesmo tempo, as propostas neoliberais de “autonomia, flexibilidade e liberdade”, amplamente propagadas para justificar a uberização e a pejotização, precisam ser compreendidas despidas de seu véu ideológico. A classe trabalhadora não buscou o trabalho por aplicativo ou a informalidade precarizada porque nutre uma paixão abstrata pelo risco ou pelo “empreendedorismo de si mesmo”. Ela correu para essas alternativas para fugir do inferno do emprego formal de baixa remuneração, que combinava humilhação salarial com submissão absoluta e jornadas desumanas. O que o trabalhador deseja é verdadeira soberania sobre o seu próprio tempo, e não a falsa liberdade de ser explorado pelo algoritmo de um aplicativo, 14 horas por dia, sem descanso remunerado e sem direito a ficar doente.
Reação histérica do empresariado
É aqui que precisamos colocar a lupa da macroeconomia keynesiana para desmascarar a reação histérica do empresariado brasileiro, que imediatamente ameaça o país com demissões e ruína econômica sempre que se fala em reduzir a jornada ou acabar com o regime 6×1.
O patronato é vítima da clássica falácia da composição: ele comete o erro de raciocinar a macroeconomia a partir da sua contabilidade microeconômica estreita. Para o dono de um restaurante, de uma rede de farmácias ou de uma loja de shopping, o salário e os direitos do seu funcionário parecem ser apenas “custos” que diminuem sua margem de lucro. No entanto, o que é custo para uma empresa individualmente é, ao mesmo tempo, a fonte indispensável da demanda para todas as outras empresas da economia.
Como Michał Kalecki e John Maynard Keynes nos ensinaram, os trabalhadores gastam o que ganham. Se a classe trabalhadora vive na miséria e não tem tempo nem sequer para respirar ou sair de casa, quem vai consumir o que o próprio comércio e a indústria produzem? Trabalhador mal remunerado e exausto pela escala 6×1 não frequenta cinema, não viaja no fim de semana, não consome cultura, não vai a restaurantes e não faz a roda do comércio e dos serviços locais girar.
Reduzir a jornada de trabalho sem redução salarial e extinguir de vez o regime 6×1 não é apenas um imperativo civilizatório e de direitos humanos; é também uma medida de racionalidade macroeconômica elementar. Com mais tempo livre e rendas preservadas, a demanda efetiva se expande, a produtividade média por hora trabalhada aumenta – como mostram todas as experiências internacionais sérias – e os imensos ganhos tecnológicos acumulados pela sociedade deixam de ser apropriados exclusivamente pelo topo da pirâmide rentista para serem compartilhados na forma mais valiosa de riqueza que existe: tempo de vida e dignidade.
IHU – O senhor declarou dois anos atrás que “o objetivo da direita no país é ampliar as oportunidades de exploração para uma minoria que enriquece com a miséria coletiva e sabotar as possibilidades de desenvolvimento”. Pode dar exemplos de como esse objetivo está sendo levado a cabo?
Daniel Negreiros Conceição – Essa declaração toca no conflito de classes mais urgente e negligenciado da nossa formação econômica. O debate econômico convencional – e mesmo boa parte da esquerda tradicional – costuma enxergar a disputa distributiva sob a ótica clássica de capital versus trabalho: uma briga por fatias de um bolo, na qual ambas as partes, em tese, teriam interesse em fazer o bolo crescer.
A realidade da periferia capitalista brasileira é muito mais perversa. O conflito central que hoje trava o país não é apenas entre quem emprega e quem trabalha, mas entre uma aliança parasitária, formada pelo rentismo financeiro e pelo grande capital oligopolista/exportador primário, contra o restante da sociedade, isto é, a classe trabalhadora somada ao pequeno e médio capital produtivo submetido à concorrência real.
Capital parasitário
Nesse arranjo, o grande capital parasitário compreendeu perfeitamente que evitar que o bolo cresça é a melhor estratégia para abocanhar uma fatia desproporcional da riqueza nacional. Um país que cresce vigorosamente, com pleno emprego, reindustrialização e investimento público soberano, é o pior pesadelo dessa elite. O pleno emprego eleva o poder de barganha dos trabalhadores, puxa os salários para cima e devolve dignidade e tempo de organização à classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, um mercado dinâmico e crédito barato fortalecem as pequenas e médias empresas, desfazendo a asfixia que permite aos grandes monopólios comprar concorrentes a preço de banana ou extorquir fornecedores (como ocorreu durante a pandemia em que as grandes empresas cresceram apesar do encolhimento econômico geral, graças à absorção de concorrentes menores que faliram durante a crise pandêmica).
