Alarmados com a presença da China no Brasil, e com possível parceria estratégica entre os dois países, EUA agem para eleger candidato submisso a seus interesses. Mídia brasileira lhes dá eco. Dimensão geopolítica não pode ser desprezada na análise das eleições
Por Haroldo Ceravolo, em Outras Palavras
O processo de redemocratização do Brasil teve início com uma gigantesca mobilização pelas eleições diretas para a presidência da República. O regime ditatorial de 1964, em seu processo de abertura, já autorizara eleições para os governo estaduais (1982) e para as prefeituras das capitais (1985), mas o voto para a Presidência da República teve de esperar um pouco mais: só em 1989, já sob uma nova Constituição, promulgada em 1988, os brasileiros elegeriam um novo presidente.
A história da recente democracia brasileira passa a ser contada, desde então, a partir das eleições presidenciais. E, de 1989 para cá, uma figura foi onipresente: Luiz Inácio Lula da Silva. Sempre pelo Partido dos Trabalhadores, Lula foi ao segundo turno em 1989, quando perdeu para o direitista Fernando Collor de Mello, foi vencido no primeiro turno pelo social-liberal Fernando Henrique Cardoso, mas ficou com a segunda votação, em 1994 e 1998, venceu em 2002 e 2006 os candidatos tucanos (José Serra e Geraldo Alckmin), elegeu a sucessora Dilma Rousseff em 2010 e 2014 novamente contra os tucanos (José Serra e Aécio Neves), foi levado ao cárcere num processo grosseiramente manipulado para que não pudesse disputar em 2018 (e seu candidato, Fernando Haddad, ficou em segundo lugar, atrás do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro) e venceu novamente em 2022, novamente contra Bolsonaro. Sua firmeza em 2018, quando levou a candidatura até a véspera do encerramento do prazo de confirmação da chapa, e sua volta em 2022 mantiveram viva aquela Constituição de 1988, já bastante desfigurada, mas que ainda a garantidora do pacto político democrático construído na década de 1980.
Este breve resumo mostra o quão forte é a imagem de Lula junto ao eleitorado brasileiro. Lula, em seus 580 dias de prisão (2018-2019), não só cuidou da vida política, como manteve o corpo em forma: ele chega octogenário à disputa em 2026 bastante longe da fragilidade física e intelectual de Joe Biden ou dos boatos de podridão física de Donald Trump. Seu rival Flávio Bolsonaro (PL) produziu recentemente um vídeo com inteligência artificial usando sunga branca e de peito nu sob uma faixa presidencial, numa provável tentativa – sem sentido – de mostrar jovialidade em oposição a Lula. Aparentemente, provocou mais risos do que uma comparação, pelo menos entre eleitores não fanáticos.
Depois de anos de desgoverno e pandemia, Lula assumiu seu terceiro mandato presidencial em 2023 com a economia em frangalhos e um orçamento ficcional: várias despesas obrigatórias não haviam sido incluídas nas contas do governo pelo antecessor Jair Bolsonaro. A gestão econômica, comandada por quatro ministros – Fernando Haddad, da Fazenda, Simone Tebet, do Planejamento, Geraldo Alckmin, agora vice-presidente e chefe da pasta da Indústria e do Comércio, e Esther Dweck, na Gestão e Inovação – produziu resultados bastante positivos: desemprego em queda histórica, distribuição de renda, crescimento econômico sempre acima das previsões, déficit primário em queda1. Não por acaso, Haddad, Alckmin e Tebet são candidatos a cargos majoritários e alavancas da campanha de Lula: Haddad disputa o governo do Estado de São Paulo, Alckmin disputa a vice-presidência e Tebet, uma vaga no Senado, também por São Paulo.
Do ponto de vista da economia, o governo não conseguiu mexer, no entanto, num problema crônico e bastante problemático na opinião pública: as altas taxas de juros da dívida pública, que rivalizam com as da Rússia, embora o Brasil não enfrente uma guerra. Isso tem, por sua vez, um impacto eleitoral negativo: os brasileiros estavam já bastante endividados quando o fenômeno das apostas online, as chamadas bets, emagreceu ainda mais o orçamento das famílias. Em julho de 2026, 82% dos consumidores disseram ter algum tipo de dívida a vencer, o maior nível desde o início da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC)2.
