Precisamos de mais mulheres e indígenas para transformar radicalmente o parlamento

Embora sejam maioria na população brasileira e nas comunidades indígenas, as mulheres estão sub-representadas no legislativo. Para mudar esse cenário e transformar o país, as lideranças de 391 povos indígenas estão lançando um número recorde de 190 candidaturas. Conversamos com Chirley Pankará para entender a importância e os desafios de construir a Bancada Indígena.

Por Maruscka Grassano, na Jacobin

Muito antes de existirem partidos políticos e as formas de organização e luta social como conhecemos hoje, sociedades indígenas autônomas já faziam a gestão da terra e suas riquezas, dos territórios, do alimento, do aprendizado e do cuidado com a comunidade, em especial com os mais velhos e as crianças.

Séculos de colonização e desumanização desses corpos-território, não só invisibilizaram esses saberes, como também reduziram a população indígena a menos de 1% do Brasil.

Nos últimos anos, no entanto, a partir de um projeto de ampliação contínua da presença indígena na política institucional, um número recorde de representantes de diversos povos, espalhados pelas cinco regiões do país, se preparam para uma das eleições mais importantes do nosso tempo.

Como bem disse Mestre Joelson, da Teia dos Povos, “ir contra aquilo que nos é imposto é revolucionário, pois a subserviência, a mansidão diante das ameaças aos nossos direitos e à nossa vida, o conformismo e a assimilação cultural são amarras coloniais que sempre nos quiseram impor ao longo dos séculos”. 

Nesse sentido, temos, em 2026, um número recorde de 190 candidaturas de pessoas que se autodeclararam indígenas, com base nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O resultado vem da Campanha Indígena, iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), para estimular o aumento da participação dos povos originários na disputa por cargos de deputado estadual, deputado federal, senador, governador, vice-governador e suplência.

Distribuídas por todo o Brasil, as lideranças de 391 povos indígenas levam às urnas trajetórias políticas moldadas pela riqueza e complexidade de múltiplos territórios, no intuito de barrar o marco temporal e outros retrocessos, como a fragilização das licenças ambientais, a permissão para mineração em Terras Indígenas, além de decretar o fim de uma existência humana baseada na exaustão de todos os tipos de vida.

Ainda assim, vale ressaltar que a Bancada Indígena da Apib apoia 56 candidaturas, com uma proposta política construída a partir dos territórios. E ainda, vem cobrando igualdade no financiamento eleitoral, um dos principais desafios das candidaturas indígenas atualmente.

Chirley Pankará e o crescimento das candidaturas de mulheres indígenas

Única candidata indígena a deputada estadual pela maior cidade da América Latina, Chirley Pankará integra a linha de frente daquelas que levantam a bandeira das mais radicais das lutas: a luta pelo clima, por terra e território.

Com 84 candidaturas, as mulheres indígenas representam quase 44% de toda a presença indígena no pleito deste ano — um salto de aproximadamente 190% em doze anos. Esse crescimento traduz a potência de quem já lidera a resistência nos territórios e agora buscam ocupar, com autonomia, os espaços de decisão política. 

Mulher indígena e ativista, reside em São Paulo há 28 anos com uma trajetória construída na defesa dos direitos indígenas e na luta por educação, cultura, saúde e meio ambiente. Foi integrante da gestão educacional dos Centros de Educação e Cultura Indígena (CECIs) e, em 2018, tornou-se a primeira co-deputada indígena de São Paulo. É autora do Agosto Indígena e do Dia Estadual da Mulher Indígena. Pedagoga, mestra e doutora, também atuou na área da Cultura do Ministério dos Povos Indígenas, fortalecendo a presença e a participação indígena na construção das políticas públicas.

Nessa caminhada histórica de resistência e de cobrança por espaços em cargos de decisão, Chirley Pankará é uma alternativa para aquelas e aqueles que acreditam na necessidade de mais indígenas e mulheres para não reproduzir as estruturas de poder que estão nos levando para o buraco. Em entrevista a seguir, conversamos com a liderança sobre sua trajetória, propostas e os desafios da representatividade.


Maruscka Grassano: A proposta de “aldear a política” ganhou seus primeiros contornos em 2017 no Acampamento Terra Livre, quando a urgência de um parlamento cada vez mais indígena foi levantada. Quais foram seus primeiros passos no caminho à liderança política? O que te fez mirar nesse horizonte?

Chirley Pankará: A proposta de aldear a política veio de uma urgência contra a sub-representatividade e da necessidade de que nós, povos indígenas, elaborássemos as políticas públicas a partir das nossas próprias perspectivas. Porque nós sabemos que, a partir do nosso olhar, nós vamos cuidar do planeta e da humanidade com seriedade.

MG: Em 2022, foi a primeira vez que cinco deputados indígenas se elegeram, simultaneamente, na Câmara Federal. Antes disso, apenas duas pessoas indígenas haviam passado pelo legislativo nacional. Este ano, o projeto “Aldear a Política” lançou 47 candidaturas indígenas de diversas regiões e para diferentes cargos. Quais as expectativas para a bancada do cocar neste ano e o que está em disputa?

CP: Em 2022, se elegeram duas candidatas Célia Xakriabá e Sônia Guajajara, ambas como deputadas federais. Antes disso, na década de 1980, tivemos a presença do Mário Juruna. Já em 2018, a Joênia Wapichana foi a primeira mulher indígena eleita para deputada federal.

Hoje isso tem se ampliado. Nós esperamos que essa bancada aumente para que possamos ter mais representatividade no combate à necropolítica dentro desses espaços — tanto no Congresso Nacional quanto nas Assembleias Legislativas —, além das próximas eleições municipais, para que tenhamos prefeitos, vereadoras e vereadores.

