Precisamos voltar às bases. Por Luiz Fernando Horta

Quem abandonou o PT não foi o pobre — fiel por 23 anos —, mas a classe média que o partido criou, espremeu entre a Selic e o medo, e entregou ao fascismo que lhe devolveu a distinção

No A Terra é Redonda

Em 23 de outubro de 2018, nos Arcos da Lapa, com Chico Buarque e Caetano Veloso no palco e Fernando Haddad a cinco dias de perder a eleição, Mano Brown pegou o microfone e disse o que ninguém ali queria ouvir: “Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo, nós temos que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta para a base e vai procurar saber.”

E emendou, para quem ainda batia palma, que “há uma multidão que não está aqui que precisa ser conquistada. Ou a gente vai cair no precipício”. Caímos. A frase virou veredito, foi repetida em diretório, em podcast, em mesa de bar, e oito anos depois continua sendo a explicação oficiosa (a oficial não existe) da crise do projeto progressista no Brasil.

Ocorre que a frase é forte mas está errada. O diagnóstico está certo – o partido de fato não sabe mais quem vota nele. O endereço está errado. Quando Mano Brown diz “base”, todo mundo ouve periferia, quebrada, povão, e o partido saiu correndo atrás de um eleitor que nunca foi embora. A multidão que não estava ali na Lapa era outra. É dela que este texto trata.

O “pobre de direita”

O Datafolha de 8 a 10 de setembro ouviu 2.002 pessoas e deu Lula 39, Flávio Bolsonaro 35. O número que importa, contudo, está no recorte de renda. Entre quem ganha até dois salários mínimos, Lula tem 47% e Flávio 29. Acima de cinco salários a coisa inverte: Flávio 44, Lula 28. A faixa do meio, entre dois e cinco salários, ninguém posta no grupo de WhatsApp. Guardem isso, porque volto a ela adiante.

Esse desenho não é novidade de 2026. Em dezembro de 2003, um ano do primeiro governo Lula, o mesmo Datafolha media 42% de ótimo e bom contra 15% de ruim e péssimo, e a aprovação já era maior na base da pirâmide do que no topo. Em 2006 André Singer batizou a coisa de realinhamento. Em 2018, sem Lula na cédula e com o candidato escolhido em setembro, a faixa de até dois salários foi a que menos abandonou o PT. Em 2022, se repetiu a mesma coisa. Vinte e três anos de série histórica dizendo a mesma coisa: quem ganha pouco vota em Lula.

E mesmo assim uma parte da esquerda inventou o “pobre de direita”.

O termo é horrível e a análise é pior. Horrível porque é ódio de classe travestido de sociologia … a mesma burguesia que chamava o nordestino de “paraíba” hoje chama o motoboy de “bolsonarista”, e a “esquerda nutella”, vejam só, repete de bom grado. Pior porque é falso: os “pobres de direita” existem desde sempre, como existiam os operários integralistas nos anos 1930, porém, vale lembrar, sempre como minoria. Nunca foi neles que se decidiu uma eleição neste país.

Quando o partido compra a tese, comete três erros num só: erro de análise (persegue um fantasma), erro de comunicação (fala com um eleitor que já é seu, no tom de quem precisa convencê-lo) e erro de estratégia, o mais caro dos três, porque desvia toda a energia militante para a faixa em que o PT ganha e deixa livre a faixa de pessoas em que o PT perde. Foi por essa fresta que o fascismo entrou.

A classe média e o fascismo

Em 1951 Wright Mills descreveu uma classe que não era operária nem proprietária: o assalariado de colarinho, que não tem meios de produção, não tem sindicato que preste e se define pelo consumo, pelo diploma e pela distância que consegue manter de quem está logo abaixo. É uma classe que existe pela posição no status antes que pela posição na produção. Décio Saes já tinha mostrado, para o caso brasileiro, que essa classe procura no Estado o árbitro da sua distinção desde 1930, e que oscila politicamente conforme o Estado a reconhece ou não.

