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Dona Raimunda: “Eles acham que para criar o gado tem que acabar com o babaçu”

Por racismoambiental, 11/03/2010 17:48

Local: São Paulo – SP
Fonte: Amazonia.org.br
Link: http://www.amazonia.org.br
Bruno Calixto
Dona Raimunda, conhecida pela sua luta na defesa dos    direitos das mulheres extrativistas.
Raimunda Gomes da Silva, ou dona Raimunda, como ficou conhecida, pode parecer à primeira vista uma mulher simples, do campo.  Mas é só iniciar a conversa para se ver uma mulher forte, politizada, que conhece bem a sua realidade e sabe que deve lutar para conseguir mudá-la.
Dona Raimunda ficou conhecida pela sua luta na defesa dos direitos das mulheres extrativistas, as Quebradeiras de Coco babaçu.  Essa luta trouxe resultados, como a Lei do Babaçu Livre, que proíbe a derrubada de palmeiras de babaçu, e permite que as quebradeiras possam extrair o fruto das palmeiras mesmo em propriedades privadas.
Mas mesmo com a Lei, fazendeiros continuam derrubando as palmeiras, que levam cerca de noventa anos para dar frutos, o que inviabiliza o reflorestamento.  ”Eles acham que para criar o gado tem que acabar com o babaçu”, explica Dona Raimunda.
A quebradeira conversou, por telefone, com o site Amazonia.org.br, e relatou a experiência que teve na luta pelo direito das mulheres da região do Bico do Papagaio, Tocantins, e de sua experiência na criação de associações das mulheres dentro do sindicato dos Trabalhadores Rurais.
Ela contou que a situação das mulheres melhorou, com projetos como a “Casa da Quebradeira” e o Bolsa Família.  Mas ainda assim, não deixa de ver com crítica a questão.  ”Por causa dessa assistência social do governo, a situação está melhorando.  Está muito longe de ser suficiente, mas que dá pra calar a boca das pessoas que não conhecem os seus direitos, isso dá”.
Confira a entrevista.
Amazonia.org.br – A senhora é conhecida por defender a causa das mulheres extrativistas.  Hoje, esses direitos estão sendo mais respeitados do que antigamente?
Dona Raimunda – Sim, estão.  Mas olha, é na luta, defendendo.  Hoje temos a lei [Lei do babaçu Livre], mas tem que fazer respeitar a lei, porque a lei foi criada no Estado e no município, e mesmo assim continuam derrubando coco.
Amazonia.org.br – E o que tem sido feito para defender o babaçu?
Dona Raimunda – O que você imaginar, a gente fez.  Agora, nesses últimos tempos, a gente tem lutado através dessa lei.  Antigamente a gente fazia mutirão, entrava na frente de trator, denunciava.  Hoje a gente está denunciando em cima dessa lei.
Mas depois da denúncia, os caras são multados, pagam a multa e depois fazem de novo.  Eles botam veneno nas palmeiras.  A chuva chega, os animais bebem da água com o veneno, a gente come os animais…
Amazonia.org.br – Quem faz isso?
Dona Raimunda – São os donos da terra, os fazendeiros.  Eles acham que para criar o gado tem que acabar com o babaçu.
Amazonia.org.br – E como ficam as mulheres que trabalham nessa atividade?  Elas conseguem sustentar família com o babaçu?
Dona Raimunda – Agora melhorou, porque tem Bolsa Família, elas recebem Bolsa Escola.  Melhorou muito a condição, até mais do que as que querem entrar na quinta dos fazendeiros.  Aquela atividade muito pesada diminuiu depois que elas começaram a receber essa ajuda de custo, salário maternidade, essas coisas.
Por causa dessa assistência social do governo, a situação está melhorando.  Melhorando, não, esta dando pro pessoal ficar lá um pouco mais, pra ir sobrevivendo.  A gente sabe que não é o suficiente, está muito longe de ser suficiente, mas que pra calar a boca das pessoas que não conhecem os seus direitos, isso dá.
Amazonia.org.br – A senhora foi a primeira mulher a ser presidente do sindicato dos extrativistas.  Como foi essa experiência?  Os homens te respeitavam?
Dona Raimunda – A gente não tinha para quem se queixar, então o jeito era criar o sindicato do trabalhador rural.  E depois a gente criou o movimento de mulheres dentro do sindicato.  Os companheiros sempre me respeitaram, mas às vezes tem uma pessoa que é respeitada, mas outras não são.
Você tem que fazer com que a sua categoria seja respeitada.  E por isso nós criamos Associação de Mulheres e Secretaria da Mulher dentro do sindicato, dentro do Conselho Nacional dos Extrativistas.  Fomos criando essas associações para lutar para que os companheiros respeitem o direito dessas companheiras.  Hoje já tem muita companheira consciente dos seus direitos, da sua vida, de ser mulher.
Amazonia.org.br – Qual o papel da mulher da Amazônia hoje?
Dona Raimunda – Hoje aqui a gente luta por emprego, por saúde, por educação.  Contra a violência, pela paz.  Então nossa luta é grande.  Lutando para que as pessoas fiquem no campo, não tenham que ir pra cidade pra criar os filhos.  Lutando para ter educação aqui.  Principalmente com a questão de ter tanta tecnologia, questão da internet, nossos filhos estão longe de poder usar a internet, de estar trabalhando com tecnologia.
Por isso a gente batalha muito dentro da questão da educação, para que tenha universidade aqui na região, gratuita, para as quebradeiras de coco.  Porque elas não têm condição de pagar quinhentos, seiscentos reais numa matrícula, numa escola, pra botar o filho na universidade.
Amazonia.org.br – As quebradeiras já conseguiram algum resultado com essa luta?
Dona Raimunda – Aqui na região a gente conseguiu a questão da moradia.  Nós, mulheres, conseguimos 803 casas de quebradeira de coco.  Isso para nós foi uma conquista muito grande.
Quem construiu foi o governo, federal e estadual, mas foi por causa da nossa luta, cobrando no dia a dia.  Até foi feito um filme [o vídeodocumentário "Raimunda, a quebradeira", do cineasta Marcelo Silva], e o governo viu a situação das quebradeiras de coco.  Este ano devem sair mais 96 casas.  Agora a gente está pleiteando mais casas, cinco mil casas só na região do Bico do Papagaio.

Reportagem de Bruno Calixto

Raimunda Gomes da Silva, ou dona Raimunda, como ficou conhecida, pode parecer à primeira vista uma mulher simples, do campo.  Mas é só iniciar a conversa para se ver uma mulher forte, politizada, que conhece bem a sua realidade e sabe que deve lutar para conseguir mudá-la.

Dona Raimunda ficou conhecida pela sua luta na defesa dos direitos das mulheres extrativistas, as Quebradeiras de Coco babaçu.  Essa luta trouxe resultados, como a Lei do Babaçu Livre, que proíbe a derrubada de palmeiras de babaçu, e permite que as quebradeiras possam extrair o fruto das palmeiras mesmo em propriedades privadas.

Mas mesmo com a Lei, fazendeiros continuam derrubando as palmeiras, que levam cerca de noventa anos para dar frutos, o que inviabiliza o reflorestamento.  ”Eles acham que para criar o gado tem que acabar com o babaçu”, explica Dona Raimunda.

A quebradeira conversou, por telefone, com o site Amazonia.org.br, e relatou a experiência que teve na luta pelo direito das mulheres da região do Bico do Papagaio, Tocantins, e de sua experiência na criação de associações das mulheres dentro do sindicato dos Trabalhadores Rurais.

