Por Fernando Sarti Ferreira & Lincoln Secco*, em A Terra é redonda
Uma das facetas do fascismo é o colaboracionismo. O colaboracionismo também foi uma modalidade de normalização do nazismo
1.
Há pouco mais de uma década, no rescaldo das manifestações de 2013 e do processo eleitoral de 2014, já era possível pressentir que algo havia se rompido dentro da Nova República e, mais precisamente, que um velho conhecido voltava a espreitar a sociedade brasileira. Contudo, há um evento que pode ser considerado o verdadeiro divisor de águas e que, à época, e até hoje, é tratado de maneira fortuita.
No ímpeto de tentar reverter a derrota nas urnas, o partido de “quadros técnicos” e que, desde sua fundação, cada vez mais evocava forças que não poderia controlar, decidiu que as eleições gerais de 2014 teriam sido fraudadas, normalizando uma das tantas teses lorianas que circulavam nos submundos da internet desde antes da explosão das redes sociais.
Na impossibilidade de vencer o pleito, seu resultado foi questionado, jogando sobre as eleições um ar de suspeição que, combinada com a guinada política à direita do governo e a precipitação da crise econômica, detonou a série de manifestações que deram tração ao golpe de 2016. Quase dez anos depois, os exageros do playboy mineiro que não sabia perder, desaguariam na Intentona de 2023 e, posteriormente, nas eleições de 2026. Não foi por falta de aviso que chegamos até aqui.
Há pouco menos de dez anos atrás, em um texto intitulado “7 de abril de 2018”, escrito no contexto da prisão de Lula, esse processo foi resumido por meio de um breve conto. Ei-lo:
“Ao entrar no zoológico, não hesitou. Em um primeiro momento, abriu as jaulas. Depois, os portões que davam acesso à avenida que se dirigia ao centro da cidade. Vibrou ao ver como os leões colocaram as pessoas contra a parede. Dava gritos de alegria ao ver como os elefantes pisoteavam pobres coitados. Divertia-se com os macacos puxando o cabelo das crianças. Mesmo as girafas, tão simpáticas, contribuíam para o espetáculo, espichando seus pescoços até a laje das casas e prédios e denunciando aos gritos as pessoas que se achavam mais espertas ou pensavam não ter nada a ver com aquilo.
Ao seu lado, um amigo chato, daqueles cuja principal função é recobrar nossa consciência, perguntou:
– Rapaz. Como é que você vai fazer para trazer todo mundo de volta pra jaula?”.[i]
2.
Desde então, com robusto apoio de intelectuais progressistas, com a complacência da maioria dos dirigentes do maior partido de esquerda do hemisfério e o patrocínio da alta-burguesia colonial e seus sequazes na grande imprensa, vivemos a normalização do fascismo. Intelectuais de esquerda e progressistas, muito bem-posicionados nos grandes meios de comunicação, gastaram muita tinta para dizer “não é fascismo”, ou, pior ainda, “ainda não podemos afirmar se é fascismo” – é um exercício mórbido e cômico pensar o momento exato em que poderemos nomear o que vivemos de fascismo.
Desde então, mesmo que que não fosse nossa intenção, o fascismo foi normalizado. Há quase dez anos convivemos com fascistas na rua, nos espaços de lazer e locais de trabalho. Está cheio de rinocerontes andando por aí; você cruza o farol e tem um lagarto atravessando, uma cobra rastejando; você pega o carro de aplicativo e tem um crocodilo na direção; você pode até mesmo eleger uma ariranha para Câmara de Deputados e uma maritaca para o Senado.[ii]
Tamanha é a normalização que não podemos falar de “fascismo”, sendo preferível outros termos como populismo de extrema direita, alt-right, e, aquele que, definitivamente, é o mais ridículo, ultradireita.
Como já repetimos inúmeras vezes em diversos espaços, “o fascismo está firmemente ancorado no governo, na sociedade e na economia vigentes. Ele é uma ação estabilizadora da ordem, “disfarçada em cruzada milenar de vitalismo heroico”, nas palavras de Arno Mayer. O fascismo é uma ação política e uma rede de relações. É uma técnica de mobilização, pura tática e, portanto, extremamente flexível e capaz de violar repetidamente seus próprios princípios.
