A televisão e a cena do mundo contemporâneo

Por Rosane Borges*, no Blog da Boitempo

 “Antes de mais nada, a televisão é cotidiana e familiar. Para muitos, ela é o princípio organizador do tempo, todo dia, toda semana, todo ano. Como os primeiros campanários católicos, ela pontua as horas do dia. Como toda liturgia, anuncia os ofícios da semana. Como toda religião, molda-se sobre o ritmo sazonal do ano. Por essa razão, ela introduz em cada lar rostos que vão ficando cada vez mais familiares à medida que os esperamos com hora marcada e que podemos ter a sensação de tê-los escolhido – se necessário, mudando de canal a todo momento. A casa se povoa assim de deuses lares, de pequenas divindades domésticas, amáveis de humor sempre igual, tranquilizadoras.[…]” – MARC AUGÉ

A atualidade da TV

Acaba de ser publicado pela primeira vez no Brasil Televisão: tecnologia e forma cultural, do pensador britânico Raymond Williams (Editora Boitempo). O livro é considerado obra clássica para a pesquisa na área da comunicação e, mais do que isso, para a compreensão da dinâmica das sociedades do século XX que pavimentou o terreno para a reconfiguração das mídias no XXI. A princípio, pode-se pôr em questão o fato de termos uma publicação sobre TV em plena era dos dispositivos digitais, em que a atenção das pessoas migrou para a tela do computador. Contra essas vozes, é preciso que se diga que a televisão continua atualíssima, posto que converteu-se no suporte que nos enredou, em definitivo, no mundo das telas e das visualidades; ela foi a grande responsável pela hegemonia do audiovisual, já ensaiada com a pintura e o cinema. Até a instauração do audiovisual, as formas de comunicação caminharam do gesto à palavra, dos suportes da mídia primária (corpo) aos suportes de mídia secundária (impressos), que aumentaram a possibilidade de comunicação a distância. A mídia terciária, da qual a televisão é fruto, extingue definitivamente os limites espaciais.

Pelo que foi (o primeiro meio de comunicação eletrônico que aglutinou várias matrizes discursivas – som, imagem e fala), pelo que é (um veículo que constrói e demarca o espaço público) pelo que poderá ser (a TV digital desenha outro patamar de interação com o meio; a transmissão via computador mudou as formas de recepção), a televisão continua nos desafiando. Desde os anos 50 do século passado, não cessam de aparecer estudos empenhados em avaliar o veículo, a partir de várias perspectivas, escolas e disciplinas. As perplexidades, os descontentamentos, os deslumbramentos, os ataques, as defesas, as apologias, o tom catastrófico em que gravitam muitas dessas pesquisas nos fazem notar que a importância da TV extrapola o âmbito de ser um meio eletrônico sincrético. Para além disso, o veículo foi considerado um divisor de águas na constelação dos meios de comunicação.

A forma significante da TV

E é com esse empenho, de demonstrar o que é a TV e o que ela representa, que o livro de Raymond Williams possui validade atemporal, a despeito das diversas e significativas mudanças que o veículo sofreu desde 1974 (ano da publicação do livro), conservando intacta sua força para explicar como um dispositivo tecnológico conseguiu cotidianizar os relatos, “desprovincianizar” o mundo e se instalar, irrevogavelmente, em vários lugares, os mais recônditos, e absorver e homogeneizar as expectativas dispersas.

Ainda que o livro principie pelo tópico da tecnologia, Williams não é refém do determinismo tecnológico. Para ele, resultam contraproducentes estudos aprisionados nos efeitos da televisão. Conseguimos perceber essa concepção alargada do autor no próprio título do livro, onde o subtítulo congrega tecnologia e forma cultural. Williams consegue, dessa forma, traçar um percurso equilibrado que nos leva a compreender a televisão como tecnologia, mas também como produto das condicionantes históricas, resultado da determinação das práticas culturais. Essa dobradinha é uma das virtudes da obra, pois tradicionalmente os estudos sobre TV foram sovinas em pensá-la a partir dessa dupla visada. Ao realçar a forma significante da televisão, renunciada pelas teorias usuais, o pensador britânico tira o véu de questões que foram decisivas para o sucesso televisivo em escala planetária.

