IIIº Vivência de Língua Nheengatu e Notório Saber da Terra Indígena Maró: territorializando a educação e construindo a autonomia

As Crianças são o futuro do território
Poró Borari

Por Giuliana Henriques e Felipe Garcia – Grupo Vila Viva para Combate Racismo Ambiental

Terra Indígena Maró. No centro da mata uma casa alta se ergue. Apesar de estarmos em seu território, a casa não é da Curupira. A casa de madeira, que fora construída para ser sede da fazenda Curitiba servia de base de apoio para extração de madeira dentro do território ocupado pelos Borari e Arapium e por vários outros seres. Estes seres que apenas percebemos indícios de suas presenças. Presenças, estas, que permeiam todo o caminho e todos os cuidados que tanto os Borari quanto os Arapium empregam e nos ensinam. Se nós não os vemos, não é motivo de menor importância, se a ouvimos, é porque Curupira sinaliza que está presente e nos exige respeito. Hoje, essa casa não mais é dos madeireiros. Retomada, ela se transformou no Centro de Apoio da Terra Indígena.

Começar assim o relato sobre essa semana, dita da pátria, não é mero preciosismo. É a tentativa de sintetizar alguns dos elementos centrais dessa semana de Vivência de Língua Nheegatu e Notório Saber. Território; luta e organização; encantados; conhecimentos sobre o ambiente e sobre novas tecnologias. Encontro entre Paulo Freire e a construção da pedagogia Borari e Arapium.

Para esses indígenas, sentido nenhum se faz em marchar embaixo do sol e hastear a bandeira do Brasil. A luta indígena não está contemplada nas palavras de nossa bandeira, a ordem e progresso. Lema que nada mais é que a representação de forças que querem invisibilizar e engolir a presença indígena e toda sua cultura, vista cada dia mais como atravanco para o tal progresso.

Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos seguiram por 18 km, para reunirem-se numa intensa troca de experiências entre diversas atividades interdisciplinares preparadas pelos professores da T. I. Maró. As manhãs iniciavam com a força de rituais em roda, no pátio do Centro. No primeiro dia a presença e a defumação de Seu Higino, pajé e cacique, demonstrou o respeito e cuidado com este encantado que cuida e protege o espaço ao redor do Centro: a Curupira.

Seu Higino defuma professora Maytapu. Proteção. Foto: Giu Henriques

A capacidade de organizarem-se, sem medir esforços para a realização desta semana foi realçada a cada atividade proposta e na união declarada e vivenciada durante toda semana. Grupos de trabalho para caçar, cozinhar, limpar e manter a manutenção da bomba de água e os banheiros envolveu todos os indígenas e não indígenas que compartilharam fazeres e aprendizados.

Este ano de 2017, além das famílias Borari e Arapium, participaram outros povos, convidados: Munduruku, Maytapu, Tapajó e Tupinambá. A organização da vivência foi apoiada pela FUNAI, Grupo Vila Viva, CIMI, CPT e UFOPA.

Tecendo jamanxim. Foto: Giu Henriques

A semana passou com diversas atividades praticadas pelos professores Borari e Arapiun, num empenho muito bonito de demonstrar que educação se faz em todos os ambientes e de várias maneiras. Aconteceu no primeiro dia, com as crianças pequenas, uma contação de histórias que envolveu o pajé e cacique Seu Higino, a professora visitante Margareth Maytapu, o professor Risonei e o professor Nivaldo. Cada um desses contou uma breve história para todas as crianças, cujos temas foram: caça, boto e patauí (história do encantado da aldeia Pinhel). Em grupos, as crianças conversaram, escreveram em português e em nheengatu e desenharam a história que no dia seguinte, durante a noite, apresentaram e dramatizaram cada uma. Esta atividade durou dois dias. Com o professor de Notório Saber. José Nivaldo, houve também uma oficina de teçumes, onde retiraram palhas, talas e folhas do buriti para produção de abano e cesto. Nesta atividade reuniram-se adolescentes e mulheres. Com Lidiane, que estuda para se tornar professora, houve outra oficina de teçume, desta vez tecendo jamanxim. O adolescente, Cleilson, num canto do pátio, reuniu-se com outros adolescentes e ensinou a tecer cocar.

A língua Nheengatu foi exercitada também na feitura de um dicionário ilustrado. Professores e alunos se revezaram para desenhar animais, frutas, árvores, e as crianças menores pintaram. Escreveram o nome de cada desenho em Nheengatu que mais tarde apresentaram.

