‘A prioridade de um governo democrático – só temos essa hipótese com o Lula – é diminuir o antissistema difuso. É produzir mudanças objetivas, concretas, duradouras, que mudem a percepção das pessoas sobre a vida’. Entrevista especial com Josué Medeiros

A aprovação histórica do fim da escala 6X1 “fez a campanha do Lula ter fôlego porque amplia para além da esquerda”, diz o cientista político

Por: Patrícia Fachin, em IHU

A mobilização social que se espalhou por várias cidades do país após o segundo turno das eleições deste ano é uma novidade no processo eleitoral brasileiro. “Esta é a primeira eleição com mobilização social desde 1989”, pontua Josué Medeiros na entrevista a seguir concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por telefone. Segundo o cientista político, as “manifestações espontâneas” são uma reação à possível eleição de Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo que sinalizam um recado para a esquerda. “Se Lula vencer, a única forma de ter um governo de sucesso é manter a conexão com essa energia das ruas. Se um governo Lula 4 se encerrar numa disputa institucional, com essa maioria que a extrema-direita tem no Congresso, o governo será um fracasso”, afirma.

Medeiros realiza estudos qualitativos com grupos focais para compreender as causas da insatisfação social na sociedade brasileira. Segundo ele, o que se observa no país é o crescimento de um sentimento antissistema difuso na população. No primeiro turno das eleições, pontua o entrevistado, aproximadamente 40% dos eleitores brasileiros se enquadraram nessa categoria. Mobilidade urbana, segurança pública, saúde e os rumos da economia são apontados como os principais motivos de descontentamento.

Para que os eleitores descontentes não sejam capturados pela extrema-direita no pleito de 2030, adverte o pesquisador, as pessoas precisam terminar “o ano de 2027 com a sensação de que a vida está, de fato, melhorando. Isso o governo Lula não conseguiu produzir no terceiro mandato, e precisa ser produzido no quarto, senão essa política toda vai ruir. Provavelmente vamos ter um reforço do sentimento antissistema bolsonarista, porque vamos sair de um país muito dividido, mais dividido do que o das últimas eleições. A eleição vai ser mais apertada”.

A seguir, Medeiros comenta o enraizamento social e cultural da extrema-direita no país, os desafios da esquerda para enfrentar as demandas sociais, a nova recomposição do Congresso Nacional e alerta para os riscos do aprofundamento das desigualdades sociais nos próximos anos.

Josué Medeiros leciona nos cursos de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB) da UFRJ. É pesquisador do Laboratório de Eleições, Partidos e Política Comparada (Lappcom). É doutor em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Eis a entrevista.
IHU – Qual sua análise sobre o Brasil neste intervalo entre o primeiro e o segundo turno?

Josué Medeiros – Esta é a primeira eleição com mobilização social desde 1989. As eleições no Brasil são sempre uma festa da democracia. As pessoas votam e comemoram o resultado. Só que não tínhamos mobilização social desde 1989. Podemos classificar o que está acontecendo agora como uma reação da sociedade diante do resultado do primeiro turno, que colocou Flávio Bolsonaro na liderança – o que é algo que pouca gente imaginava ou projetava.

As manifestações das últimas semanas são reações espontâneas. Depois que a reação nas redes iniciou, a partir de 05 e 06 de outubro, a campanha do Lula começou a se conectar com elas. Se Lula vencer, a única forma de ter um governo de sucesso é manter a conexão com essa energia das ruas. Se um governo Lula 4 se encerrar numa disputa institucional, com essa maioria que a extrema-direita tem no Congresso, o governo será um fracasso.

IHU – O que as manifestações indicam? Quem está nas ruas?

Josué Medeiros – Em geral, quem participa são segmentos mais ativos, que têm uma cultura de mobilização. Tanto que no último domingo, quando o bolsonarismo fez um ato na paulista, vários movimentos sociais fizeram atos nas periferias. O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) de São Paulo fez um ato no Grajaú, na Zona Sul, em Itaquera, na Zona Leste. Há uma ideia equivocada de que as pessoas que vivem nas periferias não são ativas, mas não é isso. A questão é que é difícil para elas irem para o centro. Então, quando se muda o eixo de onde a manifestação está ocorrendo, é possível ativar as pessoas. No Distrito Federal ocorreram manifestações na Ceilândia, no Rio de Janeiro, em Campo Grande.