O que o PT fez entre 2003 e 2013 foi criar essa classe média em escala industrial. Carteira assinada, salário mínimo dobrado em termos reais, ProUni, FIES, consignado, Minha Casa Minha Vida, o filho do porteiro na faculdade privada e o próprio porteiro no aeroporto. Marcelo Neri, na FGV, chamou de “nova classe média” e Marcio Pochmann respondeu que não era classe média coisa nenhuma, era trabalhador com emprego. Os dois tinham razão no dado e os dois erraram no que importa: pela renda eram trabalhadores, pelo lugar social ocuparam exatamente a cadeira que Wright Mills descreveu.

Só que responderam a outros condicionantes. O white collar americano de 1951 tinha carreira, previdência e um Estado que o protegia; o de 2 a 5 salários brasileiro tinha crédito, um diploma de EAD, uma prestação e um medo. O jornal Valor econômico, ainda em 2010, publicou uma reportagem cujo título diz tudo, “casa das classes médias esquece a origem e vota na oposição”, e o partido leu como ingratidão (a burguesia sempre foi ingrata, dizia-se, como se a burguesia fosse quem estava ali). Não era ingratidão. Era a classe fazendo o que classe faz, isto é, tentando ficar onde chegou, e, para ficar, precisando se diferenciar de quem chegava atrás.

E é aí que entra a conta que o partido não fez. Essa classe, ampliada, endividada, com o filho na faculdade paga e o carro no consignado, sem herança e sem patrimônio, dependendo do salário do mês e da Selic do mês, foi espremida por dois lados que não se falam: de um lado, um Estado que precisa arrecadar e escolheu arrecadar dela, com uma tabela de Imposto de renda que passou uma década congelada e uma Selic a 14% que enriquece quem tem aplicação e afoga quem tem prestação; de outro, a necessidade, que é constitutiva dela e não moral, de se distinguir dentro do tecido social – e no Brasil a distinção mais barata, a que não custa um centavo, é a cor.

Quando o pobre chegou no aeroporto, o aeroporto “virou rodoviária”. Quando o pobre chegou na faculdade, a faculdade “perdeu o nível”. Quando o pobre chegou no shopping, foi “rolezinho”. O discurso racista, que estava adormecido porque a diferença de renda bastava, foi reativado porque a diferença de renda encolheu, e o partido, que tinha a chave para desmontar isso, entregou a chave.

A chave era a educação, e a educação foi entregue à Kroton, à Cogna, ao ensino médio reformado por consultoria, ao Ensino à distência que forma sem formar, e a um MEC que passou treze anos discutindo cota (necessária) e nem um dia discutindo currículo. Não houve, em todo o período, um único programa de Estado voltado a formar politicamente a classe que o Estado progressista tinha acabado de criar. Nem um. E quando a crise de 2015 veio e a escada virou tobogã, essa classe descobriu que estava sozinha, com a prestação, o diploma que não vale e o vizinho que subiu junto, e procurou quem lhe devolvesse a distinção sem lhe pedir a renda.

Encontrou. O fascismo, para a classe média espremida, não é ideologia. É tábua de sobrevivência. Oferece exatamente o que o PT não ofereceu: um lugar de distinção que não custa dinheiro (o “cidadão de bem” contra o “vagabundo”), um inimigo que explica a queda (o “comunismo”, a “corrupção”, o “sistema”) e uma promessa de ordem para quem tem pouco e tem medo de perder.

Ainda que a promessa seja mentira. Ainda que a ordem seja milícia. É por isso que a pauta de costumes nos machuca tanto: ela não é ruído, ela é o núcleo. É o dispositivo pelo qual se tira da esquerda a classe média como apoio e se recoloca essa classe como massa de manobra, e o partido responde falando de Bolsa Família para quem já tem Bolsa Família.

Confesso que repeti a tese do subproletariado em sala de aula por uns bons anos. Nessa luta a gente erra junto, e tem obrigação de corrigir junto.

Voltar às bases

Quem perdeu o PT não foram os pobres. Quem perdeu o PT foi a classe que o PT criou, e que o André Singer, na análise que virou doutrina de partido, tratou como o “anti”, o outro lado do realinhamento, o eleitor perdido por natureza. Foi perdido por abandono. Prometi voltar à faixa de dois a cinco salários e volto, em uma linha: é ela que decide, foi ela que estabilizou os governos de 2003 a 2013 e é ela, hoje, a ponta de lança do neofascismo.

