O risco fica, por Janio de Freitas

Na Folha de São Paulo

Os que mais exibem susto e medo, e recuam com apelos à tolerância dos apoiadores de Lula e Dilma, nas ruas de hoje, são os que mais incitaram a atitudes de ódio e provocação, de desafio e humilhações. O juiz Sergio Moro despertou, sem pretendê-lo, certa altivez em um lado e covardia no outro. Dilma, o governo e a direção petista tiveram a difícil sensatez de pedir que a massa dos provocados se contenha, de preferência, em casa.

Mas nada é garantido.

Nem o melhor êxito dos apelos e providências contra o confronto alteraria a pior probabilidade perceptível: o que for evitado hoje está propenso a ocorrer adiante, a se manterem os atos arbitrários que suscitam sentimentos de perseguição e revolta nos lulistas e suas redondezas. A perplexidade provocada pela torrente de insinuações, acusações e “suspeitas” despejada pelos meios de comunicação contra Lula e família, dia a dia, foi substituída por ânimos que aos atacantes pareciam extintos. Caso se contenham hoje, não quer dizer que voltaram a amortecer-se.

No decorrer do século passado, e já desde o anterior, o Nordeste e sua pobreza eram considerados a área susceptível de um incidente capaz de espalhar-se pelo país. Essa expectativa transfere-se para São Paulo, que se vê como a cidade mais desenvolvida da América Latina. E não é do anel de pobreza e miséria à sua volta que vem o risco. É dos bairros da riqueza e da classe média, em mais uma demonstração de que dinheiro e desenvolvimento verdadeiro não são sinônimos.

O ÓBVIO

Primeiro, uma estranheza: o símbolo da Unesco, extensão da ONU, como signatária de uma “nota pública” emitida por entidades de representação empresarial. Depois, a afirmação, no texto de protesto contra violências sofridas por jornalistas no Brasil:

“É equivocado o pensamento daqueles que creem que os veículos de comunicação são protagonistas do processo político.”

A quem a Abert, a Abratel, a Aner, a ANJ, associações representativas das empresas de comunicação, e mais a Unesco pensaram iludir? Há milhares de estudos, pesquisas e documentos sobre a influência dos meios de comunicação nos processos políticos nacionais e ainda nas relações internacionais. Muitos desses trabalhos foram feitos com apoio ou por iniciativa da Unesco.

Ser “protagonista do processo político” não é um mal por si só. O problema é o “como”: contribuindo para aprimorar o processo e a exercício da cidadania, ou deturpando-o com inverdades, exageros, facciosismo. Ou seja, sem ética.

FALAS

O promotor Cassio Conserino, que pediu a prisão de Lula, já foi processado por dano moral e por isso condenado a indenizar um dos seus presos, solto como todos os outros do mesmo inquérito. O juiz federal Sergio
Moro e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima correm risco de processos semelhantes. Já há uma representação contra Moro, apresentada ao Conselho Nacional de Justiça pelo Sindicato dos Advogados de São Paulo: o juiz insinuou, sem sequer indício factual ou pericial, que o advogado Roberto Teixeira poderia ter “forjado assinaturas”, em documentos de compra do sítio em Atibaia. Nisso, disse que o advogado é capaz de falsificações.

Moro e Lima são dados como autores de insinuações e “suspeitas”, em público, não confirmadas pelo Supremo Tribunal Federal.

Haja poupança.

Em tempo: muito interessante, de fato, a amistosa visita-palestra do juiz Sergio Moro ao Lide, do João Doria acusado de corrupção eleitoral por colegas do próprio PSDB, além de uma testemunha.

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