De onde vem o ódio a Lula?

Há três matrizes: do rancor grotesco contra as domésticas que viajam de avião até as ideias mais perversas, contra o esforço do Estado para democratizar serviços e Proteção Social. Imagine se o presidente enfrentar a cartilha rentista

Por Lauro Mattei*, em Outras Palavras

A sociedade brasileira se constituiu historicamente a partir de diversas formas de desigualdades que se explicitam de diferentes maneiras: socialmente, regionalmente, racialmente, etnicamente e sexualmente. Com o passar do tempo foram se constituindo classes sociais antagônicas, porém sempre sob o predomínio da elite econômica e política que ditou e ainda dita a evolução e a dinâmica social do país. Paralelamente a essa classe dominante, conformou-se uma camada social que almeja ascender ao patamar da classe superior e que ficou conhecida como “classe média”. Por fim, na base da pirâmide social se encontra uma imensa maioria da sociedade que integra as chamadas “classes populares” que, por séculos, foram mantidas à margem dos processos econômicos, políticos e sociais.

Para alguns intérpretes da realidade brasileira essa trajetória impediu que o país tivesse formado uma cidadania plena, uma vez que às classes populares sempre foram negados direitos básicos, como acesso à uma alimentação de qualidade, a uma moradia digna, a uma saúde e educação de qualidades, etc. Paralelamente a isso, as classes média e alta jamais lutaram para que todos tivessem seus direitos garantidos por um motivo muito simples: elas somente procuram manter seus privilégios.

Essas características ficaram bem mais evidentes durante o processo de industrialização do país no século XX e, particularmente, durante o processo de redemocratização após o fim do regime militar nas duas últimas décadas do século XX. Mesmo que durante a democratização e o processo constituinte os temas da fome, da pobreza e da miséria social tenham ascendido ao debate público, eles continuaram sendo ignorados pelas elites políticas e econômicas do país.

Tais cenários levaram à conformação de uma sociedade com elevado poder conflitivo quando se trata da distribuição dos benefícios públicos entre as diversas classes sociais, uma vez que o andar de cima continuamente pretende manter seus privilégios, inclusive reagindo com ódio e rancor quando uma parcela dos “sem sem” também passa a ter acesso aos benefícios estatais potencializados por políticas públicas específicas.

Desta forma, a palavra “ódio” no contexto político brasileiro reflete uma situação que vai muito além da discordância política tradicional, assumindo também um caráter de profunda aversão pessoal e moral. Em termos gerais, pode-se dizer que o ódio entre as pessoas é um sentimento complexo e profundo que normalmente surge de uma combinação do medo, da desinformação, da manipulação e de instintos de sobrevivência social. Mas o ódio também surge em relação ao desconhecido (medo), como um mecanismo de defesa e sobrevivência; como um mecanismo de pertencimento a um determinado grupo; como expressão de falta de empatia em relação ao outro que age e pensa diferente; etc.

Segundo estudos do University College da Universidade de Londres, o amor e o ódio estão bem mais próximos do que imaginamos, uma vez que ambos ativam regiões cerebrais que são muito semelhantes, como são as áreas associadas à tomada de decisões e às respostas emocionais em relação ao que acontece ao redor das pessoas. Por um lado, o amor reduz a atividade de áreas ligadas a julgamento e, por outro, o ódio mantém tal atividade permitindo que esses julgamentos negativos coexistam simultaneamente.

É nesse contexto que recentemente ganhou força também a conformação de uma característica segregacionista da sociedade brasileira a qual aflorou publicamente – e de forma bastante intensa – na passagem do século XX para o século XXI. Esse processo segregacionista ganhou maior concretude quando ocorreu uma reorientação do Estado Nacional, especialmente quando ações e políticas públicas passaram a servir também aos “descamisados”, expressão típica das elites quando se referem às classes populares que sobrevivem em um contexto marcado pela vulnerabilidade social e explicitado pelos elevados índices de fome e de pobreza.