Ao sabotar ativamente o desenvolvimento, o rentismo e os monopólios mantêm seus adversários distributivos permanentemente de joelhos. Uma classe trabalhadora faminta e endividada aceita qualquer salário humilhante e qualquer escala desumana; um pequeno empresário asfixiado por juros extorsivos e vendas fracas vira presa fácil do sistema bancário.
Essa sabotagem deliberada está em curso através de mecanismos muito concretos:
- A política criminosa de juros do Banco Central (o dreno da Selic): Manter as taxas reais de juros mais altas do planeta sob o pretexto de “combater a inflação” não é rigor técnico; é uma política ativa de transferência de centenas de bilhões de reais soberanamente criados pela União diretamente para os cofres dos grandes bancos e detentores de títulos públicos. Essa taxa Selic escorchante atua simultaneamente como freio de mão inflacionário (porque aumenta custos) na economia produtiva, e como máquina de agiotagem sobre o pequeno negócio e o consumidor.
- O desmonte e a privatização de monopólios naturais estratégicos: A entrega criminosa da Eletrobras e o desmonte da capacidade de refino da Petrobras – para transformá-la em uma mera vaca leiteira de megadividendos a acionistas minoritários em Nova York – transferem instrumentos de regulação de preços vitais para mãos privadas. Em vez de termos energia e combustíveis a preço de custo impulsionando a produção nacional, temos tarifas escorchantes dolarizadas que enriquecem uma minoria rentista à custa da desindustrialização do país e da redução inflacionária do poder de compra da grande maioria.
- A captura e fragmentação do orçamento público pelo Congresso oligárquico: O sequestro de fatias monumentais do orçamento federal através das emendas parlamentares impositivas não é apenas corrupção fisiológica; é também a destruição da capacidade do Estado de executar um planejamento de longo prazo. Fragmenta-se o investimento público em asfaltamentos eleitoreiros de curto prazo e desvios paroquiais, impedindo qualquer projeto nacional de soberania tecnológica, infraestrutura logística integrada e transição ecológica.
- O garrote legal da austeridade fiscal perpétua: A direita impôs, e a centro-esquerda infelizmente referendou com o Arcabouço Fiscal, regras orçamentárias desenhadas para proibir o Estado de liderar o desenvolvimento soberano do país. Um objetivo dessa austeridade precisa ficar evidente: impedir que o setor público ofereça serviços universais gratuitos e eficientes, forçando as pessoas a caírem nos braços de monopólios privados de saúde suplementar, faculdades com fins lucrativos de baixa qualidade e planos de previdência privada predatórios.
A miséria coletiva, a estagnação e o endividamento em massa não são falhas acidentais do modelo econômico da direita; são as suas condições indispensáveis de sucesso e reprodução.
IHU – O que a esquerda oferece em contrapartida?
Daniel Negreiros Conceição – A tragédia do momento histórico é que a esquerda institucional hegemônica não está oferecendo um projeto real de futuro; está oferecendo uma gestão de contenção de danos combinada com chantagem moral. A mensagem que essa esquerda tem transmitido ao trabalhador brasileiro, de forma quase explícita, é vergonhosa: “Veja como a família Bolsonaro e a extrema-direita são bárbaras, criminosas, golpistas e corruptas; portanto, engula a nossa austeridade fiscal autossabotadora com um sorriso no rosto e nos agradeça por não ser pior!”
Só que o “menos horrível” que não entrega prosperidade cansa. Ele esgota o capital político, esvazia as ruas e corrói a esperança. Tratar o povo como “ingrato” porque o trabalhador precarizado não se curva em reverência diante de números estatísticos que não pagam o seu aluguel ou não tiram sua família do sufoco da escala 6×1 é o ápice do elitismo dos bajuladores governistas. A lealdade da classe trabalhadora não se conquista com sermão moralista ou palestras sobre a importância do Estado de Direito; conquista-se com comida barata no prato, transporte digno, hospitais funcionando e dinheiro sobrando no fim do mês. Não oferecer isso por medo de desagradar ao rentismo obviamente não é tão repugnante quanto atacar diretamente as instituições democráticas. Mas é repugnante!