Ela contou que a situação das mulheres melhorou, com projetos como a “Casa da Quebradeira” e o Bolsa Família.  Mas ainda assim, não deixa de ver com crítica a questão.  ”Por causa dessa assistência social do governo, a situação está melhorando.  Está muito longe de ser suficiente, mas que dá pra calar a boca das pessoas que não conhecem os seus direitos, isso dá”. Continue lendo… 'Dona Raimunda: “Eles acham que para criar o gado tem que acabar com o babaçu”'»

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O Artesanato dos Índios Kisêdjê e a Operação Moda Triste do Ibama em Canarana (MT): aspectos socioambientais, artigo de Valdir Lamim Guedes Junior

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Por racismoambiental,

O agente do Ibama, Gaspar Rocha, e os índios Yanuculá Kaiabi e Wadumba Kisêdjê. Foto: Fernanda Bellei, Instituto Socioambiental.
EcoDebate] Mais de 100 índios, entre eles 30 caciques e guerreiros da etnia Kisêdjê, se reuniram na Câmara dos Vereadores de Canarana (MT), dia 2/03, para exigir de volta os artigos indígenas apreendidos pelo Ibama em 10 de fevereiro. A apreensão se deu em duas lojas da cidade, durante a Operação Moda Triste. O Ibama recolheu os objetos alegando que foram confeccionados com penas e ossos de animais silvestresi.
Este caso tem dividido opiniões pois algumas pessoas consideram a atuação do Ibama exagerada. Outras pessoas consideram os índios como criminosos, por estarem desrespeitando a leis de Crimes Ambientais (lei nº 9.605/ 1998).
Apesar de existirem aspectos legais discutíveis, neste artigo serão focados apenas aspectos socioambientais. É evidente que a comercialização de artesanato com partes de animais deve ser evitada, tanto por motivos éticos (referentes à sociedade “civilizada”), quanto pela sustentabilidade das populações animais. Tendo uma visão humanista da ocorrido em Canarana, e não ecocêntrica, o que fazer quando não se tem meios de viver, de ter o que comer? Entrar na economia de mercado? Não é questão de entrar na economia ou não entrar, é uma questão de sobrevivência, de não ter outra saída.
Está situação não parece ser o que ocorre neste caso especifico. O povo Kisêdjê vive na Terra Indígena Wawi, na entrada do Parque Indígena do Xingu (MT), no município de Querência, com 150.328 ha, existindo na área projetos geradores de renda e assistência médica, não estando estes índios passando fome.
E se a situação fosse outra, de índios passando fome. Algumas pessoas poderiam questionar: porque não plantam? Já que caçar não é adequado para a sustentabilidade das espécies animais, ao ver do homem branco civilizado. E a resposta é simples, apenas a agricultura não é suficiente para a sobrevivência do grupo porque destruímos suas terras, sua cultura, transmitimos doenças às quais os índios não têm resistência. Apesar disto, boa parte da Amazônia está protegida sobre o domínio de indígenas e eles tem muito a nos ensinar, porque conseguiram por muito tempo conviver de modo sustentável com a natureza.
Acerca deste caso, um contra-argumento é possível: o que é mais perigoso para a conservação das espécies animais? O artesanato feito por estes índios ou a derrubada da floresta para a produção de soja ou criação de gado?
Ao analisar as críticas à produção de artesanato por índios deve-se ter em mente a idéia do “biólogo autoritário”, com a sua conseqüente arrogância anti-humanista, que acredita na existência de uma dicotomia entre o homem e a natureza, e com isto, para se preservar o meio ambiente deve-se manter o ser humano distante das áreas naturais. Esta visão, amplamente difundida na biologia da conservação, baseia a idéia de parques ecológicos sem pessoas morando dentro de seus limites, sendo responsável por muitos conflitos pela posse de terras e grandes custos para o ministério público.
Muitos grupos tradicionais, índios, ribeirinhos, quilombolas e caiçaras, por exemplo, manejam o meio ambiente de forma sustentável e muitas vezes a biodiversidade regional é mantida justamente por este manejo dos recursos naturais. Um exemplo disto é a agricultura através de roças itinerantes que mantém uma heterogeneidade ambiental, responsável por manter uma riqueza de espécies maior.
A análise deste caso dos índios Kisêdjê expõe que quando se trata destes grupos tradicionais a comparação direta com o comportamento do “homem civilizado” não pode ser direta, por causa da relação destas pessoas com o meio ambiente. Apesar de parecer uma coisa muito impactante o artesanato feito por estes índios, isto não é nada comparado às alterações causadas pelo desmatamento para a extração de madeira, plantio de soja e criação de gado, problemas que devem ser o foco dos esforços em defesa do meio ambiente.
Valdir Lamim Guedes Junior, Mestrando em Ecologia de Biomas Tropicais, Universidade Federal de Ouro Preto, é colaborador e articulista do EcoDebate.
EcoDebate, 11/03/2010
Nota do EcoDebate: sobre o mesmo tema leiam, também, o artigo “O Artesanato dos Índios Kisêdjê e a Operação Moda Triste do Ibama em Canarana (MT): Aspectos legais, artigo de Valdir Lamim Guedes Junior”

O agente do Ibama, Gaspar Rocha, e os índios Yanuculá Kaiabi e Wadumba Kisêdjê. Foto: Fernanda Bellei, Instituto Socioambiental.

EcoDebate] Mais de 100 índios, entre eles 30 caciques e guerreiros da etnia Kisêdjê, se reuniram na Câmara dos Vereadores de Canarana (MT), dia 2/03, para exigir de volta os artigos indígenas apreendidos pelo Ibama em 10 de fevereiro. A apreensão se deu em duas lojas da cidade, durante a Operação Moda Triste. O Ibama recolheu os objetos alegando que foram confeccionados com penas e ossos de animais silvestres.

Este caso tem dividido opiniões pois algumas pessoas consideram a atuação do Ibama exagerada. Outras pessoas consideram os índios como criminosos, por estarem desrespeitando a leis de Crimes Ambientais (lei nº 9.605/ 1998).

Apesar de existirem aspectos legais discutíveis, neste artigo serão focados apenas aspectos socioambientais. É evidente que a comercialização de artesanato com partes de animais deve ser evitada, tanto por motivos éticos (referentes à sociedade “civilizada”), quanto pela sustentabilidade das populações animais. Tendo uma visão humanista da ocorrido em Canarana, e não ecocêntrica, o que fazer quando não se tem meios de viver, de ter o que comer? Entrar na economia de mercado? Não é questão de entrar na economia ou não entrar, é uma questão de sobrevivência, de não ter outra saída. Continue lendo… 'O Artesanato dos Índios Kisêdjê e a Operação Moda Triste do Ibama em Canarana (MT): aspectos socioambientais, artigo de Valdir Lamim Guedes Junior'»

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MANIFESTO DE LANÇAMENTO DO MOVIMENTO NACIONAL EM DEFESA DA TITULAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DOS TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS E COMUNIDADES TRADICIONAIS

Por racismoambiental, 10/03/2010 15:35
Considerando que no Balanço de 10 anos do FSM-2010 em Porto Alegre as Comunidades Quilombolas tem muito pouco a comemorar, e esse pouco se dá graças a luta insistente e cotidiana das comunidades quilombolas pois se aprofundam cada vez mais os ataques aos territórios negros, Quilombolas, Comunidades Tradicionais e Indígenas em todo País.
Considerando provém de todas as esferas de Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) como demonstram a retirada de pauta do Decreto de Desapropriação para reconhecimento da Comunidade Quilombola da Invernada dos Negros em SC sem qualquer explicação plausível, publicação esta que estava prevista para 20 de novembro de 2009.
Considerando a negociata em torno do Estatuto da Igualdade Racial com a retirada da temática Quilombola privilegiando os interesses do Agronegócio.
Considerando a falta de controle efetivo por parte do movimento social e baixíssima executividade orçamentária dos parcos recursos referente a temática Quilombola.
Considerando a demora para implementação e execução dos processos de titulação das comunidades Quilombolas, bem como, e a existência de Ação Direta de Inconstitucionalidade atacando patrocinada pelo DEM atacando o Decreto 4487/2003, bem como, o Projeto de Decreto Legislativo da lavra do Deputado Valdir Collato (PMDB-SC) também atacando o Decreto 4887/2003.
Considerando que as Comunidades vem resistindo como demonstram as mobilizações existentes no final do ano passado com ocupação do INCRA como ocorridos em SC, RJ, Salvador Bahia, MG as mobilizações no RS, interrupção de BRs como no Espírito Santo.
Considerando que o conflito vem se acirrando existindo varias lideranças Quilombolas ameaçadas de morte, presas, perseguidas e assassinadas como ocorrido na Comunidade dos Alpes – Quilombo Urbano em Porto Alegre-RS.
Considerando que tais fatos em especial a demora na implementação das Políticas Públicas e na Titulação das Comunidades expõem as Comunidades a um agravamento da situação de opressão e exploração já existentes e que tal situação não é fruto de mero desmando administrativo mas de uma opção política a favor dos interesses do agronegócio e contrários aos interesses das comunidades tradicionais.
Considerando a necessidade de avançarmos na resistência, rompermos o isolamento, articularmos a unidade para luta em defesa dos territórios Quilombolas e que para construirmos um outro Mundo sem Racismo, Exploração, Opressão, Xenofobia e Intolerância só se concretizará com luta e mobilização, os ativistas sociais, militantes do Movimento Negro, Quilombolas presentes na Oficina Defesa dos Territórios Quilombolas e Comunidades Tradicionais e Impactos das Políticas Institucionais realizada das 14h às 20h do dia 26 de Janeiro de 2010 no Auditório do Ministério Público, Praça da Matriz, Porto Alegre nº 110.
Deliberamos:
1- Lançamento do Movimento Nacional em Defesa da Titulação e Desenvolvimento Sustentável dos Territórios Quilombolas.
2- Agenda de Mobilização e Articulação do Movimento nos Estados com Plenárias Estaduais entre os dias 21 e 31 de Março de 2010.
3- Indicativo para o dia 22 de Abril de 2010 – Dia de Jornada de Luta Quilombola. (Atos nos Estados, Ida a Brasília para agenda com o STF e Congresso Nacional).
Contra o Racismo Institucional
Em defesa do Decreto 4887/2003
Pelo indeferimento da ADIN do DEM
Pela retirada de pauta e arquivamento do Decreto Legislativo do Deputado Valdir Collato do PMDB de SC.
Pela Titulação Imediata das Terras de Quilombo.

