Deus, urnas e extrema-direita: a religião como instrumento político na disputa eleitoral. Entrevista especial com Christina Vital da Cunha e Ricardo Mariano

Sociólogos analisam como a imagem de Deus é explorada nas campanhas políticas e mobiliza eleitorado de direita no país

IHU

Os dados do último Censo, publicado em 2022, mostram que os brasileiros são majoritariamente cristãos. 56,7% se autodeclaram católicos e 26,9%, evangélicos. Para além da filiação confessional, chama atenção “a valorização de uma ideia de Deus” presente na sociedade, pontua Christina Vital. 

Sendo Deus fundamental para uma parcela significativa da população, a religião é um dos elementos mobilizados pelos candidatos que disputam o pleito deste ano. “Os atores políticos vêm mobilizando uma noção de Deus muito ligada à moral, à ordem e à ética. Ou seja, os atores políticos se apropriam de uma certa imagem de Deus como parte de uma gramática e de uma linguagem estética. Essa linguagem é expressa em vocábulos que estão encapsulados, hoje, na direita”, disse a socióloga da religião ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ao apresentar os dados da pesquisa nacional “Religião, política e valores dos brasileiros: entre extremismos e mediações”, desenvolvida em parceria com o pesquisador Doriam Borges, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Segundo ela, os dados da primeira fase do estudo mostram que “70% dos evangélicos se auto identificam de direita, assim como 59% dos católicos. 88% dos afrorreligiosos se identificam como sendo de centro”.

No painel “Deus, urnas e extrema-direita. Religião e a disputa pelo sagrado na política brasileira”, promovido pelo IHU em 03-09-2026, Christina Vital apresentou um panorama sobre a percepção dos brasileiros sobre vários temas sociais a partir dos indicadores de renda, religião e faixa etária. “De modo geral, vemos nos dados um Brasil muito favorável a políticas públicas. Um país que reconhece a desigualdade social e que tem uma demanda pela presença do Estado. Ao mesmo tempo, é um país que apresenta um conservadorismo consolidado em torno de algumas temáticas. Podemos falar de um conservadorismo ético em termos de expectativas de comportamento, com valores morais de referência. De outro lado, há um progressismo social que se pronuncia na defesa da justiça social e num Estado que proporcione políticas públicas”, resume.

Ricardo Mariano, que também participou do mesmo painel, analisa o “ativismo político-evangélico conservador” brasileiro, que na disputa eleitoral deste ano ganha visibilidade na candidatura de Flávio Bolsonaro. De acordo com o pesquisador, esse grupo se distancia da Aliança Evangélica Europeia, que “rejeita a extrema-direita evangélica norte-americana e o nacionalismo cristão” e se aproxima da “Christian Right, a direita cristã norte-americana, ou do evangelicalismo enfurnado no Partido Republicano, dominado atualmente pelo trumpismo”. 

Entre as propostas políticas dos candidatos identificados com essa perspectiva, explica o sociólogo, ganha destaque a de “reconstruir a nação a partir de valores cristãos”. Nesse sentido, sublinha, políticos evangélicos bolsonaristas têm conexões com a “Capitol Ministries, entidade cristã norte-americana alinhada ao governo Trump e que realiza estudos bíblicos com integrantes do gabinete e altos funcionários da Casa Branca”. O propósito dessa associação “de infiltrar-se em instituições políticas e públicas e evangelizar legisladores e servidores públicos é cristianizar os poderes públicos e conformá-los a seu ideário”, adverte. 

A seguir, publicamos, no formato de entrevista, os principais trechos das exposições de Ricardo Mariano e Christina Vital. As palestras completas estão disponíveis aqui. 

Christina Vital da Cunha é professora do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). É doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordena o Laboratório de Estudos em Política Arte e Religião (LePar). Entre suas publicações, destacamos Oração de traficante: uma etnografia (Garamond, 2015).

Ricardo Mariano é doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), onde leciona e desenvolve pesquisas na área de sociologia da religião no Departamento de Sociologia. É autor de Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Loyola, 1999).

Confira a entrevista. 

IHU – Que relações os brasileiros estabelecem entre “Deus e política”, “Deus e extrema-direita”, segundo sua pesquisa?  

