Fumaça das queimadas deixa ar péssimo em Manaus

A fumaça alterou a rotina dos moradores em diversas zonas da cidade, gerando relatos de dores de cabeça, enjoo, cansaço e ressecamento das narinas. Essa exposição contínua é agravada por temperaturas que ultrapassam os 37°C, transformando o clima úmido da região em um calor seco sufocante. Os moradores também sofrem com a falta de água potável nas torneiras

Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real

Manaus (AM) – Ainda era madrugada desta quinta-feira (17), quando a população de Manaus sentiu um forte cheiro de queimada no ar decorrente da fumaça dos focos de incêndios florestais no entorno da capital e dos estados do Amazonas e Pará. A nuvem espessa e tóxica de poluentes, como o gás carbônico, encobriu ruas, casas e edifícios da cidade. O índice da qualidade do ar marcou 129,5 µg/m³, classificado como péssimo e perigoso à saúde humana, conforme dados do aplicativo Selva (Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

“Estou dentro do quarto, com tudo trancado, e estou sentindo a fumaça. Um cheiro muito forte na casa toda, senti assim que acordei às 7h30 da manhã”, disse Haydê Machado, moradora do bairro Compensa ouvida pela reportagem. Ela relatou que sente enjoo e dor de cabeça por conta da fumaça.

A pedido da reportagem, a pesquisadora Karla Longo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espacias (INPE), em São Paulo, analisou o episódio de fumaça que atingiu Manaus e municípios nesta quinta-feira (17). “A fumaça que chega a Manaus durante a estação seca é proveniente principalmente de queimadas que ocorrem a leste e nordeste da cidade, incluindo áreas do Amazonas e do Pará.  Nesse período, os ventos que atingem Manaus sopram predominantemente dessas direções,  favorecendo o transporte da fumaça até a cidade. O cenário registrado ontem (16)  mostra uma grande quantidade de focos de queimadas nos estados do Amazonas e do Pará”, diz.

De 1º de janeiro e 16 de setembro deste ano, o Inpe registrou 4.496 focos de queimadas no Amazonas, um aumento de 54% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram registrados 2.922 focos. 

Especialista em queimadas e seus impactos sobre as mudanças do tempo e clima, Karla enviou mapas com imagens das queimadas à reportagem. “No  primeiro mapa (Figura 1), os pontos em vermelho representam as queimadas detectadas por  sensores instalados a bordo de satélites”, explicou.

Figura 1: No topo, imagem da região Norte do Brasil obtida pelo sensor MODIS, a bordo do satélite Terra, com os focos de queimadas detectados pelos sensores VIIRS e MODIS a bordo dos satélites TERRA e AQUA, Suomi NPP, NOAA-20 e 21.

No segundo mapa à baixo, além dos focos de calor, Karla diz que “é possível observar a distribuição da fumaça por meio de uma escala de cores que vai do amarelo ao vermelho. Quanto mais intensa a tonalidade vermelha, maior a concentração de fumaça na região”, disse a pesquisdora.

Na Figura 2, a mesma imagem com a sobreposição da espessura óptica de aerossóis, indicador da concentração de partículas e fumaça na atmosfera, estimada pelo MODIS a bordo dos satélites Terra e Aqua.

Karla Longo diz que para entender a situação observada na manhã de hoje (17) é preciso olhar para os dias anteriores. “A fumaça pode permanecer suspensa na atmosfera por vários dias e ser transportada pelos ventos por grandes distâncias. Em determinadas condições, uma massa de fumaça pode levar cerca de dez dias para se deslocar entre diferentes regiões. Esse tempo varia de acordo com as condições meteorológicas, que determinam tanto a velocidade do transporte quanto a dispersão das partículas”, explica.

Imagem do dia 16/09/2026

Sobre o responsável pela fumaça que atinge a capital amazoense, Karla Longo diz que “a fumaça que afeta a região Norte tem origem principalmente em atividades humanas, sobretudo nas queimadas realizadas após o desmatamento da floresta para preparar áreas destinadas ao plantio e à pecuária”. “A queima da vegetação libera gases e partículas sólidas na atmosfera, que podem permanecer suspensas e ser carregadas pelos ventos para regiões distantes da área onde o fogo ocorreu”, explicou.

Ela destaca, no entanto, que a fumaça percebida pela população em Manaus é resultado da combinação de  massas de fumaça transportadas de queimadas ocorridas nos dias anteriores, principalmente  a leste da capital tanto dos estados do Amazonas e Pará. “Até a fumaça produzida  por queimadas mais recentes no próprio entorno de Manaus. O episódio atual envolve, assim,  contribuições de diferentes áreas dos estados do Amazonas e do Pará, não é possível apontar  um único responsável”, disse a pesquisadora do INPE. 

Além da crise na qualidade do ar, Manaus enfrenta falta de água potável em oito bairros, causada pelo rompimento de uma adutora no bairro Compensa na  quarta-feira (16).  (Leia mais no final do texto)

Saúde em risco

A Organização Mundial de Saúde estabelece que a concentração anual média de material particulado não deva ultrapassar o limite de 5 µg/m³ (microgramas por metro cúbico) para minimizar riscos à saúde. A média de 24 horas para este poluente é de 15 µg/m³.  

Com a qualidade do ar péssima, a saúde humana é comprometida com doenças cardiovasculares, cerebrovasculares (AVC) e respiratórios, diz a OMS. 

