Kaiowá, cuidado, os Bandeirantes voltaram!, por José Ribamar Bessa Freire

Em Taqui Pra Ti

Ke´y, Ñanderyke´y ojapo yvy / ko´äga ikane´öma yvy
(Canto-reza de Lauro e Dolícia in Graciela Chamorro)

Os bandeirantes retornaram nesta terça-feira (14). Desta vez, esses espectros do Brasil colonial atacaram não a cavalo, mas motorizados. Dezenas de fazendeiros, pistoleiros e jagunços armados, cavalgando mais de 80 camionetes, invadiram a fazenda Yvy, em Caarapó (MS), ocupada por Guarani-Kaiowá da aldeia Te´yikuê. Os agrobandeirantes usaram uma retroescaveira como tanque de guerra, derrubaram cercas, passaram sobre bicicletas e motos, destruíram barraco com comida e tudo que tinha dentro, queimaram roupas e atiraram nos índios para matar.

– Passava bala por cima de nós. Foi terrível. Não sei como é que eles não acabaram com nós, porque armamento eles tinham, arma pesada eles tinham – declarou Norivaldo Mendes, 28 anos, atingido por bala no tórax. O depoimento é similar ao que consta na documentação histórica de índios atacados por tropas de “guerra justa” comandada por bandeirantes. O Brasil mergulha no século XVII, agora portando armas modernas.

Os criminosos assassinaram Cloudione Rodrigues de Souza, 26 anos, cujo corpo, velado na quadra de esporte da escola da aldeia, foi enterrado na quinta-feira (16). Feriram cinco: o citado Norivaldo, além de Vaudilho Garcia, 26 anos, ferido no tórax; Lubésio Marques, 43 anos, com três tiros no ombro, tórax e abdômen; Jesus de Souza, 29 anos e Josiel Benites, um menino de 12 anos com balas no abdômen. Em nota, a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), que representa os guarani do sul e sudeste, afirmou que o massacre foi planejado por fazendeiros da região.

Eles dão nome aos bois, apontando como comandante direto do confronto o presidente do Sindicato Rural de Caarapó, Antônio Marán, além de duas pessoas identificadas como João Camacho e Virgílio. O prefeito Mário Valério, embora não tenha participado do ataque, esteve presente.

Leilão no faroeste

No passado colonial, a forma de obter terras, era invadindo as aldeias e matando seus ocupantes, como fizeram os bandeirantes, cuja impunidade permanece ainda hoje quando são exaltados nas escolas como “heróis”. Era o direito do mais forte, do mais bem armado. A mesma metodologia está sendo usada pelos agrobandeirantes que, se tivessem direito de propriedade sobre a terra tradicional guarani, apresentariam documentos em ação na Justiça contra a demarcação, que é como se procede no estado democrático. No entanto, tentam usurpar as terras através da força, com armas na mão, instaurando o faroeste caboclo.

Trata-se, efetivamente, de uma violência planejada. O país inteiro tomou conhecimento, em meados de 2013, do “leilão da resistência” organizado por ruralistas e políticos para arrecadar fundos destinados à contratação de milícias para reagir à bala contra qualquer tentativa dos índios de reaverem seus territórios. O Poder Judiciário, incluindo o STF, assistiu a tudo calado. A terra não é de quem a Constituição determina, mas do “mais macho”, do “mais bem armado”.

A crescente violência contra os Kaiowá foi testemunhada, entre outros, pelo antropólogo Diógenes Cariaga, que nasceu na cidade de Caarapó e está concluindo atualmente doutorado em Santa Catarina. Ele conhece pessoalmente todas as pessoas baleadas, incluindo o jovem assassinado e seu irmão Jesus, aluno da Licenciatura Intercultural TekoArandu, que foi ferido gravemente. Por telefone, conversou com a tia de ambos, que viu quem atirou nos seus dois sobrinhos.

