Trump tem dado um apoio muito forte à eleição de governos de extrema-direita e está também chantageando o Brasil, alerta a jornalista
Por: Luana de Oliveira, em IHU
Vivemos num momento decisivo no Brasil, em um período eleitoral que o resultado escolhe definitivamente os rumos do país: o que opta por preservar nossa soberania nacional e democracia em construção, ou o caminho mais obscuro, o lado sombrio do mapa brasileiro – com uma extrema direita – que orquestra entregar o país nas mãos de Donald Trump. Recentemente, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), colocou sobre alerta o risco de influência dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral brasileiro. O documento intitulado como “Ameaças ao processo eleitoral de 2026” não cita sobre fraudes nas urnas, mas alerta sobre pressões econômicas, sanções, medidas diplomáticas e construção de narrativas capazes de repercutir no debate político interno durante a campanha. O recado está claro: Trump quer eleger a extrema-direita de Flávio Bolsonaro, para poder fincar suas garras nas riquezas do Brasil.
Em entrevista especial, concedida por chamada de vídeo, ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, a jornalista Cristina Serra cita que “Trump têm dado um apoio muito forte à eleição de governos de extrema-direita e está também chantageando o Brasil, fazendo ameaças permanentementes, dizendo que o governo brasileiro não faz o suficiente para combater as facções criminosas que, nos Estados Unidos, eles chamam de grupos narcoterroristas”. Serra explica que os EUA “podem muito bem usar essa questão das facções e dos grupos que eles chamam de narcoterroristas para fazer algum tipo de intervenção, ação militar ou até uma sabotagem aqui nas nossas eleições”.
Uma preocupação comum de muitos especialistas é que, se Lula ganhar, “os Estados Unidos não reconheçam o resultado da eleição. Isso criaria um ambiente de instabilidade muito grande, para falar de uma forma genérica. Não sabemos exatamente até onde eles estariam dispostos a esticar a corda”, alerta Cristina. Apesar de todas as preocupações, a jornalista enxerga o futuro com confiança e esperança, acreditando na reeleição de Lula sob a luz de “um Brasil solar, um país que quer melhorias para a sua população pobre, que infelizmente ainda é muito extensa”.
Cristina Serra é paraense de Belém, jornalista e escritora. Formou-se em jornalismo na Universidade Federal Fluminense. Trabalhou nos jornais Resistência, Leia Livros, Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, revista Veja e Rede Globo. Tem quatro livros publicados. Atualmente, é comentarista do ICL Notícias.
Confira a entrevista.
IHU – Como você analisa a atual conjuntura política no país? Para onde que o Brasil está se encaminhando e o que podemos esperar dessas eleições de 2026?
Cristina Serra – Olha, cubro eleições como jornalista desde 1989, que foi a primeira eleição para presidente depois do fim da ditadura. Tivemos a primeira eleição já num regime democrático, depois da Constituição, que foi promulgada em 1988. Portanto, de lá para cá, tivemos 1989, depois 1994, 1998, com a eleição do Fernando Henrique, depois 2002 e 2006, com Lula, e, de 2010 a 2014, com Dilma. E aí, após o golpe em 2016, há a eleição do Bolsonaro em 2018 e, em 2022, a de Lula, para seu terceiro mandato. No centro político, a eleição de 2018, que elegeu Bolsonaro – no auge da onda lavajatista, pós-golpe contra Dilma em 2016 –, foi um cenário atípico no âmbito eleitoral.
Em 2022, houve uma eleição muito difícil, porém, ali tinha quase certeza de que Lula seria eleito porque estávamos saindo justamente desses quatro anos de bolsonarismo, com 700 mil mortos na pandemia. Ou seja, o país não ia escolher repetir isso, o Brasil sairia desse abismo profundo em que nós caímos, retomando o mínimo de civilidade política.
Confesso que achava que em 2026, no agora, teríamos um cenário mais tranquilo que em 2022. Pensava que, de fato, nesses quatro anos do terceiro mandato do Lula, conseguiríamos fazer uma travessia, mesmo com todas as dificuldades de conjuntura por termos um Congresso hostil ao Lula (que dificulta a aprovação de muita coisa).
Achamos que esses quatro anos de Lula iam recolocar o Brasil nos trilhos e que – com a prisão dos golpistas depois do processo no Supremo Tribunal Federal – a extrema-direita passaria por algum enfraquecimento, mas não foi isso que aconteceu.
Atualmente, estamos vendo o candidato Flávio Bolsonaro da extrema-direita, segundo as pesquisas, muito forte e competitivo. Confesso que mais competitivo do que esperava. Não quero, com isso, falar de um cenário de desânimo, pois ainda acho que Lula vai ganhar e se reeleger. Porém, com dificuldade, numa campanha muito difícil com dois turnos novamente. Uma eleição de segundo turno sempre é uma nova eleição, então vamos enfrentar duas eleições e cada uma delas tem características muito distintas.
Penso que Lula vai se reeleger porque acredito que o Brasil que predomina é o que chamo de um Brasil solar, um país que quer melhorias para a sua população pobre, que infelizmente ainda é muito extensa. Precisamos avançar muito em termos de conquistas sociais, mas acho que esse Brasil atual vai prevalecer sobre aquele Brasil do atraso, obscuro e das trevas que tem sido representado por Flávio Bolsonaro.
Mas, como disse, é um cenário de disputa eleitoral mais difícil do que imaginava que teríamos. Essa é a realidade não só do Brasil, o contexto dessas eleições que estamos enfrentando precisa ser entendido de forma mundial.
Por que estamos em um cenário político eleitoral tão difícil mesmo? A primeira questão que não tínhamos em 2022, é o fato de termos a extrema-direita no poder dos Estados Unidos, isso faz muita diferença e é algo que não tínhamos em 2022. Antes tínhamos o governo de Joe Biden e agora temos Donald Trump. O segundo fator já existia em 2022, porém agora acho que está maximizado, porque agora está muito claro que a extrema-direita é totalmente soberana nas redes digitais, nessas máquinas digitais, e isso traz de fato um fator de muita dificuldade para a esquerda. Temos visto isso em vários lugares do mundo – não apenas no Brasil – particularmente em toda a América Latina há uma onda de governos de extrema-direita recém-eleitos. Hoje, praticamente quem temos como um governo de centro ou de centro-esquerda na América Latina é o Brasil e o México, então esse é o contexto internacional que estamos e que faz muita diferença sim nesse momento que enfrentamos.
A extrema-direita, por essa predominância que tem nesse ambiente digital, ela consegue pautar o debate da campanha eleitoral. Fui me dar conta disso bem recentemente lendo alguns especialistas importantes nesse assunto. Às vezes, as pessoas falam assim “ah, isso tudo são os robôs da extrema-direita”. Sim, alguns temas que a extrema-direita pauta no ambiente digital, eles começam como uma ação maximizada pela atuação de robôs, só que essa atuação dos robôs chega em tanta gente que a partir de um determinado momento, alguns temas que estão nesse ecossistema digital passam a ser disseminados por pessoas. A atuação dos robôs chega nas pessoas e as pessoas sensíveis a determinadas pautas, como a da segurança pública, por exemplo, são cooptadas. A pauta da segurança tomou conta, de uma certa forma, do debate político-eleitoral no Brasil. Esse é um assunto sensível para toda a população, embora as pessoas tenham percepções diferentes e pensem em soluções diferentes para esse assunto, ainda assim é um tema sensível a todas as famílias.
