O debate expôs a falência da imprensa

Como é possível que um sujeito como o Flávio Bolsonaro tenha chegado até onde chegou sem ter que se explicar para o país?

Por Luis Felipe Miguel, em Amanhã não existe ainda

Foi triste assistir ao debate de ontem. Vimos um candidato a presidente, com suas qualidades e com seus defeitos, diante de um moleque, alguém que não tinha a menor condição de estar naquela posição. Flávio Bolsonaro adotou o modelo de seu coach, Pablo Marçal: foi lá para impedir qualquer discussão.

Os jornalistas da própria Band, logo após o final do programa, e a imprensa burguesa em geral choraram lágrimas de crocodilo, falando sobre o baixo nível, a falta de propostas, as mentiras. Davam a entender que havia uma equivalência entre os dois candidatos, o que é uma grossa mentira.

Lula foi até ingênuo, parece que acreditava que seu adversário iria mesmo responder a questões incômodas, se engajar em algum tipo de troca de argumentos, reagir a evidências. Mas a escolha, óbvia, do Bolsonaro foi ignorar tudo o que era falado, mentir de forma incessante e tentar desestabilizar o presidente com provocações e deboches.

No quadro geral, creio que Lula se saiu melhor, por mais que Flávio tenha sido bem adestrado para papel que se esperava dele. O presidente se perdeu um pouco no começo, aceitando a provocação insistente sobre a lobista que era amiga de seu filho, mas depois reagiu. Os grupos focais de que tenho notícia e também o que vi de reações nas redes mostram que os eleitores comuns ficaram incomodados com a postura de Flávio, que foi escrachada demais, e julgaram que ele não mostrou as competências necessárias para ocupar o cargo que pleiteia.

No que realmente importa, a batalha de cortes que está acontecendo agora, Flávio vai falar para os seus, explorando sobretudo as questões de segurança pública, mas Lula conseguiu o melhor trunfo, com a sacada da retirada do sigilo bancário e telefônico.

Flavio não esperava, ficou sem resposta e deixou evidente que tem um rabo preso com muita coisa.

Creio que um novo debate teria que ter pelo menos duas regras adicionais. Claro que nem Flávio, nem a Rede Globo, concordariam com elas.

Primeiro, checagem de fatos. Bastava colocar na tela dados reais, estatísticas e registros oficiais, no momento em que o candidato mente.

A outra regra seria algum tipo de punição para quem simplesmente ignora as questões que estão colocadas e, no lugar, recita o texto que ensaiou com seus marqueteiros.

Foi o que fez Flávio. Ele ignorou todas as questões – sua posição contra os direitos das mulheres, sua defesa dos interesses dos milicianos, suas vinculações com Daniel Vorcaro, seu projeto de corte de programas sociais, sua oposição à redução da jornada de trabalho – para usar o tempo contando mentiras sobre aquilo que lhe parecia mais conveniente.

Devo reconhecer, porém, que o presidente Lula mentiu pelo menos uma vez, quando disse que o Bolsonaro só conhece o transporte coletivo por literatura. Não é possível: certamente Flávio nunca leu um livro na vida!

Mas, acima de tudo, o debate mostrou como o jornalismo corporativo brasileiro não foi capaz de cumprir minimamente seu dever profissional ao longo desta campanha. Flávio Bolsonaro chega a uma semana do segundo turno sem ter tido que se explicar diante do povo brasileiro. Sem ter tido que apresentar absolutamente nenhuma explicação sobre quem é, o que fez, com quem anda.

Não é uma questão só do debate. É o resultado de uma cobertura que foi complacente com sua candidatura, que não insistiu sobre os escândalos óbvios, que cobrou respostas de forma meramente protocolar, contentando-se com evasivas.

Assim, os milhões que ele recebeu de seu “irmão” Vorcaro, pretensamente ofertados ao filme sobre Jair, estão até agora sem explicação e quase esquecidos no noticiário. Flávio diz que “já prestou contas”, o que não é verdade, e fica por isso mesmo.