Apesar deste problema, a história de Lula e do Partido dos Trabalhadores, as conquistas dos anos em que governou o país e o discurso sempre moderado de liderança social-democrata com raízes sindicais apontavam para uma reeleição relativamente tranquila. A direita brasileira produziu apenas candidatos extremistas – além de Flávio, herdeiro de Bolsonaro, figuram na lista Ronaldo Caiado, governador de Goiás, Romeu Zema, de Minas Gerais, e Renan Santos, um jovem provocador do Movimento Brasil Livre. Nenhum deles conta com estrutura partidária, carisma e história de vida que rivalize com Lula, que vem liderando as pesquisas eleitorais tanto no primeiro (em que ronda os 40% dos votos) quanto no segundo turno (em que chega a 47% no cenário contra Flávio Bolsonaro, mais provável opositor se houver segundo turno)3.
Porque, diante deste cenário, não é possível dizer que esta será uma eleição tranquila?
A principal razão é que Lula não disputa com eles, mas com o padrinho destes extremistas: Donald Trump.
O Brasil vive um momento histórico bastante singular. A ascensão da China como potência econômica global reconfigurou o jogo econômico mundial. Diferentemente do que viveu o Japão no século 19, que saiu da posição de país colonizado para a de país imperialista aliando-se a europeus (a ponto de constituir o eixo fascista com Alemanha e Itália na Segunda Guerra Mundial) e aos Estados Unidos, antigos agressores (uma leitura bastante interessante, progressista e latino-americana deste processo foi produzida pelo escritor e diplomata Aluísio Azevedo, autor do clássico nacional O cortiço, de 1890, e também de um livro-reportagem intitulado O Japão, inédito até 1984), a China construiu um sistema complexo de inserção em que as armas não são o recurso prioritário.
No jogo político chinês, o Brasil é país-chave, justamente por se tratar da maior economia da América depois dos Estados Unidos, além de fornecer alimentos e outras commodities que são essenciais para o desenvolvimento chinês, como o minério de ferro. “A China é, desde 2008, o principal mercado das exportações agrícolas brasileiras. Já em 2018, o Brasil se tornou o maior fornecedor de produtos agropecuários para os chineses”, informa uma reportagem da CNN Brasil que leva o sugestivo título de “Brasil e China avançam juntos na segurança alimentar” e que tem como principal fonte o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao4.
Além disso, Brasil e China são parceiros diplomáticos, que têm movido de forma coordenada, mas não explícita, suas peças no tabuleiro geopolítico em questões como Guerra da Ucrânia, sequestro do presidente Nicolas Maduro, da Venezuela, genocídio em Gaza e ataques ao Irã, de modo que as diferenças de posição nunca se transformam em críticas ou antagonismo mútuo, mas apresentam opções diferentes de ação e mediação. Mesmo estabelecendo recentemente limites para a importação de alimentos, a China tornou-se destino de mais soja e carne do Brasil depois de meados de 2025, quando os Estados Unidos de Donald Trump iniciaram uma guerra tarifária contra o Brasil de Lula.
Os ataques comerciais dos Estados Unidos ao Brasil foram estimulados abertamente pela família Bolsonaro, que chegou a comemorar inúmeras vezes a ação estadunidense que provocava prejuízo econômico para grandes empresas brasileiras. Isto valeu ao grupo a alcunha de “entreguista” e permitiu que Lula colocasse a política externa como um dos eixos centrais de sua campanha5.
As dificuldades de exportação de alguns produtos para os Estados Unidos e o crescimento do preço do petróleo criaram, paradoxalmente, um leve freio para a inflação de alimentos e um aumento no recolhimento de impostos, que ajudam a relação de Lula com os eleitores, no primeiro caso, e a gestão do Estado por seu governo, no segundo. Parte dos impostos arrecadados com o petróleo estão sendo usados para manter estáveis os preços dos combustíveis, o que joga também a favor do governo.
As pressões políticas, econômicas e militares de Trump criaram, no entanto, um clima de insegurança bastante grande sobre a estabilidade democrática brasileira e sobre a capacidade de país resistir a uma nova tentativa de golpe ou a uma ação mais explícita – quiçá militar – dos Estados Unidos. Lula, neste cenário, ganha ao poder falar centralmente de política externa, área em que mesmo a mídia mais conservadora em linhas gerais defende as ações do governo, mas perde porque isso o obriga a ser mais cauteloso no discurso econômico e também na prática de suas intervenções.