Manifesto

Considerando que no Balanço de 10 anos do FSM-2010 em Porto Alegre as Comunidades Quilombolas tem muito pouco a comemorar, e esse pouco se dá graças a luta insistente e cotidiana das comunidades quilombolas pois se aprofundam cada vez mais os ataques aos territórios negros, Quilombolas, Comunidades Tradicionais e Indígenas em todo País.

Considerando provém de todas as esferas de Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) como demonstram a retirada de pauta do Decreto de Desapropriação para reconhecimento da Comunidade Quilombola da Invernada dos Negros em SC sem qualquer explicação plausível, publicação esta que estava prevista para 20 de novembro de 2009.

Considerando a negociata em torno do Estatuto da Igualdade Racial com a retirada da temática Quilombola privilegiando os interesses do Agronegócio.

Considerando a falta de controle efetivo por parte do movimento social e baixíssima executividade orçamentária dos parcos recursos referentes à temática Quilombola. Continue lendo… 'MANIFESTO DE LANÇAMENTO DO MOVIMENTO NACIONAL EM DEFESA DA TITULAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DOS TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS E COMUNIDADES TRADICIONAIS'»

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Cimi repudia nova agressão da Polícia Federal aos Tupinambá

Na madrugada desta quarta-feira (10), cinco policiais federais, fortemente armados, arrombaram e invadiram a casa de Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, na comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro. Segundo seus familiares, no momento de sua prisão, Babau foi violentamente agredido e ameaçado de morte.
De acordo com membros da Comunidade Indígena da Serra do Padeiro, durante a ação policial parentes do cacique se esconderam debaixo da cama, com medo de sofrer abusos e agressões por parte da PF. Vários móveis da casa foram quebrados. Para a comunidade, pela conduta dos policiais a impressão que ficou foi no sentido de que pretendiam levar Babau sem ninguém perceber, tanto que eles agiram durante a madrugada e após entrarem na casa fecharam a porta. Ainda segundo a comunidade, os policiais o obrigaram a engolir um comprimido, que suspeitam pudesse ser um calmante.
O clima na Serra do Padeiro é de muita apreensão. Até o início da manhã, a comunidade se questionava sobre a origem dos invasores, se eram realmente policiais federais. No entanto, a informação de que a ação foi realizada pela Polícia Federal já foi confirmada e a família de Babau está na sede da PF de Ilhéus. Os familiares procuram notícias e querem ver o cacique, mas de acordo com eles, somente a imprensa local teve acesso ao mesmo.
A prisão de Babau, liderança que representa as cerca de 130 famílias que vivem na aldeia da Serra do Padeiro (município de Buerarema, e de Olivença, em Ilhéus) aconteceu em um momento de significativa tensão. Na segunda (08), houve uma reunião com todos os caciques Tupinambá, da qual apenas Babau não participou. O encontro foi com delegados da PF na sede da Funai em Ilhéus. Segundo informações de lideranças presentes nessa reunião, o assunto tratado foi a criação de mecanismos que procurem formas pacíficas durante os procedimentos de reintegração de posse de áreas ocupadas pelos indígenas.
Essa não foi a primeira agressão sofrida pelos Tupinambá. Em 2008, durante uma tentativa de prender Babau, a Polícia Federal ingressou na aldeia e destruiu a escola da comunidade, além de agredir Babau, seu irmão Jurandir Ferreira e o ancião Marcionilio Guerreiro com tiros de borrachas. Dois dias depois, cerca de 130 agentes voltaram à comunidade, agindo com forte e desproporcioanl aparato policial. Na ocasião, eles destruíram móveis, queimaram roças e feriram dezenas de pessoas.
Ano passado, novas arbitrariedades foram cometidas. Cinco indígenas foram constrangidos e sofreram abusos de poder praticado pela PF, entre eles uma mulher. Durante esta ação ilegal, eles foram agredidos com gás de pimenta e dois deles receberam choques elétricos que deixaram queimaduras nos corpos das vítimas, inclusive em partes íntimas.
Não se pode admitir e muito menos aceitar que a Polícia Federal utilize-se de expedientes próprios do período da ditadura militar na sua relação com o povo Tupinambá.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) repudia essa ação da PF por entender tratar-se de conduta ilegal e despropositada, porque realizada às 2h40 da madrugada, sem apresentação de qualquer mandado de prisão e de forma violenta.
Em respeito ao Estado Democrático de Direito e à cidadania dos Povos Indígenas, em especial dos Tupinambá é fundamental que o Departamento de Polícia Federal e o Ministério da Justiça apresentem a decisão judicial que determinou a prisão preventiva do Cacique Babau e que demonstrem a integridade física e moral desta relevante e dedicada liderança indígena do Povo Tupinambá.

Na madrugada desta quarta-feira (10), cinco policiais federais, fortemente armados, arrombaram e invadiram a casa de Rosivaldo Ferreira da Silva, o cacique Babau, na comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro. Segundo seus familiares, no momento de sua prisão, Babau foi violentamente agredido e ameaçado de morte.

De acordo com membros da Comunidade Indígena da Serra do Padeiro, durante a ação policial parentes do cacique se esconderam debaixo da cama, com medo de sofrer abusos e agressões por parte da PF. Vários móveis da casa foram quebrados. Para a comunidade, pela conduta dos policiais a impressão que ficou foi no sentido de que pretendiam levar Babau sem ninguém perceber, tanto que eles agiram durante a madrugada e após entrarem na casa fecharam a porta. Ainda segundo a comunidade, os policiais o obrigaram a engolir um comprimido, que suspeitam pudesse ser um calmante.

O clima na Serra do Padeiro é de muita apreensão. Até o início da manhã, a comunidade se questionava sobre a origem dos invasores, se eram realmente policiais federais. No entanto, a informação de que a ação foi realizada pela Polícia Federal já foi confirmada e a família de Babau está na sede da PF de Ilhéus. Os familiares procuram notícias e querem ver o cacique, mas de acordo com eles, somente a imprensa local teve acesso ao mesmo. Continue lendo… 'Cimi repudia nova agressão da Polícia Federal aos Tupinambá'»

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Conselho de direitos humanos constata situação de miséria e preconceito em áreas indígenas em MS