A emergência do senhor Luís Inácio Lula da Silva no cenário político nacional foi um processo cumulativo e contínuo. No primeiro momento como um líder sindical que teve uma participação decisiva na organização dos trabalhadores visando derrubar a ditadura militar na década de 1980 e, a partir de então, com uma atuação também decisiva na construção de um partido político representante da classe trabalhadora que impactou fortemente a organização de outros partidos políticos do país a partir da construção do Partido dos Trabalhadores (PT).

Esse processo histórico de lutas sindicais e políticas em grande parte foi marcado pela presença contínua e expressiva de Lula. Depois de participar de três eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998), Lula finalmente foi vitorioso nas eleições presidenciais de 2022. Ao assumir o governo do país em 2003 começou a ocorrer uma inversão de valores junto ao Estado nacional, uma vez que Lula passou a governar o país à luz de um conjunto de políticas públicas direcionadas, pela primeira vez na história, também às classes populares. Como em seus três mandatos presidenciais ele priorizou o direcionamento de políticas sociais para fazer frente à exclusão social e, ao mesmo tempo, incorporou tais prioridades à lógica de funcionamento do Estado brasileiro, politicamente ele passou a ser visto como uma ameaça às elites econômicas e políticas, bem como às classes médias a elas associadas.

Seguindo os termos anteriormente mencionados, é possível identificar diferentes matrizes que corroboram para a formação do ódio ao Presidente Lula. Em primeiro lugar, merece atenção a origem familiar de Lula e sua situação pessoal: um ex-retirante nordestino que lutou e sobreviveu às mais duras condições econômicas e sociais trabalhando como metalúrgico industrial desde jovem que, mesmo não possuindo diploma universitário, ascendeu ao mais alto cargo da nação, posto até então hegemonicamente reservado para as elites econômicas e políticas tradicionais. Parcelas das classes média e alta passaram a se sentir desconfortáveis com o país sendo governado por uma pessoa com essa trajetória, fato que acabou levando à aversão pessoal à Lula por parte desses segmentos sociais.

Em segundo lugar, as reações contrárias ao seu envolvimento sindical e as suas lutas em prol da organização política da classe trabalhadora e em defesa da democratização da sociedade brasileira. Neste contexto, setores conservadores, inclusive influenciados por valores religiosos, passaram a ver Lula não apenas como um político, mas também como uma ameaça que iria atacar a propriedade privada visando implantar o comunismo no Brasil. É nesse contexto que ganha dimensão em todo o país o “antipetismo”, normalmente associado à pessoa de Lula. De uma maneira geral, pode-se dizer que segmentos sociais conservadores, liberais e crenças religiosas consideram Lula e o PT também como ameaças aos valores familiares tradicionais.

Em terceiro lugar, o processo de democratização do Estado e das políticas públicas implementado por Lula a partir do momento que passou a governar o país no ano de 2003. Ao implementar um conjunto de novas políticas públicas na perspectiva “bottom up” os governos Lula impuseram uma inversão de prioridades, destacando-se programas como o Bolsa Família e as Cotas Raciais e Sociais nas universidades públicas até então frequentadas pelas famílias das classes média e alta. Essa perda de exclusividade gerou reações bastante estridentes por parte dos segmentos sociais melhor posicionados que passaram a identificar em Lula a razão dessas perdas, bem como ao próprio partido do presidente.

Quando as políticas que compõem o Sistema de Proteção Social do país começaram a impactar positivamente a condição de pobreza de parcelas expressivas da sociedade, foram inúmeras as reações de diversos segmentos sociais, muitas das quais de forma preconceituosa e discriminatória. Um desses casos que se tornou bastante comum nas duas primeiras décadas do século XXI foi o comportamento social dos ocupantes dos aeroportos do país, uma vez que historicamente o transporte aéreo no Brasil era um serviço exclusivo para as classes sociais elevadas. Todavia, quando começou a ocorrer uma maior democratização do acesso a esses serviços, observou-se a geração de desconfortos e até mesmo de questionamentos por parte dos segmentos sociais privilegiados, chegando-se ao ponto de parte desses setores passarem a rotular pejorativamente os aeroportos do país de “rodoviárias” devido à presença de setores mais pobres da sociedade nesses espaços. Essas reações “ao pobre viajando de avião” não diz respeito ao meio de transporte em si, mas ao incômodo com a inclusão social, uma vez que ela representava a perda de exclusividade nos espaços anteriormente frequentados exclusivamente pelas elites econômicas e políticas do país.

