Incêndios criminosos atingem a sobrevivência da natureza e de comunidades na zona rural de Itacoatiara (AM)

Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional), com informações da CPT Regional Amazonas

Já duram mais de 20 dias os fortes incêndios criminosos que atingem áreas de uso tradicional dos povos da região do Lago do Canaçari, zona rural dos municípios de Itacoatiara e Silves, no Amazonas, reproduzindo uma triste realidade que também tem acontecido em diversas outras áreas amazônicas, em pleno verão agravado pelos impactos do El Niño.

O fogo é reconhecido pelos moradores locais como criminoso, e um dos suspeitos de envolvimento no caso é um pecuarista da região que, segundo informações levantadas junto às comunidades, ele costuma praticar pesca predatória em uma área de reprodução do pirarucu, o que tem causado problemas à gestão das comunidades no que se refere às iniciativas de preservação ambiental e de espécies estratégicas para a subsistência. Outros empresários e fazendeiros também são suspeitos de envolvimento com as queimadas.

“Até agora, são quase 2 mil hectares de floresta destruídos. É a maior queimada que já ocorreu nessa região. O fogo destruiu áreas de quase todas as nascentes do lago do Canaçari; muitas espécies de árvores nativas e frutíferas de igapós e terra firme, ninhos de pássaros e milhares de vidas silvestres se tornaram cinzas, e essa destruição está crescendo a cada dia. Suspeita-se ainda que os crimes ambientais têm viés político. Vai demandar que procuremos cada vez mais apoio”, afirma a coordenação da CPT no Amazonas.

Agente pastoral na região, Raimundo Nonato Fernandes (Naca) compartilha os dias de sufoco das famílias para tentarem combater o fogo, muitas vezes não podendo chegar perto, devido ao calor. Roçados próximos também foram atingidos.

“Eu, com 68 anos, nunca tinha visto uma queimada assim. É muito triste ver uma situação dessa. O fogo matou mais de 140 espécies de árvores frutíferas, que dão frutas para alimentar os peixes, as caças e nós, seres humanos. Árvores como castanhal, seringal, açaizal, cupuzal, tucumanzal, foi tudo queimado. Essa região de nascentes é um lençol onde o pirarucu se desenvolve, onde outras espécies de peixes desovam”, lamentou Raimundo Nonato.

Uma das áreas de vegetação mais atingidas são as chamadas “casolas”. Casola é o capim do tipo membeca, que nasce em cima das árvores durante as cheias, e permanece depois no tempo da seca, criando uma espécie de cabana e, ao mesmo tempo, um berçário natural. O fogo descontrolado nas folhas secas traz diversos danos à vida das aves que fazem ninhos. Filhotes de pássaros foram queimados, além de insetos e outros animais.

Para impedir que as chamas avancem, moradores abriram aceiros, faixas de vegetação limpa que ajudam a conter o fogo. Para o controle do fogo, a região contou com a presença de brigadistas e o apoio do Corpo de Bombeiros, prefeitura, Defesa Civil e secretarias estadual e municipais. Contudo, os governos ainda não divulgaram o tamanho dos impactos socioambientais causados pelos incêndios criminosos e nem notificaram os possíveis responsáveis pelo crime ambiental.

“Ainda bem que o fogo não foi para a área de preservação, onde se concentra a maior parte do pescado, porque seria um desastre ainda maior”, relembra Jorge Barros, da CPT Amazonas. No ambiente urbano, a fumaça encobriu a cidade e piorou a qualidade do ar, fazendo a Defesa Civil emitir um alerta recomendando o uso de máscaras.

Além do Lago do Canaçari, há focos de incêndio em outras localidades da zona rural de Itacoatiara, como Jacarezinho, Rio Arari e Rio Urubu, com mais de 45 dias de fogo. Na região do Jacarezinho, a área queimada já somava 256,71 hectares na sexta-feira (09), o equivalente a cerca de 360 campos de futebol. O fogo também atinge parte da Terra Indígena Paraná do Arauató, tradicionalmente ocupada pelo povo Mura.

“A gente não quer que nenhum ser humano e nenhum animal morra de fome, porque a natureza é tão bela, tão sensível, e é de todos nós, tanto de quem queima quanto de quem não queima. As futuras gerações dependem dessa preservação, desse cuidado”, relembra, emocionado, o agente pastoral Naca.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

12 + 14 =