Por que, no segundo turno, voto em Lula por um país democrático, laico e soberano — e pelo respeito à fé que fez de Aparecida a mãe do povo brasileiro
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Eu não sou católica. Na verdade, sequer tenho religião. Mas tenho uma fé profunda nos ensinamentos de Jesus Cristo e uma devoção muito particular por Nossa Senhora Aparecida.
Acho que só tomei plena consciência dessa devoção depois da morte da minha mãe. Naquele período, procurei algum amparo no budismo tibetano. A experiência durou cerca de três meses. Cheguei a tomar refúgio, uma espécie de compromisso com aquele caminho espiritual, e recebi até um nome tibetano: Karma Lodro Palmo, que me foi apresentado com o sentido de “poderosa inteligência”. Minha prática estava ligada a Chenrezig, figura associada à compaixão.
Foi uma experiência importante, mas acabou me revelando outra coisa. Durante as práticas e recitações, percebi que, quando realmente entrava em estado de oração, não era o mantra budista que vinha à minha mente. Era a Ave Maria.
Ela surgia quase espontaneamente, como uma memória antiga, anterior a qualquer escolha racional. Era com aquelas palavras que eu conseguia me recolher, pedir proteção, agradecer e estabelecer meu diálogo com o divino.
Foi assim que entendi que havia em mim uma devoção a Maria muito mais profunda do que eu própria imaginava. Precisei passar por outra experiência espiritual para reconhecer uma linguagem de fé que já estava dentro de mim.
Talvez isso tenha relação com a importância das figuras femininas na minha vida, com a maternidade, o cuidado e a força que sempre associei às mulheres. Talvez tenha relação também com a morte da minha mãe e com a necessidade, naquele momento, de reencontrar alguma forma de presença materna. Não sei exatamente. Fé é uma dessas coisas que a gente tenta explicar, mas nunca consegue por inteiro.
Nossa Senhora Aparecida fala diretamente ao meu coração. Nos meus exercícios de meditação, é o seu manto azul que imagino envolvendo aquilo por que peço bênção, cuidado e proteção. É uma imagem simples, mas é nela que encontro amparo.
A santinha que atravessou o mundo comigo
E ela veio comigo para a China. Antes da mudança, no meio da confusão das malas e daquela conta impossível entre o que cabia e o que precisava ficar, eu estava na dúvida se traria uma das várias imagens que tenho da minha santinha. Minha amiga e comadre, Marcia Marques, que conhece bem a minha devoção, acompanhou essa agonia e encontrou uma solução: disse que me daria uma Nossa Senhora que não ocuparia espaço. Encomendou no Santuário de Aparecida um pequeno pingente e eu embarquei para a China já com ela no pescoço.
Por volta de abril, o cordão se embolou. Fui tentar soltá-lo perto da pia e, num segundo de descuido, o pingente caiu pelo ralo. Chamei a manutenção, tentei recuperar, mas não teve jeito. O cano engoliu minha Nossa Senhora. Confesso que chorei. Marcia, quando soube, não pensou duas vezes: providenciou outro pingente e encontrou um amigo que pudesse trazê-lo até mim. Pouco tempo depois, eu já estava novamente com Nossa Senhora no pescoço, desta vez entregue em minhas mãos aqui na China.
Dois dias depois, sofri um acidente de moto. Bati a cabeça, me machuquei e levei um susto enorme. Poderia ter sido muito pior, mas não foi. E ninguém me tira a certeza íntima de que, naquele momento, o manto de Nossa Senhora Aparecida estava sobre mim.
Pode ser fé, pode ser devoção, pode ser a forma que encontrei para dar sentido ao susto e ao alívio. Para mim, é proteção. E foi ali, do outro lado do mundo, que senti mais uma vez que ela tinha vindo comigo.
A santa que veio das águas
Talvez por isso a história de Maria, e especialmente de Aparecida, me toque tanto. Ela apareceu das águas pequena, quebrada e escura.
Em 1717, três pescadores — João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia — lançavam suas redes no rio Paraíba do Sul, na altura do Porto de Itaguaçu, então pertencente à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, na atual região do Vale do Paraíba, em São Paulo. Foi ali que encontraram primeiro o corpo e depois a cabeça de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Segundo a tradição, depois daquele encontro, as redes que até então voltavam vazias se encheram de peixes.
Foi assim, pelas mãos de gente comum, que começou uma das devoções mais profundas da história brasileira. Antes de qualquer reconhecimento oficial, antes de papas, presidentes ou do gigantesco Santuário de Aparecida, aquela pequena imagem já reunia pessoas em torno de si. Sua força nasceu de baixo para cima, em um Brasil marcado pela escravidão.
Uma das histórias mais conhecidas da tradição de Aparecida é a de Zacarias, homem negro escravizado que havia fugido e foi recapturado. Ao passar diante da imagem, teria pedido para rezar. Segundo a narrativa religiosa, as correntes que o prendiam se soltaram. Seja como tradição de fé ou como memória transmitida por gerações, a história passou a integrar profundamente o imaginário de Aparecida.
A santa foi sendo reconhecida como próxima dos pobres, dos negros, dos trabalhadores e dos oprimidos. A pequena imagem escurecida pelo tempo ganhou no imaginário brasileiro uma dimensão ainda maior: tornou-se também uma mãe negra em um país construído sobre séculos de escravidão.
Primeiro, o povo. Depois, o poder
Só muito depois o poder político percebeu a força do símbolo que o povo havia construído.