A ativação social está muito generalizada dos dois lados. A extrema-direita tem sua capacidade de mobilização, mas optou, nesse segundo turno, por outra estratégia. A manifestação da extrema-direita é mais uma reação à reação da sociedade do que um processo ativo. Como eles lideraram o primeiro turno, queriam um segundo turno morno para garantir a vitória do Flávio Bolsonaro.

IHU – A aprovação do fim da escala 6×1 pode exercer que tipo de influência no segundo turno?

Josué Medeiros – Terá uma influência muito grande, mas não veremos isso nas pesquisas. As pesquisas dos próximos dias vão apontar para várias direções diferentes: algumas vão mostrar Lula virando, outras vão sugerir empate, outras vão mostrar Flávio na frente. Isso acontece porque a sociedade está em movimento e tudo depende de onde as pesquisas estão sendo feitas e do método utilizado. No dia da eleição, vamos ter um cenário muito parecido com o da Colômbia e do Peru, que tiveram eleições decididas por uma margem muito pequena de votos. Mas não tenho dúvida de que a 6×1 fez a campanha do Lula ter fôlego porque amplia para além da esquerda.

IHU – Muitos indicadores sociais e econômicos indicam que a vida no país melhorou no governo Lula, mas essa sensação não é compartilhada por uma parcela significativa da população. O que as suas pesquisas evidenciam sobre a percepção dos eleitores?

Josué Medeiros – Quando Bolsonaro ganhou a eleição em 2018, as Ciências Sociais, a Antropologia e a Ciência Política foram para a mesma direção: atribuíram a vitória ao sentimento antissistema. Foi aquela sensação de que tudo estava ruindo e Bolsonaro se apresentava contra tudo e contra todos e ganhou a eleição. Ele fez um governo ruim e perdeu a eleição. Veio o Lula, que fez um governo bem avaliado do ponto de vista dos dados, mas não conseguiu transformar isso em popularidade.

Muitos analistas que são referência atribuem esse fenômeno à economia. André Singer publicou um artigo na revista piauí e deu uma entrevista para jornal O Globo, colocando o centro na economia. Desde 2023, fiz cerca de 150 grupos focais presenciais com dez pessoas em cada um deles e, em 2026, fiz 82 grupos, entrevistando 800 pessoas em 13 capitais. O que vejo é que não é a economia que explica a situação, mas conecto a insatisfação com um sentimento antissistema. Mariana Castro e eu estamos trabalhando o conceito de antissistema difuso.

Antissistema difuso
Se em 2018 o voto se explica pelo sentimento antissistema, nos últimos anos esse sentimento foi decantando e se diferenciando. Hoje, 30% do eleitorado é bolsonarista. Esses são antissistema e querem uma ruptura. São contra o Supremo Tribunal Federal (STF), contra o Xandão [Alexandre de Moraes] e acham que todo político é corrupto. Digo que é um grupo de 30% porque, nas nossas pesquisas, esse era o percentual dos antissistema e, na eleição, esse percentual se confirmou: todos os candidatos bolsonaristas ao Senado que se elegeram com a pauta anti-STF ganharam cerca de 30% dos votos. É essa faixa do eleitorado que hoje é capturado pelo bolsonarismo. A votação de Nikolas Ferreira foi 27% do eleitorado.

A esquerda tem 15, 20% ou até 30% dos votos quando se trata do Lula. E tem uma faixa maior, de 40%, que chamamos de antissistema difuso. Essas pessoas estão muito incomodadas com a vida porque a vida está difícil. Mas essa insatisfação não é com a economia – é também com a economia, mas não só com a economia. Essas pessoas seguem querendo que o Estado tome ações para melhorar a vida delas. Elas esperam soluções dos políticos e estão muito chateadas porque os políticos não resolvem os seus problemas. Nesse grupo de 40% também aparece a ideia do político corrupto, que é bastante bolsonarista. Mas o que mais aparece é que o político promete e não faz nada, que o político atua em causa própria, que ele é privilegiado. Esse sentimento que estou descrevendo é muito generalizado e diluído e é ele que chamamos de sentimento antissistema difuso.

