Há democracia no local de trabalho? País registra 1,2 mil denúncias de patrões promovendo assédio eleitoral contra empregados. Fim da escala 6×1, a ser votado hoje, e implementação da NR-1 são caminhos para virar o jogo a favor de quem trabalha
Por Bruno Chapadeiro Ribeiro, Outra Saúde
“Blz. Obrigado. Deixa o pau torar. O crime compensa.”
A resposta, enviada por e-mail ao Ministério Público do Trabalho – MPT, é da CP Locações & Transportes, de Belo Horizonte. O MPT havia recomendado que a empresa parasse de prometer folga aos empregados caso determinado candidato vencesse no primeiro turno. Vieram a ação civil pública e uma liminar da Justiça do Trabalho com multa de R$ 30 mil, como noticiou o Metrópoles. O MPT pede ainda R$ 150 mil por dano moral coletivo.
Notem o que a frase confessa. Há ali a convicção de que o voto de quem trabalha é assunto da casa, como o horário do almoço ou a cor do uniforme. E há uma aposta, a de que, como quase sempre, nada vai acontecer. Poucas linhas resumem tão bem a relação entre trabalho, saúde mental e democracia no Brasil de 2026.
No último sábado, 10 de outubro, tivemos o Dia Mundial da Saúde Mental. No ano passado, nesta mesma data, escrevi aqui que o dia vinha sendo tratado cada vez mais como data de marketing e de slogans, e que não adianta individualizar o sofrimento psíquico sem transformar o trabalho. Em 2022, também no intervalo entre o primeiro e o segundo turno, publiquei na Coluna Opinião do blog Multiplicadores de Visat da Fiocruz, um texto chamado “Saúde mental e democracia”. Era um texto de urgência, de quem tinha acabado de desaposentar a banquinha de vira-voto de 2018 para conversar com gente indecisa nas praças da periferia. E que se registre, entre “Cila e Caríbdis”, nesse 2026 a banquinha vira-voto foi oficialmente mais uma vez desaposentada. E na companhia dela e de diversos indecisos, passei meu fim de semana em praças públicas conversando com as pessoas sobre nosso pleito eleitoral deste ano.
Em 2022, tomei emprestada de Eliane Brum a ideia de que andávamos todos “doentes de Brasil”. A tese continua de pé: poucas coisas pesaram tanto sobre a nossa saúde mental, na última década, quanto o estado da nossa democracia. Quatro anos depois, o quadro mudou, e nem tudo para pior. Em setembro de 2025, o ex-presidente da República foi condenado pelo Supremo a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. A Justiça do Trabalho, que em 2022 ainda tateava diante do assédio eleitoral, passou a condenar empresas no Tribunal Superior do Trabalho – TST. Mas o filho do ex-presidente terminou o primeiro turno na frente, com 47% dos votos válidos contra 45% de Lula, as pesquisas da véspera erraram a ordem de chegada e cerca de 33 milhões de eleitores (21% do total, um recorde) não foram votar. Na pesquisa Datafolha divulgada na semana passada, 73% disseram que a democracia é sempre a melhor forma de governo. Em outubro de 2022, eram 79%.
Faltam quinze dias para o segundo turno. Proponho usar alguns deles para pensar no que a política faz com o corpo e a cabeça de quem trabalha, e no que se pode fazer a respeito.
A eleição passa pelo corpo
Nos Estados Unidos, um estudo com quase 500 mil adultos comparou a saúde mental autorrelatada antes e depois da eleição de 2016. Nos estados em que Hillary Clinton venceu, os dias de saúde mental ruim subiram, em média, meio dia por mês entre outubro e dezembro, o que somou 54,6 milhões de dias a mais num único mês. Nos dois dias seguintes ao pleito, as internações por infarto e AVC numa grande rede de saúde da Califórnia foram 62% maiores do que na semana anterior. Na pesquisa anual da Associação Americana de Psicologia, a eleição presidencial era fonte significativa de estresse para 52% dos adultos em 2016, 68% em 2020 e 69% em 2024, quando 72% temiam que o resultado terminasse em violência.
Num estudo publicado este ano no Milbank Quarterly, o custo da eleição de 2024 para a saúde mental foi maior entre os derrotados, e maior ainda entre os que tinham mais a perder com as mudanças nas políticas de saúde. Para quem depende do Sistema Único de Saúde – SUS, do Bolsa Família, da aposentadoria ou de um direito trabalhista, a eleição decide coisas da vida cotidiana. A angústia, nesses casos, é uma leitura bastante precisa da realidade.