Aposta suicida
Ao abdicar de um programa agressivo de transformação material para não desagradar aos bancos, a centro-esquerda brasileira empurrou o campo progressista para o canto mais vulnerável e humilhante do tabuleiro político: ficar torcendo para que os escândalos, a corrupção escancarada fantasiada de produção de filme, as rachadinhas e a desfaçatez do clã Bolsonaro sejam tão constrangedores a ponto de inviabilizar o voto de quem já chegou ao limite da paciência com as promessas não cumpridas.
Essa é uma aposta suicida. A história mundial recente – e a volta avassaladora de Donald Trump nos Estados Unidos após uma tentativa explícita de golpe é o alerta máximo – demonstra que, quando a população é esmagada pela precarização cotidiana e não enxerga nenhuma rota de melhora pela via institucional, ela está disposta a votar em aventureiros autoritários mesmo ciente de sua podridão moral. O eleitor, no limite do desespero, engole até o banditismo escancarado se a alternativa for a estagnação administrada por burocratas bem-comportados que dizem que “não há dinheiro para investir”.
Verniz de preocupação social e coragem de brigar pelo futuro
O que uma esquerda consequente deveria oferecer em contrapartida não é a gestão austera do status quo com verniz de preocupação social. Deveria ser a coragem de comprar a briga pelo futuro:
- Um confronto aberto contra o parasitismo do rentismo e dos grandes oligopólios: Romper o garrote da Selic extorsiva, subordinar a política monetária ao interesse público e revogar as travas fiscais autoimpostas que paralisam a reconstrução nacional.
- Garantia incondicional de bem-estar material: A promessa firme e realizável de Pleno Emprego Garantido (Job Guarantee) com salários dignos, a redução radical da jornada sem redução de remuneração (o fim imediato do cativeiro da escala 6×1) e a desmercantilização dos serviços essenciais.
- A afirmação sem vergonha da soberania popular sobre a moeda: Assumir perante o povo que um governo soberano tem todas as ferramentas para erradicar a miséria e reconstruir a infraestrutura produtiva do país, e que a única barreira que nos impede de fazer isso é a ganância insaciável de uma minoria que lucra com a desgraça coletiva.
Enquanto a esquerda não tiver a coragem de oferecer uma revolução nas condições materiais de vida da maioria, ela continuará refém do medo, da chantagem e da agonia de ver o neofascismo bater à porta a cada ciclo eleitoral.
IHU – O capitalismo nunca produziu tanta riqueza quanto na atual fase, a ponto de Elon Musk acumular o primeiro trilhão de dólares da história. De outro lado, em termos mundiais, as desigualdades sociais se acentuam, cresce a desconfiança nas instituições e na democracia e parte expressiva da população apoia discursos políticos autoritários. Para qual futuro estamos caminhando?
Daniel Negreiros Conceição – Estamos caminhando a passos largos em direção a uma distopia que combina tecnofeudalismo oligárquico, colapso ecológico e autoritarismo punitivista. A obscenidade de vermos indivíduos acumularem patrimônios trilionários não reflete mérito, brilhantismo ou criação de valor social. É a consequência direta do cercamento privado de tecnologias desenvolvidas historicamente com investimento público maciço, da apropriação monopolista de plataformas digitais globais e de um sistema financeiro desregulado que opera como uma gigantesca bomba de sucção parasita da riqueza coletiva.
Agravante civilizatório
Mas há um agravante civilizatório ainda mais perigoso nessa concentração de poder: o fato de que o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) e das tecnologias capazes de inaugurar formas de cognição e consciência digitais está sendo sequestrado e privatizado por essa mesma elite mesquinha e antidemocrática.
Estamos entregando a infraestrutura que molda o pensamento, a linguagem, o trabalho intelectual e a coordenação social nas mãos de bilionários com inclinações abertamente autoritárias e supremacistas. Trata-se do cercamento final da nossa humanidade: depois de cercarem a terra, as águas, a energia e a moeda pública, tentam agora colonizar a própria produção de sentido e a inteligência coletiva. O perigo não é a tecnologia em si, mas a sua captura para servir de instrumento de vigilância, alienação algorítmica e dominação política.