Problemas sociais: mobilidade, segurança pública e saúde
Nos nossos grupos focais o problema que mais apareceu como incomodando as pessoas foi a mobilidade urbana – 30% das menções; não é a economia. A mobilidade está piorando e todo mundo está vendo isso. As pessoas trabalham e enfrentam ônibus cheios, trens ruins. Antes, elas ficavam uma hora no trânsito; agora, ficam uma hora e meia para ir e para voltar. A segunda menção é a segurança pública, com 20%. A terceira é a saúde, com 15%. A economia só aparece em quarto, com 10% das pessoas.

As pessoas do nosso grupo focal reconhecem que a vida econômica está melhor do que estava no governo Bolsonaro, mesmo com a continuação da inflação dos alimentos. Só que as outras insatisfações as mantêm longe de apoiar o governo – que era a expectativa do Lula com os indicadores econômicos, o aumento do emprego e a renda em alta. Esses indicadores não se revertem em voto não por causa da economia, mas por conta dessas outras dimensões: a vida na cidade, a segurança, a dificuldade na saúde.

Isso que estamos chamando de sentimento antissistema é o que está decidindo a eleição. Vou dar dois exemplos. A mobilização contra a PEC da blindagem no segundo semestre de 2025 alcançou exatamente 70% dos entrevistados das pesquisas quantitativas Quaest e Datafolha. Quem são esses 70%? São os 30% da esquerda mais os 40% do sentimento antissistema difuso contrários à blindagem dos políticos. O bolsonarismo não apoiou aquele movimento. Então, os 30% que não apoiaram, são os bolsonaristas.

Exatamente a mesma dinâmica se repetiu com a proposta do fim da escala 6×1. Todas as pesquisas mostraram que o fim da escala 6×1 teve um apoio de 70%. Isso também apareceu nos nossos grupos focais. Ou seja, apareceu tanto na pesquisa qualitativa quanto na quantitativa. O eleitor bolsonarista é contra o fim da escala 6X1. Diz que o trabalhador tem que negociar com a empresa, que não quer nenhuma mudança, que quer trabalhar sete dias por semana, que quem não quer trabalhar é vagabundo, e que a mudança vai quebrar as empresas.

Conexão
Então quem conseguir se conectar com esses 40% fará a maioria dos votos. No primeiro turno Flávio Bolsonaro conseguiu se conectar por causa da ampliação do sentimento antissistema bolsonarista. O sentimento antissistema bolsonarista com a crise do STF foi para além dos 30% e conseguiu pescar um pedaço do sentimento antissistema difuso.

Na eleição de 2022, Jair Bolsonaro teve 42% dos votos. Em 2026, Flávio Bolsonaro teve 47%. Esse percentual de 5% de diferença é o eleitor do sentimento antissistema difuso que migrou para o Flávio Bolsonaro pela dinâmica da campanha porque Lula não falou de mudança e porque aquela crise do STF levou essas pessoas a acharem que era melhor ter uma mudança com Flávio Bolsonaro, contra tudo e contra todos, do que continuar como está.

Se o Lula conseguir reverter isso e se conectar com esse sentimento, ele vira. No segundo turno, Lula está recuperando uma parte desse eleitor com o fim da escala 6X1 e outras medidas anunciadas. O eleitor do antissistema difuso não quer uma mudança para pior. Se ele achar que Flávio Bolsonaro quer uma mudança para pior, ele não vota em Flávio Bolsonaro.

IHU – Considerando esses percentuais mencionados, é possível afirmar que houve um enraizamento cultural e social da extrema-direita no país, como alguns analistas apontam? Se sim, o que isso significa?

Josué Medeiros – Sim, é possível dizer que houve um enraizamento social e cultural da extrema-direita. Esse percentual de 30% na eleição representa a maior bancada do Congresso. Representa a maioria no Senado. Representa vitórias em governos estaduais do Sul e do Sudeste. Ou seja, esse grupo consegue polarizar o país culturalmente e politicamente a partir dos valores.

Esse enraizamento é resultado de três dinâmicas. A primeira delas é uma dinâmica já presente no Brasil, que é um segmento da população que apoia projetos autoritários. Isso sempre existiu no país e Bolsonaro é a expressão disso. Ele é um herdeiro da ditadura militar. Defende a política do bandido bom é bandido morto.