Pensamos em ampliar para podermos construir uma política pública para os povos indígenas e para os não indígenas baseada no bem viver; uma política que de fato preserve vidas, tanto dos animais quanto das plantas, dos rios e dos seres humanos.

As candidaturas indígenas, só este ano, entraram na política de cotas. Ainda assim, os valores de investimento em candidaturas indígenas são baixos para que a gente alcance a quantidade necessária de votos, já que nós temos que concorrer a esse pleito eleitoral na mesma legenda. Ou seja, temos que buscar votos indígenas e não indígenas para conseguir alcançar a eleição, porque concorremos pela mesma quantidade de votos que o não indígena, que o homem branco. Não há uma proporção baseada na população de povos indígenas dada pelo IBGE.

Ainda carecemos de um aprofundamento de políticas públicas que garantam os povos indígenas nesses espaços. Ainda é algo novo para os não indígenas verem que a semente brotou do chão. Estamos vendo um aumento muito grande de mulheres nessa tomada de decisões, em vários estados, mas essas candidaturas ainda carecem de mais de investimentos. Precisamos desses recursos para alcançar outros nichos, chegar com nossas propostas e mostrar que somos capazes de carregar várias bandeiras de luta, tanto para indígenas quanto para não indígenas, mas é preciso ter acesso a esses recursos para termos uma equipe maior, fundo de pré-campanha e estrutura para trabalhar com um grupo grande de pessoas até alcançar a cadeira.

MG: Como, então, vocês têm se movimentado no desafio de se candidatarem não só para ter visibilidade e angariar votos para os partidos, mas lançar suas candidaturas para, de fato, ganharem as eleições?

CP: As nossas candidaturas indígenas são para, de fato, ocupar cadeiras. Nós precisamos ocupar cadeiras. A visibilidade importa, mas nós já estamos aqui no Brasil desde antes da colonização — e só de colonização lá se vão 526 anos. Se nós já estávamos aqui, de quantos anos mais preciso para provar a presença indígena no Brasil? Já está posto. Nós estávamos e continuamos aqui.

O que nós precisamos agora é que seja efetivada essa participação indígena dentro dos espaços de tomada de decisão. Nós precisamos fazer as políticas públicas por nós mesmos. Precisamos fazer parte e estar envolvidos dentro desses espaços que são fundamentais para o Brasil e para a formulação de políticas públicas.

MG: Como driblar a ideia sinuosa de que pessoas indígenas só governam pelos interesses indígenas? Ou ainda, como levar a compreensão de que os interesses indígenas são, em sua essência, para o bem viver, para o bem comum de toda uma população?

CP: A ideia de que candidaturas indígenas vão trabalhar só para os povos indígenas também acontece com as candidaturas de mulheres, de pessoas negras e várias outras. Às vezes dizem: “Ah, você vai levar uma candidatura identitária, vai falar só de mulher, vai falar só de meio ambiente”. O que eu acho um tiro no pé. Como é que a gente vai falar “só” de meio ambiente? Como o meio ambiente pode ser visto como algo menor?

A água, os rios limpos e o que a gente bebe são meio ambiente. As árvores são os nossos ventiladores e o nosso oxigênio natural — e são só os povos indígenas que precisam respirar? As árvores nos dão frutos — são só os povos indígenas que precisam comer esses frutos ou o alimento que vem da terra? São só os povos indígenas que bebem água e que precisam viver em harmonia com o meio ambiente? Não, é toda uma nação.

Então, nós estamos falando de um bem viver para toda a população. Quando falo de meio ambiente, estou falando sobre soberania alimentar: como plantar sem agredir a Mãe Terra, sem usar agrotóxicos e quais técnicas podemos utilizar para não degradar o solo. E não é por um viés romantizado; é porque uma terra saturada e envenenada vai fazer com que esse veneno seja sugado para o lençol freático, tornando a terra infértil. É uma série de questões que são de interesse público, e não apenas dos povos indígenas.

Quando falo de árvores e de reflorestar, estou dizendo que precisamos de uma cidade mais arborizada e de mais jardins de chuva. Assim, quando a água cai, ela pode infiltrar na terra, ir para o lençol freático e acumular água lá. Quanto mais água acumulada no lençol freático, menos calor. Já a água empoçada na rua faz o quê? Provoca esse monte de carros submersos, sobrecarrega os rios, faz com que eles transbordem e afeta quem está andando pela cidade — que não são só os povos indígenas, são os não indígenas também.

É preciso compreender que uma política pública pelo viés dos povos indígenas leva saúde, educação, cultura, soberania alimentar, causa animal e direitos das mulheres, dos homens, das crianças e dos idosos, ao trazer o respeito aos nossos mais velhos. Nós estamos levando cuidado e amorosidade para o planeta e para a humanidade. E quando se tem esse cuidado, isso transborda para toda a sociedade.

Precisamos pensar de forma conectada entre aldeias e cidades, pensar em pessoas que vão curar o planeta junto com a gente — e um planeta curado traz uma saúde curada. Se nós não temos um ar puro e árvores para nos dar oxigênio natural, teremos pessoas com problemas respiratórios. Se colocarmos um incinerador de lixo próximo das pessoas liberando toxinas, teremos pessoas adoecidas e uma sobrecarga para o sistema de saúde.

Portanto, nós estamos pensando em um coletivo de políticas públicas que vão muito além dos povos indígenas: são políticas públicas transversais.

Maruscka Grassano é jornalista e assessora de imprensa e redes em projetos anti-hegemonicos.

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