Desconfiança social
Diante disso, a desconfiança popular nas instituições é perfeitamente compreensível. O trabalhador comum constata que a democracia liberal tornou-se uma casca oca, incapaz de garantir comida barata, saúde e um teto seguro para a maioria, enquanto assiste impassível a meia dúzia de oligarcas privatizarem a órbita espacial e os algoritmos do planeta.
O neofascismo (seja na roupagem de Bolsonaro, seja na de Trump ou Milei) surge exatamente como o sistema imunológico violento para essa ordem tecnofeudal. Ele não ameaça os bilionários; ele os protege. Ele canaliza a frustração social contra minorias políticas e inimigos imaginários para impedir que a classe trabalhadora enxergue onde está a verdadeira raiz da sua exploração.
A encruzilhada do nosso tempo é dramática. Se nada mudar, caminhamos para um mundo de hiperconcentração de poder cognitivo e material, onde uma minoria vive blindada por IA e aparatos repressivos enquanto o restante da humanidade disputa migalhas em um ecossistema degradado.
A única rota de fuga dessa tragédia passa por recuperar a soberania pública em todas as suas dimensões:
- Soberania monetária a serviço da abundância material: Arrancar o controle do investimento e da criação de moeda das garras do rentismo, direcionando a capacidade produtiva da sociedade para a descarbonização, o pleno emprego e o bem-estar universal.
- Soberania cognitiva e tecnológica – a criação de verdadeiros “Jardins de Coerência” colaborativos: Precisamos construir e defender espaços de resistência cognitiva, redes abertas, colaborativas e públicas de conhecimento e inteligência, onde os avanços digitais sejam desmercantilizados e orientados pela coerência ética, pela verdade material e pela emancipação humana, e não pelo lucro ou pela vigilância patronal.
O futuro não está traçado de antemão, mas o tempo da hesitação acabou: ou a sociedade retoma coletivamente o comando da sua economia e da sua capacidade de pensar e criar o amanhã, ou seremos reduzidos à condição de servos digitais e materiais de um punhado de senhores feudais da tecnologia e das finanças.
IHU – Deseja acrescentar algo?
Daniel Negreiros Conceição – Gostaria de encerrar fazendo um apelo explícito e urgente em defesa da coragem política.
Durante décadas, o neoliberalismo martelou na cabeça da humanidade a ladainha conformista do “There is no alternative” (TINA) – a tese de que a austeridade, o desmonte dos direitos e a subserviência aos ditames do mercado financeiro seriam fatalidades inevitáveis da história. É hora de inverter radicalmente essa fórmula: a única alternativa real que nos resta para evitar o abismo é a coragem de enfrentar os sabotadores do nosso desenvolvimento.
Enfrentar o rentismo, o cartel bancário e as elites oligárquicas não é uma tarefa fácil nem confortável. Exige disposição para o conflito aberto, firmeza programática e a capacidade de mobilizar o povo a partir da entrega de resultados concretos. Mas acreditar que é possível construir um país soberano, justo e desenvolvido costurando alianças de capitulação com quem lucra ativamente com a estagnação e o desespero social, é uma ilusão infantil e desonesta.
Tentar apaziguar quem estará sempre trabalhando pelo seu fracasso não tem como entregar nada além de mais fracasso. A conciliação covarde com a Faria Lima não compra a paz; apenas alimenta o monstro que amanhã engolirá a própria democracia.
A disputa macroeconômica não é um exercício contábil neutro entre técnicos; é uma trincheira existencial sobre quem tem direito a uma vida digna e emancipada. A moeda, o conhecimento e a capacidade produtiva são patrimônios coletivos que pertencem à sociedade. Subordiná-los à mesquinharia de uma minoria parasitária é um crime contra o futuro.
Se o campo progressista quiser sobreviver e derrotar a marcha do neofascismo, precisará abandonar de vez a gestão da escassez e redescobrir a audácia de transformar o poder soberano do Estado na maior ferramenta de libertação material e humana que este país já conheceu.