Christina Vital da Cunha – Coordeno essa pesquisa junto com o professor Doriam Borges, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Entre as temáticas que abordamos, uma delas tematiza a relação entre Deus e política, Deus e extrema-direita. Nesse contexto, recentemente, foram publicados dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que apontam para a presença significativa de cristãos no país: quase 87%. É interessante lembrar que em 150 anos de Censo, o catolicismo foi dominante, não só porque era a religião da Colônia e do Império, mas porque os escravizados indígenas não tinham direito à autoidentificação.

Quando a religião começou a ser contabilizada no país, havia uma expressão cristã muito significativa: quase 100%, 99,7%. Com o tempo, foi ocorrendo uma redução paulatina. Mas essa redução é, em parte, relativa ao próprio modo de contabilização. Ou seja, a autodeclaração de escravizados e de pessoas que vinham de outras tradições foi feita somente a partir do Brasil República.

Maioria cristã

De todo modo, é interessante observar a maioria cristã nos dados desse Censo. Esses dados revelam a valorização de uma ideia de Deus e isso tem relação com a forma como os atores políticos vêm mobilizando uma noção de Deus muito ligada à moral, à ordem e à ética. Ou seja, os atores políticos se apropriam de uma certa imagem de Deus como parte de uma gramática e de uma linguagem estética. Essa linguagem é expressa em vocábulos que estão encapsulados, hoje, na direita. Não à toa vemos extremistas religiosos e extremistas de direita articularem a ideia de que as esquerdas são inimigas da ordem e os evangélicos são conservadores. Os extremistas dizem que os progressistas que se apresentam a partir da defesa de teologias contextuais não são cristãos de verdade, ou seja, não são evangélicos de verdade. Há, portanto, neste campo, uma disputa político-ideológica que tem muito a ver com uma certa referência de Deus existente no Brasil.

O primeiro tema que aparece na nossa pesquisa é a valorização de Deus entre os brasileiros. Um conjunto de pesquisadores já falou sobre essa questão. O antropólogo holandês André Droogers, ainda nos anos 1980, se interessou pela representação de Deus no cotidiano dos brasileiros, seja na mídia, no comércio ou no trabalho. A imagem de Deus tinha uma presença muito englobante e aparecia no modo como as pessoas falavam umas com as outras. Isso continua sendo significativo, mas o crescimento da autoidentificação e de uma vinculação dos atores sociais com outras matrizes religiosas – que é, ao mesmo tempo, religiosa e política –, da intolerância religiosa e do racismo religioso, produziu clivagens nessa relação e na valorização de Deus no Brasil.

IHU – O que os dados sugerem?

Christina Vital da Cunha – O primeiro dado é que 70% dos brasileiros acreditam que “quem acredita em Deus é uma pessoa melhor”. Nesse percentual, observamos clivagens a partir da renda, da religião e da faixa etária. 86% de quem recebe até um salário mínimo concordam com essa frase. De outro lado, entre os que recebem de 10 a 20 salários mínimos, 51% concordam. Chama a atenção que no bloco dos cristãos há uma alta valorização e concordância com essa afirmação. Os pentecostais são os que mais concordam com ela e os afrorreligiosos são os que menos acreditam nisso. Chama a atenção também que os sem religião acreditam mais nessa frase do que os afrorreligiosos. Segundo a faixa etária, entre aqueles que têm mais de 60 anos, 88,5% concordam com essa frase e, entre os mais jovens, 56% concordam.

Um dado que chama a atenção é que quase 82% dos brasileiros são favoráveis a que se ensine a rezar, orar e a acreditar em Deus na escola pública. Quem ganha até um salário mínimo é majoritariamente favorável a essa presença de Deus na escola; 92% apoiam. Na faixa de renda de 10 a 20 salários mínimos, só 57% apoiam. Entre os evangélicos de missão ou evangélicos históricos e protestantes, 88% concordam com essa proposta, em contraposição aos afrorreligiosos.

Desconfiança das instituições

A alta valorização e confiabilidade numa representação de Deus, por outro lado, não têm paralelo na confiabilidade das instituições religiosas. Isso se conecta com dados de pesquisas nacionais realizadas desde 2009, segundo as quais a confiança nas instituições é baixa no país. Então, de um lado, há uma grande presença cristã e, de outro, não há referência de confiança nessas instituições. Somente 56% dos brasileiros dizem confiar na Igreja católica. O decréscimo nos outros grupos religiosos é muito significativo. 