A inconsistência é a sua natureza ideológica, já que seu programa é o de mobilizar as massas, grupos extremamente heterogêneos, estratos sociais em crise altamente diversificados, além de atrair e tranquilizar os poderosos fiadores da ordem social. O fascismo, assim, é uma mobilização radical em defesa da ordem. Nas palavras de João Bernardo, é a Revolta da Ordem. Uma revolta impulsionada pelo desejo de transformação radical das condições de vida do indivíduo sem colocar em causa os fundamentos da estrutura social responsável por produzir essas péssimas condições de vida”.[iii]
O antipetismo existe e foi muito bem delineado em suas fases históricas pela pesquisadora argentina Dolores Rocca Rivarola. Ela demonstra como o petismo nunca foi o espaço que condensou o ideário comunista, entretanto isso foi o núcleo narrativo da campanha de Fernando Collor.[iv] A imprensa corporativa, no entanto, reduz o fenômeno ao ódio a um partido quando se trata de uma sinédoque. É o ódio à democracia, ao feminismo, aos direitos sociais e trabalhistas, à igualdade e que se projeta no PT.
3.
Se não entendermos a questão assim, cairemos no modo Globo News de culpar o PT pelo antipetismo. Esse fenômeno representa valores enraizados na sociedade. Homens traduzem seu ressentimento diante do micro poder perdido na família, por exemplo, no PT. O bolsonarismo tem força e resiliência porque representa um modo de vida. São milhões de pessoas com uma forma comum de vida nos escalões intermediários entre a extrema pobreza e o trabalho formal. No entanto, são incapazes de uma articulação de baixo para cima e seu ressentimento atomizado é capturado pela manipulação racional de seu irracionalismo, ou seja: o fascismo.
Uma das dificuldades de entender o fascismo bolsonarista é seu ultra liberalismo e a subserviência aos EUA. Não vale a pena recordar que o início do governo Mussolini foi marcado pelo liberalismo econômico e anti liberalismo político. Outrossim, se o nazismo era industrialista, é porque esse é o aspecto que caracterizava fundamentalmente a burguesia alemã e sua inserção no mercado mundial. Isso serve para o agrarismo e o extrativismo integralista e bolsonarista.
Mas podemos evocar uma outra experiência histórica para tratar dessa relação servil da família Bolsonaro com os EUA. Em vez de olhar para a Alemanha ou Itália fascistas, podemos olhar para a França e outros países ocupados. Uma das facetas do fascismo é o colaboracionismo.
O tema sempre foi incômodo na memória francesa e a tendência do pós-guerra foi reduzi-lo a algumas figuras de proa da traição nacional. Mas aos poucos a historiografia foi demonstrando que se tratava de um fenômeno social amplo.[v] O colaboracionismo também foi uma modalidade de normalização do nazismo.
Em nosso contexto, duas atitudes foram fundamentais para a normalização do fascismo. A primeira foi a condescendência com o reacionarismo ideológico e político de amplos setores da sociedade brasileira, lidos como expressões legítimas que “a esquerda” não conseguiu ler. É impossível tirar leite de uma mamadeira de piroca, há de convir.
A intentona golpista não foi efeito de alguma dissociação cognitiva – seja lá o que for isso –, as pessoas não foram manipuladas e impelidas às ações do 8 de janeiro. “Dissociação cognitiva” é negar que as pessoas tinham intenção de fazer o que elas deliberaram e fizeram. Se alguém as conduziu ao erro, foi quem se esforçou em dizer que o fascismo era uma expressão política legitima da sociedade brasileira.
Hoje pagamos o preço de boa parte deles ter sido libertada, além da repressão não ter avançado sobre o núcleo financeiro, mas principalmente político do golpismo, o Partido Liberal, de Valdemar da Costa Neto. Caso não normalizássemos o fascismo, o partido teria sido proscrito, sua direção encarcerada e seu patrimônio confiscado.
4.
A segunda atitude foi a frente ampla, enfileirando nela cadáveres insepultos da Nova República, como os mortos vivos de Incidente em Antares de Érico Veríssimo. O que era necessário é ampliar o arco de alianças entre a heterogênea classe trabalhadora brasileira pós-desindustrialização. O sucesso com os muito pobres – e também com os muito ricos – nunca conseguiu ser reproduzido em relação aos setores da classe trabalhadora espremidos na baixíssima faixa de rendimentos entre 2 e 5 salários-mínimos.
