Eleições 2026 – o que fazer? Por Roberto Leher

A vitória de Flávio Bolsonaro por mais de 2 milhões de votos e o domínio de PL e Republicanos sobre quase metade da população confirmam a força da extrema direita e a insuficiência da frente ampla

Em A Terra é Redonda

1.

Os impactantes resultados eleitorais de 4 de outubro terão de ser examinados de modo sistemático; contudo, em virtude da proximidade do segundo turno, em 25 de outubro, algumas pontuações podem ser importantes para pensar o que fazer diante do avanço da extrema direita de cariz fascista.

Como o foco das presentes notas é a estratégia eleitoral a partir da perspectiva das classes trabalhadoras, cabe apenas indicar grandes tendências, considerando o fato de que, quatro anos após a vitória de Lula da Silva em 2022, o resultado eleitoral, apesar de o PT ser governo, piorou de modo acentuado.

Preliminarmente, o Quadro 1 indica uma mudança no processo de hegemonia que é sui generis. É possível constatar o desmanche da força ideológica, convocatória, da via da austeridade do social-liberalismo e o avanço da austeridade neofascista. É possível verificar, também, aspectos da Questão Meridional a que se refere Antonio Gramsci, tensionando a região Sul e o Nordeste, mas não como tipos ideais, vistos os resultados da região Sudeste, notadamente Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ademais, embora seja cedo para afirmar a hipótese de um novo bloco histórico, esta é uma hipótese necessária, considerando o contexto latino-americano e a aberta ingerência do trumpismo nas eleições brasileiras.

Quadro 1: governadores, senadores e deputados federais PL, Republicanos e PT

Fontes: TSE e IBGE; população do Brasil: 213.421.037 habitantes. (*) Não houve definição, até a conclusão do texto, sobre se haverá ou não segundo turno no RJ.

Quadro 2: votação nos municípios acima de 200 mil habitantes

Fontes: TSE e jornais

A conquista de uma vantagem de mais de 2 milhões de votos no primeiro turno por Flávio Bolsonaro é um indicador robusto da força da extrema direita. A aliança mais orgânica da extrema direita, PL-Republicanos, irá governar quase a metade da população brasileira (49,3%), enquanto o PT estará com cerca de 13%. Ademais, a capilarização dos governadores eleitos, com os senadores (PL sozinho terá mais de um terço do Senado), deputados federais e deputados estaduais será muito forte, confirmando o acerto político-estratégico do comando da campanha do PL.

A real expectativa de poder irá impulsionar ainda mais a ação dos aparelhos privados de hegemonia subjacentes ao que pode ser um novo bloco histórico em construção e isso irá pesar no embate. Assim, por exemplo, a Confederação Nacional do Comércio e as Associações Comerciais, em cruzada contra o fim da jornada 6×1, irão movimentar a política de todos os municípios brasileiros.

De outra parte, a estratégia da frente amplíssima que contribuiu para o êxito de Lula da Silva em 2022 será muito mais limitada, justo pela expectativa de poder da extrema-direita e pelo clamor do bloco no poder em prol do desmonte do que resta de direitos sociais universais. Apostar todas as fichas nessa via em detrimento da organização popular possível, em virtude do tempo exíguo, será uma opção fatal.

Se não tivesse ocorrido uma mobilização autoconvocada nos últimos dias, com atos massivos, provavelmente o desfecho da campanha já estaria dado. Em virtude do tempo, a campanha do PT terá de priorizar os municípios com mais de 200 mil habitantes em que, apesar da derrota para o PL, existe potencial de ampliação (Quadro 2).

O fulcro da questão é o acionamento e a interpelação das abstenções e dos votos nulos e brancos. A abstenção chegou a 21,08%, com 33,5 milhões de eleitores ausentes, enquanto os votos em branco somaram 1,84% e os nulos chegaram a 2,93% na disputa presidencial. Um quarto do eleitorado (24,8%) não escolheu nenhum candidato. As cidades com mais de 200 mil habitantes foram responsáveis por 44,5% da abstenção (14.875.450 eleitores ausentes) (TSE). Aqui será o campo de batalha possível.

2.

Dificilmente, palavras de ordem importantes como democracia, soberania, civilização ou barbárie irão demover os eleitores de reafirmar o voto no PL, reverter para o PT os votos dos demais candidatos, em especial os de Augusto Cury, e, menos ainda, motivar o voto dos que se abstiveram. Sem conexão direta da campanha com o que o povo sente, tais palavras soam como slogans vazios. Os reais partidos da extrema-direita – igrejas pentecostais e neopentecostais, organizações criminosas, APH do capital – atuaram de fato como partidos capilarizados na massa popular.

Ademais, as fazendas de ‘bots’, como a de Fernando Cerimedo, descrito pela revista The Economist como o homem do MAGA na América Latina e um dos animadores das campanhas da extrema direita latino-americana, contribuíram de modo único para propagar, por exemplo, uma imagem da crise do STF, imagem que alimentou, inclusive, a cobertura da Rede Globo e impulsionou a única agenda dos candidatos do PL para o Senado. O mesmo pode ser dito sobre o tema da corrupção, difundido como o denominador comum da política, e, sobretudo, sobre a violência.