Deus e ciência

A relação entre Deus e a ciência também é interessante. 83,5% dos brasileiros dizem que acreditam mais em Deus do que na ciência. Contudo, isso não significa a negação da importância da ciência, na medida em que 93% dos brasileiros dizem que a ciência é e foi importante para o desenvolvimento da humanidade. Os pentecostais são aqueles que mais dizem confiar em Deus do que na ciência; 93% deles. Assim como os afrorreligiosos. Na questão da faixa de renda, observamos uma diferença significativa. 93% dos que recebem até um salário mínimo confia mais em Deus do que na ciência. Entre aqueles que têm uma faixa de renda de 10 a 20 salários mínimos, 60% confiam mais em Deus.

Deus e política 

Sobre a relação entre política e Deus, 81% dos brasileiros dizem que é importante que o seu candidato, nas eleições, acredite em Deus. Entre os que ganham até um salário mínimo, quase 90% acham importante que o seu candidato acredite em Deus. Entre os que têm uma faixa de renda de 10 a 20 salários mínimos, 57% também valorizam esse ponto. Desses 81%, contudo, somente 19% dizem que é importante que o seu candidato seja da mesma religião que a sua. Nesse sentido, quando elencamos os elementos mais importantes para os brasileiros escolherem seus candidatos, a experiência é o quesito determinante. Para 45% dos brasileiros, ter experiência na política é o elemento fundamental. Acreditar em Deus, portanto, fica em segundo lugar.

Para 7% dos brasileiros, o candidato ser de direita é um fator importante, enquanto somente para 3% ser de esquerda é um critério fundamental. A influência do líder religioso na política é baixa. Menos de 2% dos brasileiros apontam para essa influência. Esse dado chama atenção quando se compara, nos grupos focais, a importância que os líderes religiosos desempenham em outras escolhas da vida cotidiana das pessoas. Talvez essa resposta seja condicionada pelo debate público negativo acerca da influência de líderes religiosos na política. 

IHU – Como os brasileiros têm pensado sobre as pautas relativas à violência?  

Christina Vital da Cunha – 66% dos brasileiros acham que o crime está mais relacionado à maldade das pessoas do que às desigualdades. 71% dos brasileiros identificam a desigualdade social no Brasil e acham que esse é um problema sério no país. Nesse sentido, a identificação do crime com a maldade não é uma alienação. É importante chamar a atenção para isso porque, numa primeira leitura, ao menos para um segmento da sociedade, essa percepção é vista como alienação em relação ao histórico da desigualdade, fruto de toda a história da colonização e escravização no Brasil.

É interessante observar como essa percepção também tem suas clivagens relativas ao elemento religioso. 78% dos protestantes evangélicos de missão acreditam que a violência está muito ligada à maldade das pessoas. 77% dos que recebem até um salário mínimo também acreditam que o crime está ligado à maldade. Entre a camada mais abastada, formada de profissionais liberais, formadores de opinião, a violência é menos relacionada à maldade das pessoas. É importante observar essa percepção dos brasileiros porque essa é uma pauta que vem se comunicando muito com a base social dos políticos de extrema-direita. 

Combate às desigualdades e novas facetas da violência

A esquerda construiu esse debate ligado ao combate das desigualdades sociais e à afirmação dos direitos humanos. Não é que isso deva se perder, evidentemente, mas o crime foi assumindo novas faces e atinge, indubitavelmente, as pessoas que dispõem de menos recursos e vivem nos bairros com menor renda e escolaridade. Nesse sentido, os mais pobres são os mais vulneráveis ao crime violento e à violência urbana. São os que mais experimentam uma série de roubos e latrocínios e nutrem sentimento de injustiça ao verem seus filhos e filhas envolvidos com o crime que acontece nas favelas e periferias, muito ligado à presença das armas, do tráfico, da milícia e do jogo do bicho. Inclusive, do jogo do bicho violento, porque a percepção do jogo do bicho, até muito pouco tempo atrás, sobretudo em certas áreas, era de uma coisa folclórica e cultural. Não se via uma violência ligada a isso.

