Crônica: Outono triste em cárcere. Por Valter Hugo Mãe

Esgotam-se os ansiolíticos nas farmácias. “Vende-se” por toda a cidade. Netuno parece furioso — e envia outra tempestade. Na marginal, um grita: “sou todos os mortos da pandemia”. Tão perto da vacina, o inverno se aproxima — e encurtará futuros

No Outras Palavras

À noite, ouve-se no prédio um choro baixo, recorrente, longo. A respiração das casas-de-banho melhor propaga o som, e consigo entender certo soluço cansado, a voz feminina sem mais ninguém. Cresci neste prédio, ainda assim, sei mal quem são as pessoas, o que podem sentir, como são, não imagino sequer suas profissões e não prefiguro seus problemas. Nunca entrei em um só apartamento vizinho. Em 30 anos, eu nunca passei de alma porta que não fosse a minha. Conheço o nome de algumas mulheres e o de um homem. De resto, conheço as caras e cumprimento com a educação habituada de sempre. Seguem todos para os andares acima como se seguissem todos para uma indefinição comum que os generaliza. De qualquer modo, intriga-me a tristeza de alguém que me parece ao abandono, e junto isso ao disfórico deste outono que piora a passos largos.

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Vacunación para usted, general Pazuello. José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

O ministro da Saúde do Brasil, general Eduardo Pazuello, na quinta-feira (3) participou da reunião dos titulares da Saúde do Mercosul, todos falantes de espanhol. Apesar de não entender chongas de medicina, prestava muita atenção e exibia expressão sagaz de quem estava sacando tudo o que os seus colegas hablaban sobre el combate al coronavirus. Ele tem uma cara inteligente, não tem não? Logo a seguir, falou tanto quiquiriqui sobre a vacina, que trouxe à tona a história vivida por Stanislaw Ponte Preta, humorista responsável por nos alegrar nos anos 1960 com sua coluna no jornal Última Hora

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O último confinado. Por Miguel Paiva

No Jornalistas pela Democracia

Morreu hoje aos 90 anos, José da Silva, conhecido como o último cidadão brasileiro a manter isolamento total contra o Coronavírus desde 2020, quando se isolou no interior do Estado de São Paulo. José passou 30 anos sem contato algum com a civilização. Vivia recluso, se alimentando do que plantava e se recusando a abandonar a quarentena, mesmo depois de anunciado o controle da pandemia com as várias vacinas que surgiram e que José não ficou sabendo.

Mantinha a decisão de se proteger se isolando do resto do mundo. E conseguiu. José morreu dormindo de falência múltipla dos órgãos e com um sorriso nos lábios. Foi achado primeiro por seu cão e depois por um vizinho alertado pelos latidos do cão.

Desde o recrudescimento da pandemia no ano de 2020 que José decidiu se isolar. Era viúvo, sua mulher tinha morrido de Covid e não tinha filhos. Foi fácil no início tomar essa decisão de sobrevivência. Teimoso e rigoroso cumpriu à risca o que havia decidido. Só sairia dali o dia que aquela guerra tivesse terminado. Demorou ainda muito tempo e muita gente morreu. José também não ficou sabendo. Seu isolamento o mantinha vivo, mas desinformado. Imaginava que a noticia chegaria até ele quando virasse verdade.

Depois de morto descobriu-se como ele vivia. Se alimentava naturalmente com produtos que plantava. Não comia carne nem derivados do leite. Escreveu suas memórias pelas paredes da casa. Desde 2020 foram duas salas, dois quartos e um banheiro de paredes escritas. Não ouvia rádio, não tinha internet nem televisão. Se orientava pelo sol como ele mesmo descreveu numa das paredes e acordava com as galinhas.

Algumas vezes pessoas tentaram fazer contato com ele. Ele se recusou. Eram instaladores de fibra ótica, entregadores de delivery e pastores evangélicos. A palavra de deus para ele eram os seus pensamentos escreveu no banheiro. Aquilo bastava. José por suas próprias palavras escreveu que era feliz e aguardava firmemente o fim da pandemia para poder voltar a tomar uma cachacinha no bar do vilarejo. A cachacinha ficou fechada e José se contentou com a água fresca que tirava do poço sob a mangueira frondosa do alto do morro. Era como beber o elixir da vida. Ao longe, às vezes, escutava um carro passar. Os ruídos foram mudando nesses anos todos e ele imaginava que as pessoas dirigindo também mudassem.

José tinha muitas tarefas que ocupavam o seu dia e tinha muito, também, o que escrever nas paredes. No dia que morreu tinha reproduzido na sala de jantar uma frase que ouvia na sua infância no interior. O bom cabrito não berra. Era uma frase cruel, mas representava muito bem a vida que decidiu viver depois que sua mulher morreu.

A Covid acabou sendo controlada, mas José foi esquecido. Ninguém imaginava que ali, naquela casa isolada do mundo, uma espécie de ilha deserta num mar de pasto e vegetação houvesse alguém.