Então, a maneira como os robôs inserem esse debate nas redes digitais, isso chega nas pessoas e a partir de um determinado momento, essa maximização desse tema passa a ser orgânica e muitos começam a falar daquele assunto. Esses mecanismos de atuação da extrema-direita nas redes são muito sofisticados, como disse, ela domina esses instrumentos e vejo que o campo político-progressista tem uma dificuldade muito grande de entrar, de ter uma atuação mais ampla, mais robusta e efetiva nas máquinas digitais. Esse é um terreno onde, de fato, a extrema-direita claramente tem uma presença mais dominante do que o campo político da esquerda e da centro-esquerda.
IHU – O bolsonarismo se consolidou de tal maneira que as próprias estratégias de campanha de Flávio Bolsonaro seguem focadas na exaltação do próprio pai. Como você analisa esse cenário mesmo após o governo catastrófico de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, que deixou mais de 700 mil mortos no Brasil?
Cristina Serra – O Flávio é o herdeiro, foi indicado pelo pai, nisso, a figura do Jair Bolsonaro só não é mais presente na campanha pela condenação. Pela atuação no comando da tentativa golpista de janeiro de 2023, de fato, a condenação impõe a ele uma série de restrições, de silêncio, como tem que ser num país normal. A pessoa está condenada por um crime gravíssimo, tentativa de golpe, tentativa de destruir a democracia no país. Veja que, no começo da campanha do Flávio, ele tentou usar por inteligência artificial a imagem do pai e tudo mais, porque isso, de fato, era importante para ele. Como não pode, ele fala muito na figura do pai, repete gestos, situações que marcaram muito a atuação do pai.
Mas acho que, o Flávio está conseguindo ir além da figura do pai. Ele, de fato, para minha surpresa, está conseguindo se projetar como uma liderança mesmo do campo da extrema-direita, até com uma certa autonomia da figura dele, Flávio Bolsonaro. Isso, claro, com muita ajuda do irmão dele lá nos Estados Unidos, o Eduardo Bolsonaro. O Flávio conseguiu ir para os Estados Unidos, ser recebido pelo Trump e tirar foto com ele. Claro, isso tudo o pai dele fez, como disse, ele tenta imitar a figura do pai e está fazendo isso.
Ele, Flávio, também conseguiu, pela própria atuação e pelos seus meios, construir essa projeção. Seja com a ajuda do Eduardo, que está lá, seja por alguma ação do pai também, a gente não sabe, porque ele está em casa, mas deve ter acesso e suas conexões. Acho que o Flávio consegue se projetar de uma forma própria, com uma certa individualidade. E consegue de certa forma também se diferenciar do pai, tentando construir essa figura do “bolsonarista moderado”, que é uma coisa que não existe. Essa é uma figura, um conceito absolutamente ficcional, porque o bolsonarismo, a figura do Bolsonaro é a de um extremista de direita. Mas quando digo que Flávio consegue projetar uma figura baseada na individualidade dele, numa certa subjetividade dele, é por causa disso.
Há uma propaganda onde ele está com a mulher dele e ela fala “consegui transformar o Flávio, ele agora é o moderado” algo assim, aí eles riem, porque sabem que não existe e que a esquerda fala que isso não existe, esse bolsonarismo moderado, mas ela brinca com isso e tenta suavizar muito a imagem dele. A propaganda política dele na TV vai por esse caminho e tem muitas inserções dele também em rede sociais com esse foco. Mas, quando você vai na essência dele, do que ele fala, dos discursos para o público dele, mais radicalizado, nos eventos de campanha, propriamente, vemos quem ele é de fato, que não nega a sua origem, e que a pauta dele, a agenda dele é exatamente a do pai dele.
O que digo é que, em termos de imagem, ele consegue construir a figura de uma liderança jovem, conseguindo não só reter esse público, esse eleitor mais radicalizado do bolsonarismo, como também agregar, seja ali nas franjas do bolsonarismo como também no antipetismo que existe, de fato, no Brasil. Tanto é que, como as pesquisas indicam, tanto ele quanto Lula, estão empatados na margem de erro.
Portanto, se as pesquisas estiverem corretas, imagino que sim porque várias pesquisas coincidem um pouco nos resultados, acho impressionante como ele consegue se mostrar tão competitivo.
Ao mesmo tempo que ele é o herdeiro de quem é, que fez todas aquelas barbaridades quando era presidente, ele consegue se descolar um pouco disso por outro lado, sabe? E é isso que, para mim, é difícil de entender. Acho que só um especialista nesse assunto poderia dizer, explicar como é que o filho de Jair Bolsonaro, depois de tudo o que aconteceu durante a pandemia, consegue chegar competitivo a pouco mais de duas semanas do primeiro turno. Isso, para mim, é muito desafiador de entender. Confesso que não tenho todos os instrumentos para explicar como o Flávio consegue ser tão competitivo assim. Acho que são vários fatores. Como te disse, estou aqui elencando alguns deles.
O antipetismo, que é muito forte no Brasil também tem um peso. Claro que, há ainda a atuação das mídias digitais, como já comentamos, que é outro aspecto importante. E tem o escândalo do caso Master, do Vorcaro, que, em tese, deveria grudar nele, porque é ele quem conversa com o Vorcaro, quem pede dinheiro ao Vorcaro. Apesar de toda a magnitude desse escândalo e das informações e notícias que tivemos sobre o caso durante um tempo, parece que isso chegou a colar nele, mas parece que agora ele se descolou.
Como esse escândalo foi para dentro do STF, a impressão que tenho é que Flávio Bolsonaro ficou com um efeito residual apenas desse escândalo nele, sabe? E, por fim, acrescentaria o fato de que temos uma mídia que não cobre devidamente esses assuntos, fazendo o que chamo de falsa equivalência. Ela trata todos os candidatos iguais, dando a eles o mesmo tempo de fala, por exemplo, no Jornal Nacional, aquela cobertura absolutamente absurda que o Jornal Nacional faz no dia dos candidatos.
E aí você dá o mesmo tempo, por exemplo, para um Lula, que é um presidente, e para um Renan Santos, que é um radicalíssimo de ultradireita, um personagem que nem deveria estar na disputa político eleitoral, e que vai fazer um evento, sei lá, com dez gatos pingados. Ele tem o mesmo tempo no Jornal Nacional que o Lula ou que o próprio Flávio Bolsonaro.
Embora eu ache um absurdo um extremista como Flávio Bolsonaro também ser candidato, como já disse, ele é um candidato competitivo, está ali empatado com o Lula. Então, é claro que a imprensa vai cobri-lo. Agora, dar esse mesmo tempo para um Renan Santos e para um Romeu Zema… Essa cobertura, por exemplo, que a Globo faz da campanha eleitoral, na verdade, despolitiza o debate e coloca todo mundo mais ou menos numa vala comum, sabe?
Esse é um fator também que talvez seja um componente que explique a situação do Flávio, que apesar de ser um herdeiro do Jair Bolsonaro, está aí supercompetitivo.