Na extrema-direita, a questão da maldade é trabalhada e apresentada como uma característica essencial. Ao tratar a maldade como o elemento essencial que produz o crime, as soluções de segurança pública são sempre pelo maior encarceramento, pela defesa da redução da maioridade penal, da prisão perpétua e da pena de morte. Nós, que realizamos pesquisas e lecionamos em favelas e periferias, observamos como a questão da violência é muito importante nesses espaços.

IHU – O que os dados sugerem sobre o posicionamento dos brasileiros em relação a essas pautas?

Christina Vital da Cunha – No que diz respeito à pena de morte, há uma rejeição significativa no país. 60% da população acha que não cabe à Justiça matar uma pessoa, mesmo que ela tenha cometido um crime grave. 65% da população concorda com a redução da maioridade penal. Entre os que recebem um e dois salários mínimos, 70% aprovam essa medida. Em relação às armas, há uma grande rejeição: 57% dos brasileiros acham que a posse de armas deve ser proibida, pois representa ameaça à vida de outras pessoas. 74% discordam que a posse de armas deveria ser facilitada. As mulheres são as que mais rejeitam a posse de armas, e os afrorreligiosos são os que mais a rejeitam em relação aos cristãos, de modo geral, e aos protestantes, de modo especial.

De outro lado, quase 60% dos brasileiros acham importante a militarização nas escolas. Os protestantes, mais do que os pentecostais, valorizam essa militarização, enquanto os afros são os que menos concordam.

Pautas morais

Em relação às pautas associadas à moral e ao casamento aberto, que é uma temática importante do campo progressista, 86% dos brasileiros se manifestam contrários. Entre os evangélicos, 99% são contra. 51,3% dos brasileiros são contra pessoas do mesmo sexo se relacionarem, mas 71% acham que a homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade. Podemos ler esse dado a partir de uma leitura propriamente religiosa de diferenciar entre o pecado e o pecador. O pecado não é aceito na perspectiva de muitos evangélicos. Ou seja, a ideia de pessoas do mesmo sexo se relacionarem não é aceita. Contudo, há um acolhimento importante em relação às pessoas que são homossexuais. 

61% concordam com a adoção de crianças por casais gays e, nesse campo, 70% das mulheres estão de acordo. Entre os afrorreligiosos, o percentual sobre para quase 90%. A maioria dos brasileiros também é favorável ao aborto garantido em lei, mas cerca de 30% dos brasileiros têm se pronunciado contra.

IHU – Que imagem de país é possível extrair desses dados?

Christina Vital da Cunha – De modo geral, vemos nos dados um Brasil muito favorável a políticas públicas. Um país que reconhece a desigualdade social e que tem uma demanda pela presença do Estado. Ao mesmo tempo, é um país que apresenta um conservadorismo consolidado em torno de algumas temáticas. Podemos falar de um conservadorismo ético em termos de expectativas de comportamento, com valores morais de referência. De outro lado, há um progressismo social que se pronuncia na defesa da justiça social e num Estado que proporcione políticas públicas. 

Ao mesmo tempo, observamos a faixa de renda de 10 a 20 salários mínimos como uma faixa de renda crítica. Embora represente apenas 2,5% da população, esse grupo tem uma grande presença na opinião pública; são artistas, profissionais liberais, professores. Em relação à identificação ideológica, 70% dos evangélicos se auto identificam de direita, assim como 59% dos católicos. 88% dos afros se identificam como sendo de centro. As mulheres se aproximam mais das pautas de esquerda, mas são as que mais se auto identificam de direita. Supomos, a partir desses grupos focais, que isso tenha relação com a questão comportamental e não, necessariamente, com o voto. 

IHU – A religião tem sido muito mobilizada em campanhas eleitorais de direita e extrema-direita no Brasil  em outros países do mundo. Como analisa esse fenômeno?

Ricardo Mariano – Vou falar um pouco da extrema-direita evangélica bolsonarista no Brasil, da instrumentalização política eleitoral da religião evangélica e na tentativa de transformar púlpito em palanque e fiéis em curral eleitoral. Mas começo pela Europa. No último mês de julho, a Aliança Evangélica Europeia publicou o documento “Evangélicos europeus na vida pública”, com o objetivo de dissociar as alianças nacionais, organizações, redes e igrejas evangélicas europeias da política de extrema-direita cristã e do nacionalismo cristão dos Estados Unidos, a fim de não ser associada de forma alguma a elas por jornalistas, políticos e líderes públicos.