Da mesma forma, falas como a do Ministro da Economia Paulo Guedes em 2020 recriminando as empregadas domésticas que viajavam para Miami ou a fala recente do apresentador da Globo Luciano Huck criticando o comodismo dos beneficiários do Bolsa Família são apenas a ponta de um iceberg com raízes profundas que resistem à constituição de uma sociedade mais justa e igualitária.

Registre-se, ainda, que comportamentos preconceituosos em relação às famílias beneficiárias dos programas sociais do Governo Federal, como o demonstrado recentemente pelo apresentador da Rede Globo, são recorrentes desde o início da implementação desses programas a partir dos anos 2000.

No processo eleitoral de 2026 – quando Lula está concorrendo pela quarta vez como presidente da República – uma das principais explicações para não o aceitar novamente como candidato não decorre de suas políticas econômicas ou de outras ações diversas de seu governo. Na verdade, todos os elementos explicitados por aqueles que procuram justificar suas decisões contrárias à reeleição de Lula servem apenas de pretexto para explicar a verdadeira razão: o preconceito e ódio de classe, inclusive fazendo-se menções a sua trajetória de “nordestino”.

Pesquisa recente da Quest também confirmou essa realidade, mas a partir de parâmetros bem precisos à luz das respostas emitidas pelas pessoas quando estimuladas a responder sobre a avaliação que faziam sobre suas próprias condições de vida. Diante da pergunta se nos últimos 20 anos a vida melhorou, as respostas foram distintas. Para as mulheres e pessoas pretas e pobres as respostas foram positivas. Já para as pessoas brancas e com rendas mais elevadas das regiões Sul e Sudeste as respostas foram não.

Todavia, quando as mesmas pessoas das regiões Sul e Sudeste foram inqueridas a expressar suas posições se elas achavam que tais pessoas mereciam ter melhorado de vida, as respostas foram todas negativas. Qual o sentido dessas respostas das pessoas brancas das regiões Sul e Sudeste? Essas respostas revelam um comportamento segregacionista e um sentimento de superioridade social que estimula a divisão e ao mesmo tempo alimenta o preconceito em relação aos outros. Decorre daí a divisão e a falta de solidariedade com relação aos demais que ocupam uma posição social distinta.

E é neste cenário que Lula passa a ser responsabilizado porque ele insiste em estabelecer, por meio de suas políticas sociais, novos parâmetros de sociabilidade que poderão levar à conformação de uma sociedade brasileira mais harmônica e menos desigual.

Isso nos lembra uma frase famosa do Nelson Rodrigues que criticava a hipocrisia e a busca constante de uma classe por privilégios ou ascensão a qualquer custo: “o problema do Brasil não é o povo, é a classe média porque ela sempre quer cair para cima”. Em 2013, a filósofa Marilena Chauí proferiu uma declaração muito semelhante durante o lançamento de um de seus livros: “a classe média é o atraso da vida, é a própria estupidez”.

Além desse segmento social, também temos de acrescentar o comportamento das elites financeiras e políticas que cada vez mais buscam ampliar seus ganhos monetários por meio da ampliação de seus interesses junto ao Estado. Deriva daí suas aversões às políticas e programas de um “Estado Bem-Estar Social” que, na visão desses segmentos, deveria ser reduzido ao máximo, de tal forma que seus ganhos monetários continuassem protegidos. Nesse contexto, Lula passa a ser um problema política porque ele não segue inteiramente a cartilha desses agiotas financeiros.

*Professor de Economia da UFSC.

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