IHU – Como você avalia a crise do Supremo Tribunal Federal? De que forma essa crise no STF pode impactar as eleições e como o fato tem sido usado politicamente no campo eleitoral?
Cristina Serra – Bom, essa crise já está aí, né? A crise do Supremo Tribunal Federal já tomou conta da pauta política e eleitoral. Isso é muito ruim, mas, enfim, foi feito, aconteceu, já está aí, e o estrago está feito. Acho que as próximas pesquisas talvez apontem isso com mais profundidade. Foram divulgadas algumas pesquisas recentes, mas acho que foram realizadas em meio ao auge da confusão dentro do Supremo.
Recentemente, com o pedido de vista do Flávio Dino, na sessão de terça-feira (15-09-2026), percebo que ele jogou água fria na fervura, sabe? Acredito que isso vá baixar a pressão sobre esse assunto. Talvez seja possível esperar que, nessa reta final da campanha, nesses poucos dias que ainda temos, de fato, vejamos uma campanha eleitoral em que se discuta o país.
Em que se discuta a Amazônia, por exemplo, além de como melhorar a educação das crianças, sobretudo das crianças mais pobres deste país, que dependem da escola pública. Precisamos discutir o futuro, o Brasil que a gente quer e que nos inspire. Que possamos sonhar com este país.
Não podemos ficar mergulhados nessa crise do STF, que, sim, precisa de uma reforma. Todos os escândalos que envolvem ministros do STF precisam ser esclarecidos. O que tiver que ser punido dentro da lei, que seja feito. Mas isso não pode tomar conta do cenário político eleitoral.
Infelizmente, tomou durante um tempo. Mas, como disse, acho que agora, nessa reta final, essa fervura pode baixar. Parece-me que ainda temos tempo para isso, para que possamos ir às urnas com o mínimo de tranquilidade.
IHU – Em seu livro “Nós sobreviventes do ódio – Crônicas de um país devastado”, lá em 2020, você já previa que um segundo mandato de Donald Trump seria “um impacto de um meteoro para a democracia nos EUA”, fortalecendo assim projetos de ditadores mundo a fora. Na sua opinião, a retomada de governos de extrema-direita na américa latina tem relação direta com o presidente norte-americano? As interferências fascistas de Trump em países como a Venezuela, podem ser uma ameaça para o Brasil?
Cristina Serra – Sim, totalmente, esse impacto com a força de um meteoro, que você menciona que estava no texto, de fato, o estrago que o meteoro fez já está acontecendo.
Dentro dos Estados Unidos, temos o governo Trump que é um governo autocrata. Até outro dia falei assim, vou passar a chamar o Trump de ditador. Aí entra aquele debate, “ah, mas não é uma ditadura, porque nos Estados Unidos você ainda tem mecanismos da democracia”, então desisti, voltei atrás nessa minha decisão e não o chamo de ditador, mas sim de autocrata.
De fato, não é um ditador, porque o governo tem uma Suprema Corte, embora seja uma Suprema Corte favorável a Trump, porque ele conseguiu construir uma maioria lá dentro. Esse é um dos mecanismos de sabotagem da democracia, onde o autocrata consegue construir uma maioria no Judiciário. Donald Trump conseguiu isso nos EUA e esse também é o projeto dos Bolsonaro no Brasil.
Mas, enfim, existe uma Suprema Corte que, ao mesmo tempo em que sustenta algumas medidas dele, também tem contestado outras. Isso é verdade, apesar de Trump ter a maioria no Congresso, há uma oposição atuante e tudo mais.
Claramente, os Estados Unidos são uma autocracia hoje, com mecanismos de um governo autoritário, inclusive em relação à imprensa. Hoje mesmo, no dia dessa entrevista (18-09-2026), Trump proibiu que três veículos de imprensa participem da cobertura da Casa Branca. Isso nunca havia acontecido nos Estados Unidos. Foi uma decisão recente de poucas horas atrás. A CNN e outros dois veículos (MSNow e site jornalístico Político), que não lembro o nome, não poderão mais fazer a cobertura da Casa Branca daqui para a frente. Ou seja, o nome disso é censura, perseguição a veículos de imprensa, um atentado à liberdade de expressão e de imprensa.
Voltando ao cerne da pergunta, o meteoro também teve impacto na América Latina, não apenas dentro dos Estados Unidos, mas no mundo afora. Porque os Estados Unidos, pelo poder que têm – foi citado aqui a Venezuela, mas podemos falar também do Irã – saem fazendo estragos pelo mundo todo. E, aqui na América Latina, Trump têm dado um apoio muito forte à eleição de governos de extrema-direita e está também chantageando o Brasil. Ele faz ameaças permanentementes, dizendo que o governo brasileiro não faz o suficiente para combater as facções criminosas que, nos Estados Unidos, eles chamam de grupos narcoterroristas.
Então, é uma linguagem permanentemente marcada pela ameaça. Eles dizem que os Estados Unidos podem tomar providências em qualquer lugar do mundo se considerarem que sua segurança nacional está ameaçada. Portanto, podem muito bem usar essa questão das facções e dos grupos que eles chamam de narcoterroristas para fazer algum tipo de intervenção, ação militar ou até uma sabotagem aqui nas nossas eleições. Por isso que digo: sim, essa força do meteoro se manifestou de múltiplas formas, e isso nos atinge, sem dúvida. É uma grande preocupação para o cenário eleitoral brasileiro.
Tenho conversado com muita gente, entre eles estudiosos e especialistas que estudam a relação dos Estados Unidos com o Brasil, especificamente no governo Trump. E as preocupações, de fato, são muito grandes sobre o que pode ocorrer, dependendo do resultado da eleição aqui no Brasil.
Diria que uma preocupação comum é que, se Lula ganhar, vários desses estudiosos consideram muito plausível, e até muito provável, que os Estados Unidos não reconheçam o resultado da eleição. Isso criaria um ambiente de instabilidade muito grande, para falar de uma forma genérica.
Não sabemos exatamente até onde eles estariam dispostos a esticar a corda. Enfim, é um cenário que eu prefiro também não especular muito. Prefiro acreditar que vamos ficar num ambiente de pressões, sabe, mas que o resultado da eleição será aceito, ainda que com a má vontade dos Estados Unidos.
IHU – Em suas falas, você comenta que falta um trabalho de base continuado para a esquerda brasileira. Referente ao cenário de eleições atual, o que você tem analisado a partir das diferentes propostas dos candidatos do campo progressista?
Cristina Serra – Olha, acho que falta esse trabalho de base, porque isso é uma coisa que tem que ser feita permanentemente na democracia. Já falei isso várias vezes, me parece tão claro e várias pessoas já falaram isso, sabe, mas precisamos repetir.
É isto: é necessário falar do óbvio, porque, às vezes, achamos que elegendo um governante de esquerda ou de centro – que tenha propostas que coincidem com o que achamos que deve ser feito para melhorar a sociedade –, já está tudo resolvido. A gente ajudou, fez campanha, esse candidato foi eleito e, então, pensa: “Pronto, agora está tudo certo, acabou a minha parte. Não preciso mais fazer militância”. Mas não é assim. Descobrimos da pior maneira possível que não basta se mobilizar de quatro em quatro anos. A construção da democracia é feita ali, tijolinho por tijolinho, sabe? É um trabalho cotidiano, de formiguinha mesmo, de conversar com as pessoas, de participar e de fazer com que o debate político seja uma coisa permanente.