Rejeição da extrema-direita

A Aliança Evangélica Europeia afirma rejeitar a extrema-direita evangélica norte-americana e o nacionalismo cristão. Uma ideologia que ela define como afeita à dominação, à coerção, à imposição, à intolerância e à exclusão, e seu alinhamento à ideia de que os fins justificam os meios. Alerta para os perigos muito conhecidos na história europeia do entrelaçamento entre igreja e política. Revela-se consternada com a instrumentalização do evangelicalismo para fins políticos partidários e com a cooptação da fé por agendas nacionalistas, xenófobas ou militaristas. Opõe-se à demonização dos oponentes e rejeita movimentos que exijam lealdade absoluta, atentem contra os mecanismos de controle e equilíbrio do regime democrático, desrespeitem o direito internacional ou humanitário.

Em vez disso, defende o respeito ao direito e aos direitos humanos e a solidariedade com migrantes, refugiados, pobres em geral, marginalizados, minorias, prisioneiros, entre outros. Conclama ao arrependimento, à responsabilização, à justiça e à restauração dos evangélicos europeus cujo comportamento envolveu abuso, manipulação, uso indevido do poder, desonestidade, racismo ou ódio.

IHU – No Brasil existe alguma iniciativa semelhante à da Aliança Evangélica Europeia?

Ricardo Mariano – No Brasil, apenas uma minoria do pastorado e do ativismo político-público evangélico se alinha a tais princípios democráticos pluralistas e de justiça social apregoados pela aliança evangélica europeia. Em contraste, o ativismo político-evangélico conservador, que se define dessa forma, é hegemônico e alinhado ao nacionalismo, tem procurado trilhar os passos da Christian Right, a direita cristã norte-americana, ou do evangelicalismo enfurnado no Partido Republicano, dominado atualmente pelo trumpismo, que é objeto de repulsa da aliança evangélica europeia. 

IHU – Pode dar exemplos de relações entre o ativismo político-evangélico brasileiro e a Christian Right?

Ricardo Mariano – Na última década, ampliaram-se as conexões entre políticos evangélicos brasileiros, bolsonaristas em particular, e a extrema-direita evangélica e secular norte-americana. Eduardo Bolsonaro, cujo mandato de deputado foi cassado em 2025 por conspiração contra a soberania nacional, em 2018 se aproximou de Steve Bannon e, a partir daí, teceu conexão entre extremistas de direita e estrategistas de Trump com membros do governo Bolsonaro. Ele também liderou a conexão de políticos brasileiros com a Conferência de Ação Política Conservadora (CEPAC), criada nos Estados Unidos há meio século, que é a principal rede internacional da extrema-direita no mundo.

Nos Estados Unidos, junto com o neto do ditador João Batista Figueiredo, fez lobby para o governo Trump impor sanções políticas, como a Lei Magnitsky a autoridades brasileiras e sanções tarifárias às empresas exportadoras brasileiras se o Supremo Tribunal Federal (STF) não fizesse concessões a seu pai, condenado e preso por cinco crimes. O 03, como o pai o chama, teve um papel decisivo para internacionalizar a disputa política eleitoral na atual eleição presidencial do Brasil. 

Surfando na onda extremista, em 28 de março deste ano, Flávio Bolsonaro, já na condição de pré-candidato a presidente da República, discursou na CEPAC, no Texas, na tentativa de angariar o apoio de aliados de Trump à sua candidatura no Brasil.

Subserviência ao trumpismo

Colocando em xeque as urnas eletrônicas e a lisura e legitimidade das instituições brasileiras, solicitou ao governo dos Estados Unidos e ao mundo livre que fizessem pressão diplomática sobre o Brasil para que suas instituições funcionem adequadamente e garantam liberdade de expressão nas redes sociais e eleições livres e justas. Num discurso subserviente ao governo Trump e incompatível com a defesa da soberania nacional e seus interesses, prometeu acesso irrestrito às terras raras brasileiras como solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China e apoiar a indústria de defesa e o desenvolvimento da Inteligência Artificial norte-americana. Prometeu também que, se eleito, lutará contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke, que destrói famílias, contra os cartéis de drogas e, acima de tudo, lutará pela liberdade e pelos valores tradicionais. Disse que será um presidente que proclama sem medo que Jesus Cristo é o nosso Senhor. 