E no Brasil? Não sabemos, e isso já diz muito. Nas bases científicas que consultei, não há um único estudo populacional sobre a saúde mental dos brasileiros em torno das eleições de 2018 e de 2022, ou depois do 8 de janeiro de 2023. Há reflexões sobre o estímulo à violência na campanha de 2018, há reportagens, há a escuta clínica. Há uma pesquisa Datafolha de julho de 2022 em que 49% diziam ter deixado de falar de política com amigos e familiares para evitar briga, e 54% relatavam constrangimento ou ameaça por causa de posição política. E há o levantamento da Terra de Direitos e da Justiça Global divulgado nesta semana: 134 episódios de violência política nos 50 dias de campanha do primeiro turno, um a cada nove horas, com dois assassinatos. Mulheres foram 52% das vítimas, embora fossem 35% das candidaturas, e até o fechamento do levantamento nenhum caso havia resultado em punição. Somos um país que adoece de política e ainda não se deu ao trabalho de contar quantos adoecem.
Em 2022, mencionei o tal “Transtorno do Estresse Pós-Eleitoral”, com a ressalva de que não se tratava de patologizar todas as instâncias da vida. A ressalva merece hoje mais ênfase. Um estudo americano estimou em 12,5% a proporção de adultos com sintomas de estresse pós-traumático ligados à eleição de 2020, mas com questionário de rastreio, sem diagnóstico. Ninguém precisa de um código novo na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – CID para entender que o medo de perder direitos dá medo. Dar nome de doença a esse medo transforma uma reação política em problema individual, a ser tratado com psicofármaco e, se possível, com um aplicativo.
O algoritmo também faz campanha
Depois do atentado da maratona de Boston, em 2013, pesquisadoras da Universidade da Califórnia encontraram algo desconcertante: quem passou seis horas por dia ou mais acompanhando a cobertura do ataque relatou mais estresse agudo do que quem estava no local. Nos protestos de 2019 em Hong Kong, uma coorte acompanhada desde 2009 viu a provável depressão saltar para 11,2% dos adultos, contra 1,9% em 2009–2014; passar duas horas ou mais por dia nas redes esteve associado ao adoecimento, e o apoio familiar protegeu. Uma revisão de 52 estudos mostrou que, depois de grandes protestos, a depressão sobe na população inteira, inclusive entre quem não foi às ruas. Ninguém precisa levar uma pedrada para adoecer num clima de ameaça. Basta assistir.
E esse clima tem quem o alimente. Ao analisar mais de 2,7 milhões de posts de veículos de imprensa e parlamentares americanos, um estudo de 2021 que versa sobre a animosidade impulsionando o engajamento nas mídias sociais mostra que cada palavra sobre o grupo político adversário aumentava em 67% a chance de compartilhamento. As plataformas não inventaram a raiva, mas descobriram que ela dá lucro. Não por acaso, segundo o Digital News Report 2026, 47% dos brasileiros dizem evitar notícias às vezes ou com frequência.
A resposta de sempre é a do autocuidado: desligue o celular, respire, saia do grupo da família. Funciona um pouco. Mas, outro estudo, este sobre os custos diários da política, observou-se que os acontecimentos políticos produzem emoções negativas e pior bem-estar, e também mais disposição para agir: protestar, se voluntariar, se organizar. Quem conseguia regular essas emoções, por exemplo se distraindo, sentia-se melhor. E agia menos.
Há também uma notícia menos sombria, e ela vem daqui. Uma pesquisa publicada em junho na Nature Communications acompanhou eleitores brasileiros antes, durante e depois das eleições de 2022. A hostilidade entre lulistas e bolsonaristas, já intensa antes da campanha, diminuiu depois do pleito, e corrigir as ideias erradas que um grupo fazia do outro a reduziu em até 6,66 pontos percentuais. Boa parte do ódio político se dirige a uma caricatura do adversário. Conversa e informação, portanto, ainda servem para alguma coisa.
O dono do voto
Em 2018, o MPT recebeu 212 denúncias de assédio eleitoral. No ciclo de 2022, foram 3.371, segundo o painel do próprio órgão, a imensa maioria depois do primeiro turno, exatamente o intervalo em que estamos agora. Em 2026, até o domingo da votação, já eram 991, com São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro à frente, e na sexta-feira passavam de 1.200. Entre janeiro e setembro, o número foi 823% maior que no mesmo período de 2022. Parte do salto vem de mais gente sabendo que pode denunciar. A outra parte, não.
