O cerne da profunda crise que a democracia atravessa é o abismo entre o palácio e o barraco. Sem atacá-lo, centros de decisão continuarão espaços abstratos, blindados por instituições que domesticam anseios populares para, depois, destruí-los
Por Mauro Junior Griggi, em Outras Palavras
A pergunta que a modernidade finge não ouvir é simples, porém fatal: quanto abismo social um sistema de iguais consegue suportar antes de se converter em um simulacro de soberania? O que chamamos de democracia hoje não é um projeto ético de liberdade, mas uma tecnocracia da gestão biopolítica: o Estado tornou-se o síndico de um condomínio de luxo cercado por periferias existenciais, onde o voto é um signo vazio, mas a vida permanece prisioneira de uma ontologia da sobrevivência. No Brasil, o que vemos não é uma disfunção, mas a estrutura atingindo sua hiper-realidade: a transformação da miséria em dado algorítmico e da política em um teatro de sombras onde o real foi devorado pela performance. (mais…)
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