Nesse discurso, o 01 desfiou boa parte do ideário da extrema-direita contra as elites globais, o globalismo, o sistema político, as políticas ambientais e a chamada agenda woke. Acusou-a de destruir famílias, investiu na guerra cultural contra minorias, direitos sexuais e reprodutivos, políticas de gênero e movimentos antirracistas. 

Apoiou a fracassada política norte-americana de guerra contra as drogas. Defendeu os valores cristãos conservadores e a liberdade de expressão nas redes sociais, liberdade que a extrema-direita, mundo afora, exalta como recurso de autoproteção para poder disseminar livremente desinformação, narrativas conspiratórias, discursos de ódio, homofóbicos, misóginos, para contestar resultados eleitorais, atacar a imprensa e instituições democráticas de controle. Contrariando especialistas da área de segurança pública, Flávio rotulou facções brasileiras de terroristas e pediu aos Estados Unidos ajuda para combater cartéis de drogas transnacionais.

Ele acusou o presidente Lula de fazer lobby para proteger tais facções. Tal afirmação não deixa de ser irônica, pois, como enfatiza o jornalista Pedro Doria, como deputado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Flávio Bolsonaro contratou a ex-mulher e a mãe de Adriano da Nóbrega, o maior chefe de milícias do Rio de Janeiro e assassino profissional. As duas receberam juntas um milhão de reais em salários e, desse dinheiro, repassaram 200 mil para Flávio.

Não foi só que ele contratou mulher e mãe de miliciano, ele deu a medalha Tiradentes para Adriano, a principal medalha do Estado. Deu a mesma medalha para o chefe da milícia da Muzema. Votou por indicar Domingos Brazão, preso por ordenar o assassinato de Marielle Franco, para o Tribunal de Contas do Estado. 

Populismo penal  

Tal como Eduardo Bolsonaro, Nicolas Ferreira, delegado Fábio Costa e delegada Ione, Flávio participou da Romaria de políticos brasileiros a El Salvador para conhecer penitenciárias e a política de segurança de Nayib Bukele e publicizar seu entusiasmo e afeição a tal política em suas redes sociais. Com forte apelo eleitoral, a política de segurança pública de Bukele, que integra um regime de exceção baseado no desmonte dos mecanismos de controle democrático e na concentração de poder no Exército Legislativo, está bombando entre políticos de extrema-direita no Brasil. Faz todo sentido, visto que a política de Bukele, segundo a Human Rights Watch, se caracteriza por encarceramento em massa, detenções arbitrárias, prisões preventivas, julgamentos coletivos, espancamentos, tortura, mortes sob custódia e violação sistemática aos direitos humanos.

Nessa toada, Flávio Bolsonaro propôs a construção de cinco presídios de segurança máxima no modelo adotado por El Salvador em seu programa de governo, que também apregoa a redução da maioridade penal, a castração química de condenados por estupro e abuso contra crianças e o abate de criminosos armados com fuzil. Para a educação, propôs ampliar as escolas cívico-militares. E, recentemente, na esteira do populismo penal, declarou haver poucos presos no Brasil, sendo que o país tem a terceira maior população carcerária do mundo.

No evento da CEPAC, Flávio também alegou que seu pai era alvo de perseguição política e estava preso por defender nossos valores conservadores sem medo e por se opor ao sistema. Ele e seus aliados negam que Jair Bolsonaro e outros condenados cometeram os crimes de golpe de Estado e de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Se eleito, prometeu conceder anistia ampla, geral e irrestrita ao pai e aos demais pivôs da trama golpista e aos presos pelos atos de 8 de janeiro de 2023.