Mas há um problema anterior ao abandono, e é aqui que a análise do partido erra pela raiz, inclusive a do André Singer. Todo o arranjo explicativo do século XX, o nosso, o que aprendemos e ensinamos, estava calcado nas posições produtivas: você é o que você faz na fábrica, no campo, no escritório, e vota conforme. Proletário, camponês, pequeno-burguês, burguesia. Esse arranjo foi destruído, e não foi um livro que o destruiu, foi a vida: o fim da fábrica como lugar social, o aplicativo, o MEI, a igreja, a televisão e depois o celular. Ninguém mais se identifica como proletário.

Ou, para ser exato, essa é hoje a menor das identificações subjetivas que um brasileiro carrega. O sujeito que entrega comida de moto é, na mesma tarde, evangélico, corintiano, “empreendedor”, pai, nordestino em São Paulo, negro que não se diz negro, cliente do banco digital e devedor do consignado, e cada um desses planos de identificação puxa para um lado. O indivíduo contemporâneo é entrecortado por planos de auto-identificação subjetiva diversos e diversificados, e nenhum deles se chama “trabalhador”.

E a disputa narrativa pelas explicações do mundo – que a direita venceu, diga-se, com muito dinheiro e nenhum escrúpulo – produziu uma coisa nova, que nenhum manual nosso prevê: a subjetivação por objetivo. O sujeito não se identifica mais pelo que é, nem pelo que faz. Identifica-se pelo que quer ser. E isso é totalmente ideacional, não tem lastro em posição nenhuma.

Quem quer “ser CLT”, ter carteira, férias, décimo terceiro, vota na esquerda. Quem quer “ser milionário”, livre e desimpedido (a ironia é que a liberdade do milionário sem patrimônio é a liberdade de trabalhar 14 horas sem direito nenhum), vota no fascismo. Os dois ganham a mesma renda. Os dois moram na mesma rua.

Os dois, pelo critério do século XX, são a mesma classe. E votam em campos opostos porque a identidade que os move está adiante deles, no objetivo, e o objetivo é uma narrativa que alguém vendeu. A nova identidade por objetivo sustenta o ódio ao pobre, o rico por “mérito” e coloca em lados opostos pessoas socialmente advindas no mesmo espaço apenas por terem “diferentes mindsets”.

Isso é o exato oposto de qualquer conceitual materialista que a gente consiga imaginar, e é por isso que todo o discurso político aprendido a fazer pelo PT ficou num espaço de utilização quase marginal. O partido fala para posições produtivas que não se reconhecem mais como tal; fala de “trabalhadores” para quem quer deixar de ser um; fala de direitos para quem aprendeu a ver direito como privilégio (e contra isso pesa toda filosofia cristã religiosa).

Fala, em suma, para os convertidos, no sentido rasteiro que a gente dá à expressão no bar: quem já queria ser CLT ouve, concorda e vota; quem quer ser milionário nem sintoniza. E a classe média estendida, a de dois a cinco salários, é justamente a que mais quer ser outra coisa, porque foi a que mais mudou de lugar em menos tempo.

Voltar às bases, portanto, é disputar o objetivo. É entender que a “base” hoje não é um lugar na produção, é um projeto de vida, e que o fascismo está vendendo um projeto de vida enquanto o partido distribui um relatório de gestão. Significa falar de imposto de renda, de segurança, de escola e de status com quem quer subir, e não só de proteção com quem tem medo de cair. Significa, aliás, admitir que o dentista e o médico falando mal do governo na sala de espera formam mais projeto de vida numa cidade de 50 mil habitantes do que toda a comunicação do partido.

Onde estava a Fundação Perseu Abramo quando a classe C virou “empreendedora”? O Instituto Lula? A secretaria de formação? Os cursos que formam militante para falar com militante?

A multidão que não está aqui, dizia o Mano Brown, precisa ser conquistada. Ela nunca esteve na Lapa. Está no consultório, na fila do consignado, na escola particular de bairro, na igreja e no grupo de família, querendo ser alguma coisa que ninguém do lado de cá se deu ao trabalho de perguntar o que é.

*Fernando Horta é doutor em história das relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutor pela University of Denver. É autor de Revolução russa: o povo pede passagem (Alameda).

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