Por racismoambiental, 09/03/2010 12:03
O  Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), visitou ontem (8) áreas indígenas no município de Dourados (MS) onde foram constatadas condições degradantes e miseráveis. O objetivo da visita é verificar as denúncias de violações contra indígenas Kaiowá e Ñandeva, da etnia Guarani, e elaborar um relatório com recomendações às autoridades estaduais e federais.
A notícia é de Lisiane Wandscheer, da Agência Brasil e publicada pelo EcoDebate, 09-03-2010.
Segundo o diretor de Defesa de Direitos Humanos da SEDH, Fernando Matos, em vários locais faltam alimentos e água, há problemas na demarcação da área e preconceitos na região contra os indígenas. “Vivemos como porcos no chiqueiro”, disse Matos, citando a frase de um cacique.
Matos disse ainda que os indígenas estão impedidos de realizar atividades de subsistência típicas de sua etnia como a caça e a pesca e que há denúncias de homicídios.
“Nós tememos que haja algum tipo de retaliação em função da vinda do conselho. Pediremos, amanhã, que sejam tomadas medidas que preservem a integridade destas pessoas”, afirmou Matos.
Pela manhã, o grupo esteve na aldeia de Passo Piraju, a 20 quilômetros de Dourados, onde conversaram com lideranças. Depois, o grupo seguiu para o presídio Harry Amorim Costa. O local concentra a maior população carcerária indígena do país, com aproximadamente 100 índios.
O advogado do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Rogério Batalha, que participa das visitas, disse que Mato Grosso do Sul tem a pior situação de demarcação de terras do país e a segunda maior população indígena do Brasil com cerca de 70 mil indígenas.
“A fronteira agrícola avançou nos anos 70, mas houve poucos avanços no reconhecimento das áreas indígenas. A falta de regularização desencadeou problemas sociais, violência, consumo de drogas e álcool e o maior índice de assassinatos de índios no país”, destacou o advogado do Cimi.
De acordo com o procurador do Ministério Público Federal de Dourados, Marco Antônio Delfino, antes, os indígenas viviam na região de forma pacífica, mas com a expansão da fronteira agrícola, a destruição da floresta e a expulsão dos índios de suas terras, o clima mudou.
“Hoje a situação é explosiva na região, próxima a chegar a um estopim”, alerta Delfino.
Durante a tarde, o grupo percorreu as comunidades Guarani Kaiowá e Guarani Ñanderu Laranjeira, a 50 quilômetros de Dourados, e amanhã (9) estará em Campo Grande para se reunir com autoridades locais e federais.

O  Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), visitou ontem (8) áreas indígenas no município de Dourados (MS) onde foram constatadas condições degradantes e miseráveis. O objetivo da visita é verificar as denúncias de violações contra indígenas Kaiowá e Ñandeva, da etnia Guarani, e elaborar um relatório com recomendações às autoridades estaduais e federais.

A notícia é de Lisiane Wandscheer, da Agência Brasil e publicada pelo EcoDebate, 09-03-2010.

Segundo o diretor de Defesa de Direitos Humanos da SEDH, Fernando Matos, em vários locais faltam alimentos e água, há problemas na demarcação da área e preconceitos na região contra os indígenas. “Vivemos como porcos no chiqueiro”, disse Matos, citando a frase de um cacique.

Matos disse ainda que os indígenas estão impedidos de realizar atividades de subsistência típicas de sua etnia como a caça e a pesca e que há denúncias de homicídios.

“Nós tememos que haja algum tipo de retaliação em função da vinda do conselho. Pediremos, amanhã, que sejam tomadas medidas que preservem a integridade destas pessoas”, afirmou Matos. Continue lendo… 'Conselho de direitos humanos constata situação de miséria e preconceito em áreas indígenas em MS'»

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MULHERES OCUPAM NUFARM NA LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA DO AGRONEGÓCIO: POR REFORMA AGRÁRIA E SOBERANIA ALIMENTAR

Por racismoambiental, 08/03/2010 12:20
Amigos (as),
Na manhã de hoje, mulheres da Via Campesina e outros movimentos sociais ocuparam a fábrica da Nufarm, em Maracanaú. Em anexo, segue a nota das (os) manifestantes sobre a ação.
Vocês podem ter mais informações com Cristiane Faustino, do Fórum Cearense de Mulheres: 9969.1269. Maria de Jesus, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra: 9641.1336. Patrícia Oliveira, advogada do MST e integrante da Rede Nacional de Advogados (as) Populares (Renap Ceará): 8603.2208.
Abaixo, as reivindicações. Mais detalhes no panfleto que segue em anexo.
- Que os órgãos governamentais e jurídicos (como a SEMACE, IBAMA, ANVISA, etc.) cumpram de fato o seu papel de monitorar e de punir as empresas que cometem irregularidades;
- Suspensão de todos os incentivos fiscais e créditos subsidiados para as empresas que cometem crimes ambientais e sociais;
- Divulgação e ampliação dos estudos e pesquisas existentes nas Universidades, como forma de medir os impactos sociais e ambientais e esclarecer a população sobre os riscos;
- Retirada imediata da empresa NUFARM do Conjunto Novo Maracanaú, do Estado do Ceará e do Brasil;
- Suspensão da produção, comercialização e utilização de agrotóxicos;
- Recuperação ambiental das áreas afetadas pelos agrotóxicos;
- Proibição imediata da produção e comercialização de produtos transgênicos;
Desapropriação das terras com crime ambiental e destinação imediata para a Reforma Agrária;
- Créditos de apoio a produção agroecológica de alimentos produzidas pela agricultura camponesa.
Atenciosamente,
Daniel Fonsêca
jornalista | fortaleza, ceará

Imagem Postal

Amigos (as),

Na manhã de hoje, mulheres da Via Campesina e outros movimentos sociais ocuparam a fábrica da Nufarm, em Maracanaú. Em anexo, segue a nota das (os) manifestantes sobre a ação.

Vocês podem ter mais informações com Cristiane Faustino, do Fórum Cearense de Mulheres: 9969.1269. Maria de Jesus, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra: 9641.1336. Patrícia Oliveira, advogada do MST e integrante da Rede Nacional de Advogados (as) Populares (Renap Ceará): 8603.2208.

Abaixo, as reivindicações. Mais detalhes no panfleto que segue em anexo.

- Que os órgãos governamentais e jurídicos (como a SEMACE, IBAMA, ANVISA, etc.) cumpram de fato o seu papel de monitorar e de punir as empresas que cometem irregularidades;

- Suspensão de todos os incentivos fiscais e créditos subsidiados para as empresas que cometem crimes ambientais e sociais;

- Divulgação e ampliação dos estudos e pesquisas existentes nas Universidades, como forma de medir os impactos sociais e ambientais e esclarecer a população sobre os riscos;

- Retirada imediata da empresa NUFARM do Conjunto Novo Maracanaú, do Estado do Ceará e do Brasil;

- Suspensão da produção, comercialização e utilização de agrotóxicos;

- Recuperação ambiental das áreas afetadas pelos agrotóxicos;

- Proibição imediata da produção e comercialização de produtos transgênicos;

Desapropriação das terras com crime ambiental e destinação imediata para a Reforma Agrária;

- Créditos de apoio a produção agroecológica de alimentos produzidas pela agricultura camponesa.

Atenciosamente,

Daniel Fonsêca

jornalista | fortaleza, ceará Continue lendo… 'MULHERES OCUPAM NUFARM NA LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA DO AGRONEGÓCIO: POR REFORMA AGRÁRIA E SOBERANIA ALIMENTAR'»

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Mulheres do início do século XXI

