Uma vitória eleitoral não reverte quarenta anos de catástrofe neoliberal. Mas Lula mostra: com pautas de classe e mobilização, é possível barrar quem especula com guerras sem fim, o colapso climático e a depressão coletiva…
Por Franco Bifo Berardi, em seu substack | Tradução: Rôney Rodrigues, em Outras Palavras
Não pensamos que seja possível reverter a tendência com uma vitória eleitoral.
Mas, derrotando a direita, podemos deter a maldade, a vulgaridade e o racismo daqueles que fazem do sofrimento alheio a base do próprio poder.
Podemos deter o egoísmo dos especuladores que, para aumentar seus lucros, levaram o planeta à beira da catástrofe.
Podemos deter a arrogância dos ignorantes e dos belicistas que enriquecem sobre as misérias da maioria.
Podemos deter o franquismo na Espanha, o fascismo na Itália, o colaboracionismo na França e o nazismo na Alemanha; podemos mandar de volta ao inferno o mafioso Trump com todos os seus puxa-sacos.
Depois, será questão de acertar as contas com a realidade que nos deixaram como herança quarenta anos de neoliberalismo assassino: o colapso do clima, a depressão de massa, a agressividade militar.
Enquanto isso, paremos eles.
Para detê-los na Itália, como os detivemos no Brasil, é preciso abandonar o politicismo da esquerda e apostar tudo numa alternativa simples: queremos a guerra ou queremos a paz?
Queremos o rearmamento ou queremos investimentos na escola e na saúde?
Na Itália, derrotaremos nossos Bolsonaro se lançarmos um programa à altura do drama: reduzir a jornada de trabalho, aumentar os salários, taxar os ricos, investir na escola e não na guerra.
Talvez seja necessário um metalúrgico candidato da antibarbárie para derrotar os fascistas na Itália.
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Em 1982, o Partido dos Trabalhadores iniciou sua ascensão e lançou seu Jornal dos Trabalhadores, e iniciou o processo de construção de uma força política capaz de representar os interesses da classe operária.
Naquele mesmo ano, Inácio Lula da Silva encontrou Felix Guattari e Suely Rolnik para uma entrevista que Gary Genosko publicou em 2003, quando o partido de Lula se tornara, pela primeira vez, partido de governo e lançava a campanha Fome Zero, que permitiu a milhões de brasileiros sair da miséria absoluta. Nessa entrevista, Lula mostra estar bem consciente do fato de que o governo do país não basta sem um forte movimento social capaz de impor os interesses dos trabalhadores.
“Não creio que o progresso dos trabalhadores dependa simplesmente do fato de que algum membro da esquerda ocupe posições de governo…”, diz ele nessa entrevista com Guattari e Rolnik.