Atividade em lLíngua Nheengatu. Foto: Giu Henriques

Dia 07 de setembro um grande ritual foi feito em homenagem à falecida e fundadora da aldeia Novo Lugar e exemplo de luta, Dona Salustiana, que aniversariaria nesta data. Em seguida ao ritual, foi apresentado a todos a programação do dia: passeio ecológico com crianças pequenas pela estrada e outro para adolescentes e adultos na floresta. Nesta atividade professores desenvolveram atividades interdisciplinares de brincadeiras e observação da natureza com as crianças. Já na floresta o professor Nivaldo, acompanhou um grupo que ouvia e anotava atentamente as explicações dos nomes e usos de diversas árvores descritas por Seu Higino. Neste caminho, Seu Higino, nos mostrou o esconderijo da dona da mata, a Curupira. No período da tarde iniciou-se a educação física tradicional: futebol com bola feita como nos tempos antigos, de saca e fio amarrado. O dia terminou com alegria e muita poeira!

Sexta, dia 08, o último dia no Centro de Formação, começou com cabo de guerra e em seguida corrida de tora e flecha ao alvo, pra finalizar. Todas essas atividades tiveram como participantes crianças, adolescentes, jovens, mulheres e homens. Durante a noite, fomos surpreendidos por alunos e professores que passaram a semana na aldeia Cachoeira do Maró preparando para nos mostrar o projeto Tarubá, onde alunos fizeram o tarubá, desde a retirada da macaxeira até a preparação da bebida. Terminamos a noite em roda, dançando e tomando tarubá.

Cabo de guerra. Foto: Giu Henriques

Paralelo a essas atividades, houve dois intercâmbios, parte de dois projetos distintos, por parceiros que atuam na ONG Vila Viva: intercâmbio de professores indígenas de Pinhel, os Maytapu e os Borari e Arapiun da T. I. Maró, pelo projeto Troca de Experiências, Formação e Acompanhamento das Práticas Escolares de Professores Indígenas do baixo Tapajós – PA. O outro intercâmbio é sobre os processos de autodemarcação que acontecem ao longo da bacia do Tapajós. A ideia é que este processo seja refletido e as experiências compartilhadas entre os grupos indígenas que protagonizam essa ação.

A Funai promoveu um curso de Alfabetização na Metodologia Paulo Freire, com a convidada Judite Gonçalves de Albuquerque e a servidora Izabel Gobbi.

Durante toda a semana, o grupo dos vigilantes da TI Maró estiveram presentes, tanto observando a presença de possíveis invasores, como recebendo uma capacitação em edição audiovisual, organizada pela organização do evento em parceria com o Grupo Vila Viva.

Finalizando a Vivência, foi realizado um puxirum (trabalho coletivo) para a limpeza do Centro de Apoio. De lá, cada um voltou para suas casas.

Seu Higino conta história de uma caçada e encontro com a Curupira. Foto: Giu Henriques

Dessa forma, os professores e lideranças dos povos Borari e Arapium do rio Maró nos ensinam que é possível uma escola comprometida com os projetos de vida de seus povos e com a defesa de seu território. Ativamente, formam suas crianças para serem o futuro da TI Maró.

E assim, praticando educação diferenciada e vivenciando a luta com as crianças e a comunidade, o professor Jailson Borari nos convida a refletir e a nos transformar: “Precisamos reflorestar nossas ideias”.

Terra Indígena Maró

Assim como toda a gleba Nova Olinda, o território dos Borari e Arapium no rio Maró, foi ao longo dos anos 2000, alvo de sucessivas invasões realizadas por grileiros e madeireiros. Invasões estimuladas e legitimadas pelo governo do Pará e facilitadas pela demora do poder executivo federal em reconhecer a Terra Indígena.

Como, segundo seu Higino, governo nenhum nunca fez nada pelos indígenas, em 2007 os indígenas realizaram a autodemarcação de seu território, confrontando os madeireiros, contrários ao reconhecimento da terra indígena. Ao delimitar seu território, os indígenas começaram a restringir a liberdade com que os madeireiros circulavam pelo território.

Corrida de tora. Foto: Giu Henriques

Em 2014, as denúncias elaboradas pelos vigilantes e a vitoriosa ocupação da então sede da fazenda Curitiba pressionaram o IBAMA a cancelar vários planos de manejo madeireiro, outorgados pela SEMA/PA. A retomada dessa porção do território, até então controlado pelos invasores é crucial para os Borari e Arapium. Esse local foi morada de seus ancestrais, local de abundância de caça, de remédios e de madeiras, a região é também a morada da Curupira, a mãe da mata e das caças, e de outros seres encantados da cosmologia Borari e Arapium.

Imagem destacada: Ritual realizado todas as manhãs. Centro de Apoio T.I. Maró. Foto: Giu Henriques

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