Porque cidadania é isso, é discutir e conversar sobre política sempre. Com a sua família, no seu local de trabalho, nos grupos que você frequenta, entre amigos etc. É claro que a ascensão da extrema-direita tornou isso muito difícil, porque quem concorda com o programa bolsonarista – dependendo do nível de radicalização e de um certo fanatismo – é difícil de manter o diálogo com essa pessoa.
Porém, existe um grupo muito grande na sociedade brasileira que não é tão ligado à política como nós jornalistas somos, como o mundo acadêmico ou da ciência política, enfim, o universo que frequentamos. Talvez a grande maioria da população não esteja muito ligada a isso, e com toda razão, está se preocupando com o seu dia a dia.
O cidadão se preocupa se vai ter segurança, se terá um transporte público bom e barato, se vai conseguir pagar as contas, resolver as dívidas, pagar os boletos, se os filhos daquela família vão ter acesso a uma escola pública de qualidade, se será possível sonhar com uma perspectiva de futuro.
Democracia também é isso: garantir esses direitos básicos. A saúde, por exemplo, é fundamental. É aquela família ter a tranquilidade de saber que, se tiver um problema de saúde, terá condições de ser atendida em um hospital público ou que, pelo menos, o plano de saúde que paga vai poder oferecer a cobertura necessária, sem que seja preciso brigar com o plano para garantir esse atendimento.
Portanto, democracia é garantir que as pessoas tenham o mínimo de segurança de que suas demandas e necessidades básicas serão atendidas.
A verdade é que uma imensa parcela da população brasileira ainda não tem a segurança de que esses direitos serão garantidos. Se alguém da família adoecer, pode ficar horas e horas, talvez dias, esperando por uma vaga em um hospital. Se a pessoa mora em uma região onde há conflito entre facções e troca de tiros, pode perder alguém da família em um desses confrontos armados, entende?
É diante desse cenário que precisamos entender a nossa atuação como democratas, como pessoas que se preocupam com a cidadania para todos. Temos que nos preocupar não apenas em discutir esses problemas no dia a dia, mas também em nos mobilizar permanentemente para que sejam resolvidos ou, pelo menos, minimizados para essas pessoas. Porque, para uma parcela da população, a democracia ainda não chegou completamente. Ela já chegou para nós, de classe média, mas ainda não chegou da mesma forma para todos.
Temos um escudo de proteção, digamos assim. Temos uma renda garantida e, como falei, pagamos um plano de saúde. Se a escola pública do bairro não for boa, podemos colocar o filho em uma escola particular, entende? Então, para nós da classe média, a vida está mais ou menos resolvida. Mas, para uma imensa parcela da população brasileira, a vida não está.
E não adianta também chegar só na época da eleição e querer discutir democracia com essas pessoas, falar sobre os melhores candidatos, as melhores propostas. Chegar lá e dizer: “Olha, eu apoio determinado candidato. Você quer conhecer as propostas dele?”. Não adianta. Isso precisa ser feito permanentemente.
Então, essa mobilização de base precisa ser sempre. E, como ela é feita? Tem várias maneiras de se articular e de fazer isso. Antigamente, quando era mais jovem, fazíamos isso muito por meio dos sindicatos.
Na época, e ainda hoje, sou filiada ao Sindicato dos Jornalistas. Quando era estudante, participava do centro acadêmico e, depois que me tornei profissional, passei a ter uma atuação também na vida sindical. Hoje, todos esses mecanismos de participação se enfraqueceram muito, porque o Brasil foi mudando e tudo mais, mas isso já é uma discussão mais longa.
Ainda assim, acho que, assim como nos mobilizamos em 2022 para derrotar a extrema-direita – seja indo para as ruas, participando de manifestações ou fazendo mobilizações digitais –, precisamos voltar a nos mobilizarmos. Naquele período, fizemos muita mobilização de rua, inclusive durante a pandemia. Lembro de ir para a rua de máscara e tudo.
Sabemos que essas coisas precisam ser permanentes. Essa atuação, tanto no virtual quanto na vida real, precisa continuar acontecendo, porque só se mobilizar de quatro em quatro anos não dá. Senão, vamos viver de susto em susto, de eleição apertada em eleição apertada, porque a extrema-direita veio para ficar. Como disse no começo da nossa conversa, ela domina a máquina digital, e isso é uma realidade que não vai desaparecer assim.
Então, justamente para evitar esse medo que sentimos diante de uma eleição apertada, é preciso haver mobilização constante, sabe? Acabei de ouvir uma avaliação política desse cenário que estamos vivendo, feita pelo João Pedro Stedile, do MST, que é uma pessoa que entende de organização e mobilização popular, e ele diz exatamente isso: que falta essa mobilização, que precisamos nos mobilizar sempre.
Até porque existe uma quantidade enorme de eleitores indecisos que está ali, e com quem podemos conversar. Mas não apenas durante o período eleitoral. É preciso fazer isso sempre.
IHU – São justamente essas pessoas que você mencionou, para quem a democracia ainda não chegou, que a extrema-direita está conseguindo alcançar, em parte por causa das dificuldades e das necessidades que enfrentam?
Cristina Serra – Exatamente. A extrema-direita chega de várias formas, mas existem duas formas básicas e muito importantes. Uma é essa que estamos falando: as máquinas digitais. Todo mundo tem seu celular, com acesso à internet e fica recebendo mensagem no WhatsApp o tempo todo.
A outra é por meio da proliferação das igrejas neopentecostais. Igrejas evangélicas sempre existiram. Desde que sou criança, conheço igrejas evangélicas, muitas delas com vários amigos que frequentavam. Mas, de uns anos para cá, a gente passou a ver uma proliferação de igrejas que você nem sabe exatamente o que propõem, sabe?
A que ramo das igrejas evangélicas aquela igreja específica pertence, qual linha segue? São nomes completamente diferentes. Antigamente, era Assembleia de Deus, Igreja Metodista, Igreja Batista etc. Hoje, existe uma infinidade de nomes. São aquelas igrejas bem pequenininhas, que você encontra muitas vezes nas cidades do interior, mas também nas periferias das grandes capitais.
Às vezes, o pastor abre uma igreja ao lado da própria casa, coloca algumas cadeiras, cria ali um culto, começa a pregar, coloca uma placa – às vezes, até uma faixa de plástico – com um nome que ele mesmo inventa. E é por meio dessa rede, dessa proliferação de pequenas igrejas, que a extrema-direita muitas vezes consegue chegar a populações empobrecidas, que vivem em situações de insegurança total, expostas à milícia e ao domínio do tráfico de drogas. E ali, naquela pequena igreja da rua onde moram, essas pessoas encontram algum refúgio, algum conforto e alguma ajuda, não apenas espiritual, mas também material. E esse é um fenômeno com o qual, de fato, é muito difícil lidar.
IHU – Por que é importante nos mobilizarmos para mudar a estrutura do Congresso Nacional? Além das candidaturas indígenas, qual a importância de termos candidatos alinhados a pauta climática, como os próprios cientistas do clima? De que forma estas pessoas são essenciais para que haja uma mudança nas políticas de base?