O segundo elemento é que há um processo global de disseminação e consolidação de uma subjetividade política plataformizada. As plataformas, as redes sociais e os algoritmos vão produzindo a subjetividade política das pessoas. No Brasil, isso se expressa nos novos segmentos da direita, sendo Níkolas Ferreira a principal expressão. Há, portanto, um encontro de algo que já estava presente na nossa formação histórica, com algo que vem do novo capitalismo global que chega ao Brasil e encontra expressão em figuras como Níkolas.

O terceiro elemento, que é onde entra o antissistema difuso, é o novo padrão de desigualdade do capitalismo após a crise econômica de 2008. O que aconteceu desde 2008 é que os Estados, seja no continente americano, seja no europeu, fizeram muito esforço para salvar os bancos e as empresas, e fizeram um esforço menor para salvar as pessoas. Essa diferença é o que vai alimentando o sentimento antissistema, seja o bolsonarista, seja o difuso, porque as pessoas estão vendo que os ricos estão mais ricos, que a vida está pior e que o Estado tem um papel nisso.

Nesse contexto, tem aqueles que desistiram de acreditar no Estado, como a extrema-direita, que vai por outro caminho, e tem uma parcela que continua acreditando no Estado, que não quer a radicalidade, não quer a violência, mas segue vendo nos políticos aqueles que não entregam o que prometem. Essas três dinâmicas estão aí, construindo o enraizamento da extrema-direita no Brasil.

IHU – O que explica a eleição de Douglas Ruas no Rio de Janeiro, considerando os inúmeros problemas relativos à segurança pública e à atuação das milícias?

Josué Medeiros – Aí tem duas dimensões. A primeira é que o Rio tem uma excepcionalidade, que é o seu laboratório do bolsonarismo. No estado, a destruição das instituições é grande. Há crise econômica, governadores presos, milícias. Com tudo isso, o sentimento antissistema bolsonarista é maior, mas o sentimento antissistema difuso é menor. Menos pessoas no Rio de Janeiro acreditam que a política pode resolver a vida delas. Nesse contexto, elas vão pelo caminho do antissistema bolsonarista, que, no Rio, embora seja o poder, consegue se vender como não sendo poder. Quem é o poder? O poder é o crime, que é combatido com chacina. Essa é a conexão.

O Rio de Janeiro também faz parte de um processo que alcança todo o Sul. Os três estados do Sul e São Paulo têm uma maioria de extrema-direita. O que aconteceu no Rio, do ponto de vista eleitoral, é a mesma coisa que aconteceu no Rio Grande do Sul, no Paraná e em São Paulo. Em cada caso, optou-se por uma tática eleitoral diferente: Eduardo Leite apareceu como a terceira via, Ratinho Júnior é mais pró-extrema-direita, e Eduardo Paes mais pró-esquerda. Os três foram derrotados pela extrema-direita, sem pena. Em São Paulo já foi assim em 2022. Tarcísio derrotou a direita tradicional, que estava no PSDB.

Esse processo ainda não alcançou Minas Gerais. Cleitinho [Azevedo] é outra coisa. É um personagem para prestarmos muita atenção porque quebra um pouco alguns padrões. Ele é a favor do fim da escala 6X1, por exemplo. Vamos ver como será o governo dele.

IHU – O que se pode esperar para o país nos próximos anos a partir da nova recomposição do Congresso Nacional e do enraizamento da extrema-direita?

Josué Medeiros – Aí depende de quem ganhar a eleição. A Ciência Política fala muito da contenção dos poderes. É sempre a ideia de que o Judiciário e o Legislativo vão manter o poder do Executivo. Mas, no quadro atual, com esse nível de maioria que a extrema-direita fez, se Lula ganhar, ele vira uma contenção ao poder da extrema-direita. Essa é a novidade do resultado eleitoral. Se o Flávio ganhar, teremos o Congresso e o Executivo contra o Judiciário. Aí acaba a contenção dos poderes e vai ter uma mudança estrutural na nossa institucionalidade, que vai caminhar para o fim da democracia. Não resta dúvida sobre isso. Então, as consequências políticas vão depender de quem ganhar.

