O mês, o dia e o todo dia de índio

Por: Raial Orotu Puri – Crônicas Indigenistas

Eis que chegou o mês de abril, um mês que exige de quem tem sangue indígena um certo grau de estoicismo para dar conta do recado de ‘levar numa boa’ o conjunto irônico que ele compõe. e com ele virão, como sempre, as menções à cultura indígena, em face do controverso “Dia do índio”, 19 de abril. Um só dia, enquanto que antes, como diz Babi ‘todo dia era dia de índio’. Controverso, porque nesse dia do calendário específico aparentemente o Brasil que, durante 364 dias prefere negar a sua raiz, se vê subitamente inundado por uma onda de ‘homenagens’ nem sempre bem elaboradas aos povos originários.

Interessante, enquanto pensava sobre o que escrever, me ocorreu que o tal ‘Dia do Índio’ antecede ao chamado ‘Dia do Descobrimento’, 22 de abril. Não sei se essa ordem – e progresso – foi intencional, mas se não foi acho que perderam a oportunidade de utilizar uma tremenda ironia. Porque sim, é bem comum que, do ponto de vista dos não-indígenas, seja pensado que tudo se resolve com um dia do calendário dedicado ao sacrossanto ritual de pintar o rosto das crianças com guache na escola, e ou de presenteá-las com a absurda peninha feita de cartolina, ou mais atualmente, em E.V.A, que pretende ser uma cópia de um ‘enfeite indígena’.

Acredito que as coisas melhoraram consideravelmente, na medida em que houve a implementação da Lei Lei nº 11.645 de 10 de março de 2008, que alterou o texto da Lei 10639/2003, e inseriu também a obrigatoriedade do ensino da cultura indígena no currículo escolar obrigatório. Digo que melhoraram, mas pondero que isso não deve ser necessariamente uma realidade em diferentes regiões do país. E não posso também deixar de ponderar com pesar, a propósito desses avanços legislativos, no quanto essa medida salutar tende a escoar pelo ralo, em tempos de ‘readequação’ (sic) do currículo escolar, onde o próprio ensino da história corre o risco de vir a ser desobrigado de acontecer.

E sei também que, mesmo na vigência dessa legislação, ainda existem um sem número de exemplos sofríveis, e alguns deles se tornam ainda mais sofríveis em estados como o Acre, onde existe uma população indígena considerável, e, como uma mãe atenta de dois filhos que estudaram em uma escola pública de Rio Branco considerada ‘uma das melhores da cidade’, não cheguei a verificar durante todo o ano de 2016 qualquer menção à cultura indígena presente no Estado nos cadernos, lições e trabalhos realizados. Pelo contrário, aliás, notei foi um indisfarçável descontentamento por parte da escola na ocasião em que minha filha retornou de uma visita a aldeia com o rosto pintado de jenipapo (e sei que só não houve uma manifestação mais veemente de reprimenda a ela porque a escola me conhecia o suficientemente bem para saber que estariam comprando uma briga muito feia).

Esse fato se passar no Acre para mim é algo que me deixa realmente entristecida e incomodada, visto ser um paradoxo terrível: trata-se de um estado de uma presença indígena considerável, e, no entanto, ainda assim, mesmo aqui, existe um processo nada pequeno de invisibilização dessas populações. É como se houvesse realmente um esforço bastante grande em deixar as populações indígenas à margem da população branca e ‘civilizada’. Isso é bastante marcante até mesmo no modo como os símbolos públicos se constituem. Por exemplo, aonde está exatamente a figura indígena que deveria estar entre aquelas estátuas que retratam ‘os fundadores do estado’, localizadas no Mercado Velho? Aonde estão as estátuas de indígenas, aliás? Acredito que elas existam, espero até que elas existam, mas ainda assim, qual o lugar do indígena na história do Acre?

Me pego pensando nisso, e me recordo de uma das recentes viagens que fiz à Terra Indígena Puyanawa em Mâncio Lima, quando um parente me interpelou em uma das palestras sobre se haveria uma possibilidade de reivindicar a retirada de certos nomes com os quais foram batizados alguns locais públicos em Cruzeiro do Sul, como o “Teatro dos Nawas”. A pergunta partiu do Cacique Wilson Nawa, e ele me explicou que, do ponto de vista dele, integrante de um povo indígena que ainda luta pelo reconhecimento de seus direitos originários à seu território tradicional, essa designação é ofensiva.