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[EcoDebate] A primeira ideia que nos vem à mente quando pensamos em mulheres neste início do século XXI é a da mulher urbana, trabalhadora, realizada e feliz porque agora se viu livre do domínio machista que a condenava à inferioridade nas relações de gênero mantida por tantos séculos, inclusive a obrigação de gerar filhos.
Todavia, não podemos ser ingênuas acreditando existir um único tipo “ideal” de mulher, como se ele representasse de fato todas as mulheres de hoje, de idades variadas, com os diversos problemas que enfrentam em suas comunidades e territórios, e com todos os desafios que as fazem lutar por mais dignidade, seja nas relações afetivas, na família, no trabalho ou no meio político e social em que vivem.
Mesmo considerando que são algumas mulheres urbanas, esses seres que se fizeram autônomos por terem renda própria e por se desvencilharem dos tabus e das muitas armadilhas dos preconceitos morais, as que galgaram altos cargos públicos e privados, assumindo as mesmas profissões antes reservadas exclusivamente aos homens, e que por isso são as que melhor representam, ideologicamente, a emancipação feminina, não podemos nos esquecer de outras tantas mulheres, as que ainda hoje vivem sob o jugo dos pais, dos maridos2 , ou dos patrões nessa sociedade com resquícios patriarcais e da exploração capitalista desmedida, modo de vida que transformou tudo em mercadoria.
Penso nas mulheres que, mesmo tendo conquistado a emancipação frente ao machismo, estão sobrecarregadas com o ônus da própria emancipação conquistada, como a dupla ou até a tripla jornada de trabalho, com o sofrimento em face das doenças antes quase exclusivas do mundo masculino, com o fardo do provimento da prole, pelo simples fato de poderem agora romper com as relações afetivas falidas.
Foi a partir dos anos 60 do século passado que o movimento de libertação das mulheres desencadeou-se como parte integrante de um movimento cultural da juventude. No final do século XX, um número expressivo de mulheres entrou no mercado de trabalho, chegando mesmo a ser em número maior do que os homens em determinados setores, como são exemplos as universidades. Em algumas empresas, os quadros femininos passaram a atingir o topo da carreira.
A economia capitalista, baseada no estímulo e na criação incessante de novas necessidades, foi a que mais contribuiu para o crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, de modo a que viessem a ser uma fonte suplementar de rendimentos, necessária para a realização dos sonhos da sociedade de consumo. Todavia, olhando bem, antes disso, as mulheres sempre trabalharam. Nas sociedades primitivas executavam as tarefas agrícolas e domésticas. Às mulheres, devemos a criação da agricultura, no neolítico, enquanto os homens incumbiam-se da caça e da pesca.
A partir da Revolução Industrial trabalharam nas fábricas e nas situações extremas, como no período das duas grandes guerras, trabalharam fora do lar. É de se notar, todavia, que as mulheres em todos esses momentos não deixaram de assumir a difícil tarefa das obrigações domésticas. Para justificar a dupla ou até a tripla jornada, essa “realidade” foi mascarada por uma cultura que valoriza a liberdade e o maior bem-estar individual e que vê no trabalho doméstico uma forma de submissão da mulher ao homem. A ideologia hegemônica forjou o reconhecimento social do trabalho feminino atrelado a ideias como o direito a uma “vida autônoma” e à independência econômica.
Os próprios homens tiveram de reconhecer a legitimidade do trabalho assalariado feminino como instrumento de autonomia e realização pessoal, a despeito de muitas vezes ser cristalino para todos que nem mesmo sob o aspecto econômico é compensatório para as famílias, e principalmente para a sociedade de modo geral, o sacrifício da venda de toda a força de trabalho de cada família no mercado. Quando ambos os cônjuges estão fora do lar, e por muitas horas de trabalho nas empresas, há irremediavelmente uma perda na qualidade de vida dos pais e dos filhos, que acabam sendo expostos à vulnerabilidade de uma sociedade que não tem mais tempo para os laços comunitários, para os momentos de mística, de intimidade familiar e de luta social.
Os maiores problemas, normalmente, tornam-se mais visíveis nos territórios de baixa renda, em vista de não disporem as famílias de creches, de escolas e de serviços necessários para compensar minimamente a falta da atenção materna e paterna no lar. Deparamo-nos diariamente com notícias de crianças e adolescentes entregues ao narcotráfico, de adolescentes grávidas e sem a mínima condição de ampararem os filhos gerados, perpetuando, deste modo, o círculo vicioso da pobreza e da exclusão, elas mesmas, essas mulheres, desde tenra idade, desamparadas pela sociedade.
E por que muitas mulheres, mesmo neste século XXI ainda estão longe das conquistas da emancipação feminina? Penso que isso ocorre em vista da hegemonia capitalista. Vivemos em uma sociedade que tem como fundamento a competição em todos os níveis. Assim, a primeira preocupação não é um lugar para cada um na sociedade.
O discurso hegemônico faz acreditar que todos podem se dar bem, desde que lutem isoladamente por isso. Cada um tenta de todas as formas conquistar um lugar melhor, mas de modo a se tornar um ser que consome mais. Todavia, quem embarca no consumismo se consome aos poucos. Na busca de um sonho inatingível as pessoas empenham suas forças sem ter muita consciência de que, na prática, estão contribuindo é para a manutenção de um sistema opressor, que absolutiza o lucro e que desconsidera as mazelas sociais e ambientais que provoca.
Deste modo, o nosso agir em sociedade, mesmo aparentemente emancipado, tem contribuído para o aumento das intervenções irresponsáveis no meio ambiente e para a destruição da cultura e dos bens naturais das comunidades tradicionais, nas quais ainda existem laços de fraternidade e de cultura camponesa. A cada minuto deixamos os nossos rastros na poluição do ambiente provocada pelos nossos automóveis, pelo consumo excessivo de mercadorias cada vez mais sofisticadas que exigem o uso crescente de energia, de água, de produtos de limpeza e de mais e mais embalagens. Exploramos trabalho e biodiversidade quando excedemos no uso de cosméticos, de produtos de higiene pessoal, de artigos de luxo, ou com tanta parafernália para manter a aparência e para nos manter em dia com as inovações tecnológicas. Tudo o que resulta da manipulação das necessidades humanas pelos meios de comunicação.
Vítimas deste modo de vida ocidental, construído sob a lógica de um poder dominado por homens e do qual participam inexoravelmente as mulheres urbanas modernas e as suas porta-vozes, as mulheres que na televisão e na mídia em geral são usadas para vender tudo, desde os cosméticos e bebidas até os automóveis e os imóveis de luxo. As mulheres subservientes do consumismo e as que vendem a sua imagem – escolhidas entre “as mais bonitas” – contribuem para lançar no mundo da exclusão, este já esquecido pelo capitalismo, outras mulheres que ainda têm muito a conquistar. São as meninas, grávidas ainda na adolescência, as mulheres marginalizadas que não encontrando outra forma de renda não podem realizar tarefa senão a venda do seu próprio corpo de uma outra maneira, as mulheres operárias que além da tripla jornada são as responsáveis pelo provimento do lar, mesmo condenadas aos salários mais baixos do que os dos homens.
Não quero com isso passar uma visão pessimista do ser feminino deste início de século XXI. Apesar de não terem as mulheres conseguido efetivamente se emancipar neste sistema-mundo5, mantido nas e pelas relações de competição e do individualismo, são elas, emancipadas economicamente ou não, as protagonistas de uma nova sociedade. No mundo inteiro, nos chamados movimentos antissistêmicos são as mulheres as que constroem na luta os caminhos contra toda forma de opressão. Temos visto isso nas Comunidades Eclesiais de Base, no Movimento dos trabalhadores Rurais sem Terra – MST -, no Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB -, na Via Campesina e em tantos movimentos populares sociais do Brasil e da América Latina.
No Brasil, nos núcleos urbanos pobres são as mulheres as que tomaram a decisão de construir a casa própria através do mutirão3 , como consequência da falta de políticas públicas adequadas e sob pena de verem as famílias vulnerabilizadas ainda mais pela falta de moradia e após se verem mais empobrecidas com o pagamento do aluguel ao longo do tempo. Para essas mulheres faço reverência, reconhecendo que sem elas correríamos o risco de perder a esperança de vida melhor para todas as nossas crianças. São as mulheres camponesas as que descobriram que não basta a conquista da terra, que é preciso conquistar a igualdade de direitos também nas conquistas, inclusive a superação do machismo ainda existente na militância. São elas que assumiram a liderança da luta pela reforma agrária em muitos casos4 e nas denúncias da apropriação capitalista dos bens naturais no campo, como foram exemplo as mil mulheres que no Rio Grande do Sul destruíram diversas mudas de eucalipto de uma empresa transnacional que impede o fortalecimento da agricultura familiar para a produção de alimentos e para a geração de renda para os pequenos agricultores. Lembro-me também daquela mulher indígena que teve a ousadia de num ato extremo apontar um facão para o engenheiro da Eletrobrás que usava diversas mentiras para justificar numa audiência pública a construção ilegal da hidrelétrica de Belo Monte no Rio Xingu.
Por tudo isso, parafraseando o grande poeta Drumond, digo que olho as minhas companheiras mulheres neste início de século XXI e vejo que estão muitas taciturnas, mas nutrem grandes esperanças. Entre todas, considero a enorme realidade. Porém, também como Drumond, não serei a cantora de uma mulher, de uma história. Proponho na diversidade a construção de uma sociedade em que vivam mulheres, de todas as idades, de todos os lugares, de todas as culturas, fazendo um outro mundo possível, onde o poder seja somente o do cuidado, na e da perspectiva feminina. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas em mais um 8 de março, o de 2010!
Notas: 1. Delze dos Santos Laureano é advogada e professora universitária, mestre em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito da UFMG, doutoranda em Direito Internacional em Direitos Humanos pela PUC-MINAS, Integrante da RENAP – Rede Nacional de Advogados Populares; e-mail: delzesantos@hotmail.com
2. Para ilustrar essa afirmação basta ver o grande número de situações de violência doméstica amparadas pela Lei Maria da Penha.
3. Em Belo Horizonte são exemplos as Comunidades Camilo Torres e Dandara, com mais de 1.000 famílias de “sem-teto e sem-terra” que estão conquistando na luta e na garra moradia popular e cidadania. Nessas duas ocupações as lideranças femininas são fortes e decisivas.
4. Temos como exemplo o Assentamento Pastorinhas do MST em Brumadinho, MG, liderado por mulheres camponesas que além da conquista da terra tem contribuído para uma educação em agroecologia em toda a região metropolitana de Belo Horizonte, especialmente para estudantes do ensino médio e superior. Cf. www.pastorinhas.blogspot.com
5. Conceito criado por Immanuel Wallerstein para retratar o Universalismo Europeu
Colaboração de Gilvander Moreira, frei Carmelita, para o EcoDebate, 08/03/2010