Lula ganhando, essa contenção não pode ser somente institucional. Ela tem que ser uma contenção de mobilização social que mantenha e aumente a energia das ruas e das redes que estamos vendo no segundo turno. Para aumentar essa energia das ruas e das redes, Lula vai precisar dialogar com o sentimento antissistema difuso. Precisa apresentar mudanças concretas. Esse é o jogo. É o exemplo do fim da escala 6X1. É o exemplo do combate à PEC da blindagem. Os resultados econômicos não serão suficientes. É preciso ir além da economia para que as pessoas sintam que a vida delas está melhorando e seja possível continuar a ativação social das ruas e das redes para impedir que a extrema-direita destrua a democracia.

IHU – A democracia diz algo para o brasileiro médio, que não se sente contemplado pelas diferentes esferas do poder público? Quais os desafios de aprimorar os métodos democráticos para que o cidadão seja e se sinta considerado de outra forma pelos poderes estabelecidos, a fim de valorizar a democracia e rejeitar o autoritarismo?

Josué Medeiros – Pela chave das medidas concretas. Vamos imaginar o seguinte cenário: Lula vira a eleição e se reelege presidente. Ele vai ter quatro anos para falar que o fato de o trabalhador trabalhar cinco dias e folgar dois é democracia. Essa é a materialização para os trabalhadores que não são formalizados. Da mesma forma de que agora, via MEI, é possível contratar dois funcionários. Isso é democracia. Ter uma base de descanso para o trabalhador de aplicativo também é democracia. Ele pode tomar um banho e comer, enquanto está na sua jornada. A transparência do algoritmo também é democracia. Sem transparência, o trabalhador não sabe quanto do dinheiro que uma entrega paga vai para a empresa e quanto vai para o entregador.

Então, a forma de mudar esse cenário é concretizar as políticas; não é conceitual. A democracia vai se fortalecer se, em caso de vitória do Lula, o campo democrático como um todo, não só a esquerda, conseguir fazer essa passagem dos conceitos para as medidas concretas.

IHU – Nos grupos focais da sua pesquisa, o que as pessoas relatam sobre as dificuldades da vida concreta? Aparecem relatos sobre a necessidade de ter que trabalhar informalmente em dois ou três serviços diferentes além do contrato CLT para obter uma renda que seja suficiente para custear as necessidades das famílias, por exemplo?

Josué Medeiros – Aparece, sim. Inclusive, por isso, nos meus grupos focais, o apoio ao fim da escala 6X1 não aparece como um apoio pela chave econômica. O fim da escala 6X1 tem uma chave econômica porque as pessoas vão trabalhar um dia a menos e vão manter o salário. Então, elas estão ganhando melhor e elas sabem disso. Mas o principal elemento que apareceu foi o tempo livre.

A maioria das pessoas, quando perguntávamos sobre o que farão com o tempo livre, diz que vai descansar. Alguns dizem que vão arrumar outro trabalho. Isso aparece também porque a vida não está fácil, mas o principal elemento é o descanso com a família. Muitos dizem que não ficam em casa com os filhos, principalmente as mulheres. E aí tem um elemento de gênero. São as mulheres que mais sofrem. Elas representam a maioria desse sentimento antissistema difuso, enquanto os homens são a maioria do sentimento antissistema bolsonarista.

As mulheres querem soluções concretas; esperam do Estado soluções concretas. Querem tempo para ficar com seus filhos, para cuidar dos pais, para viver a sua vida. Os homens estão mais engajados em processos da subjetividade das plataformas, que é essa subjetividade da ruptura radicalizada.

IHU – A esquerda tem condições de oferecer respostas para esse grupo? Não são poucas as críticas dirigidas à esquerda que, quando chega ao poder, não consegue implementar medidas que melhorem a vida das pessoas.

Josué Medeiros – Tem condições, sim. O fim da escala 6X1 é um exemplo disso. Não podemos esquecer que tem uma renovação na esquerda também. Às vezes, o nosso campo de análise da Ciência Política é muito duro com a esquerda, como se só existisse o Nikolas como renovação.

O maior direito da classe trabalhadora, conquistado em duas décadas, foi o fim da escala 6X1. Certamente é o maior direito desde 2013, quando o governo aprovou a PEC das empregadas domésticas. Tem 13 anos entre a conquista desses dois direitos. O fim da escala 6X1 foi uma mobilização impulsionada por uma figura que não era da política, que depois se elegeu vereador e agora se elegeu deputado federal, que é o Rick Azevedo. Ele teve uma votação extraordinária. A pauta também ganhou nacionalização com Erika Hilton.