Ao responder sobre essa questão na Assembleia, eu comecei refletindo que acreditava que esse tipo de designação, ao que me parece bastante frequente na região, que inclusive é conhecida como ‘terra dos Nawas’ deve ter sido pensada à época do batismo como uma espécie de homenagem. O único problema é que, ao que tudo indica, alguém se esqueceu de perguntar para os pretensos homenageados se eles de fato se sentiriam homenageados com essa deferência.

Aliás, o Brasil é um país lotado dessas pretensas homenagens, nomes de cidades que o digam! Vale dizer que, no caso do povo Nawa se está falando de um povo que foi, como o meu próprio povo, declarado extinto, e sei que se essa reivindicação para retirada do etinônimo chegar a ser realmente efetuada, ela será encarada de forma tão afrontada e ofendida quanto a das usuárias brancas de turbante. Chego até imaginar algumas frases do tipo ‘como assim vocês não consideram o fato de usarmos o nome de vocês uma honrosa referência?’, ‘como assim vocês não entenderam que a gente estava tentando lhes fazer uma deferência ao citar o nome de vocês?’ ‘Veja, a gente está aqui reconhecendo aqui que esta terra toda era de vocês, por isso que damos esse nome a tantos lugares públicos, e agora vocês vêm aqui reclamar e se sentir ofendidos?’.

Por favor, não achem que eu estou exagerando… Infelizmente, a coisa é realmente por aí**.

Ainda enquanto conversávamos na Assembleia sobre este assunto, Jósimo Puyanawa observou que o caso deles é outro: o nome do município onde residem é uma homenagem ao Coronel Mâncio Lima, cuja memória não é nem um pouco saudosa para a população indígena ali residente. E nisso, também, o Brasil é bastante pródigo. São bastante comuns as homenagens e deferências a personagens históricos que, do ponto de vista indígena, poderiam muito bem ser encaixadas dentro da frase do filme de animação Uma história de amor e fúria, “Meus heróis não viraram estátua, morreram lutando contra quem virou.”

São muitas as estátuas de algozes de indígenas, a começar pelo colossal ‘monumento aos bandeirantes’ de São Paulo, e pelas enormes estátuas de Coronéis montados em enormes corcéis que povoam um sem número de cidades, de um extremo ao outro do país. Aos indígenas cabe, neste diapasão, as referências às palavras de seu idioma que dão nomes às cidades, ruas, lugares. Sei que, em alguma medida, isso também pode ser visto como uma homenagem. Pode. Até pode… Mas ao mesmo tempo, acredito que essa homenagem é um pouco distorcida, porque dá sempre a entender que esse povo de quem a gente pegou essa palavra não existe mais, então podemos usar livremente, como se fosse ‘domínio público’.

Isso acaba por ser uma espécie bastante peculiar de invisibilização. Peculiar e cruel, porque é apenas uma citação, para que, caso alguém reclame, seja possível responder ‘opa, calma aí, como assim, até o nome da nossa cidade está na sua língua, não está? Então como assim você está aqui me dizendo que vocês são invisíveis e marginalizados?’ Pois é… o nome da cidade é uma palavra indígena. Mas por acaso, o indígena tem a oportunidade de participar dessa cidade de maneira equivalente à forma como os brancos participam? Ele por acaso se reconhece dentro dessa cidade que leva o seu nome? Ou essa cidade nada mais é do que uma ferida terrível dentro do seu território, uma mancha de sangue e destruição que foi colocada em cima dos seus territórios sagrados, e que foi construída a custa do sangue de seus ancestrais?