José foi enterrado à sombra da mangueira ao lado de sua mulher que ele mesmo se encarregou de sepultar. Assim como uma guerra muda as pessoas o mundo mudou muito com a pandemia nesses 30 anos. José talvez não tivesse resistido, mas ele foi fiel ao que havia decidido e à memória de sua mulher vítima da doença.

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Maradona e o voto nulo. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Sei em quem não quero votar, mas não vejo na urna eletrônica o nome daquele em quem quero votar.  Impotente, me pergunto: o que fazer?” (Dermilson Paixão, o Farofa, 2020). 

De que maneira a morte do Maradona, que comoveu o planeta, inspirou esta crônica sobre o voto nulo? Foi assim. A coluna deste domingo (29) era sobre o craque argentino e já havia sido iniciada quando, de repente, um anagrama nos levou a Dona Mara, moradora do beco da Escola. Uma ideia puxa outra. Dona Mara, já falecida, nos fez lembrar seu sobrinho Dermilson Paixão, o Farofa, que vota na gloriosa 41ª Seção da 2ª Zona Eleitoral do Grupo Escolar Cônego Azevedo, bairro de Aparecida, em Manaus. Foi este passo dado em um beco estreito que nos fez mudar de rumo.

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Os homens sem plumas. Por Mauro Luis Iasi

No trem que o levava de volta à sua casa ele não dormia. Olhava pela janela a paisagem de sombras passar velozmente produzindo um balé de luzes no chão do vagão. Alguém encostou nele e lhe passou um folheto amassado.

No blog da Boitempo

“Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas de lama
coaguladas de lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama”

(João Cabral de Melo Neto)

Ele acordou bem cedo, como sempre. Andou pelas ruas ainda adormecidas como que virado para dentro, absorto em pensamentos desconexos, fragmentários. Seus pés o levavam com a maestria adquirida em anos de prática, desviavam de obstáculos e encontravam o caminho às cegas.

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Lições do pau-brasil: os crimes ambientais. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Se Portugal criar sete ou oito povoações no litoral, isso será suficiente para impedir os da terra de vender o pau-brasil e não o vendendo, as naus [francesas] não hão de querer lá ir para voltarem vazias. (Carta de Diogo de Gouveia a D. Joao III, 1532)

O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, por desconhecer a história do Brasil, não mostrou ao ‘Trump de igarapé’ a carta de Diogo de Gouveia a D. João III sobre o contrabando do pau-brasil. Escrita em 29 de março de 1532, sua leitura agora nos pouparia de mais uma besteira que envergonha e submete à chacota internacional a nós, brasileiros. O ex-capitão declara hoje aquilo que desdiz amanhã, acobertado com panos quentes pelo gen. Mourão, seu vice. Na terça-feira (17) na cúpula dos Brics, Bolsonaro ameaçou se vingar dos críticos da política ambiental de seu governo, responsável pelo aumento do desmatamento na Amazônia:

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Coquinho de tucumã, saliva e pólvora no país de maricas. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Abajo la inteligencia, viva la muerte”!
(Millán Astray, general, 1936)

– Bolsonaro comeu coquinho de caroço de tucumã. Isso explica tudo.

Essa descoberta sensacional foi anunciada nesta semana pela historiadora amazonense Astrid Lima, nascida no bairro de Aparecida e hoje residente em Roma. Ela ficou estarrecida quando o capitão enalteceu a morte de um voluntário dos testes da vacina Coronovac: “Morte, invalidez, anomalia […]  Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. Depois de faturar com o luto alheio, ele banaliza: “Todos nós vamos morrer um dia”, o Brasil “tem que deixar de ser um país de maricas”. O capitão mostrou as armas ainda ao novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que defendeu a preservação da Amazônia: “Apenas a diplomacia não dá, né Ernesto, tem que ter pólvora”.

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As eleições municipais: o pissi nossi core. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Agora, lábios meus / dizei e anunciai… 
(Ofício da Imaculada Conceição)

O que significa “pissi nossi core”? Só Deus sabe. Ele e sua mãe Maria entendiam, mas não atendiam aquilo que os lábios de Jean-Paul pediam insistentemente, isso por razões que a leitora logo saberá, se tiver um pouquinho de paciência para conhecer os dois personagens reais dessa história do bairro de Aparecida: o Ademir Doido e a Amazonina, bem como sua relação com as eleições municipais de 15 de novembro.

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Charlotte: a morte, um dia que vale a pena viver. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Na Alemanha, o “noviço rebelde” passeia deslumbrado pelas montanhas da Floresta Negra. No Rio, refestelados no sofá do apartamento do Largo dos Leões, Farah e Weber parecem posar para um quadro de Picasso. No Xingu, índios de diferentes etnias se comunicam em uma variedade própria do português. No Espírito Santo, a Pomerisch Radio faz transmissões em pomerano, língua oficial de Santa Maria de Jetibá. Esses são alguns dos lugares de memória de Charlotte Emmerich, linguista do Museu Nacional-UFRJ, cuja missa de 7º dia se celebrou no sábado (24).

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