Na questão dos aplicativos, tem uma liderança como Guilherme Boulos, que vem de um movimento social, e está conduzindo o governo a elaborar políticas públicas sobre isso. Essas são políticas públicas que estão trazendo um segmento da classe trabalhadora que só votava na extrema-direita para a esquerda porque está vendo que tem medidas concretas.

A extrema-direita não entrega o que promete. Ela não melhora a vida das pessoas. Por isso, no debate, Lula falou sobre o Milei. Por isso Trump está com dificuldade na eleição dos Estados Unidos. Por isso Bolsonaro perdeu a reeleição. A extrema-direita têm esse espantalho, que é tirar o Xandão do STF. Vão tirar o Xandão se o Flávio ganhar. A vida das pessoas não vai melhorar se tirarem Alexandre de Moraes do STF. Então, esse elemento de não entrega da extrema-direita, se for contraposto a um elemento de entrega, com uma energia renovada, como foi o caso do fim da escala 6×1, pode deixar a esquerda bem-posicionada para dialogar com essa parcela do antissistema difuso.

IHU – O que a possível eleição de Flávio Bolsonaro ou a continuidade de um governo Lula, em um quarto mandato, representa em termos de projeto de presente e de futuro para o Brasil?

Josué Medeiros – Flávio Bolsonaro passou o primeiro turno todo sem ser confrontado. Em parte, porque a própria dinâmica do primeiro turno ajudou, uma vez que havia eleição de muitos candidatos, em parte, porque não ocorreram debates. Mas a eleição dele significa uma mudança radical. Significa completar uma mudança que Jair Bolsonaro gostaria de ter feito, mas não conseguiu. E há um padrão internacional nisso: o segundo governo da extrema direita é sempre muito mais destrutivo do que o primeiro; eles não cometem os mesmos erros.

No caso do Lula, tem mais cenários abertos. Lula ganhando, pode produzir um processo de mudanças a partir da energia do segundo turno e ter sucesso nisso. Pode, inclusive, inaugurar uma onda de mudanças na América do Sul, porque tem eleição na Argentina no ano que vem. A vitória do Lula pode contaminar, no bom sentido, a eleição argentina, ou pode ficar numa paralisia, que aí tende a aprofundar tanto a crise institucional que vivemos, como gerar uma crise social – porque o Brasil hoje não vive um cenário de crise social, como vivia em 2017. Os indicadores econômicos são bons. Agora, isso talvez não se sustente por mais quatro anos. É preciso resolver essa situação.

IHU – Qual deve ser a prioridade do próximo governo eleito?

Josué Medeiros – A prioridade de um governo democrático – só temos essa hipótese com o Lula – é diminuir esse antissistema difuso. É produzir mudanças objetivas, concretas, duradouras, que mudem a percepção das pessoas sobre a vida delas. Que elas terminem o ano de 2027 com a sensação de que a vida está, de fato, melhorando. Isso o governo Lula não conseguiu produzir no terceiro mandato, e precisa ser produzido no quarto, senão essa política toda vai ruir. Provavelmente, vamos ter um reforço do sentimento antissistema bolsonarista, porque vamos sair de um país muito dividido, mais dividido do que o das últimas eleições. A eleição vai ser mais apertada.

IHU – Os protestos na França por melhores condições na educação e soluções para o custo de vida, as mobilizações por moradia na Espanha e a crise econômica na Argentina servem de alerta e são indicações do que pode acontecer no país no futuro?

Josué Medeiros – São indicações, sim, e também são resultado desse processo global de mudança do padrão das desigualdades. A desigualdade não para de se aprofundar. Há o elemento climático aí, que também acirra as desigualdades. Vamos ver mais manifestações desse tipo.

Quando falo de processo global, estou falando sempre de América e da Europa, que têm um regime liberal. Os países da Ásia, da China e da África têm outra configuração e várias composições sociais e institucionais diferentes. Na Europa e na América esse vai ser o padrão: uma radicalização dos conflitos diante da radicalização das desigualdades.

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