Isso são questões que eu creio que devem ser pensadas. Não apenas no Acre, obviamente. Me lembro de uma vez em que estive trabalhando em um Laudo Antropológico de uma comunidade quilombola na região sul do país, e que por conta disso, tive de fazer um trabalho de levantamento da história oficial de uma série de cidades de uma região de Santa Catarina. Era bastante interessante enquanto exercício avaliativo do nível de cinismo historiográfico, pois bastava entrar nas páginas das prefeituras destes municípios para ler um resumo que pode ser transcrito em linhas gerais da seguinte forma: “A presença humana na região data do ano de tanto do tanto, quando o Coronel Fulano de Tall chegou à cidade e doou um quinhão de terras à Diocese de tal. O nome da cidade é XXXX, que significa YYYYY, e foi dado porque naquela região havia um Cacique muito bravo que lutava contra os invasores por tanto tempo e…”

Ops… então, a presença humana só começa a valer quando o coronel branco chegou e deu terras para a Igreja Católica, mas e a outra da população humana que era que havia antes e era chefiada pelo tal Cacique Bravo?

E quem dera isso fosse um exemplo caricato, ou exagerado. Não é.
Infelizmente, o modo como o Brasil trata as populações originárias que aqui estavam antes destas terras serem delimitadas como Brasil está lotado de exemplos surreais e quase inacreditáveis, daquilo que acontece de maneira corriqueira e cotidiana. São inúmeros exercícios de pequenas violências, que convivem com outras tantas ainda enormes, em um cotidiano que pretende ainda se ressentir com o fato de que os indígenas não mais se contentam em ser notas introdutórias de uma história que também foi construída às suas custas, muitas vezes, à custa de seu sangue.

O caso acreano, voltando a ele, é bastante sintomático: quase todos os 15 povos que sobreviveram ao massacre que aqui se instaurou foram escravizados nos seringais. Mesmo os que não necessariamente sofreram a escravidão, tiveram suas vidas marcadas de forma dramática com as consequências que o sistema impôs aos seus modos de vida. Apesar disso, a história oficial do estado durante muitos anos deixou de pensar a presença indígena nesse período histórico, ou, se a pensou, viu não povos, mas caboclos.

E é assim que chegamos ao mês de abril. Ainda invisibilizados, ainda marginalizados, ainda desconsiderados. Ainda tendo de ler no primeiro Diário Oficial deste mês a notícia da extinção de uma CR da Funai, isso enquanto estamos ainda digerindo mais um ato no processo de sistêmico desmonte que já vem de alguns anos, e que andou se acelerando nos últimos tempos de maneira cada vez mais assustadora.

Por essa razão mesmo, se faz tão necessária a manutenção de uma constante mobilização e vigilância acerca dessas tantas ameaças, seja em nível local ou federal. É assim que dia desses eu respondia a uma amiga sobre o que eu pensava sobre o Acampamento Terra Livre, se comparecer ao mesmo é uma forma válida de colaborar com o movimento indígena. Respondia a ela que sim, é. Não que seja a única, mas é uma das formas. Não chego a acreditar que ela seja a única, ou a mais importante, mas acho sim que é importante estar lá, e em todos os lugares. Porque a ameaça atualmente tem vindo de todos os lugares, e é importante estar atento a cada um deles. E como não existe de fato um único lugar para vigiar, é de fato muito necessário que existam muitos a vigiar, e outros mais ainda a postos para a reação.

Pois sim, são realmente muitas as frentes a se considerar, muitas as lutas a serem travadas, inclusive a reivindicação para que a escola não-indígena introduza a cultura indígena no seu ensino. Entendo ser isso radicalmente importante para a formação de seres humanos que, quando chegarem à vida adulta consigam ser um pouco menos tacanhos que os adultos que os antecederam nas tratativas com a diversidade.

Uma das formas mais óbvias de fazer isso ocorrer é, justamente, a possibilidade de convidar os próprios indígenas para apresentarem sua cultura dentro da escola. Bem óbvia, sem dúvida, mas que, infelizmente, não vejo ainda acontecer com frequência, mesmo em estados como o Acre, que tem uma cultura indígena tão pujante. Salvo algumas exceções louváveis, como o trabalho proposto pelo Centro Huwa Karu Yuxibu em Plácido de Castro, que pelo segundo ano consecutivo pretende realizar um abril indígena oferecendo atividades culturais para crianças das escolas públicas da cidade.


Imagem: Álvaro Vivero.

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