O repertório é conhecido, que passam por promessas de folga ou bônus se o candidato “certo” ganhar, ameaça de corte se o “errado” vencer, discurso de candidato na reunião matinal, camiseta obrigatória, presença cobrada em ato de campanha fora do expediente. Numa amostra nacional de ações analisada pelo TST e pelo CSJT, o WhatsApp aparece em 37% dos casos. O assédio já não espera a segunda-feira, pois vem mediado pelo celular, à noite, no grupo da equipe. No Pará, em 2022, o RH de uma empresa de dendê enviou a 79 aprendizes, adolescentes de 14 a 18 anos, mensagem ameaçando cortes caso a oposição vencesse, e o TST restabeleceu a condenação de R$ 4 milhões. No caso de um vendedor da Havan obrigado a vestir cores e slogan de candidato e exposto às lives do dono, com ameaças de demissão, o relator no TST, ministro Alberto Balazeiro, chamou a prática de forma moderna de voto de cabresto.
A Stara, fabricante gaúcha de máquinas agrícolas e um dos casos que listei em 2022, fechou acordo de R$ 1,5 milhão na Justiça do Trabalho em 2023 e se comprometeu a avisar seus empregados, nas campanhas de 2024 e de 2026, de que têm o direito de votar livremente, sem direcionamento. Por força de um acordo judicial, os murais da empresa deveriam estar dizendo agora aquilo que nenhum mural deveria precisar dizer. Sindicatos, a Inspeção do Trabalho e Cerests da região têm aí um bom motivo para uma visita.
O que o assédio eleitoral faz com quem o sofre? Ninguém mediu. Nas bases científicas que consultei, não há estudo sobre seus efeitos na saúde mental. Há ciência política: nos Estados Unidos, o artigo “Empregadores americanos como Máquinas Políticas” publicado no Journal of Politics em 2016, mostrou que os pedidos políticos dos patrões funcionam tão bem quanto os de sindicatos e partidos, e melhor ainda quando acompanhados de alertas sobre perda do emprego e da possibilidade de vigiar o empregado. O assédio eleitoral é instrumento de gestão, e dos eficazes.
Mas conhecemos bem os ingredientes. A insegurança no emprego aumenta em cerca de 50% a chance de problemas de saúde mental, segundo meta-análise de estudos longitudinais. Uma revisão publicada este ano no Scandinavian Journal of Work, Environment & Health associou a insegurança no emprego a risco 64% maior de suicídio e o assédio moral a risco 78% maior, com a ressalva, dos próprios autores, de que a certeza dessas estimativas ainda é baixa. Tratei desses números no mês passado, aqui mesmo. O assédio eleitoral reúne numa só conversa a ameaça ao emprego, a assimetria de poder e a vigilância. Reconhecê-lo como dimensão psicossocial do trabalho, e não como deslize de um chefe isolado, é o primeiro passo para que entre no inventário de riscos psicossociais das empresas. Temos aí a campanha lançada em agosto por TSE, TST e MPT sobre o assédio eleitoral, bem como a Resolução TSE nº 23.755/2026 que passou a vedar propaganda e assédio eleitoral em ambientes de trabalho públicos ou privados, responsabilizando também quem permite.
Democracia faz bem à saúde
Parece frase de faixa, mas é achado epidemiológico. Numa análise observacional das relações entre experiência democrática, saúde adulta e mortalidade por causa específica em 170 países entre 1980 e 2016 publicado no The Lancet em 2019, demonstrou que a experiência democrática explicou 22% da variação da mortalidade cardiovascular dentro de cada país, mais do que o Produto Interno Bruto – PIB, e a associação com as doenças crônicas desaparecia quando se retiravam da medida as eleições livres e justas. O que protege, ao que tudo indica, é a possibilidade de trocar quem governa. No caminho inverso, em 17 países que se autocratizaram, a cobertura universal de saúde cresceu pouco mais da metade do que teria crescido sem a erosão democrática. Nos Estados Unidos, estados mais democráticos tiveram menor mortalidade entre adultos em idade de trabalhar, inclusive por suicídio.
O dado mais eloquente é nosso. Com a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, pesquisadores do Cidacs/Fiocruz mostraram que o risco de suicídio caiu pela metade entre beneficiários do Bolsa Família: 5,4 por 100 mil, contra 10,7 entre não beneficiários. Uma política pública discutida no Congresso e disputada nas urnas alcança a pergunta mais íntima que alguém pode se fazer.