Cristina Serra – Se você não muda o Congresso, o próximo governo – digamos que o Lula se reeleja, algo em que acredito e espero muito – vai continuar tendo um Executivo, um presidente, meio que de mãos atadas. Esse terceiro mandato do Lula teve muitas, imensas dificuldades. Ele governou o tempo todo com a faca no pescoço, não só pela composição do Congresso, não apenas porque há muita gente de direita e de extrema-direita, mas porque o Congresso brasileiro hoje tem uma força, um poder que não tinha a uns dez anos atrás, principalmente por causa das emendas parlamentares.
As emendas sempre existiram e, inclusive, sempre foram foco de corrupção. Lá atrás, no governo Collor de Mello, houve o famoso escândalo dos Anões do Orçamento, um enorme escândalo justamente envolvendo as emendas orçamentárias. Eram chamados de “anões” porque vários dos parlamentares envolvidos tinham baixa estatura. Hoje, obviamente, jamais se usaria essa expressão dessa maneira. Mas, enfim, vamos trazer a discussão para os últimos dez anos.
Sobretudo a partir de Eduardo Cunha, o processo de liberação e autorização das emendas parlamentares foi mudando. Primeiro, as emendas se tornaram impositivas. Antes, não eram. Então, para conseguir liberar aquela emenda e garantir a aplicação daquele dinheiro no seu reduto eleitoral, o parlamentar precisava negociar com o governo. E o governo também usava isso como instrumento para formar maiorias no Congresso e tudo mais.
Mas, sobretudo a partir de Eduardo Cunha e, depois, com Arthur Lira, foram sendo estabelecidos mecanismos que deram aos parlamentares uma autonomia cada vez maior na execução dessas emendas.
O negócio ficou tão escandaloso que isso foi parar no Supremo. Na época em que Rosa Weber era presidente da Corte, ela cobrou transparência e a partir de uma situação, foram estabelecidas algumas regras para dar mais transparência às emendas. Mas isso ainda não se resolveu, porque, de fato, seria necessária uma revisão muito grande desses mecanismos. Os parlamentares continuam conseguindo contornar as exigências de transparência, e são milhões e milhões de reais nas mãos deles.
Esse dinheiro é aplicado não apenas nos seus redutos eleitorais, de uma maneira muitas vezes demagógica e eleitoreira, mas também circula por outros caminhos. Tanto que hoje existe uma investigação, um inquérito conduzido pelo ministro Flávio Dino, onde está ficando claro o uso de dinheiro das emendas para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Estão usando dinheiro de emenda, dinheiro público, um dinheiro nosso, do próprio contribuinte.
Enfim, por causa desse enorme poder concentrado nas mãos do Congresso, vai ser difícil para qualquer presidente lidar com um Legislativo que tenha tanta força. E, quando isso se junta a um Congresso com uma presença avassaladora das bancadas do boi, da Bíblia e da bala, como falamos antes – a bancada que defende o agronegócio, a bancada religiosa, com essa mistura de política e religião, e a bancada das forças de segurança –, de fato, você tem um ambiente muito hostil.
Então, isso precisa mudar. Esse Congresso ainda pode mudar para melhor. Talvez diminua um pouco, sobretudo, a presença da bancada da bala, que cresceu muito em 2018, quando se elegeu junto com Bolsonaro, e ainda manteve força em 2022.
Vi recentemente um levantamento mostrando que diminuiu o número de candidatos que se associam a essa pauta da segurança, que se apresentam como defensores da ideia de “bandido bom é bandido morto”, para resumir. Ainda assim, são muitos, e certamente muitos deles conseguirão se eleger.
Por outro lado, tem isso que você falou: cientistas se candidatando para formar uma bancada da ciência, que é absolutamente fundamental. Vejo isso com muita alegria. Conheço alguns desses cientistas que estão se candidatando e, inclusive, estou tentando ajudar nas campanhas.
A bancada do cocar, que já fez uma mobilização grande em 2022, está supermobilizada agora. Também espero que consiga eleger mais alguns representantes. É uma bancada ainda muito pequena, mas também muito aguerrida. É necessário, de fato, tentar qualificar tanto a Câmara quanto o Senado, para que pelo menos haja parlamentares com quem seja possível estabelecer algum diálogo e negociar questões que são muito importantes para o país. Também é importante diminuir o número de negacionistas na Câmara, talvez até mais do que no Senado.
Essa é uma tarefa muito desafiadora. Acho que ainda vamos ter muitas candidaturas e que o resultado final da composição da Câmara e do Senado ainda estará longe, provavelmente, do que precisamos como sociedade.
IHU – A extrema-direita brasileira cresceu politicamente explorando o medo, a violência e a promessa de que apenas soluções de força (como armar o cidadão) seriam capazes de devolver segurança à população. Quais riscos este tipo de manipulação traz para comunidades como as do RJ, onde as operações policiais seguem arquitetando massacres?
Cristina Serra – O risco é gigantesco, porque esse discurso encontra uma realidade que também é favorável para que a população acabe aceitando e achando que a solução para melhorar a segurança é essa ideia de que “bandido bom é bandido morto”. É fato que existe, por exemplo, no Rio de Janeiro, que é onde moro, uma situação de insegurança imensa. As pessoas saem às ruas com medo. A pessoa sai de casa, o filho sai, e a mãe não sabe se ele vai voltar. Isso é fato.
E a extrema-direita se aproveita muito desse cenário para sustentar esse discurso, que acaba se entranhando na sociedade. Com isso, se cria uma sociedade que passa a acreditar na lógica do “cada um por si”, do vale-tudo. Então, a pessoa pensa: “Vou me armar, vou comprar um revólver, quero ter uma arma, porque aqui na minha casa me defendo”.
Essa é uma solução totalmente falsa, enganosa, porque não é assim que funciona. Uma pessoa que tem uma arma em casa pode acabar se tornando vítima dela. Não sou eu que estou dizendo isso, mas as estatísticas mostram essa realidade.
Esse cenário acaba fortalecendo não apenas o discurso da extrema-direita, mas também as suas ações. Jair Bolsonaro, quando foi presidente, adotou uma política de flexibilização do acesso às armas que colocou armas dentro da casa de muita gente que talvez nunca tivesse tido acesso a uma. Ficou muito mais fácil comprar uma arma. Quem já tinha, comprou mais.
Teve uma operação recente – são tantas operações no país que não lembro exatamente qual foi –, que encontrou, na casa de um ex-dirigente do Banco Regional de Brasília (BRB), uma quantidade enorme de armas. Foi uma operação relacionada ao escândalo do Banco Master, que envolve o BRB. Esse ex-dirigente do BRB, que está de alguma forma sendo investigado nesse escândalo, foi alvo de uma operação de busca e apreensão, onde encontraram 21 armas na casa dele. Entre elas, 16 pistolas e cinco fuzis, se não me engano. Achei um absurdo uma pessoa ter cinco fuzis e 16 pistolas dentro de casa.