Políticos evangélicos bolsonaristas e a Capitol Ministries

Desse modo, ele não só deslegitima o judiciário, como incentiva futuros atentados à ordem constitucional e à democracia brasileira. Vale destacar também a conexão entre políticos evangélicos bolsonaristas e a Capitol Ministries, entidade cristã norte-americana alinhada ao governo Trump e que realiza estudos bíblicos com integrantes do gabinete e altos funcionários da Casa Branca. Em 2017, ela foi implantada no Brasil para expandir a transnacionalização de seu discipulado político na América Latina.

Com o auxílio de Damaris Alves, Ernesto Araújo, Onyx Lorenzoni e de alguns parlamentares evangélicos, em agosto de 2019, com a presença do senador Flávio Bolsonaro, ocorreu o lançamento do Ministério da Capitol Ministries no Congresso Nacional, cujo objetivo declarado, segundo seu líder nacional, é reconstruir a nação a partir de valores cristãos. Desde então, ela passou a evangelizar e discipular servidores e parlamentares para moldar sua formação e atividade política de acordo com princípios bíblicos conservadores. Afinada com o ativismo político evangélico alinhado ao bolsonarismo, a ideologia conservadora e direitista da Capitol Ministries condena o aborto e propõe que governo, legisladores e juízes devem proteger juridicamente o nascituro, defende que Deus criou o casamento heterossexual como união entre homem e mulher, enfatiza a sujeição da mulher ao marido, ao qual cabe o papel de liderança, e a esposa o de auxiliadora complementar, assumindo responsabilidades de dona de casa, administradora do lar, maternidade e hospitalidade.

Considera a homossexualidade um pecado, um atentado à vontade divina e condena a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sacraliza a livre iniciativa, a propriedade privada e o capitalismo como sistema econômico baseado na Bíblia e condena o comunismo. Concede apoio incondicional ao Estado de Israel e afeita ao neoliberalismo desconfia de financiamento estatal de políticas sociais de grande envergadura.

Rejeita o que nomeia de ambientalismo radical, expressão também empregada por Flávio Bolsonaro no encontro da CEPAC no Texas. Afirma que as mudanças climáticas são de responsabilidade exclusiva de Deus, não dos homens, e se opõe a regulamentações ambientais que restrinjam a exploração de recursos naturais, alegando que prejudicam o empreendedorismo, o desenvolvimento econômico, o consumo, o progresso e o bem-estar. O propósito da Capitol Ministries de infiltrar-se em instituições políticas e públicas e evangelizar legisladores e servidores públicos é cristianizar os poderes públicos e conformá-los a seu ideário. 

Da mesma forma, o ativismo político-evangélico conservador de direita e de extrema-direita no Brasil, especialmente bolsonarista, não esconde o propósito de ampliar a ocupação religiosa das instituições políticas e das estruturas de poder do Estado, além de estender o domínio cristão nas esferas da cultura, da educação, das mídias e dos negócios. Recorre, para tanto, a teologias dominionistas de viés fundamentalista e teocrático para legitimar, biblicamente, seus anseios supremacistas de governar em nome de Deus e para que a maioria cristã cumpra o mandato divino de edificar uma nação cristã à sua imagem e semelhança. Em 2016, por exemplo, a pastora Damaris Alves, agora senadora, declarou triunfalmente num culto: “Chegou a nossa hora. É o momento de a igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar”. A fala alinhava-se também ao conteúdo do livro Plano de Poder, de Edir Macedo, publicado em 2008. Esses são apenas dois exemplos. 

Supremacismo cristão e a sacralização da direita 

Em busca do apoio e reconhecimento evangélico, Jair Bolsonaro, ainda em 2017, apressou-se em se prontificar a defender o supremacismo cristão em detrimento da laicidade, dos direitos fundamentais das minorias e da democracia. Num comício na Paraíba, em fevereiro de 2017, ele afirmou: “Como somos um país cristão, Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico, não. É Estado cristão. E as minorias que forem contra, que se mudem. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As leis devem existir para defender as maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”.

Não à toa, a aliança com Bolsonaro e seu governo contribuiu para intensificar a sacralização da direita, a demonização da esquerda e a radicalização do ativismo político evangélico conservador. Intensificou-se, sobretudo a partir daí, a instrumentalização política de crenças de guerra espiritual para dividir o campo político entre bem e mal, entre cristãos e ímpios, entre defensores da família e da liberdade religiosa versus inimigos rotulados de comunistas, promotores de ideologia de gênero, marxismo cultural, cristofobia e autoritarismo.