O exemplo da campanha de Zohran Mamdani pode nos oferecer inspirações para o protagonismo emergencial das organizações populares nos 20 dias que restam de campanha, combinando estratégia política e eleitoral.

3.

Conforme as matérias que relataram a campanha, o “porta a porta” foi a espinha dorsal de sua vitória, primeiro nas primárias democratas contra Andrew Cuomo (junho de 2025) e depois na eleição geral de novembro. Registros da campanha apontam a mobilização de mais de 100 mil voluntários ao longo de toda a disputa, que, juntos, bateram em cerca de três milhões de portas até a eleição de novembro de 2025.

A campanha mobilizou dezenas de milhares de voluntários em brigadas de voluntários que bateram em mais de um milhão de portas só nas primárias. A base da organização das brigadas veio principalmente dos Socialistas Democráticos da América de Nova York (NYC-DSA). Realizaram encontros de lançamento nos bairros, treinamento rápido, roteiros e divisão da cidade em pequenos territórios por equipe.

Como teremos que fazer no Brasil, o foco incidiu em quem não costuma votar: priorizaram eleitores de baixa participação, como jovens, imigrantes e comunidades sul-asiáticas e muçulmanas. Mensagem simples e concreta: custo de vida, com propostas como congelar aluguéis regulados, ônibus gratuitos e creche universal. Isso facilitava conversas curtas e diretas na porta. Uma orientação recorrente da campanha foi ouvir antes de falar: o porta a porta era tratado como conversa, perguntando o que pesava no bolso do eleitor, e não só como entrega de panfleto. Elaboração e difusão de vídeos curtos e bem-humorados nas redes sociais que fortaleçam a opção Lula.

4.

As brigadas devem ser pensadas como os germes a partir dos quais a presença da esquerda nos territórios seja permanente, nos moldes das casas do povo da Itália pós fascismo e de iniciativas afins. Mas as iniciativas duradouras dependem, em grande parte, do desfecho do processo eleitoral. Como realizá-las no ambiente de violência sistemática que caracteriza a tradição fascista?

No processo eleitoral, os temas axiais devem ser cuidadosamente trabalhados, como, por exemplo, segurança, pauta a ser concretizada de modo real, inclusive com mudanças imediatas no governo Lula. Votar em aliados de organizações criminosas não assegura a segurança, como o Rio de Janeiro vem demonstrando de modo reiterado. As estruturas milicianas dependem do controle territorial para que seja possível o saqueio do povo, do gás à internet, do transporte à obrigatoriedade de taxas e aluguéis, inclusive de moradias próprias.

Outro tema urgente é o transporte popular nas periferias (foco nas cidades e bairros acima de 200 mil habitantes). Na Baixada Fluminense e em São Gonçalo e adjacências, por exemplo, milhões de pessoas demoram duas horas ou mais para ir ao trabalho ou à faculdade e outras duas horas para voltar. Não há real investimento em trens, modais rápidos, confortáveis, seguros etc. No Rio de Janeiro, o entorno da Central do Brasil é degradante. O governo federal não pode se eximir de uma mudança radical no setor.

Em suma, as brigadas precisam escutar os moradores sobre os temas. A escuta de parte desses mais de 33 milhões de pessoas é decisiva. Melhorias no SUS, educação pública universal (em especial creches públicas) e livre acesso às universidades públicas e aos institutos de educação tecnológica, a partir do ensino médio público, devem ser planejados. Cada um desses temas terá de ser trabalhado em panfletos específicos.

Recuperar as plenárias dos movimentos sociais, reunindo centrais sindicais e partidos, convocando-as na semana de 5 a 10 de outubro, em todos os estados, a partir de uma coordenação nacional, a exemplo da Central dos Movimentos Populares ampliada. É preciso estabelecer meta mínima de voluntários a ser planejada por estados, contemplando os territórios, bairros, linhas de trens prioritárias. Exemplo: Mamdani trabalhou com a meta concreta de recrutar 90 mil voluntários.

Nas plenárias, definir as zonas prioritárias e convocar os militantes por meio da criação de grupos de WhatsApp. Esses grupos devem ser convocados a partir dos grupos criados por todos os candidatos da esquerda e progressistas durante o processo eleitoral, mirando a organização e a convocação das brigadas por território e tema, já com reuniões nesses locais. A partir das plenárias populares, informar a militância sobre a criação dos grupos emergenciais. De 12 a 23 de outubro é o prazo possível.

As brigadas somente serão possíveis com pessoas locais e de referência dos territórios. Assim, redutos de Lula nos quais a abstenção foi muito alta, como a favela da Rocinha e o Complexo da Maré, devem ter suas brigadas organizadas com companheiras e companheiros locais. Até o dia 24, será necessário percorrer e escutar as pessoas em suas residências, bairros, escolas, estações de ônibus, nos trens, metrô, feiras, supermercados, portas de fábricas, estações de transporte etc. objetivando dialogar com os que se abstiveram ou anularam o voto. Com a vitória de Lula da Silva, o tema terá de ser permanente. Não haverá nova oportunidade em um futuro de curto e médio prazos.

*Roberto Leher é professor titular da Faculdade de Educação e ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autor, entre outros livros, de Universidade e heteronomia cultural no capitalismo dependente (Consequência). [https://amzn.to/3Ra7SiV]

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