Outra virtude do livro é a noção de fluxo, largamente adotada por analistas de TV. Para Raymond Williams, a “televisão não era estruturada por unidades separadas nem dividida entre programas e anúncios publicitários, mas por um fluxo planejado, em que a verdeira série não é a sequência publicada de programas, mas essa sequência transformada pela inclusão de outro tipo de sequência, de modos que essas sequências juntas compõem o fluxo real, a real ‘radiodifusão’.”

Dividido em seis capítulos (“A tecnologia e a sociedade”, “Instituições da tecnologia”, “As formas da televisão”, “Programação: distribuição e fluxo”, “Efeitos da tecnologia e seus usos”, “Tecnologia alternativa, usos alternativos?”), Televisão: tecnologia e forma cultural reafirma o seu papel para a compreensão das mídias digitais a partir da centralidade da TV, prerrogativa que enrique o painel das críticas a um dispositivo que alterou significativamente nossas formas de ser e de estar no mundo.

Somos da era do tele-ver, quase tudo que acontece ao nosso redor, o sentido das coisas e da vida, se efetiva frente ao vídeo (internet, sistemas de vigilância). Essa presença marcante da tela nos nossos afazeres e práticas rotineiras torna possíveis considerações as mais variadas, entre elas a de que o homo sapiens se converteu, na contemporaneidade, em homo videns. Se é possível se fazer tais considerações, é porque vivemos imersos num mundo de imagens pontuado pelos dispositivos do ver e do olhar. É como um grande Olho que a televisão se aloja em nossos lares e nos oportuniza, em seu ritual cotidiano, representações/apresentações do mundo e de nós mesmos nos foto-grafando, donde a frase que se consagrou: “o livro nós escaneamos, a televisão, ela nos escaneia”.

Oportunamente, pode-se objetar que não só a televisão suscita esse ver/olhar à distância, mas todas as máquinas de imagens – da pintura parietal à infografia. Insisto que a televisão é o principal emblema desse amálgama pela sua capilaridade e extensão. Ela capta o espírito do tempo, pois, como lembra o psicanalista Antonio Quinet, a produção do olhar em nossa sociedade atual é privilegiada, porque vivemos o

“cúmulo da sociedade escópica”, “onde não há só o império do vídeo e da tele-visão e o imperativo do ‘ser visto’, mas também a utilização da tecnologia científica para fazer existir o olhar, colocando na prática uma razão paranóica, em que todos se sentem vigiados, pois na verdade essa possibilidade está permanentemente presente. Produção do a-mais-de-olhar na sua versão de mal-estar da civilização.” (2004, p. 8).

De fato, a relação do olhar é a condição estruturante comum a todos os gêneros propriamente televisivos, como lembrou Muniz Sodré. É aí que reside o processo de mediação, é pela fascinação que nos tornamos homo videns de uma sociedade que abusivamente se mostra. Esta ligação TV-olhar vem produzindo desde a sua consolidação, no final do século XIX e início do XX, efeitos duráveis em nossa cultura, pois aí pedaços significativos de nossas vidas e trajetos do humano se desenharam de maneira inédita. Pensar o que representam os dispositivos do olhar na contemporaneidade (celulares, tablets, computadores, câmeras de vigilância, entre outros) significa voltar atrás e entender a dinâmica televisiva, ontem e hoje. Sem sombra de dúvidas, o livro Televisão: tecnologia e forma cultural é uma excelente ferramenta para o alcance desse propósito.

 

*Rosane Borges é mestra e doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, pós-doutoranda pela mesma Universidade, professora do curso de especialização do Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação) da USP, integrante da Cojira-SP (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial), autora e organizadora de diversos livros, entre eles, Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (Imprensa Oficial, 2004), Mídia e racismo (2012).

Imagem: Raymond Williams em programa da Thames TV fala sobre “O círculo de giz caucasiano”, de Brecht, em 1985.

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