Turbinada pela guerra espiritual e pelo maniqueísmo, a agudização da disputa política no Brasil, cada vez mais polarizada, recrudeceu a disposição de pastores e políticos evangélicos bolsonaristas para desqualificar, demonizar e desumanizar seus adversários políticos tratados como inimigos. Em reação ao avanço dos movimentos feministas e LGBTQIA+, de sua força política, de suas reivindicações e conquistas de direitos, levaram a cabo um ativismo político radicalmente avesso à diversidade, ao pluralismo e aos direitos das minorias. Privilegiaram o enquadramento moralista das disputas políticas em torno dos direitos sexuais e produtivos, da educação sexual, das políticas de gênero e de combate à homofobia, transfobia e à misoginia.

O marcador central da extrema-direita evangélica, mas não só dela, é o reacionarismo em relação ao gênero e à sexualidade, e a hostilidade aos movimentos feministas e LGBTQIA+, os quais consideram uma ameaça moral à nação e à família tradicional e um risco existencial para os cristãos. Eles falam em ditadura gay. Acusam as feministas de opressão e da pretensão totalitária de controlar os homens por meio da ideologia feminista e da educação sexual.

Idealizam o patriarcado e a masculinidade combativa e militante e manifestam aversão ao politicamente correto e ao pluralismo moral, social e cultural. Na onda da machosfera e em reação à suposta crise da masculinidade, esse ideário reacionário, ressentido, machista, antifeminista, anti-gênero e patriarcal, ganhou tração e reforço na última década com a profusão de grupos cristãos, como a “machonaria”, que se dedica a resgatar a masculinidade bíblica, a nação dos homens fortes, que exalta e sacraliza a virilidade masculina e papéis de gênero tradicionais, legendários, que cultua a masculinidade viril e o homem alfa por meio da realização de retiros espirituais e atividades físicas extenuantes, que misturam escotismo, look militarizado, linguagem coach e forte conservadorismo bíblico. Discursos machistas, armamentistas e de apologia à ditadura militar são taras do clã Bolsonaro e encontram resistência, sobretudo no eleitorado feminino do Brasil, mas não só.

IHU – Qual é o peso do antipetismo entre os evangélicos nas eleições deste ano?

Ricardo Mariano – Flávio, cuja performance eleitoral depende do espólio do pai, marcado por essas características, não por uma trajetória, fazendo apologia da ditadura, por exemplo, tem apenas 38% das intenções de voto entre mulheres e 46% entre os homens. Contudo, ele lidera a intenção de voto à presidência entre os evangélicos. Na pesquisa da Quest, de meados de agosto, sobre a intenção de voto no primeiro turno, Lula obtém 24% entre os evangélicos e Flávio 43%, diferença de 19 pontos percentuais.

A situação se inverte com os católicos, entre os quais Lula obtém 47% e Flávio 27%, diferença de 20 pontos percentuais. Quanto à rejeição, Lula é rejeitado por 45% dos católicos e 66% dos evangélicos, enquanto, em contraste, Flávio é rejeitado por 58% dos católicos e por 42% dos evangélicos.

Antipetismo

A pesquisa da Quest reitera que o antipetismo evangélico que recrudesceu a partir da Operação Lava Jato e da tensão de partidos e movimentos de direita e do bolsonarismo continua elevado. Mostra que o eleitorado evangélico está dividido em relação à candidatura de Flávio: 42% o rejeitam e 43% têm intenção de votar nele. Talvez, uma parte por falta de opção viável entre os candidatos de direita. Ao que parece, os escândalos associados a ele prejudicam sua performance eleitoral entre os evangélicos, para além da falta de carisma. Mas é provável que isso será parcialmente superado se ele for ao segundo turno contra Lula, quando o antipetismo deverá ser mobilizado intensamente em diversos ambientes, sobretudo nas redes sociais por pastores, influenciadores, celebridades e ativistas evangélicos bolsonaristas como temos visto em 2018 e 2022, com o uso de bots, muitas desinformações e mentiras, como se o Lula fosse eleito ele iria fechar os templos evangélicos e acabar com a liberdade religiosa.

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