‘Mas você levaria seu filho a essa exposição?’

Rita Lisauskas – Estadão

Desde que eu declarei meu repúdio ao cancelamento a exposição de arte “A Queer Museu – Cartografia da Diferença na América Latina”, no Santander Cultural, em Porto Alegre, minhas redes sociais começaram a ser atacadas, claro. Como uma mãe não se revolta contra obras que mostram pedofilia, zoofilia, homossexualidade e ‘crianças viadas’? “Você levaria seu filho a essa exposição?”, perguntou um dos internautas mais educados. Mas antes que eu pudesse responder à pergunta, super legítima, aliás, a polidez foi embora porque ele mandou eu “me catar” e me chamou de “jornalista fracassada”! Fui também chamada de ignorante, “esquerdista” e sugeriram, claro, que meu apoio à exposição era “falta de rola”. (Que tristeza essa cultura que acha que se uma mulher não concorda com um homem é porque lhe falta sexo, não é mesmo?)

No mesmo momento lembrei de uma obra do acervo permanente no MASP, o Museu de Arte de São Paulo, e que realmente chocou meu filho. Era “Criança Morta”, de Cândido Portinari. Os olhos do Samuca encheram de lágrimas e ele me disse que achava que nunca mais esqueceria aquele quadro. “Isso é muito, muito triste, mamain”. Aproveitei a deixa e expliquei a ele sobre a seca no nordeste, sobre os retirantes e lembro de ter pensado que arte era isso: um incômodo frequente, um dedo na ferida permanente, que bom, que bom.

Criança morta, Cândido Portinari, 1944, óleo sobre tela, 182 x 190 cm, acervo MASP

Mas voltemos à pergunta do stalker que achou por bem lotar minha caixa de mensagem de impropérios. Talvez eu levasse meu filho de 7 anos a exposição sim, se achasse que estava pronto para saber que existe pedofilia e zoofilia. Atenção, spoiler: sim, essas coisas existem e, por isso, são retratadas na arte. Não teria medo que meu filho saísse repetindo padrões depois de conhecer as obras do “Queer Museu” da mesma forma que acredito que ele não sairá derretendo relógios depois de conhecer os “Melting Watches” de Salvador Dalí. Agora, se eu avaliasse que ele ainda não tivesse entendimento suficiente para uma problematização sobre o assunto, talvez eu não levasse. Maternidade é isso, um jogo de erro e acerto, um ‘será que devo’ ou ‘ainda é cedo?’ constantes. É ser uma metamorfose ambulante em vez de ter uma opinião formada sobre tudo, obrigada, Raul Seixas.

Homossexualidade ele já conhece, não com esse nome, que ainda não é capaz de pronunciar e que mais parece um palavrão, como ‘paralelepípedo’ ou ‘inconstitucionalissimamente’. Mas faz tempo que ele sabe meninos podem namorar meninos e que meninas podem namorar meninas, sem problemas. Na minha família, inclusive, existe um homem que namora outro homem – casal com quem meu filho convive muito, aliás. Sabe qual foi a reação dele quando eu expliquei que isso existia? Um simples, ‘ah, é?’, emendado com um “então agora vamos tomar sorvete, mamain?’. Nada de olhos marejados como quando conheceu a realidade exposta por Portinari, olha só que coisa. Aposto que ele continuaria a chorar pela ‘Criança morta’, mas daria risada da ‘Criança Viada’ da exposição gaúcha.

Pensando melhor, acho que ele estaria pronto sim para minhas problematizações sobre zoofilia e pedofilia. Por isso aguardo que algum outro espaço se interesse pela exposição e traga “Queer Museu” a São Paulo. Se você achar que não é espaço para seu filho, tudo bem também. Mas eu desejo que o meu conheça tudo o que existe no mundo, do bom ao ruim, de mãos dadas comigo e não no submundo da internet, onde os que apontam o dedo para a arte adoram frequentar, escondidos da tradicional família brasileira.

Comments (2)

  1. Muito boa as suas colocações… liberdade é tudo! Uma exposição desse calibre pode e deve ser decidida por cada um se quer ou assisti-la… mas proibi-la de expor?… proibir o artista de se manifestar? … jamais!

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