Multidões saem às ruas e se engajam nas redes, desfazendo o mito de que é difícil mobilizar as maiorias. Bolsonarismo acena com corte radical nos serviços públicos, mas recua. Lula ainda resiste a reconquistar quem se decepcionou com governo
Por Antonio Martins, em Outras Palavras
A centelha foi lançada em Niterói na segunda-feira (5/10), ainda na ressaca do resultado de domingo. Alguém propôs aos estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) tirar o nó na garganta gritando nas ruas contra as ameaças do “neo”-fascismo à democracia e à própria ideia de Brasil. Faltam registros escritos (oh, ditadura das imagens!), mas no vídeo uma voz feminina e jovem cumpre, em menos de um minuto, o que faltou a Lula 3, ao longo de quase quatro anos. Convida a lutar por uma pauta clara e popular: o fim da jornada 6×1, um orçamento digno para a Educação, “para o bandejão, para os nossos cursos”. Ressalta a submissão de Flávio a Trump. Conclui: “ser jovem é ser antifascista, é lutar pelo poder do povo”.
Sua mensagem mobiliza de imediato — e repercute. Na terça e quarta, milhares de estudantes tomam as ruas em Salvador (UFBA e Uneb) Recife (Universidades Rural e Federal, onde um incêndio suspeito consumiu um edifício e equipamentos valiosos, horas depois), Belém, Caxias-MA, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Goiânia, Santa Maria-RS, Vitória, para contar apenas as que estão documentadas nas redes da UNE e da Mídia Ninja.
Ontem (7/10), o rastilho parece ter se espalhado, por meio da ETEC-Heliópolis (em São Paulo), aos secundaristas. No mesmo dia, no Rio, uma manifestação gigante tomou a Avenida Rio Branco e desaguou na Cinelândia. Pode ter reunido 100 mil, um público que foi além dos estudantes. As iniciativas são tomadas de forma autônoma, por DCEs e Centros Acadêmicos, mas a diretoria da UNE tenta estabelecer um calendário que inclui, além de assembleias (até 9/10), panfletagens em terminais de ônibus e metrô, Universidade nos Bairros (17 e 18/10) e um dia nacional de manifestações articuladas (21 ou 23/10, a definir).
Das ruas, a onda antifascista foi às redes. Na segunda, o deputado André Janones (Rede-MG) lançou o Exército do Lula, uma corrente de transmissão por meio da qual ele orienta ações destinadas a “furar a bolha” do WhatsApp. Partindo do zero, é possível que chegue a 3 milhões de participantes nesta quinta-feira (8/10).
A grandeza das mobilizações e a rapidez com que foram convocadas têm importância política ainda maior que seus números. Elas desmentem o mito sustentado, ao longo dos últimos quatro anos, pelos defensores do modelo ultraconservador de governança adotado por Lula 3. Segundo esta crença, os movimentos sociais estavam estruturalmente desmobilizados, e não restava ao governo outro caminho, senão implementar seu programa de modo lento e rebaixado, por meio de negociações com o Congresso (leia-se Centrão). O exemplo da UNE é emblemático. Jamais organizou protesto estudantil relevante, diante de seguidos bloqueios de recursos para Educação ou mesmo das ameaças do Ministério da Fazenda de eliminar a destinação obrigatória de um percentual do Orçamento para a área.
E as jornadas iniciadas esta semana serão ainda mais relevantes para o futuro, seja ele qual for. Se Lula vencer em 25/10, estará diante de um Congresso sedento de retrocessos e feroz. Manter-se impotente diante deste covil será aceitar a condição de fantoche. Querendo escapar, terá à disposição o elixir das ruas. Já em caso de vitória do bolsonarismo, a mobilização ensaiada agora será ainda mais indispensável — ou o único, ou o principal antídoto contra a escalada “neo”-fascista.
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Enquanto os estudantes inundavam as ruas, surgiram sinais de que, mesmo sem ter sido eleito. Flávio Bolsonaro já quer o pior — mas talvez não possa tudo o que deseja. Na terça-feira, ao receber o apoio de Ronaldo Caiado para o segundo turno, o candidato anunciou a intenção de servir-se da nova maioria ultraconservadora no Congresso para “mudar a Constituição” e “redemocratizar” o país. A expressão facial de Caiado sugeriu que ele próprio considerou temerária a fala, já que a Carta atual foi escrita precisamente para substituir a que fora imposta pelos militares em 1969. O que significaria esta “redemocratização”, enunciada pelo líder de uma corrente política que já tentou golpe de Estado? No dia seguinte, Flávio desmentiu-se parcialmente, afirmando referir-se “apenas” a PECs que já defende, como a da redução da maioridade penal, a de uma reforma (de que tipo?) do Judiciário e a de mudanças na mini-reforma tributária de 2024.
Um alarme mais alto soou nesta mesma quarta. Matéria da Folha de S.Paulo revelou: o candidato que se apresenta como “antissistema” manteve, nos últimos meses, sucessivos encontros com banqueiros e outros barões das finanças. Juntos, buscam um “ajuste fiscal” de brutalidade inédita. Incluiria medidas como deixar de reajustar as aposentadorias e o BPC segundo o salário mínimo, e eliminar a destinação obrigatória de receitas à Saúde e Educação.