Segundo o IBGE, Manaus tem 2.327.101 habitantes. O bairro da Compensa, na zona oeste da capital, concentra 73.111 moradores. Lá, desde a madrugada era possível sentir o cheiro de fumaça das queimadas. A concentração de material particulado chegou a 129,5 µg/m³. 

O índice baixo da qualidade do ar em Manaus já é maior do que o registrado em 2024, quando o Amazonas enfrentou também o aumento das queimadas na região e a maior seca extrema em 100 anos. Em 27 de setembro do ano passado, a  qualidade do ar na cidade  marcou 159 µg/m³, de acordo com o Selva.

O Selva vem registrando baixos índices na qualidade do ar este ano em Manaus desde o dia 8 de setembro. Ao mesmo tempo, a população está enfrentando altas temperaturas, que ultrapassam os 37°C, já pelos efeitos da crise climática, que ameaça o mundo.

O aumento das queimadas no Amazonas este ano ocorre em um cenário de agravamento dos extremos climáticos na Amazônia, principalmente em meio ao avanço do “Super El Niño” no mundo. 

De acordo com o terceiro Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno atinja intensidade muito forte entre setembro e novembro. Para o período, são previstas temperaturas elevadas e condições mais secas em partes da região Norte.

Na primeira semana de setembro, o INPE divulgou que o Amazonas liderava o ranking de focos de queimadas entre os estados brasileiros com 1.224 registros. O estado aparece à frente do Pará, que contabilizou 1.053 focos no mesmo período. 

No bairro Parque 10, zona centro-sul, a situação foi a mesma: o índice da qualidade do ar marcou 125,6 µg/m³, segundo a plataforma Selva. Morador do bairro, o produtor cultural Ravi Veiga contou que a fumaça foi percebida logo nas primeiras horas do dia. “Muita fumaça. Já amanheci 5 horas da manhã com a fumaça rondando por aqui. Estou usando máscara ”, afirmou à Amazônia Real.

Para Ravi Veiga, o período de calor intenso e fumaça tem sido especialmente difícil. “Viver no calor e fumaça ao mesmo tempo é horrível. Porque o calor que antes, pelo menos aqui, era mais úmido, agora se tornou um calor seco. E ainda mais com essa fumaça fica mais seco. Então tem sido horrível. Dores de cabeça, cansaço, narinas secas. E sem água para poder se hidratar”, disse o produtor cultural.

Ele disse que os episódios têm sido recorrentes e que a população naturalizou a fumaça, fazendo parte da rotina de quem vive na região. “Eu volto para casa de madrugada, tipo meia-noite, 1 hora da manhã, 2 horas, e já tenho percebido a fumaça aqui no Parque 10. Todo santo dia pela manhã, eu acordo já com a fumaça invadindo toda a área aqui”, relatou.

Fumaça e sem água potável

A combinação de fumaça e calor foi agravada pela falta de água, devido ao rompimento de uma adutora na rua Guanapuris, na Compensa, quanto 200 bairros na cidade ficaram sem água, na quarta-feira (16). Segundo a empresa Águas de Manaus. o conserto da adutora foi concluído na manhã de hoje, mas a normalização do sistema pode levar até 48 horas. 

Na residência desta repórter, moro no bairro Compensa, o abastecimento de água foi interrompido por cerca de 23 horas, entre as 11h de quarta-feira (16) e as 10h desta quinta-feira (17). Durante o período, especialmente nas horas mais quentes do dia, não havia água disponível para se refrescar ou realizar tarefas básicas, como preparar alimentos, lavar a louça e fazer a limpeza da casa.

A interrupção no abastecimento de água ocorre um mês depois de Manaus enfrentar outro período de falta de água em diferentes pontos da cidade, também relacionado a manutenções emergenciais. 

Diante do cenário de preocupação crescente com a segurança hídrica em Manaus, o estudo inédito “O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade”, produzido pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, apontou que Manaus pode enfrentar risco crítico de escassez de água até 2040. 

Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, explicou que entre os motivos estão o aumento da temperatura do planeta e os eventos climáticos extremos na região Norte, como secas e ondas de calor, além do aumento de consumo projetado para o consumo humano e principalmente para o setor industrial.

“Tem uma perspectiva de, por um lado, redução do volume médio dos rios em determinada época do ano, e por outro lado uma expectativa de crescimento do consumo de água de até 7% até o ano de 2040. Então, o estudo demonstra esse desequilíbrio entre o aumento da demanda e a redução da disponibilidade de água em determinadas épocas do ano”, disse em entrevista à Amazônia Real.

Apesar de estar localizada na região da maior bacia hidrográfica do mundo, a pesquisadora destaca que Manaus depende fortemente de águas subterrâneas. O estudo estima a existência de mais de 27 mil poços em operação na cidade, dos quais apenas cerca de 5 mil estão regularizados e registrados pelos órgãos de controle.

Para ampliar a segurança hídrica e garantir água na quantidade e qualidade necessária, o estudo aponta caminhos como a regularização dos poços, o uso de água de reuso e a redução das perdas no sistema de abastecimento.

“É necessário pensar em ferramentas como água de reuso para que haja outras fontes de abastecimento de água. É necessário também reduzir perdas de água para garantir que menos água seja captada nos rios. Precisa de um pensamento sistêmico e integrado entre os diferentes setores da economia, seja consumo humano, seja produção de alimentos, seja o uso industrial, para uso consciente e para que a quantidade de água disponível possibilite o crescimento da região conforme previsto”, observou Pretto.

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