Isso é resultado da política de armas do governo Bolsonaro. E esse é o perigo: a população se armar e, a partir daí, qualquer conflito – às vezes uma situação absolutamente banal, como uma briga de trânsito – pode terminar de uma forma trágica. O cara saca a arma e atira. Temos visto isso. Isso também se reflete nos feminicídios. Então, esse é um estrago enorme, um dos grandes danos causados à sociedade brasileira.
No governo Jair Bolsonaro, o pior dano foram as 700 mil mortes provocadas pela pandemia. Hoje, inclusive, já existem discussões sobre uma revisão desse número. Especialistas em saúde dizem que, com o acesso a mais dados e estudos mais aprofundados, é possível que o número real de mortes relacionadas à pandemia seja três vezes maior, tendo mais de 2 milhões de mortos pela pandemia de Covid-19 no Brasil.
Isso precisa ser dito. Esse foi um dos maiores danos do governo Jair Bolsonaro. E acho que, talvez, um segundo grande dano tenha sido justamente essa facilidade de acesso às armas, que faz com que hoje a gente leia o tempo todo no noticiário casos de brigas de trânsito em que alguém saca uma arma e mata outra pessoa. Entende? Esse é um dos resultados dessa política.
IHU – No governo Bolsonaro tivemos os maiores índices de desmatamento da história, em meio ao desmonte dos órgãos ambientais e consequentemente por conta do avanço do crime organizado mediante as práticas de garimpo e do agronegócio. A partir disso, houve também o abandono assistencial das comunidades indígenas, como os Yanomamis que passaram por uma crise sanitária e humanitária com consequências que reverberam até hoje. Na sua avaliação, se houver um retorno da extrema-direita à presidência e se a bancada ruralista seguir ditando as regras no Congresso, essa situação pode voltar a ocorrer?
Cristina Serra – Com certeza. O estrago foi tão grande que, mesmo com o governo Lula, mesmo com o Estado se fazendo mais presente nessas regiões e com todas as medidas adotadas, algumas situações de vulnerabilidade continuam. Elas não foram totalmente resolvidas.
Na questão dos povos indígenas, por exemplo, há comunidades que ainda vivem em uma situação de extrema vulnerabilidade, muito porque suas terras ainda não tiveram a demarcação homologada. A homologação é o ato final, quando se consolida que aquela terra foi demarcada, que é terra indígena e acabou.
Há muitas terras indígenas que ainda não chegaram a essa etapa final da homologação. Enquanto essa situação permanece não resolvida, essas terras são frequentemente invadidas por madeireiros, por criadores de gado e por todo tipo de pessoas que entram nesses territórios. Às vezes, são criminosos que simplesmente vão até lá para ameaçar indígenas e praticar atentados. Lideranças indígenas continuam morrendo no Brasil.
Além disso, há a questão do marco temporal, que ainda não foi definitivamente resolvida. O Supremo já se manifestou duas vezes sobre o tema, mas os questionamentos continuam. Existe uma pauta anti-indígena muito forte, com propostas contrárias aos interesses dos povos indígenas no Congresso, além de pendências na Justiça. Enquanto essas situações não têm uma decisão final e pacificada, essas populações vivem constantemente em risco.
Os defensores do meio ambiente também continuam vivendo em situação de risco, tendo suas vidas ameaçadas. De vez em quando, aqui e ali, a gente vê casos não apenas na Amazônia, mas também no Nordeste e no Centro-Oeste, de defensores ambientais ameaçados ou que sofrem atentados. É uma situação que foi muito agravada durante o governo Bolsonaro. Depois, no governo Lula, houve sim, como mencionei, uma melhora.
Essas forças do crime contra indígenas e defensores do meio ambiente se retraem um pouco, mas nunca desaparecem totalmente. Elas ficam ali, à espreita e no menor sinal de que podem voltar a agir com impunidade, elas retornam.
As comunidades quilombolas também enfrentam essa situação, inclusive porque muitas ainda não têm a titularidade de suas terras reconhecida. Essas pessoas vivem constantemente ameaçadas e sob pressão.
Portanto, se um governo de extrema-direita voltar ao poder, essas forças do crime, que em um governo como o atual ficam de certa forma contidas, podem voltar a agir diante do primeiro sinal de que a impunidade está novamente garantida. Elas estão prontas para entrar em ação. Não é nem no dia seguinte à posse. No caso de uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro, diria que não seria nem no dia seguinte à posse: no dia seguinte à eleição, essas forças entrariam em ação imediatamente. Esse é um perigo que precisa ser evitado a qualquer custo: o risco de uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro.
IHU – Na sua visão, pela parte da esquerda, o que falta melhorar nessa questão da pauta indígena? Na própria proteção ambiental da Amazônia, dos nossos biomas, o que é que falta avançar ainda?
Cristina Serra – Falta um compromisso absolutamente firme com a vida dos povos indígenas, sabe? Precisamos de um compromisso que respeite a figura do cacique Raoni Metuktire.
Quem é o Raoni? É a luta de uma vida inteira pela demarcação das terras de todos os povos indígenas, não apenas os da Amazônia ou das populações da região de onde ele veio. O Raoni sempre lutou pela demarcação das terras de todos os povos indígenas. O Raoni é um líder mundial, enfim, é uma entidade. Para mim, ele é algo maior do que um ser humano. Está em uma outra dimensão, muito acima da gente. Ele é um guia espiritual para mim.
Então, falta sim um compromisso absolutamente radical, no sentido de enfrentar todos esses interesses do agronegócio, que, se dependesse de determinados setores, não permitiria a demarcação de terras indígenas; os interesses da mineração, que quer explorar recursos dentro dessas terras e usa isso para jogar povos indígenas uns contra os outros ou mesmo para criar discórdia dentro de um mesmo povo.
Começa a entrar grana, com isso, uma parte daquela população acaba seduzida por esse dinheiro, enquanto outra parte não, e eles entram em choque. É assim que essas forças de direita e de extrema-direita atuam, tentando corromper esses povos indígenas por dentro, tirando deles aquilo que é mais fundamental: a terra.
Não existe cultura indígena, não existe povo indígena sem a terra. O uso coletivo da terra é absolutamente essencial. São sociedades onde o dinheiro não entrou, sabe? E, quando o dinheiro entra, muitas vezes entra justamente para destruir esses povos por dentro.
Vejo que falta, muitas vezes, um compromisso mais radical tanto com a demarcação das terras indígenas, quanto com a defesa dos nossos recursos naturais. Eu, por exemplo, sou radicalmente contra a exploração de petróleo na Margem Equatorial, especialmente na foz do Rio Amazonas.
Acho isso uma loucura, uma insanidade. Mas há pessoas na esquerda que defendem essa exploração. O argumento é: “Mas nós ainda precisamos do petróleo para o desenvolvimento”. Sim, haverá ainda uma fase de transição. Não vamos passar para uma matriz baseada em energia limpa e renovável de uma hora para outra. Durante algum tempo, ainda vamos precisar utilizar fontes mais poluentes de energia. Mas é preciso ter o compromisso de acelerar o fim do uso dos combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, acelerar o uso de energias limpas.
IHU – As últimas agressões contra Marina Silva, durante um ato de campanha em São Paulo, é mais um episódio de violência política de gênero. Em um país marcado pela violência contra as mulheres e pelo assassinato de Marielle Franco, como podemos combater a naturalização de agressões e ameaças contra mulheres na política, para conter formas ainda mais graves de violência?