Tão estreita quanto o orçamento desses trabalhadores, é o horizonte de expectativas em um mundo assolado pela destruição do trabalho vivo e o colapso ambiental. Não foi oferecido nada a esse grupo, a não ser arcabouço fiscal e, aos 45 do segundo tempo, a isenção do imposto de renda. O que não se percebeu é que a isenção interpelou um grupo que já havia sido convencido pelo trabalho de base do fascismo que a sonegação era o caminho; o imposto, roubo. Acrescente-se grande parte do país baseada no latifúndio e no extrativismo e que foi sistematicamente apoiado pelos governos progressistas.
Não aprendemos nada e não esquecemos nada entre o ajuste de Joaquim Levy e o de Fernando Haddad. Não conseguimos propor nada de concreto para um público cada vez mais disposto a pular do precipício. E para quem gostaria de superar a esquerda vigente, estamos uma vez mais a depender dos soldados vietnamitas do PT, apesar de seus generais de fancaria.
Embora o fascismo tenha uma base de massas de milhões de pessoas, há também milhões de trabalhadores e trabalhadoras, além de setores da classe média, que, por desesperança, por terem aspirações que vão muito além daquelas oferecidas pela esquerda, não foram votar ou votaram nulo ou branco.
Apesar de todos os erros cometidos, nós precisamos, agora, mais do que nunca, de um programa mínimo, bem direto, que aponte para a conquista de importantes direitos sociais, extremamente relevantes para combater o inferno cotidiano dos trabalhadores brasileiros. Uma verdadeira “Carta ao Povo Brasileiro”, ou melhor, uma “Carta ao Verdadeiro Povo Brasileiro”, assumindo o compromisso que no próximo mandato, por exemplo, haverá tarifa zero no transporte público; que haverá um combate aberto pela redução dos juros e contra o endividamento dos trabalhadores, além de promover uma mobilização constante da sociedade brasileira contra os retrocessos sociais que o Congresso tentará impor.
Em relação aos setores médios, vale aqui o mesmo que foi dito por nós há quatro anos: “É preciso assediar e dividir esse grupo, por meio de uma radicalização programática direcionada a ele, não reforçando seus preconceitos e assumindo suas bandeiras conservadoras. A classe média, como demonstrou ao longo das duas últimas décadas, tem sérias dificuldades de compreender e até mesmo de perceber os ganhos que teria em um governo petista. Para rachar esse grupo seria importante, por exemplo, assinalar uma transformação radical nas alíquotas do imposto renda para o financiamento de um robusto serviço público e o compromisso de combater os oligopólios da educação e da saúde, que escorcham esse setor por meio de mensalidades abusivas e serviços de qualidade duvidosa”.[vi]
*Fernando Sarti Ferreira é professor do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp e autor de A Contrarrevolução produtiva: Refluxo e estabilização do conflito social em Buenos Aires, 1924-1930.
*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de História do PT (Ateliê). [https://amzn.to/3RTS2dB]
Notas
[i] FERREIRA, F. S. “7 de abril de 2018”, in ESTHER, Solano; ZAIDEN, Aldo; VANNUCHI, Camilo. (Org.). Luiz Inácio Luta da Silva: Nós vimos uma prisão impossível. 1ed.São Paulo: Editora Contracorrente, 2018, p. 108-112.
[ii] A metáfora é usada aqui com o perdão dos animais, cuja força é instintiva e não fruto da vilania humana do fascismo.
[iii] Ver, por exemplo, FERREIRA, F.S. “Podemos falar de fascismo?”. Teoria e Debate, Edição 177, 15/10/2018.
[iv] Rivarola, Dolores R. “O golpe como antessala para a ascensão do fascismo”, in Menicucci, E. Secco, L. e Jacino, R. O Golpe de 2016. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2026, p. 29.
[v] Sevcenko, N. “Uma arqueologia do nazismo”, in Coggiola, O. Segunda Guerra Mundial. USP, FFLCH, 1995.
[vi] FERREIRA, F.S. “Weimar Tropical”, Boletim Maria Antonia, Ano 3, nº 13, 04/10/2022.