– A área do ataque dos ruralistas é próxima a Terra Indígena Caarapó (Aldeia Te´ýikuê). A região está no perímetro identificado como terra indígena, de acordo com o Relatório Circunstanciado de Identificação e Demarcação dos estudos antropológicos do GT Dourados-Amambaipegua conforme declarado pelo procedimento administrativo da Funai publicado no Diário Oficial da União em 13/05/2016 – escreve Diógenes.

A mídia morena

A Fazenda Yvy (terra em guarani) tem um histórico parecido com várias outras na região. O Estado Brasileiro no início do século XX deu início ao processo de privatização das terras, desconsiderando a presença indígena, A partir de então, foram emitidos os títulos de posse pelo estado do Mato Grosso, anterior à divisão em MT e MS, que acabou validando os títulos contrariando a Constituição Federal. Essa é a origem dos conflitos.

– Os meios de comunicação regionais, principalmente a TV Morena afiliada da Rede Globo, têm dando ênfase aos confrontos entre alguns policiais e a resistência indígena logo após o ataque dos fazendeiros, como se esse fato fosse mais importante que o assassinato. Confirmam assim o que os índios denunciam: um pé de soja ou uma cabeça de gado vale mais que uma vida indígena – escreveu Diógenes Cariaga.

A mídia não está atenta para a gravidade dos fatos, não está sensibilizada com o destino dos índios, nem explica a origem dos conflitos. O jornalista Alceu Luís Castilho comentou nas redes sociais que se trata também de um massacre midiático. Exemplificou como o Estadão noticiou no pé da página A8 o massacre dos Guarani-Kaiowá em uma notinha de apenas 77 palavras, incluindo artigos, preposições e palavras inevitáveis como Mato Grosso do Sul. O jornalão sequer deu o nome do morto, muito menos dos feridos. As balas contra os índios foram mais numerosas do que as palavras que registraram o fato.

Hoje, um brasileiro não encontra na grande imprensa de circulação nacional informações sobre os acontecimentos que envolvem os índios. Tem de buscar a edição em português do jornal El País, editado na Espanha, que publicou com exclusividade os depoimentos dos índios em vídeo feito por Ana Mendes e Ruy Sposati do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). A convocatória para atos de solidariedade aos Kaiowá que devem ocorrer no dia 24 de junho em várias cidades brasileiras é silenciada e só circula nas redes sociais.

Para onde iremos?

A informação que predomina – diz Cariaga – circula nos discursos de  políticos, que incitam a população local a exigir a revogação das portarias de identificação e delimitação das terras Kaiowa e Guarani, contestando a capacidade de ação política das famílias e atribuindo às agências indigenistas governamentais, não governamentais e aos antropólogos o movimento da retomada que as lideranças realizam desde a década de 1980.

Para o antropólogo, o centro do conflito não é só entre índios e agronegócio, mas no que a terra significa para ambos, no modo como os índios se relacionam com a terra ancestral, que se choca com a noção de propriedade e uso da terra por parte dos ruralistas.

Essa diferença pode ser constatada no canto-reza em guarani, entoado por Lauro e Docília, traduzido ao espanhol por Graciela Chamorro. Invoca Ñanderyke´y, o criador e guardador do mundo e exalta o sol, Pa´i Kuara, que sempre nasce de novo:

– Ñanderyke´y criou a terra
agora sua obra já está cansada,
por isso ele desmontará a cruz que sustenta a terra
A terra tremerá / Para onde iremos?
Diante da ameaça dos agrobandeirantes, para onde iremos?

P.S. Chamorro, Graciela: Kurusu Ñe´ëngatu – palabras que la história no podrá olvidar. Con un prefacio de Bartolomeu Meliá. CEA/COMIN, Asunción/São Leopoldo, 1995.

 

Comments (1)

  1. ´só gostaria de comentar uma coisa no momento,para se obter uma notícia desta

    é preciso caçar em muitos lugares nos jornais brasileiros notícias de roda pé,no el pais

    uma longa matéria e no le huffington post.fr ,também explicam bem ,eu não entro em

    rede social ,não tenho estas informações ,só sei de alguma coisa por conhecer pessoas

    ligadas a esta causa .e quanto as mídias ,só passam e falam o que convêm .obrigada

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