“Um recado para quem quer abrir os olhos”, descreve Silvio Cavuscens, indigenista e sociólogo
Por Silvio Cavuscens*, no Cimi
“Em que Brasil e em que mundo queremos viver?” Essa pergunta traduz o desafio colocado pelo segundo turno da eleição presidencial, no próximo dia 25 de outubro de 2026. Hoje, não se trata somente da disputa entre esquerda e direita, entre a velha e a nova guarda ou, finalmente, entre Lula e Flávio Bolsonaro ou entre o PT e o PL. O que está em jogo vai muito além do que vem sendo apresentado de modo absurdamente limitado.
Tenho 71 anos. Há mais de cinco décadas vivo na Amazônia, acompanhando a luta dos povos indígenas e dos movimentos sociais. Uma região onde foram implantados grandes projetos de desenvolvimento, onde vive uma população historicamente esquecida pelo país e onde se tentou, e ainda se tenta, fazer tábua rasa de culturas milenares, ameaçando também a maior floresta tropical do mundo.
O que está em jogo é o próprio destino da nossa humanidade, diante das grandes contradições e dos graves problemas provocados por um modelo econômico e político que concentra seus benefícios entre os mais ricos, grandes grupos empresariais e setores que lucram até mesmo com a ilegalidade.
As mudanças climáticas e as catástrofes que atingem populações inteiras; as permanentes guerras promovidas contra nações pobres ou indefesas; o domínio exercido por potências como os Estados Unidos sobre outras nações; e as pressões sobre as riquezas brasileiras, entre elas as terras raras, fazem parte desse cenário. A ele se somam a usurpação e a redução sistemática dos direitos e do bem-estar da população trabalhadora mais pobre, das minorias e daqueles que possuem outras culturas e modos de viver.
“Minhas referências permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da nossa legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de caminhos mais democráticos e participativos”
Na minha compreensão, o projeto político representado por Flávio Bolsonaro reforça esse modelo e ameaça aprofundar suas consequências no Brasil. Nesse jogo de poder, Lula representa a possibilidade de o Brasil garantir sua soberania, promover maior igualdade de direitos e fortalecer seu papel mediador nas relações internacionais. Representa também a possibilidade de contribuir para o fortalecimento das Nações Unidas e para a busca da paz, assim como de ampliar seu protagonismo na construção de um país e de um mundo mais sustentáveis, justos e humanos.
É preciso, contudo, reconhecer que o governo Lula também carrega contradições profundas. Os avanços na proteção ambiental convivem com a aposta na abertura de novas fronteiras petrolíferas, como na Margem Equatorial. Na Amazônia, cabe também questionar até que ponto suas políticas enfrentam ou reproduzem um modelo que subordina os territórios e os rios às demandas da mineração, do agronegócio e do escoamento de mercadorias, em detrimento da vida e dos modos próprios de existência dos povos da região.
Vejo nessa escolha a persistência de uma concepção de desenvolvimento que promete superar a dependência econômica ampliando a exploração dos recursos naturais. Como conciliar essa aposta com a responsabilidade de enfrentar a crise climática e assegurar um futuro às próximas gerações? Para quem acompanha há mais de cinco décadas as consequências dos grandes projetos na Amazônia, essa contradição exige uma posição crítica.
Por essa razão, deixo claro que a minha posição diante destas eleições não representa um cheque em branco a Lula. Reconhecer diferenças entre os projetos políticos exige também cobrar coerência de quem afirma defender a democracia, a justiça social e o equilíbrio ambiental. Esses compromissos precisam orientar as decisões de governo, inclusive quando contrariam interesses econômicos e alianças políticas. Minhas referências, nesse contexto complexo e emaranhado, permanecem sendo a defesa da dignidade humana, o cumprimento da nossa legislação, a construção de perspectivas mais sustentáveis e a busca de caminhos mais democráticos e participativos.
“A dignidade dos povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda de troca”
Entendo que governar é uma arte e um ofício que Lula aprendeu a dominar e que exige capacidade de diálogo, negociação e responsabilidade. Todavia, a dignidade dos povos e os limites da natureza não podem ser tratados como moeda de troca. É também por esses critérios que teremos que cobrar coerência de seu governo. O exercício de governar não pode ser reduzido à politicagem, às notícias falsas ou ao uso político de questões tão sérias quanto a religião e a espiritualidade, como tenho observado, de modo extremamente imaturo e irresponsável, no campo bolsonarista.
Neste momento tão importante de nossas vidas, não podemos ficar em cima do muro, nem agir com egoísmo. Cada um de nós tem uma responsabilidade como cidadão do Brasil e do mundo: contribuir para que nosso país possa ser grande, mas humilde; para que sua população, diversa e heterogênea, seja respeitada; e para que o meio ambiente seja preservado por meio de um desenvolvimento coerente, que respeite os limites da própria natureza.
A decisão de cada um definirá não apenas o resultado desta eleição, mas os rumos do país e as condições de vida das próximas gerações, de nossos filhos e netos. Nossa responsabilidade não termina nas urnas: ela continua na organização da sociedade, na defesa dos direitos e na cobrança permanente de quem governa. Pensem com responsabilidade.
*Indigenista e sociólogo, comprometido com a construção de uma sociedade mais justa, humana e equilibrada.




