A língua de Jesus: a necropolítica. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

A pergunta é oportuna em pleno natal: qual a língua usada no bate-papo que a futura ministra Damares Alves teve com Jesus em cima de uma goiabeira, em Sergipe, em 1974, conforme ela revelou na semana passada? Foi a mesma das canções de ninar com que Maria há mais de dois mil anos acalentava seu bebê? Como é que o menino se comunicava com o primo João Batista ao brincarem de esconde-esconde nas montanhas de Judá? Em qual língua José ensinava ao filho seu ofício de carpinteiro? Parece que as histórias contadas pela vó Ana e o vô Joaquim ao netinho eram no mesmo idioma usado por Maria para chamá-lo a jantar, algo assim como:

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Um conto de Natal

A noite não é amiga das esperanças. Ela nos corta a carne e a sangra, nos lembrando de que estamos vivos e, portanto, podemos morrer.

Por Mauro Luis Iasi, no Blog da Boitempo

“Vi el tiempo generoso del minuto,
atado locamente al tempo grande.”
César Vallejo

Não era possível ver muito a nossa frente. Nossa visão estava ocupada com o passado, com os passos dados pelos caminhos incertos que percorremos até aqui. Sabíamos onde estávamos, alguns de nós ainda se recordavam do lugar aonde gostaríamos de ter ido, mas olhávamos para nossos pés descrentes da caminhada.

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A parábola da goiabeira: Damares (18:5-6). Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Que país é esse? / Terceiro mundo, se for / piada no exterior”…
(Renato Russo – Legião Urbana)

O riso volta a ser censurado no Brasil, desta vez pelo presidente eleito Jair Bolsonaro incomodado com a gargalhada coletiva que explodiu nas redes sociais, provocada pelo vídeo em que a pastora Damares Alves descreve, em estado de transe, seu encontro presencial com Jesus debaixo de uma goiabeira no quintal de sua casa.

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A macaca que chorou a morte da cria. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Esplendor da natureza  /  pulsa forte o teu fulgor, / Flama em nós tua beleza / dom de nosso criador” . (Hino do município de Candeias do Jamari, RO)

O macaco-aranha orelhudo, com barriga de bispo, saltitava agilmente de galho em galho, usando cauda, pernas e braços alongados em álacres piruetas. Era um coatá de cara preta. Parecia feliz e exibia sua alegria sapeca sem pressentir o perigo iminente. Saracoteava, moleque e brincalhão, no alto das árvores daquela floresta, cujo esplendor é cantado pelas crianças nas escolas municipais de Candeias do Jamari (RO). Foi quando Fabinho apontou a espingarda calibre 20 e disparou um tiro certeiro. O animal ferido de morte ficou pendurado pelo rabo enganchado em um galho, balançando ao vento.

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Um dentista entre os índios de Roraima. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Cirurgião dentista: Bruno Miranda da Rocha. Esta placa deveria estar na porta do consultório, em Aracaju, de um jovem nascido em Natal (RN) e diplomado pela Universidade Federal de Sergipe, em 2003. Mas eis que, de repente, ele é convidado por um amigo para trabalhar no Distrito Sanitário Indígena de Roraima, com prazo de 15 dias para se apresentar nas aldeias. Não hesita um minuto. Vende tudo o que acabara de comprar: cadeira odontológica e equipamentos ainda sem uso. E se pirulita. Desembarca no aeroporto de Boa Vista na madrugada de 28 de abril de 2004. Começa uma nova vida.   (mais…)

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Contando histórias nos rios da Amazônia: o peso das palavras

“Vedi Napoli e poi muori” (Adágio italiano)

Por José Ribamar Bessa Freire, no Taqui Pra Ti

Quantos quilos tem uma palavra? Palavrão pesa mais do que palavrinha? E por acaso palavras têm peso? Os participantes do “Amazônia das Palavras” conferiram isso numa balança da expedição literária iniciada em Manaus (4/11) e encerrada em Porto Velho nesta quarta (21). Pesaram suas palavras, navegando 1.300 km pelos rios Negro, Amazonas e Madeira. Trabalho intenso. De manhã e de tarde, oficinas com alunos de escolas de oito cidades ribeirinhas e de uma aldeia indígena. À noite, aula-espetáculo e apresentação do palhaço engolidor de letras. Descanso, só no trajeto de barco de uma cidade à outra. (mais…)

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Vozes da Amazônia na Terra da Flatolândia. Por José Ribamar Bessa Freire

Santo Ernulfo, rogai por nós que recorremos à voz
(apud Torero & Pimenta)

No Taqui Pra Ti

– Quer dizer, então, que os índios têm arquitetos e médicos melhores que os nossos?

A pergunta foi feita ao microfone por um menino de 11 anos, no final da aula-espetáculo ministrada para cerca de 400 pessoas de todas as idades que lotavam a quadra da Escola Estadual Lothar Sussmann, em Borba, nesta segunda (12). Sentado na primeira fila, ele acabara de ouvir a palestra sobre os cinco equívocos que muita gente boa comete quando se refere às culturas indígenas, um dos quais é considerá-las atrasadas e incapazes de produzir conhecimentos. (mais…)

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Amazônia das palavras: um canto na escuridão. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Faz escuro, mas eu canto/ porque a manhã vai chegar”
(Thiago de Mello)

Thiago de Mello, aos 92 anos, não verá nesta segunda (5/11), o crepúsculo deslumbrante no bairro de Educandos, em Manaus, que ele tanto apreciava em sua infância. Aquela cor amarelo-dourada de ventre de pacu irradiada pelo sol em fuga, ali na Baixa da Égua, dura um instante fugaz do cair da tarde. E já será noite, quando o poeta da floresta for homenageado às 19 horas pelo projeto “Amazônia das Palavras”, no início da expedição literária que navegará 1.300 km pelos rios Negro, Amazonas e Madeira e iluminará oito cidades, semeando em cada uma delas o prazer da literatura e do ato de ler e de narrar. (mais…)

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Museu Nacional: vida, morte, ressurreição. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Se esquecemos o passado, ele volta” (Spinoza)

Muitos documentos históricos do Arquivo de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, foram destruídos porque a instituição não tinha verba nem para comprar papel higiênico. Aí, quando seus funcionários sentiam vontade de “descomer”, corriam ao banheiro e, no caminho, arrancavam folha de livro raro ou de manuscrito antigo com a qual se limpavam após “pintarem a porcelana” do vaso sanitário. Dito assim, parece “folclore”, mas não é. Lévi-Strauss, que por lá passou em 1938, copiou do quadro de avisos e publicou em “Tristes Trópicos” o seguinte ato administrativo assinado pelo diretor: (mais…)

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