Diante deste complexo cenário político internacional, com forte impacto local, a mídia tradicional tem feito enorme caso do aumento do endividamento do Estado brasileiro, buscando arrancar de Lula concessões que reduzam sua margem de manobra num eventual quarto mandato. Para solapar sua credibilidade, tentam emplacar denúncias envolvendo um dos filhos do presidente, Fábio Luiz Lula da Silva, tradicional saco de pancadas a cada quatro anos, ou seja, toda vez que Lula disputa uma eleição.
As acusações até o momento são muito frágeis, envolvendo suposto tráfico de influência para negócios que nunca foram concretizados – enquanto isso, denúncias que ligam Flávio Bolsonaro e seu pai a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição responsável por fraudes bilionárias envolvendo a oferta de títulos de investimento com promessas de altos rendimentos sem que a instituição tivesse garantias, vão aos poucos sendo esquecidas.
Cenário 2027
Em linhas gerais, apesar das turbulências, Lula segue sendo o candidato favorito a ganhar a eleição, ficando novamente a dúvida sobre se poderá realizar câmbios econômicos e geopolíticos significativos a partir de 2027.
Lula e os partidos de sua base, especialmente o PT e o PSB, mas também o PSOL e o PCdoB, se preparam desta vez, talvez como nunca nas últimas décadas, para as eleições parlamentares. E isso pode ser o real fiel da balança sobre o que acontecerá num eventual quarto mandato.
Chapas fortes e unificadas ao Senado foram lançadas nos principais Estados dos país, e novas lideranças foram instadas a disputar vagas na Câmara Federal. Atualmente, as bancadas dos partidos lulistas não passam dos 120 cadeiras somadas (das 513), o que exige do governo enorme flexibilidade nas negociações. Em recente entrevista ao canal Fórum, Alberto Cantalice, um importante dirigente petista, entretanto, avaliou que o partido de Lula já considera possível elevar sua bancada para 100 parlamentares (dos atuais 64), e que o conjunto de forças que apoiam Lula talvez atinja 200 nomes na Câmara6. Se essa avaliação – considerada otimista, no entanto, por muita gente – se confirmar, ou pelo menos se aproximar da realidade, a centro-esquerda terá, pela primeira vez em muitas décadas, uma força particularmente especial no Parlamento, o que pode ajudar Lula a adotar uma linha mais progressista também na economia, em seu novo mandato, conforme anunciou no discurso da convenção que lançou seu candidatura.
“Eu não quero ser o presidente só do Bolsa Família”, disse. “Agora que as pessoas estão comendo, que as crianças estão na escola, é preciso dar um salto de qualidade.” Entre as prioridades do quarto mandato, Lula listou a educação em tempo integral e maior atenção aos idosos, na área social, mas também investimento pesado em inteligência artificial, minerais críticos e fortalecimento da indústria de Defesa. Sobre este capítulo, Lula foi particularmente explícito: “Este país tem 16.800 quilômetros de fronteira seca. Este país tem 8 mil quilômetros de fronteira marítima. Além da nossa fronteira, nós temos 5,7 milhões de quilômetros quadrados de águas sob a nossa responsabilidade. Este país tem a maior floresta tropical do planeta. Tem 12% da água doce do mundo. Tem uma riqueza mineral que a gente ainda não sabe quanto tem. E este país tem 210 milhões de preciosidades, que são homens, mulheres e crianças que nascem neste país. E nós precisamos investir na defesa. Eu quero estar preparado para que ninguém invada este país para levar o presidente como eles invadiram. Eu quero estar preparado para a paz. Quero estar preparado para a paz. Não para a guerra. Quero estar preparado para que ninguém ousar se fazer de besta conosco.”7
Lula 4 teria, em relação a seus outros mandatos, uma vantagem nesta área. Com o enfraquecimento dos acordos de livre comércio, a adoção de políticas industriais pró-ativas está facilitada. Além disso, os investimentos em educação superior nos cinco mandatos petistas desde 2003 criaram uma massa de intelectuais e pesquisadores que pode pensar num desenvolvimento econômico e tecnológico de forma descentralizada, enraizando pelo território nacional transformações de ponta. É uma situação completamente da vivida pelo país até o fim do século 20, em que as tecnologias de ponta e as indústrias ficavam concentradas no eixo Rio-São Paulo – com ênfase em São Paulo. Além disso, parece ter havido, nos últimos anos, uma leve melhora no ambiente das Forças Armadas, com o surgimento de oficiais menos afeitos a aventuras golpistas e a contraditórios discursos patrioteiros de salvação nacional pela adesão incondicional aos interesses estadunidenses.