A vinculação dele com as milícias do Rio de Janeiro é tratada como uma série de episódios isolados – um discurso na Alerj aqui, uma medalha para um bandido preso ali, um voto em favor do não rastreamento das munições acolá, a defesa de um assassino de criança mais adiante, ou então um dinheiro de emenda parlamentar para financiar a milícia, ou ainda um miliciano assessor, outro miliciano assessor, mais um familiar de miliciano assessor – e não com padrão que merece investigação.

As surubas com garotas de programa, denunciadas por seu sócio na famosa loja de chocolates, junto com um Rolex de suborno, não mereceram atenção. Quando muito, a imprensa se referiu a elas como se fosse um boato, não uma denúncia. E os boatos de violência doméstica praticada por Flávio, que correm no Rio de Janeiro, não foram mencionados nem como boato, muito menos investigados.

Foi uma imprensa que aceitou o enquadramento da disputa que beneficiava o candidato das milícias. Por exemplo ao concentrar, logo antes do primeiro turno, a cobertura na crise do STF e, dentro dela, no ministro Alexandre de Moraes, minimizando as conexões dos bolsonaristas da corte com o Banco Master e ignorando outras questões.

E que procurou, deliberadamente, construir falsas equivalências. O escândalo do Banco Master, se bem analisado, atingiu toda a direita, o PT da Bahia e variados ministros das cortes superiores. Mas a noticiário dava a entender que a esquerda estava igualmente implicada, se não mais. As acusações contra a lobista ligada a Fábio Luís, o filho do presidente que a imprensa insiste em chamar de “Lulinha”, ganharam um destaque que as colocava no mesmo patamar dos rolos de Flávio com Daniel Vorcaro.

Mas nós tínhamos, de um lado, um caso de tentativa de tráfico de influência que não deram resultado e sobre as quais pesavam suspeitas sobre o filho de um candidato. Do outro, de uma propina comprovadamente recebida pelo próprio candidato presidencial.

A imprensa brasileira diz que é preciso valorizar seu papel, diante da situação atual de desinformação galopante. Mas fracassou – pior, nem tentou cumprir – seu dever de informar o público e proteger o país do risco de colocar um criminoso comum no cargo mais importante do Estado.

Escrever, no passado, que a imprensa parecia desejar a vitória de Lula, mais enfraquecido, a fim de garantir um quarto mandato com baixa capacidade iniciativa. Vejo que estava errado. Os grupos empresariais de comunicação estão mesmo com Flávio. Acho que não perdoam Lula pela proibição das bets e pelo fim da escala 6×1.

A cobertura de hoje da Folha é significativa. E não só pela equivalência falsa sobre o comportamento dos dois candidatos no debate da Band. Vejam as reportagens sobre as manifestações de rua do domingo.

Quando falam da Paulista, dão uma visão aérea que mostra uma multidão em favor do Bolsonaro. Menor que a que se reuniu em torno de Lula (o que não é dito) e inflada com caravanas vindas de todo o país (o que também não é dito), mas multidão mesmo assim.

Mas tinha mais gente em Brasília – e a foto é fechada, não dá a real dimensão. Tinha mais gente no Rio – e a foto é do palco, não mostra as pessoas. As multidões que foram defender a reeleição de Lula em Belo Horizonte, em Olinda, em Porto Alegre, em Maceió, em Curitiba, não são nem mostrados. Mesmo a lista dos estados que tiveram manifestações é incompleto.

É uma eleição muito dura, porque a nossa classe dominante não tem um pingo de vergonha na cara. Muita gente ficou chocada com a bomba atômica que os manifestantes da Paulista pediam que Trump lançasse no Brasil. Essa bomba já existe, com um enorme potencial de destruição. Foi criada aqui, mas está sendo jogada sobre nós com o apoio decisivo dos Estados Unidos. O nome dela é Flávio Bolsonaro.

Com a força da ruas, com a mobilização nas redes e com muita conversa até domingo, vamos impedir que ela nos atinja.

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