Em 1930, o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil. No ano seguinte, uma grande cerimônia no Rio de Janeiro marcou solenemente o título. Getúlio Vargas, que havia chegado ao poder após a Revolução de 1930, participou daquele momento.
Vargas não criou a devoção nem foi responsável por conceder o título de padroeira. Seu governo, porém, percebeu a extraordinária capacidade de Aparecida de funcionar como símbolo de unidade em um país imenso, desigual e ainda em busca de uma identidade nacional mais consolidada.
Há algo muito bonito nisso. Muitos símbolos nacionais são criados pelo Estado e depois apresentados ao povo. Com Aparecida ocorreu o contrário: o povo a escolheu primeiro. O poder veio depois.
Antes que o Brasil a reconhecesse oficialmente como padroeira, os brasileiros já a haviam escolhido como mãe.
Quando a fé vira disputa de poder
É justamente por isso que qualquer disputa política em torno de Nossa Senhora Aparecida mexe comigo de um jeito que vai muito além de um título religioso. Nos últimos meses, voltou a circular a preocupação de que ela possa ser alvo de um projeto político que diminua seu lugar simbólico no país. Não existe, até agora, uma proposta formal de Flávio Bolsonaro para retirar dela o título de Padroeira do Brasil, e eu não quero transformar receio em fato. Mas também não consigo tratar essa inquietação como se tivesse surgido do nada.
Há um histórico que me faz prestar atenção. Já houve no Congresso uma proposta para restringir o título de Aparecida apenas aos católicos, apresentada por um pastor que depois integrou o governo Bolsonaro. Flávio mantém proximidade com o bispo JB Carvalho, líder religioso que já fez críticas duríssimas à devoção mariana e defendeu que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser reconhecida como Padroeira do Brasil. E tudo isso acontece em um país que ainda guarda na memória a cena de uma imagem da santa sendo chutada em rede nacional.
Nada disso me autoriza a afirmar que Flávio fará o mesmo ou que exista um plano pronto contra Aparecida. Mas me autoriza, sim, a prestar atenção quando o próprio candidato fala em decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, como se uma determinada interpretação do cristianismo pudesse falar em nome de toda a sociedade.
Talvez seja justamente por eu não ter religião que isso me incomode tanto. Para mim, a fé só faz sentido quando é livre. Nossa Senhora Aparecida nunca precisou de coerção, decreto ou imposição para se tornar parte do Brasil. O povo chegou até ela por devoção, memória, dor, gratidão e esperança. É esse lugar espontâneo, popular e profundamente brasileiro que eu não gostaria de ver transformado em instrumento de poder.
Não sou a única a me preocupar com isso. Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo de Campos, já advertiu que um presidente pode professar livremente a própria fé, mas não transformar essa crença em política de Estado. A própria CNBB tem insistido nesta eleição que nenhum partido ou candidato representa sozinho os cristãos e que a fé não deve ser instrumentalizada politicamente.
É aí que está, para mim, o ponto principal. Não se trata de imaginar um decreto que não existe, mas de observar a disputa em torno do significado do Estado laico, de quem pretende falar em nome do cristianismo e de até onde uma maioria religiosa pode tentar impor sua visão ao conjunto da sociedade.
Por isso, não acho que essa questão possa ser descartada simplesmente como uma fake news. Há exageros e informações falsas que precisam ser corrigidos, claro, mas existe também um contexto real que merece atenção. Para quem conhece a história de Nossa Senhora Aparecida — a santa encontrada por pescadores e associada, ao longo de sua trajetória, aos negros escravizados, aos pobres e a uma identidade brasileira profundamente popular —, essa atenção me parece legítima.
A mãe do Brasil que eu quero preservar
Nossa Senhora Aparecida não pertence a um partido nem a um governo. E a dimensão que adquiriu na cultura brasileira há muito ultrapassou os limites de uma devoção estritamente institucional.
Ela está nas romarias, nas promessas, nas velas acesas, nas casas simples, nos altares improvisados, nas músicas, nos terços das avós, nos caminhões que atravessam as estradas com sua imagem, nas mães que colocam os filhos sob seu manto e nas pessoas que, como eu, não pertencem formalmente à Igreja Católica, mas encontram nela uma linguagem para falar com o sagrado.
Hoje, 12 de outubro, o Brasil celebra Nossa Senhora Aparecida e também o Dia das Crianças. Essa coincidência de calendário acabou produzindo uma associação muito brasileira entre maternidade, infância, cuidado e proteção.
Talvez seja por isso que Aparecida sobreviva tão bem às tentativas de enquadrá-la. Ela é maior do que as instituições que tentam defini-la. Sua história atravessou a escravidão, a República, Vargas, ditaduras, a redemocratização e profundas mudanças na composição religiosa do país.
Pequena, quebrada e escura, ela saiu das águas pelas mãos de pescadores e atravessou mais de três séculos até se tornar um dos símbolos mais reconhecidos do Brasil. Antes que o Estado a proclamasse padroeira, o povo já a havia escolhido como mãe. Talvez seja justamente aí que esteja sua maior força.
No próximo dia 25 de outubro, meu voto é 13. Eu voto em Lula por um Brasil democrático, laico e soberano, onde todas as crenças sejam respeitadas e onde Nossa Senhora Aparecida, símbolo de fé, acolhimento e esperança para o povo humilde e sofrido, continue ocupando o lugar que conquistou na história e no coração dos brasileiros.
No segundo turno, eu voto Lula presidente.