Texto de Delze dos Santos Laureano

[EcoDebate] A primeira ideia que nos vem à mente quando pensamos em mulheres neste início do século XXI é a da mulher urbana, trabalhadora, realizada e feliz porque agora se viu livre do domínio machista que a condenava à inferioridade nas relações de gênero mantida por tantos séculos, inclusive a obrigação de gerar filhos.

Todavia, não podemos ser ingênuas acreditando existir um único tipo “ideal” de mulher, como se ele representasse de fato todas as mulheres de hoje, de idades variadas, com os diversos problemas que enfrentam em suas comunidades e territórios, e com todos os desafios que as fazem lutar por mais dignidade, seja nas relações afetivas, na família, no trabalho ou no meio político e social em que vivem.

Mesmo considerando que são algumas mulheres urbanas, esses seres que se fizeram autônomos por terem renda própria e por se desvencilharem dos tabus e das muitas armadilhas dos preconceitos morais, as que galgaram altos cargos públicos e privados, assumindo as mesmas profissões antes reservadas exclusivamente aos homens, e que por isso são as que melhor representam, ideologicamente, a emancipação feminina, não podemos nos esquecer de outras tantas mulheres, as que ainda hoje vivem sob o jugo dos pais, dos maridos2 , ou dos patrões nessa sociedade com resquícios patriarcais e da exploração capitalista desmedida, modo de vida que transformou tudo em mercadoria. Continue lendo… 'Mulheres do início do século XXI'»

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Pressão é grande contra indígenas e quilombolas, diz antropóloga

Por racismoambiental, 05/03/2010 10:54
Processos de homologação de terras indígenas e quilombolas pouco avançam diante dos impactos de obras de infra-estrutura e da ofensiva de fazendeiros, mineradoras e madeireiros.  Comunidades seguem vulneráveis e confinadas
A reportagem e a entrevista é de Bianca Pyl e Maurício Hashizume e publicada pelo Repórter Brasil, 04-03-2010.
Os entraves à homologação de terras indígenas e quilombolas vão desde setores como a bancada ruralista até grandes empreendimentos econômicos, incluindo aí as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), avalia a antropóloga Daniela Perutti, da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP).
Nas Regiões Sul e Sudeste, por exemplo, existem muitos casos de construção de estradas que afetam as comunidades, que sofrem ainda com a ação de mineradoras, de madeireiras, de proprietários de terra etc.
“Muitos desses casos estão na Justiça, que também dificulta a homologação dessas terras.  Hoje há uma pressão social grande contra os povos indígenas e quilombolas”, completa Daniela.  ”Além disso, tem a vontade política do governo, que cede facilmente a essas pressões, e o fato de que os órgãos responsáveis pela regularização dessas terras [Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)] não estarem estruturados e preparados para atender essas demandas”.
Sem territórios garantidos e muitas vezes confinados, indígenas e quilombolas têm de conviver com a vulnerabilidade.  Falta espaço para agricultura, para caça, para pesca e para as práticas sociais.  ”Acaba ocorrendo uma falta de autonomia no território habitado, combinada com uma dependência de programas de assistência governamental.  Muitas vezes, isso não é suficiente para garantir a segurança alimentar dessas comunidades”.
“Criou-se no governo Lula uma expectativa de que, tanto para os indígenas quanto para os quilombolas, a situação melhoraria. Os próprios movimentos sociais tinham muita expectativa e ela de fato não se realizou”, coloca.
Eis a entrevista.
Você poderia enumerar quais são os principais entraves para a homologação das terras indígenas e quilombolas?
O que se vê hoje é uma série de forças contrárias aos direitos dos povos indígenas e quilombolas: forças políticas (fazendeiros e bancada ruralista), grandes empreendimentos econômicos, como obras do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal]… Enfim, cada região do país tem as suas características e um tipo específico de entrave na homologação das terras indígenas ou quilombolas.
No caso específico das terras indígenas nas Regiões Sul e Sudeste, que acompanhamos de perto, vemos muitos casos de construção de estradas que impedem a homologação das terras indígenas e quilombolas e acabam gerando impactos para essa população.
Há a ação de mineradoras, de madeireiras, de proprietários de terra.  Muitos casos estão na Justiça, que também dificulta a homologação dessas terras.  Hoje há uma pressão social grande contra os povos indígenas e quilombolas, o que, de certa forma, se constitui como um entrave.
Além disso, tem a vontade política do governo, que cede facilmente a essas pressões, e o fato de que os órgãos responsáveis pela regularização dessas terras [Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)] não necessariamente estarem estruturados e preparados para atender essas demandas.
Mas o que poderia desobstruir esses processos de homologação?
Uma coisa que já ajudaria de imediato seria justamente a estruturação dos órgãos competentes – Funai e Incra – para proceder a regularização fundiária.  No caso do Incra, que é o responsável por titular as terras quilombolas, observamos uma série de movimentações a partir da publicação do Decreto 4887/2003, que trata dessa questão, assinada pelo presidente Lula.
Houve todo um movimento da bancada ruralista contra o decreto.  Inclusive o antigo PFL, o DEM, propôs uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar esse decreto
Como reação, o governo, que não quer mudar nem derrubar o decreto, impôs novos requisitos às normas internas do Incra para regularizar terras quilombolas.  E esses quesitos só dificultam ainda mais a titulação.
Agora é preciso realizar um relatório antropológico superelaborado, cheio de detalhes, para a titulação das terras quilombolas.  E o Incra não tem um quadro de antropólogos suficiente para dar conta dessa demanda.  Há também uma série de restrições para o Incra fazer convênios com universidades para realizar esses estudos e o próprio órgão se impôs essas restrições.
Essas dificuldades do próprio governo – algumas vezes cedendo a pressões externas e outras vezes por falta de estruturação e de vontade política – acabam complicando ainda mais o processo de homologação.  Acredito que um caminho seja esse mesmo, que os órgãos competentes tenham equipe suficiente para dar conta da demanda.
Podemos dizer que houve uma diminuição no numero de homologações das terras indígenas e quilombolas?
No caso dos povos indígenas, levantamento do Instituto Socioambiental (ISA) mostra que o governo Lula homologou 84 terras indígenas até 22 de dezembro de 2009, quando houve a última homologação.  O governo FHC, nas duas gestões, homologou 145 terras indígenas.  Ainda teremos mais um ano de governo Lula, mas é uma diferença significativa.
No caso dos quilombolas, o governo Lula titulou só oito terras quilombolas.  É um número muito pequeno para sete anos de governo.
Mas houve alguns avanços como o próprio Decreto 4887/2003, que é um decreto que veio para colaborar, com vistas ao cumprimento do Artigo 68 da Constituição Federal [que estabelece que "aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos"].  O decreto foi um avanço significativo, embora, na prática, não tenha refletido em termos de titulações.
O governo FHC, no caso das terras quilombolas também cometeu sérios erros, como a titulação de uma série de comunidades quilombolas pela Fundação Cultural Palmares, que é um órgão ligado ao Ministério da Cultura (Minc) e não tem competência para desapropriar.  Só deram um pedaço de papel, um título que não tem validade porque não foram feitas desapropriações.
Criou-se no governo Lula uma expectativa de que, tanto para os indígenas quanto para os quilombolas, a situação melhoraria.  Os próprios movimentos sociais tinham muita expectativa e ela de fato não se realizou.
Quais são as consequências desse quadro de territórios indígenas e quilombolas não homologados pelo poder público?
A comunidade acaba ficando muito vulnerável às pressões externas, à grilagem, aos avanços das cercas durante a noite.  Tem muito disso.  E também ficam cada vez mais confinadas em territórios pequenos.  E aí sofrem carências de todos os tipos: falta água potável, falta espaço para agricultura, caça, pesca, falta espaço para as práticas sociais do grupo mesmo.
Como o território vai diminuindo em função dessas pressões externas, com o tempo eles começam a ficar cada vez mais confinados.  Acaba ocorrendo uma falta de autonomia no território habitado, combinada com uma dependência de programas de assistência governamental.  Muitas vezes, isso não é suficiente para garantir a segurança alimentar dessas comunidades.  A dependência dessa renda externa, desses programas governamentais, acaba não suprindo as carências deles nos territórios.
Outro problema enfrentado pelas comunidades são os impactos das obras de infra-estrutura.  Você pode citar algum exemplo?
É o caso da construção da Rodovia BR-101 entre os estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.  Tanto a construção dessa rodovia como a sua ampliação a partir dos anos 2000, afetaram cerca de oito Terras Indígenas (TIs) ocupadas pelos Guarani, pelos Kaingang…
Vários territórios foram prejudicados com essa construção e essa estrada causou uma série de impactos, como a desfiguração ambiental dessas áreas, a perda de sítios arqueológicos importantes desses povos indígenas, a destruição de trilhas utilizadas pelos índios para o deslocamento.
Os Guarani, que utilizavam essas trilhas tradicionais para se deslocar de um território para outro, passaram a usar a própria rodovia para esse deslocamento.  E isso gerou problemas sérios de atropelamento na região.
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30364

