Carta a Madame Macron: os Xikrin e as almas sebosas. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“Você não presta, ninguém é seu amigo / A solidão vai ser o seu castigo” (Johnny Hooker – Alma sebosa)

Rio de Janeiro, 01 de setembro de 2019

Chère Madame Brigitte Macron

Saudações

Peço desculpas pelas ofensas do presidente do meu país, o capitão de artilharia e paraquedista Jair Bolsonaro, à primeira dama da França, professora de literatura, diplomada em letras clássicas, mãe e avó de três filhos e sete netos. Ele debochou no facebook de sua idade, inteligência e beleza, o que doeu nas profundezas do meu útero coletivo compartilhado com mãe, nove irmãs, três netas, companheira, filha, primas, sobrinhas, alunas, amigas, colegas de trabalho e leitoras. Em nome de todas nós, aqui fica essa singela homenagem.

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O sequestro do ônibus: esquerdopatas e direitopatos. Por José Ribamar Bessa Freire

“Há sangue nesta vida / Há vida neste sangue / Há flor nesta vida / Há vida nesta vida”. (Eliane Potiguara – Tocantins de sangue, 2004)

No Taqui Pra Ti

Terça-feira friorenta. Saio de casa em Niterói para dar aula na Uerj. São 5h45. Faz escuro. Mas eu canto? A manhã vai chegar com esse engarrafamento monstruoso? Tudo paralisado. Estou engasgado no viaduto, antes da praça do pedágio. Ligo o rádio. Alguém sequestrou um ônibus com 37 passageiros, agora atravessado na ponte e cercado por viaturas policiais. As informações são ainda imprecisas. Algumas pessoas descem de seus carros. Conversam. Estão tensas. Não há previsão de liberar o trânsito. Envio mensagens por WhatsApp a meus alunos, suspendendo as aulas.

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As burlas do Jair: manual para ler bula. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

O que é mais difícil digerir: uma pupunha mal cozida, “O Capital” de Marx, uma bula de remédio ou os pronunciamentos do Bolsonaro, que são motivos de galhofa e de charges na mídia do mundo inteiro?

Pupunha parece um palavrão pronunciado por um gaguinho. Mas é uma fruta amazônica. Dura. Tem um nome próprio sonoro: pu-pu-nha, que parece o pretérito imperfeito do indicativo de algum derivado do verbo pôr.  Os peruanos deram-lhe outro nome: pijuayo.

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Meu amigo Roberto Luís. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Quando um cachorro morde um homem, não é notícia, mas se um homem morde um cachorro, isso é notícia”. (Charles Dana, redator do New York Tribune, 1862)

Será que chorar aqui a morte do meu amigo Roberto Luís pode ser reprovável? Afinal, ele nunca foi mordido por um homem para virar notícia, conforme lição controversa ensinada outrora nos cursos de jornalismo, que exaltavam o “inusitado” e o “fantástico”. Diariamente morrem milhares de indivíduos, mas as páginas dos jornais não estão abertas para questão pessoal e corriqueira, ainda mais quando há assuntos atuais de interesse coletivo: agressões contra as conquistas sociais, os índios, o meio ambiente, o movimento LGBT, as universidades, a justiça, a saúde pública, a vida.

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Matadores de esperanças: nome feio e palavrões. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Quem? Aristófanes? Do Amazonas? Grego em Manaus só pode ser filho de cearense.

Bingo. O humorista Stanislaw Ponte Preta acertou na mosca, quando fez este comentário espirituoso em sua coluna no “Última Hora” do Rio, na década de sessenta, anunciando o livro de crônicas do mestre Aristófanes Bezerra de Castro, jornalista, romancista, autor de “Um punhado de vidas” (1949) e “Matadores de Esperança” (1959). Ele nasceu em Xapuri, Acre, em 1917 e faleceu em 2006, depois de responder a quatro IPMs (Inquérito Policial Militar) acusado de subversão pela ditadura militar que em 1964 derrubou Jango, o presidente eleito pelo voto. Hoje é nome de uma escola na Cidade Nova em Manaus.

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O Brasil do João não é o do Jair, tá ok?

Morte do cantor encerrou semana em que governo pareceu celebrar seis meses de obscurantismo

Por Luiz Fernando Vianna, na Época

São admiráveis a sinceridade e o poder de síntese de Jair Bolsonaro. Em 4 de setembro de 2018, ele foi curto e grosso sobre o incêndio que destruíra na véspera o Museu Nacional: “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê?”. É o museu mais longevo do Brasil, com 200 anos de história.

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O outro Brasil: Manuel torneiro, escritor, inventor. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Ele é um personagem. Garboso, elegante, inteligente, criativo. Dá bolo em desembargador. Manoel Santana de Assis, 82 anos, baiano, negro, torneiro mecânico, migrou ainda jovem para o Rio, onde conheceu Maria Cruz, neta de uma índia, por quem se apaixonou. Moram em Anchieta, um bairro da Zona Norte cercado por morros, três filhos e dois netos. Depois de 50 anos de trabalho, ele se aposentou. Agora é escritor, inventor e compositor. Um artista.

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Porque me ufano do meu país: dez razões. Por José Ribamar Bessa Freire

“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! Criança, não verás país nenhum como este”. (Olavo Bilac, Poesias Infantis, 1904)

No Taqui Pra Ti

Nesses tempos bicudos, muitos brasileiros andam cabisbaixos, com vergonha de nosso país, sobretudo quando tomam conhecimento da nossa imagem na mídia estrangeira. Convém levantar os ânimos e renovar as esperanças, seguindo o exemplo da irmã Consolata, nossa professora no Ginásio de Aparecida, em Manaus. No ano do golpe de 1964, ela leu e releu em sala de aula as “Poesias Infantis” de Bilac e o livro do conde Affonso Celso “Por que me ufano do meu país”, publicado em 1900. Lá, o escritor monarquista apresenta onze razões pelas quais podemos nos orgulhar do Brasil, entre as quais a diversidade e a beleza de sua natureza hoje agredida.

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Tarcisio, o anarquista: sua Jerusalém destruída. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

Apesar de termos sido coevos (que palavra horrível!) na imprensa carioca, só fui conhecer pessoalmente o jornalista mineiro Tarcísio Lage em 1969, em Santiago do Chile, ao compartilharmos o quarto numa pensão na Calle Grajales – uma casona antiga de três andares e 40 janelas que alojava brasileiros exilados da ditadura. Um dia, ao entrar no refeitório, vejo Tarcísio lendo em voz alta, numa roda de hóspedes, uma carta de minha mãe, que eu deixara aberta numa gaveta em nosso quarto. Segurava em sua mão o envelope com bordas verde-amarelas. Era a prova do crime.  Protestei indignado:

– Sacanagem! Isso é invasão de privacidade.

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