Cristina Serra – Assim, como é que se combate? Denunciando, não permitindo a naturalização. A Marina é um símbolo de muitas coisas. Uma mulher afro-indígena que defende a causa ambiental. Defender a causa ambiental no Brasil é lutar contra os grandes interesses do capitalismo, que quer se apropriar dos recursos naturais brasileiros.
Quando se fala em defensor ambiental, é disso que estamos falando. São as pessoas que estão na linha de frente, neste enfrentamento contra esse avanço voraz do capitalismo sobre recursos naturais no Brasil e no mundo, em vários outros lugares.
São defensores ambientais que, de fato, correm risco de vida. Acho que a Marina incorpora tudo isso. O fato dela ser uma mulher que viveu em uma situação de muita pobreza e que conseguiu construir sua trajetória – sendo extremamente vitoriosa – faz com que muitas pessoas se sintam incomodadas ou até ofendidas com seu sucesso e com as vitórias que ela representa. E não é apenas pelo fato de ser mulher; é muito mais do que isso.
A Marina reúne um conjunto de qualidades que fazem com que muita gente olhe para ela e pense: “Mas como ela conseguiu?”. Porque ela é uma mulher brilhante, muito inteligente, articulada e capaz de construir uma trajetória tão singular a partir de uma realidade tão difícil.
Sou uma profunda admiradora da Marina, da pessoa, da trajetória que ela construiu e do que ela representa para as mulheres. Vejo que ela é uma daquelas pessoas para quem você olha e pensa: “Puxa, quando crescer, quero ser como ela”. Então, acho que talvez seja justamente por isso que ela provoque reações tão agressivas em algumas pessoas.
Como já vimos no Congresso Nacional, quando ela vai a algumas sessões para dar explicações sobre ações e atos do governo, parlamentares da bancada do boi vão para cima dela. Da bancada do boi, da bancada da mineração – todos aqueles que defendem esses setores – vão para cima dela. Mas ela reage com muita altivez e, acho, inclusive, que até nisso é inspiradora.
A maneira como ela reage, de forma muito altiva, muito superior até, parece deixá-los ainda mais enfurecidos com ela. A Marina é, como disse, um grande exemplo, uma enorme inspiração para mim e, tenho certeza que para milhares, milhões de mulheres no Brasil.
No caso de candidatas de esquerda que sofrem ataques diretos da direita e da extrema-direita, percebo que, no caso da Marina, os ataques não vêm apenas da extrema-direita. Há políticos identificados como de centro ou de centro-direita no Congresso Nacional que também a atacam. Portanto, não são necessariamente extremistas nem bolsonaristas, mas, ainda assim, fazem ataques contra a Marina.
Naquela cena a que estou me referindo, no Congresso, quando ela foi a uma comissão no Senado, ela foi, de uma forma muito vil, atacada por parlamentares. Entre eles, havia parlamentares identificados como de centro. Mas por que a atacam? Por que, naquele momento, se juntam aos extremistas de direita? Porque, na minha visão, todos acabam representando os mesmos interesses que são, geralmente, os das mineradoras e do agronegócio.
IHU – A partir dos novos acontecimentos e da quebra do sigilo das investigações da PF sobre o financiamento de Dark Horse por Daniel Vorcaro, a apuração desses repasses, ligados ao esquema de corrupção, pode impactar ou deslegitimar a candidatura de Flávio Bolsonaro?
Cristina Serra – Teve muito vazamento. Mas, para além desses vazamentos, precisamos destacar o trabalho da imprensa. Foi a imprensa que buscou esclarecer mais esse escândalo do Dark Horse e as ligações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Isso me parece muito mais resultado do trabalho da imprensa. Quando tento recapitular tudo o que saiu sobre esse assunto e que envolve Flávio Bolsonaro, vejo muito mais o trabalho da imprensa, de veículos como o Intercept e o ICL Notícias. A revelação mais importante sobre Flávio foi a ligação dele para Vorcaro. E isso quem revelou foi o Intercept.
Mas, enfim, com a dinâmica de uma campanha político eleitoral, sobretudo hoje em dia, tudo é muito acelerado. Muito, muito acelerado. E me parece que as pessoas já esqueceram um pouco disso. Se a mídia não fica retomando os fatos, ligando os pontos e mostrando as conexões, como precisa fazer, as pessoas acabam esquecendo.
Porque, a cada dia, surge uma história nova, um escândalo novo, uma informação nova que amplia o escândalo, e assim por diante. É uma dinâmica de acontecimentos, de fato, muito avassaladora. Nós acompanhamos isso em detalhes, mas, como lhe disse, a população não está necessariamente ligada a todos esses pormenores e à sequência de todos os acontecimentos.
Então, talvez essas informações que têm maior impacto, que comprometem e que mostram, de fato, as ligações de Flávio com Vorcaro, já tenham ficado um pouco para trás. Não sei se haverá mais vazamentos. Sempre há, mas, ultimamente, os vazamentos que aconteceram prejudicaram muito mais, por exemplo, Alexandre de Moraes e contribuíram para essa crise no Supremo que estávamos comentando.
Não sei se haverá novos vazamentos. E, como disse, depois daquela sessão do Supremo, alguns ministros fizeram Mendonça entender que ele não pode mais continuar com essa ação golpista como vinha conduzindo dentro do tribunal, com toda aquela desenvoltura e com vazamentos seletivos de informações.
Pode ser, portanto, que não tenhamos mais esse tipo de dinâmica e que vejamos uma dinâmica mais própria de uma campanha política, de uma campanha eleitoral mesmo, nessa reta final, com comícios, mobilizações etc. Não sei. É muito difícil, muito difícil prever o que pode acontecer nessas últimas duas semanas de campanha.
Como comentei, espero que a situação no Supremo fique um pouco mais contida e que possamos voltar a ter, de fato, uma campanha eleitoral em que os candidatos possam falar mais sobre aquilo que interessa ao povo brasileiro. E, sobretudo, precisamos ver, na campanha do Lula nessa reta final, uma campanha que volte a inspirar o Brasil, como Lula e o PT já foram capazes de inspirar o país em outras circunstâncias.
IHU – Como a mídia tradicional pode impactar as decisões de voto nas eleições? Posicionamentos como os da rede Globo que visam os próprios interesses, tendem a ameaçar nossa democracia?
Cristina Serra – A Globo já mostrou que não tem compromisso com a democracia em vários momentos da sua história, vários. Poderia destacar apenas alguns.
As organizações Globo (não a TV que não existia na época), o jornal Globo apoiou o golpe de 64. Depois, em 1989 – que mencionei anteriormente – na primeira campanha presidencial que cobri, houve a edição final do debate entre Lula e Collor. Num país em que, naquele momento, a TV Globo, de fato, era a TV mais influente, mais importante, com maior alcance no Brasil, portanto, aquilo teve um peso muito grande na eleição.