Processos de homologação de terras indígenas e quilombolas pouco avançam diante dos impactos de obras de infra-estrutura e da ofensiva de fazendeiros, mineradoras e madeireiros.  Comunidades seguem vulneráveis e confinadas

A reportagem e a entrevista são de Bianca Pyl e Maurício Hashizume e publicadas pelo Repórter Brasil, 04-03-2010.

Os entraves à homologação de terras indígenas e quilombolas vão desde setores como a bancada ruralista até grandes empreendimentos econômicos, incluindo aí as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), avalia a antropóloga Daniela Perutti, da Comissão Pró-Índio de São Paulo (CPI-SP).

Nas Regiões Sul e Sudeste, por exemplo, existem muitos casos de construção de estradas que afetam as comunidades, que sofrem ainda com a ação de mineradoras, de madeireiras, de proprietários de terra etc.

“Muitos desses casos estão na Justiça, que também dificulta a homologação dessas terras.  Hoje há uma pressão social grande contra os povos indígenas e quilombolas”, completa Daniela.  ”Além disso, tem a vontade política do governo, que cede facilmente a essas pressões, e o fato de que os órgãos responsáveis pela regularização dessas terras [Fundação Nacional do Índio (Funai) e Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)] não estarem estruturados e preparados para atender essas demandas”.

Sem territórios garantidos e muitas vezes confinados, indígenas e quilombolas têm de conviver com a vulnerabilidade.  Falta espaço para agricultura, para caça, para pesca e para as práticas sociais.  ”Acaba ocorrendo uma falta de autonomia no território habitado, combinada com uma dependência de programas de assistência governamental.  Muitas vezes, isso não é suficiente para garantir a segurança alimentar dessas comunidades”.

“Criou-se no governo Lula uma expectativa de que, tanto para os indígenas quanto para os quilombolas, a situação melhoraria. Os próprios movimentos sociais tinham muita expectativa e ela de fato não se realizou”, coloca. Continue lendo… 'Pressão é grande contra indígenas e quilombolas, diz antropóloga'»

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Alfredo Wagner: ”O que está em jogo no Madeira é o planejamento para a última grande fronteira amazônica’