Os rentistas a quem os assessores econômicos de Flávio apresentaram a sugestão a aplaudiram. Ainda mais, ao saber que o candidato pretende ver proposta votada no Congresso ainda este ano, antes de sua eventual posse. Ao fazê-lo, tentaria poupar a nova legislatura, de composição mais próxima à ultradireita, do desgaste.
Entre a opinião pública, porém, a ideia pegou mal. Tanto que, nesta quinta, Flávio viu-se obrigado a declarar que as conversas com os banqueiros não passavam de fake news, e que manterá os reajustes das aposentadorias. Ainda assim, confirmou a ideia de uma redução de gastos sociais da ordem de 2% do PIB. Deixou de dizer quais serão, nesse caso, as vítimas — e por que poupará os rentistas, o 0,1% da população que parasita, sozinho, 9% do PIB sem nada produzir…
Numa outra frente, que também revela o desconforto da ultradireita com as chamadas “pautas do povo”, o bolsonarismo pula miudinho para não se queimar no debate da PEC que reduz a jornada de trabalho e proíbe a escala 6×1. Ela começou a tramitar no plenário do Senado nesta terça-feira. O presidente da casa, Davi Alcolumbre, fala em votar, em primeira rodada (são necessárias duas), na próxima semana.
A ultradireita percebeu que sua tática inicial (ausentar-se das sessões) pode ser muito desgastante. Agora, pensa em uma artimanha: aprovar a proposta no Senado com uma alteração qualquer, em relação ao texto da Câmara. Isso devolveria o texto aos deputados e garantiria uma protelação que pode ser fatal à proposta, se a última palavra couber ao próximo Congresso.
A saia justa revela uma enorme oportunidade perdida pelo governo. O constrangimento da direita e ultradireita, e de seu candidato, seria imensamente maior se Lula tivesse deflagrado — como foi muitas vezes sugerido — uma campanha popular para pressionar os parlamentares pela redução da jornada…
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As ruas animadas pelo impulso antifascista. O candidato da ultradireita obrigado a recuos. Para que os primeiros dias da campanha pelo segundo turno fossem melhores, faltou apenas um sinal de ânimo — e, em especial, iniciativas políticas novas — por parte da campanha de Lula. Este produto continua muito escasso na praça.
A partir de segunda-feira, o candidato promoveu uma série longa de reuniões “de avaliação” da campanha. Encontrou-se com caciques petistas, com parlamentares-influenciadores, com o núcleo de sua campanha. Ouviu recomendações menores. Deverá, segundo elas, gravar mais lives — falando às câmeras sem intermediários. Começou a fazer isso, com resultados duvidosos.
Mudar a postura diante do celular resolverá os problemas de Lula? Na segunda-feira, começou a circular um vídeo em que o comunicador Pedro Dória sugere algo distinto. Na peça, ele, um liberal sincero, reforça o que análises como as de Outras Palavras sustentam há muito. Mas o faz, agora, escorado por uma vasta pesquisa sobre os resultados do primeiro turno, analisados em comparação aos de 2012.
A análise mostra que, embora tenha se manifestado em todo o país, o recuo de Lula concentrou-se num setor social específico: a população com renda entre 2 e 5 salários mínimos, em particular a que habita as franjas das grandes metrópoles (Osasco-SP, Betim-MG e Ananindeua-PA), por exemplo, ou das cidades médias, de até 50 mil eleitores. Este grupo, que foi essencial para as vitórias de Lula 1,2 e 3 e de Dilma 1 e 2, teria bandeado para Flávio. Não é fascista, nem nunca foi esquerdista. Beneficiou-se das políticas que o tirou, no início da década, de uma pobreza profunda.
Mas quer mais — e talvez nenhum setor social precise, tanto quanto este, de políticas públicas. Uma UBS que atenda de forma eficiente. Uma creche e escola pública que funcione em período integral. Transporte coletivo mais humano e rápido. Ruas urbanizadas. Segurança pessoal e segurança sobre o futuro, com menos riscos de perder o emprego e a renda. Controle dos juros e da dívida. Se possível, direito a trabalhar menos.
Ora, é esta exatamente a faixa que mais sofreu com a mediocridade das políticas públicas de Lula 3 – sempre diminuídas pela obsessão de Fernando Haddad e do mercado financeiro por “disciplina fiscal”. Não seria o caso de o presidente, no esforço final de luta pela reeleição, acenar para este setor de alguma maneira? Faça os cálculos. Tome, por exemplo, os entregadores que trabalham para plataformas. Devem compor hoje um grupo de 1 milhão de pessoas, intensamente conectadas à vida urbana e em diálogo com ela. Que se passaria se Lula 3 assumisse suas dores e propusesse ao Congresso um abono-férias de R$ 3 mil, pago uma vez por ano?
Este direito, que teria repercussão direta sobre 1 milhão de famílias e repercutiria muito além delas, custaria ao Estado 3 bilhões de reais. Representam, em relação ao R$ 1 trilhão que o Brasil paga por ano à rapinagem dos rentistas, míseros 0,3%. Em outras palavras, um dia de juros, frente aos 365 dias em que a sociedade serve o 0,01% mais rico.
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Lula 3 não deu o passo de retomar o investimento público, e talvez a campanha por Lula 4 não o dê também. Seria lastimável. Mas as dezenas de milhares de pessoas muito jovens, em protesto nas ruas neste início de segundo turno, expressam algo mais profundo. Elas comunicam que existe país possível.




