Os limites de uma classe média arraigada ao conservadorismo liberal. Entrevista especial com Sávio Cavalcante

Para o pesquisador, lógicas capitalistas e meritocráticas explicam por que a classe média rejeita a ascensão política da classe trabalhadora

Por: João Vitor Santos, em IHU On-Line

O professor Sávio Cavalcante propõe que olhemos além das análises que ‘culpam’ a classe média brasileira pela ascensão de Jair Bolsonaro e de perspectivas conservadoras que flertam com o fascismo. Ele também considera que a classe média não é uma massa homogênea e que há diferenças nesse grupo social. “Falar sobre as classes médias brasileiras é, ao mesmo tempo e necessariamente, discorrer sobre um capitalismo dependente, altamente desigual e excludente, formado originariamente num modelo de sociedade e por uma acumulação de riqueza baseados no trabalho escravo e que se moderniza no século XX sem alterações estruturais mais amplas”, contextualiza, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, isso “explica o fato de regimes democráticos serem mais a exceção do que a regra ao longo dessa história”.

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Precários de todos os países, uni-vos

Greve dos entregadores, nesta quarta, pode ser esboço de novas lutas. O 0,1% nada produz — mas extrai, saqueia e devasta. Contra ele, é preciso somar as periferias do mundo e a antiga classe média, em extinção. Fazê-lo é nosso desafio

Por Nouriel Roubini, no Project Syndicate | Tradução: Simone Paz, em Outras Palavras

As grandes manifestações e protestos que se seguiram ao assassinato de George Floyd por um policial de Minneapolis discutem racismo estrutural e brutalidade policial nos Estados Unidos, mas não só. Aqueles que foram às ruas em mais de cem cidades norte-americanas, direcionam uma crítica mais ampla ao presidente Donald Trump e ao que ele representa. Uma vasta subclasse de americanos cada vez mais endividados e socialmente paralisados — afro-americanos, latinos e, cada vez mais, brancos — vêm se revoltando contra um sistema que fracassou.

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O Brasil rumo à estagnação completa

Breve, completaresmos quatro décadas de estagnação. Retrocessos contrastam com a modernização do pós-guerra – contraditória, porém notável. Capitalismo financeirizado nos destroçou. Não haverá saída sem acertar as contas com ele

Por Eleutério F. S. Prado*, em Outras Palavras

Dois fatos futuros já são sabidos nesse momento de velório nacional por causa de uma “gripezinha” que se mostra, dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, como uma doença genocida: a) os governantes da pátria amada e idolatrada, considerando-se o conjunto das nações de rendas médias e altas, serão considerados como os mais desastrados no enfrentamento da difusão da pandemia do novo coronavírus na sociedade; b) os danos na malha produtiva produzidos pela atual crise da economia capitalista no Brasil, como consequência dessa má gestão, mas também da política econômica dos últimos trinta anos e, em particular, aquela imediatamente pregressa, serão os maiores dentre todas essas mesmas nações.

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O genocídio como atividade essencial do Estado

Por Tálison Vasques, no blog da Boitempo

“A cidade do colonizado, ou pelo menos a cidade indígena, a cidade negra, a medina, a reserva, é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. Aí se nasce não importa onde, não importa como. Morre-se não importa onde, não importa de quê. É um mundo sem intervalos, onde os homens estão uns sobre os outros, as casas umas sobre as outras. A cidade do colonizado é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. É uma cidade de negro, é uma cidade de árabes” (Frantz Fanon1)

Segundo a Rede de Observatórios da Segurança, durante os meses de abril e maio de 2020, o Estado do Rio de Janeiro aumentou em 27,9% o volume das operações policiais de repressão ao tráfico de drogas e produziu 53% a mais em mortes do que no mesmo período do ano anterior2.

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“Os governos da direita e da extrema direita são muito bons para destruir, mas muito ruins para construir”. Entrevista com Boaventura de Sousa Santos

IHU On-Line

Os cenários a partir dos quais o sociólogo Boaventura de Sousa Santos fala são diversos. Assim como pode oferecer uma conferência sobre as perspectivas de paz na Colômbia, diante de vários líderes sociais e estudantes da Universidade Autónoma Indígena Intercultural, em Popayán [Colômbia], também pode conversar sobre o colonialismo no principal auditório da Universidade da CalifórniaIrvine, ou pode dar uma aula sobre as consequências nefastas do patriarcado na Universidade de Barcelona.

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Com o “Estamos juntos” PSDB e golpistas buscam recuperar protagonismo

Por Pedro Simonard, no Brasil247

No domingo, 31 de maio, a mídia divulgou dois manifestos conclamando à luta em defesa da democracia. O “Basta!”, um manifesto assinado por 710 “profissionais de direito” em defesa da democracia, e o “Estamos juntos”, que mais parece uma ficha de filiação do PSDB. É um manifesto que reúne intelectuais, artistas e políticos. Entre as ausências mais sentidas neste segundo manifesto os três políticos mais em evidência no Brasil contemporâneo Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Vana Rousseff e Ciro Ferreira Gomes. Estas ausências já indicam claramente quais as intenções que estão por trás do “Estamos juntos”.