Por racismoambiental, 02/03/2010 11:30
Lançado na semana passada, o livro Conflitos Sociais no “Complexo Madeira”, faz o mapeamento de todas as áreas de conflito existentes na região de abrangência do rio Madeira, na Amazônia.
Reunindo estudos de pesquisadores de algumas das principais unidades de ensino superior amazônicas, como Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Universidade Federal do Pará (UFPR), a obra tem como objetivo apresentar dados sobre a ocupação histórica dessa área estratégica e de crescente interesse econômico, por povos tradicionais, como índios, quilombolas e ribeirinhos.
O coordenador do projeto, o antropólogo da Universidade do Estado do Amazonas, Alfredo Wagner, que, desde 1972 estuda a região amazônica, concedeu entrevista exclusiva ao site Amazonia.org.br, em que fala sobre os empreendimentos que atualmente impactam a área de influência do rio Madeira, gerando conflitos e impactos socioambientais graves.
Wagner afirma que obras, como as usinas de Jirau e Santo Antônio, bem como o asfaltamento das BR-319 e BR-317, poderão retalhar um dos últimos redutos de biodiversidade intacta e cultura nativa da Amazônia.  Ele também compara as audiências públicas sobre esses empreendimentos ao desenvolvimentismo autoritário da época da Ditadura.
A entrevista é de Fabíola Munhoz e publicada por Amazonia.org.br, 01-03-2010.
Eis a entrevista.
De quem foi a ideia de produzir este livro?
Nós temos o projeto Nova Cartografia Social da Amazônia, e estamos em contato com várias associações de ribeirinhos, indígenas e quilombolas lá da região do Alto Madeira, na fronteira com a Bolívia.  E, no Fórum Social Mundial, estivemos em contato com o movimento campesino boliviano. Sobretudo, os pescadores artesanais e os ribeirinhos foram nos solicitando o mapeamento das áreas das comunidades, das territorialidades específicas.  Então, nós fomos fazendo esse trabalho, ministrando para eles noções de GPS, discutindo com eles a legislação ambiental, a legislação relativa a comunidades e povos tradicionais e os instrumentos jurídicos pertinentes e referentes a essas leis. Com isso, fomos produzindo um mapa bastante detalhado que acompanha o livro, e pega todos os conflitos socioambientais, todas as áreas reservadas e todas as territorialidades específicas em que essas comunidades de pescadores artesanais, ribeirinhos, castanheiros, quilombolas e povos indígenas foram se constituindo.
Quanto tempo foi necessário para conclusão deste trabalho?
Nós demoramos dois anos para fazer isso. O trabalho pegou a fase de início do licenciamento das usinas do Madeira e foi simultâneo ao início da obra, agora que os consórcios já estão começando a construir as barragens.  Então, foi possível acompanhar em algum lugar o deslocamento compulsório de povoados, as audiências públicas [sobre o projeto das hidrelétricas], e ver o tipo de participação e a limitação dessa participação.  Tem alguns pesquisadores aqui que até chegaram a produzir teses sobre isso.
Os conflitos sociais da região do Madeira são todos decorrentes de empreendimentos como as usinas de Jirau e Santo Antônio, ou há outros problemas estruturais, que fazem parte da realidade local?
A ideia da área de influência do Complexo do Madeira, no nosso ponto de vista, não são cinco, dez, vinte quilômetros de cada lado.  Se nós pegarmos desde a região de Pando, na Bolívia, até a desembocadura do Amazonas, nós vemos mais 60 milhões de hectares em jogo.  E eles estão palmilhados por estradas como a BR-319 ou a BR-317, que pega lá no Purus, na boca do Acre, e Lábrea (AM).  Também, por: hidrelétricas, hidrovia, estradas como a BR-230, que corta área indígena e, inclusive, tem uma cobrança de pedágio, a situação dos garimpos no Madeira, empresas de certificação como a antiga Getal, que vendeu sua área a um grupo pertencente a um banqueiro britânico e gerou uma suspeição sobre as irregularidades nessa compra de terra.  A ideia desse Complexo do Madeira é, então, uma simultaneidade de intervenções.
Esse contexto de intervenções e conflitos pode ser comparado ao cenário causado por outros empreendimentos na Amazônia?
Sim.  Isso já ocorreu em outras áreas amazônicas.  No período ditatorial, isso ocorreu no Carajás (PA).  Você tinha minas de ferro guza, ferrovias, porto da Madeira, e tudo isso feito simultaneamente na serra do Carajás e no porto de Itaqui por onde ainda se escoa a produção de minério.  E, no caso do Pará, isso foi feito na Ditadura sem uma regularização fundiária, o que gerou os conflitos, até hoje, incontroláveis no Sudeste do Pará, no oeste do Maranhão e no norte do Tocantins.  A gente não tem nem estimativa do número, que são dezenas de milhares, de mortos nos conflitos.  Aqui no Madeira, as coisas são feitas num momento democrático.  Tem audiências públicas, mas tem outros tipos de, digamos, arbitrariedades que devem ser discutidas para se aperfeiçoarem os procedimentos democráticos.  São audiências públicas com pouca participação, limitando a participação das pessoas.  Esse foi um elemento que a gente percebeu.
Vocês pretendiam, com esse estudo, suprir a falta de participação popular durante as consultas públicas sobre as obras na região do Madeira?
Não foi nossa pretensão fazer isso. Nós ouvimos reclamações, mas não substituímos ninguém, não falamos em nome de ninguém.  Somos um projeto de pesquisa de universidades amazônicas, que têm advogados especialistas em Direito Ambiental, antropólogos, sociólogos, economistas, engenheiros agrônomos e biólogos.  Vários pesquisadores produziram dissertações de mestrado sobre o assunto.  Isso também está ajudando o conhecimento dessa realidade localizada.
Por que, em sua opinião, as audiências públicas para apresentação do projeto do Complexo do rio Madeira não foram suficientemente democráticas?
Para as consultas públicas, houve pouco acesso a informação prévia.  Isso foi observado em dissertação de mestrado de colegas nossos pesquisadores.  Nossa preocupação é aprimorar procedimentos democráticos e, ao mesmo tempo, fazer distinção para outros momentos autoritários em relação à Amazônia.  Isso é um dado significativo de discutirmos isso hoje.  Essa região de fronteira agrícola, sociológica, como é a Amazônia, parece que é um lugar que não tem lei e onde é muito restrita a circulação de informações.  Então, um dado que a gente percebeu nas audiências públicas foi pouco acesso a informações prévias relativas aos empreendimentos.  E os empreendedores tendo quase o total do tempo para falar.
A partir do que você e outros pesquisadores ouviram da população local, quais têm sido os impactos mais graves da construção das hidrelétricas do rio Madeira?
Uma vez que as usinas não vêm sozinhas, mas vem também o asfaltamento da BR 319, agora o licenciamento da BR-317, já tinha o problema da Transamazônica estar cortando a área indígena Tenharim.  Só isso, são três eixos rodoviários importantes.  O que nós sentimos foi uma falta de discussão aprofundada das formas de apossamento prévio.  Como as comunidades tradicionais manejam os recursos naturais na ocupação da terra?  Essa discussão ficou de fora.  Não se fala que existe gestão comunitária dos recursos naturais, fala-se apenas em assentamento.  Os projetos de assentamento, mesmo os extrativistas, têm uma pressuposição de que parcelar, dividir, é o modelo universal de assentar, e ele não respeita a especificidade de uma região como essa.
Se você pensar, essa é, sem dúvida alguma, a última grande fronteira amazônica. Tem um ramo de estrada que joga para Tefé, lá no Solimões, tem outro ramo que de lá joga no Juruá. Tem um ramo que vai lá para Benjamin Constant, uma que sai de Lábrea cortando tudo. Então, com isso, você vai retalhar o último grande espaço amazônico. Aqui no Estado do Amazonas, são 157 milhões de hectares, o Brasil tem 850 milhões de hectares.  Você vai ver que tem ramais que se expandem e já estão na fronteira com a Colômbia e com o Peru.  Então, é a ultima grande fronteira.  O que está em jogo no Madeira é o procedimento de planejamento governamental para a última grande fronteira amazônica.  Nós estamos discutindo o futuro da Amazônica, não tenha dúvida disso.
Tudo o que estou te falando está no mapa com ponto de GPS pego. Isso você não vai encontrar em mapa oficial nem em banco de dados de nenhuma instituição.  É uma informação super detalhada.  Se você, por exemplo, quiser saber quais os municípios com maior índice de desmatamento, você tem o norte de Mato Grosso.  Se você quiser saber onde estão os processos do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), quais as áreas de subsolo já requisitadas, onde estão as licitações da Petrobras, tudo isso está se dando na grande região do Madeira.
Então, tem petróleo, ouro, terras indígena, ribeirinhos, recursos hídricos, antigas empresas madeireiras de certificação, pelas quais as pessoas, por um clique, adquirem cotas para conservação na Europa.  Esse site da empresa britânica que comprou a área da Getal, numa só semana de agosto, teve 20 mil acessos.  E, no livro, a gente conta quanto eles pagam em libras por meio acre, que é a cota que eles vão vender.  Então, quer dizer que tem um mercado de terras que está sendo acionado nessa região da Amazônia.  Isso, sem dizer privatização de florestas públicas que começa na região do Jamari, que também está próxima a Porto Velho (RO).  Essas discussões todas nos levaram a produzir esse mapa com os detalhes e todos os conflitos socioambientais, envolvendo quilombolas, pescadores artesanais, os chamados ribeirinhos…
Além do impacto ambiental desses empreendimentos, pode-se dizer que desalojar a população tradicional que lá vive tem como impacto a perda da cultura desses povos?
Seguramente. Há uma insensibilidade muito grande para essas questões étnicas, culturais, para a questão da reprodução dos grupos, como eles se reproduzem física e socialmente. Nesse sentido, tem um parentesco com procedimentos de outros momentos históricos que tratam tudo de uma maneira autoritária, homogenizam e perdem de vista essa diversidade cultural e afetam, com isso- e para mim esse é maior impacto-, a autoconsciência cultural que os grupos têm, que cada um tem da sua situação.
Há, ainda, possibilidade de esses estudos, que dão voz à população local, surtirem algum efeito, se a construção das usinas já começou?
As obras já estão em andamento, houve pouca informação prévia, e as pessoas têm uma ideia de progresso que move tudo, e é muito soberana, dominante e definitiva.  E ela considera todos esses povos tradicionais como arcaicos, vivendo sobre uma economia primitiva.  No entanto, se você for ver, são essas comunidades que são mais balizadas com o futuro das áreas mais preservadas.  São as áreas onde eles ainda estão as mais preservadas, onde as águas estão mais límpidas, onde a cobertura vegetal está mais integral.  Inclusive, em Alcântara (MA), são os quilombolas de lá que mantém o local preservado. Essa binacional Brasil-Ucrânia entrou lá na área devastando tudo e nem licenciamento ambiental têm. Foram os quilombolas que se contrapuseram a eles.
Há ações pelas quais o governo e os empreendedores possam compensar os impactos dessas obras?
Sobre isso aí teria que abrir um processo amplo de discussão, um processo mais efetivo de participação do que foram as audiências públicas.  Esses mecanismos de participação que estão aí são um avanço em relação à Ditadura, ou Tucuruí, e Itaipu também, ou no São Francisco. Até hoje, nesses lugares, está todo mundo desalojado, muitos deles sem indenização.
O nosso ponto de vista é o ponto de vista das comunidades tradicionais. A nossa ideia é trazer a experiência das comunidades tradicionais para dentro do planejamento. Faltam articulação e criação de mecanismos de participação mais amplos.
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30245
Lançado na semana passada, o livro Conflitos Sociais no “Complexo Madeira”, faz o mapeamento de todas as áreas de conflito existentes na região de abrangência do rio Madeira, na Amazônia.
Reunindo estudos de pesquisadores de algumas das principais unidades de ensino superior amazônicas, como Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e Universidade Federal do Pará (UFPR), a obra tem como objetivo apresentar dados sobre a ocupação histórica dessa área estratégica e de crescente interesse econômico, por povos tradicionais, como índios, quilombolas e ribeirinhos.
O coordenador do projeto, o antropólogo da Universidade do Estado do Amazonas, Alfredo Wagner, que, desde 1972 estuda a região amazônica, concedeu entrevista exclusiva ao site Amazonia.org.br, em que fala sobre os empreendimentos que atualmente impactam a área de influência do rio Madeira, gerando conflitos e impactos socioambientais graves.
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Vale de Lágrimas 1

Por racismoambiental, 26/02/2010 15:37

“O conflito entre o assentamento Califórnia (Açailândia – MA) e Vale do Rio Doce. Escute pelas testemunhas do local o impacto das carvoarias da Vale sobre a população”. – Padre Dário

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