Hoje, a Globo não tem a audiência que tinha na época, pois atualmente as pessoas se informam muito pela internet, pelas redes sociais. Mas a Globo ainda tem um peso muito grande, sim. Muita gente assiste. As TVs, em geral, diriam que são ainda uma fonte importante de informação das pessoas. Mas vejo hoje a mídia, em geral, não só a Globo, as outras TVs, os jornais, os maiores jornais e alguns sites que são ligados a esses jornais como núcleos de desinformação.
A expressão que vou usar não é minha, é da professora Eliara Santana, que é uma estudiosa de linguística, que estuda a linguagem da imprensa, fez um belíssimo estudo sobre as estratégias discursivas da TV Globo na cobertura da Lava Jato. Ela usa a expressão de ecossistema da desinformação, e, na verdade, é isso que a gente tem hoje. Não é são só as milícias digitais, o ecossistema digital dominado pela extrema-direita que dissemina fake news e desinformação.
A mídia brasileira, essa mídia hegemônica, ou a mídia hereditária, como outra definição que não é minha, é do jornalista e escritor Chico Sá, ela também desinforma, ela também faz parte do ecossistema da desinformação, e isso é muito ruim, porque ela ainda alcança uma parcela muito grande da sociedade brasileira, uma parcela muito grande da sociedade brasileira ainda se informa pelo Jornal Nacional e assiste aquela cobertura que comentamos há pouco da falsa equivalência, em que o Renan Santos tem o mesmo tipo de cobertura que o Lula tem.
Então, não dá, é uma cobertura muito ruim, muito desqualificada, e que infelizmente desinforma, não trazendo nenhuma contribuição para a melhoria da qualidade do debate político no Brasil. Lamentavelmente, isso é terrível, mas ela contribui sim para a desinformação, e infelizmente tem um alcance muito grande ainda.
Precisamos refletir muito sobre essa mídia que desinforma no momento em que a população mais precisa de informação, de reflexão crítica, sem falsas equivalências e sem o que chamo também de doisladismo.
“A ouvi o Lula, então, tenho que ouvir necessariamente o Flávio Bolsonaro sobre aquele assunto, mesmo que ele não tenha nada a dizer sobre aquilo”. É uma cobertura que dá a impressão de que ela é feita sem o menor discernimento do que é o jornalismo. Ou, por outro lado, tem sim o discernimento, sabe o que é jornalismo e decide não fazer jornalismo.
Isso é uma coisa que vejo de quatro em quatro anos, e a impressão que tenho é que está piorando cada vez mais. Como jornalista, inclusive, que já trabalhou em alguns desses veículos, lamento profundamente e acho que, como comunicadora, talvez seja a parte que possa contribuir mais no debate, é fazer esse alerta para que as pessoas busquem outras fontes de informação.
É muito triste dizer isso, lamento muito dizer isso, até porque sei que tem profissionais que tentam fazer o seu melhor ali dentro, mas sei também que hoje os controles internos são absurdos. Sei por que tenho amigos que trabalham lá e que me contam isso. Quando saí, já percebia esses controles. Sou jornalista há muito tempo e trabalhei nesses veículos quando havia ainda algum espaço de atuação do jornalista.
Na época, o jornalista, o repórter e o editor ainda eram respeitados como profissionais. Esses espaços foram se fechando de tal modo que hoje o controle e o ponto de vista da empresa sobre o trabalho que vai ao ar, que é publicado ou postado é praticamente total. É como aquela música do Chico Buarque diz, “é a voz do dono”. Isso é fatal para o jornalismo, isso fere o jornalismo de morte e é ruim para a democracia. Isso também degenera a nossa democracia, porque o jornalismo viceja na democracia e vice-versa, portanto, a democracia também precisa do jornalismo. Para mim, como jornalista, é muito triste ver tudo isso e perceber o papel que o jornalismo tem desempenhado nessa situação que estamos discutindo.
Por outro lado, vemos também, como já mencionei, um site como o Intercept e o ICL que fazem jornalismo investigativo pra valer. Há jornalistas como a Juliana Dal Piva e o Paulo Motoryn, uma geração mais jovem de jornalistas, enfrentando dificuldades e ameaças. Não é fácil a vida desses jornalistas que estão ali exercendo o seu papel com muita coragem, muito compromisso com o jornalismo, com a democracia e com o Brasil. Então, a eles, todos os meus aplausos.
IHU – Em meio à crise do STF, há especialistas que afirmam que tudo está se encaminhando para uma nova fase do golpe que ocorreu em 8 de janeiro de 2023. Como você analisa esse cenário? Há um golpe em curso?
Cristina Serra – André Mendonça e Kassio Nunes Marques (presidente do Tribunal Superior Eleitoral justamente neste momento, em plena eleição) são dois agentes golpistas dentro do Supremo Tribunal Federal. Quanto a isso, não tenho a menor dúvida. Para mim, já está muito claro que André Mendonça vinha agindo de forma seletiva, vazando tudo aquilo que pudesse prejudicar Alexandre de Moraes, que a extrema-direita associa a Lula.
Lula não tem nada a ver com o escândalo do Master. Recebeu Vorcaro uma vez em sua agenda, já explicou do que se tratou. Apesar de ter recebido tudo registrado oficialmente, o Banco Central agiu contra, fez a fiscalização e liquidou o banco. Foi no governo Lula que o Banco Master foi liquidado, e foi no governo Bolsonaro que o Banco Master foi criado e espalhou seus tentáculos.
Portanto, Lula não tem nada a ver com esse escândalo. Mas o que a extrema-direita faz? Procura associar Alexandre de Moraes a Lula. E Alexandre de Moraes, sim, tem explicações a dar sobre o Banco Master.
Mendonça estava lá para fazer isso: vazar tudo aquilo que pudesse prejudicar Moraes e, por tabela, associá-lo a Lula e, por outro lado, segurar tudo aquilo que pudesse prejudicar Flávio Bolsonaro. Agora, isso foi exposto naquela sessão de terça-feira (15-09-2026) do STF. Isso ficou claramente exposto. Mas, como disse, foi água na fervura que Dino colocou, e acho que agora a gente vai para uma reta final de campanha mais tranquila.
Claramente, os agentes golpistas nunca sossegam. Eles sempre têm algum mecanismo de atuação. Porém, acho que o maior perigo, para mim, vem dos Estados Unidos. Já expliquei isso em outra resposta. Com relação a isso, aí sim, temos um fator de preocupação: a intervenção por uma ação direta dos Estados Unidos, que seria um complemento do golpe ou uma ação que complementaria um golpe dado pelos agentes golpistas aqui no Brasil, pelo menos por uma ação que, de alguma forma, possa beneficiar esses golpistas.
Eles nunca param. Já tentaram várias vezes e vão continuar tentando, não tenho a menor dúvida. E, ainda que Lula seja reeleito, eles vão continuar tentando sabotar Lula e buscar oportunidades para ações golpistas durante o governo Lula. Enquanto a gente não enfraquecer decisivamente a extrema-direita no Brasil, eles vão continuar tentando um golpe.
De várias maneiras, com vários mecanismos, com instrumentos diferentes, mas vão continuar tentando o golpe. A gente vai ter que conviver com isso por muito tempo politicamente. Daí a importância daquilo que a gente conversou aqui no começo da nossa conversa: de seguir nessa ação democrática, essa ação cidadã permanente de mobilização, para não vivermos de sobressalto em sobressalto.