Cabem duas ressalvas. A primeira: ainda é escassa a evidência direta de que a democracia reduz depressão ou ansiedade. O que os estudos mostram é que ela sustenta aquilo que nos protege, como renda, serviço público, direitos e alguma previsibilidade. A segunda é mais incômoda. Num estudo com 194 países, a democracia só se associou à implementação de políticas contra doenças crônicas onde a influência das grandes corporações era baixa. Em 2022, citei Pedro Abramovay e Gabriela Lotta, em A democracia equilibrista, sobre a importância de observar o poder privado dentro do Estado. A epidemiologia chegou ao mesmo lugar por outro caminho.
Há ainda um circuito preocupante. Pessoas com sintomas depressivos mais graves votam menos, perdem interesse pela política e se sentem menos capazes de influenciá-la. Ninguém sabe quantos daqueles 33 milhões de ausentes ficaram em casa por desalento. Mas o circuito é fácil de desenhar: o sofrimento afasta da política, a política fica com quem não sofre, e quem não sofre não tem pressa de mudar o que faz os outros sofrerem. Até no serviço público, que deveria ser a face visível da democracia, em artigo de Lotta, Tavares e Story de 2023 publicado na Governance, os autores encontraram servidores brasileiros que, sentindo-se atacados politicamente, relatavam mais exaustão emocional e mais sintomas físicos.
A democracia que para no portão do trabalho
Uma revisão de 59 estudos prospectivos concluiu, com evidência moderadamente forte, que a baixa margem de decisão e o assédio moral levam ao desenvolvimento de sintomas depressivos. A combinação de muita exigência com pouco controle se associa a até 77% mais risco de depressão clínica. E, entre as intervenções organizacionais, as que aumentaram de fato o controle dos trabalhadores tenderam a melhorar a saúde mental, enquanto as que combinaram “participação” com demissões pioraram tudo.
O alerta vale para a participação de fachada. Uma meta-análise publicada este ano não encontrou efeito das intervenções participativas sobre a saúde mental, e a explicação provável está no formato: a roda de conversa em que todos falam e nada muda não protege ninguém, e ainda ensina que falar não adianta. A própria Lancet, numa série de 2023, criticou o foco desproporcional em intervenções sobre o indivíduo em detrimento das condições de trabalho. Mais uma vez precisamos desenhar: sofrimento não reside no sujeito, mas nas relações entre a organização do trabalho e a subjetividade de quem trabalha.
A Organização Mundial da Saúde – OMS escolheu para este 10 de outubro o tema Lived experiences heard: real voices, real change, algo como “experiências vividas, ouvidas: vozes reais, mudança real”, sob o lema “nada sobre nós sem nós”, velho conhecido da luta antimanicomial.
Quinze dias: o que fazer
Outubro chegou dividido ao meio. Não há garantia de que agir junto faça bem à saúde: participar de movimentos que conquistam algo traz sensação de potência, e dos que fracassam, tristeza e esgotamento. Mas a alternativa já conhecemos: anestesiar-se para sofrer menos, importar-se menos, agir menos e deixar a decisão com quem não tem pressa nenhuma de mudar o que nos adoece. Para estes quinze dias, algumas tarefas:
- Denunciar. Assédio eleitoral é ilegal e pode ser denunciado no canal do MPT. Sindicatos podem receber relatos e encaminhá-los, protegendo a identidade de quem denuncia.
- Cuidar sem despolitizar. Serviços da Rede de Atenção Psicossocial – RAPS, Cerests e profissionais de saúde mental podem acolher o sofrimento do período eleitoral sem convertê-lo em diagnóstico, e registrar quando ele tiver origem no trabalho.
- Cobrar das candidaturas que disputam o segundo turno, para a Presidência e para os governos estaduais, posição pública sobre a NR-1, a Convenção n. 190 da Organização Internacional do Trabalho – OIT e, principalmente sobre o fim da Escala 6×1.
- Conversar. Uma banquinha de vira-voto só serve para alguma coisa se quem se senta atrás dela escuta antes de falar. É a única forma de conversa que não repete, em miniatura, aquilo que adoece no trabalho: alguém mandando e alguém obedecendo.
- Votar com a própria cabeça. No meu voto mando eu.
Uma empresa apostou, por escrito, que o crime compensa. Os próximos quinze dias são uma boa oportunidade para fazê-la perder a aposta.