Os discursos de Lula nesta eleição parecem deixar evidente que, numa eventual quarta vitória de Lula, a questão da soberania brasileira se manterá como um ponto nevrálgico sobre o futuro do país e sua relação com vizinhos americanos, com o presidente brasileiro buscando caminhos diversos e tortuosos para manter unidade nacional, construir uma política de desenvolvimento envolvendo novas tecnologias e buscando relativa independência econômica. A presença de governos extremistas em países como Argentina, Paraguai, Bolívia e agora Colômbia são um desafio especial, já que o alinhamento a uma política comum tornou-se uma utopia – e alguns, como Javier Millei, tornaram-se arietes dos interesses de Donald Trump.
Assim, é difícil dizer o que será do Brasil em 2027, não só pelo que ocorre no país, mas também por conta da incerteza sobre a forma como os Estados Unidos de Donald Trump se comportarão depois das eleições aqui e acolá – as sempre enigmáticas eleições de meio de mandato. Uma eventual derrota ampliaria ou reduziria seu ímpeto imperialista do mandatário dos Estados Unidos? Especulações “realistas” em política externa não parecem funcionar bem diante de Trump neste seus segundo mandato, em que a imprevisibilidade parece ser entendida como um trunfo, não como um problema.
No entanto, se os ataques podem variar na força e na amplitude, o sentido provavelmente será mantido por Donald Trump: tentar afastar o Brasil de um caminho de autonomia e atrapalhar qualquer tipo de aliança com a China. O Brasil, no entanto, com Lula, pode até ceder pontualmente, mas as principais escolhas já estão feitas e dificilmente mudarão – e têm o sentido exatamente oposto.
Ou seja, se as eleições de 2026 estão quentes, 2027 não promete dias frios.
Notas
1 Rede PT de Comunicação. Governo Lula 3 recupera economia do país e bate recordes. Partido dos Trabalhadores, 6 nov. 2025. Disponível em https://pt.org.br/governo-lula-3-recupera-economia-do-pais-e-bate-recordes/. Acesso: 25 ago. 2026.
2 Ismael Jales. 8 em cada 10 famílias brasileiras têm dívidas; cartão de crédito segue como principal vilão. G1, 6 ago. 2026. Disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/08/06/endividamento-das-familias-bate-recorde-pelo-6o-mes-seguido-e-chega-a-82percent-diz-cnc.ghtml. Acesso: 25 ago. 2026.
3 Datafolha. Lula lidera no 1º turno e tem vantagem de quatro pontos sobre Flávio Bolsonaro no 2º turno. Datafolha, 24 ago. 2026. Disponível em https://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2026/08/lula-lidera-no-1o-turno-e-tem-vantagem-de-quatro-pontos-sobre-flavio-bolsonaro-no-2o-turno.shtml. Acesso: 25 ago. 2026.
4 Fernanda Pressinott. Brasil e China avançam juntos na segurança alimentar, diz embaixador chinês. CNN Brasil. Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/agro/brasil-e-china-avancam-juntos-na-seguranca-alimentar-diz-embaixador-chines/. Acesso: 25 ago. 2026
5 Vinicius Nunes. PT chama articulação de Bolsonaro de entreguismo e trata soberania como eixo da campanha de Lula. Carta Capital, 3 de jul. 2026. Disponível em https://www.cartacapital.com.br/politica/pt-chama-articulacao-dos-bolsonaro-de-entreguismo-e-trata-soberania-como-eixo-da-campanha-de-lula/. Acesso: 26 ago. 2026.
6 Glauco Faria. Quantos deputados o PT vai eleger em 2026? Confira a projeção de um dirigente da sigla. Revista Fórum, 12 ago. 2026. Disponível em
7 G1. Eleições 2026: íntegra do discurso de Lula na convenção que o lançou candidato à reeleição. G1, 3 ago. 2026. Disponível em https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/08/03/eleicoes-2026-integra-do-discurso-de-lula.ghtml. Acesso: 25 ago. 2026.