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O vírus e a ilusória redenção automática

Há esperança tola no desabamento do neoliberalismo. Mais provável é que tudo se desenrole como na crise de 2008. No Brasil, Bolsonaro é retrato da decadência da direita — mas só cairá se houver projeto da esquerda

Por Philippe Scerb*, em Outras Palavras

Pode parecer contraditório, mas a pandemia tem despertado uma esperança que não se via há algum tempo na esquerda. Analistas há pouco descrentes no fortalecimento de organizações e ideias progressistas têm visto num acontecimento improvável o potencial de alterar o curso previsto da história. É como se o vírus, além de matar milhares de pessoas, fosse também capaz de afligir o corpo doente do neoliberalismo.

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Egoisticamente, a solidariedade é a única escolha que temos. Por Slavoj Žižek

Repete várias vezes a afirmação que o Papa Francisco fez ecoar naquela memorável oração pública na Praça São Pedro, em 27 de março passado: “Estamos todos no mesmo barco”. Slavoj Žižek, filósofo, intelectual poliédrico e conhecido por suas referências marxistas, entremeado por fortes dívidas com Jacques Lacan, não tem dúvidas: “Agora estamos todos no mesmo barco”. Ele reafirma isso pelo menos três vezes em seu livro mais recente, Pandemic! Covid-19 Shakes The World (OrBooks, Nova York – Londres), recém-publicado, do qual (cortesia da editora) publicamos um trecho a seguir com nossa tradução para o italiano, por Lorenzo Fazzini.

por L’Osservatore Romano / Tradução de Luisa Rabolini, em IHU On-Line

E é uma situação precisamente cristã, essa do sofrimento comum, segundo o pensador esloveno. Ecoando Catherine Malabou, Žižek escreve que “às vezes a suspensão da socialidade é o único acesso à alteridade, uma maneira de se sentir próximo de todas as pessoas isoladas na Terra. Esta é a razão pela qual estou tentando ser o mais solidário possível em minha solidão. E é uma ideia profundamente cristã: quando me sinto sozinho, abandonado por Deus, naquele momento sou como Cristo na cruz, em plena solidariedade com ele”.

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Noam Chomsky: “Se não conseguirmos um ‘Green New Deal’, ocorrerá uma desgraça”

Voz de referência da esquerda nos EUA, o pensador pede uma grande mudança de rumo. Afirma que colocar funções públicas sob controle privado explica grande parte do desastre na crise do coronavírus

por Marta Peirano, em El País

O norte-americano Noam Chomsky (91 anos) é o fundador da linguística contemporânea e o pensador crucial da esquerda contemporânea. Também é um dos grandes impulsores da Internacional Progressista, a plataforma que reúne o The Sanders Institute, o Movimento pela Democracia na Europa 2025 (DiEM25), representantes do Sul global, Índia, África e América Latina. Em plena pandemia eles se lançam para bloquear uma escalada do neoliberalismo e “abrir a porta a alternativas progressistas preocupadas com o bem-estar das pessoas e não pela acumulação de riqueza e poder”. O encontro foi tela com tela.

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Löwy: Só uma revolução antissistêmica abre caminho para uma nova sociedade

Entrevista do sociólogo Michel Löwy concedida ao site turco El Yazmalari, no último dia 9 de maio, reproduzida em inglês pelo International Viewpoint. Tradução de Hudson Valente.

Insurgência

Há muitos anos, no manifesto ecossocialista, você apontou que inúmeros pontos de resistência surgiram espontaneamente no mundo caótico do capital global, e afirmou que a maioria desses pontos de resistência são ecossocialistas em natureza. Você chamou a atenção para a possibilidade de esses movimentos se reunirem e estabelecerem um “internacional ecossocialista”. Nos últimos 15 anos, as resistências contra a ordem caótico do capital global tem aumentado e se espalhado. Especialmente o final de 2019 e o início de 2020 foram cheios de manifestações. Onde estamos hoje em relação à idéia da internacional ecossocialista? As possibilidades para isso aumentaram?

Michael Löwy: Houve de fato um aumento na resistência socioecológica contra o capital global. Camponeses, comunidades indígenas e mulheres estão na vanguarda dessa luta, assim como os jovens: milhões foram para as ruas, seguindo o chamado de Greta Thunberg. Esta mobilização internacional pela justiça climática é sem precedentes. Isso nos dá esperança, mas até agora a oligarquia [dos combustíveis] fóssil ainda está no poder e impõe sua regra desastrosa: business as usual. Estamos caminhando rapidamente para uma catástrofe.

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