Racismo à Portuguesa: “Há muito mais famílias que tiveram escravos.” Mas não se fala disso

Francisco Sousa considera-se “afro-beneficiário”. A sua família teve pessoas escravizadas. Choca-o não se falar sobre esse passado. O antropólogo António Tomás diz que falta fazer este debate. Portugal ainda está “em negação”, diz a artista Grada Kilomba. Capítulo final da série Racismo à Portuguesa.

Por Joana Gorjão Henriques, Público

Nos baús das famílias podem estar segredos escondidos. Quando Francisco Sousa, 34 anos, viu o arquivo familiar paterno andou duas semanas em estado de choque. Foi por acaso que se cruzou com uma lista do século XVIII onde estavam nomes de pessoas escravizadas, com o valor à frente, de acordo com a capacidade de trabalho. Tinham pertencido à sua família.

Num país, Portugal, que foi o maior traficante no comércio transatlântico de pessoas escravizadas — mais de metade dos 12 milhões estimados em termos globais —, a família de Francisco não é obviamente caso único.

“Sempre ouvi falar, como todos os portugueses, da fábula dos Descobrimentos. E tenho isso perto da família. Do lado da minha mãe, o meu trisavô tinha uma roça em São Tomé e Príncipe. Depois conheci pessoas em Cabo Verde que trabalharam nas roças em São Tomé e estiveram próximo da escravatura. Mas nunca ninguém falou disso”, diz. “Nem na minha família, nem nas outras se fala.”

Agora com um projecto próprio independente, há quem conheça Francisco Sousa como o co-fundador dos Celeste/Mariposa, grupo DJ e editora de música ao qual esteve ligado durante oito anos. Com mestrado em Biotecnologia Vegetal, tornou-se especialista em música dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e hoje tem a sua produtora, Fininho Sousa: escolhe bandas, ensaia e lança-as no estrangeiro.

“Choca-o” que dentro da sua família, e de outras, “ter tido” pessoas escravizadas possa ser visto “como um pormenor, como se fosse irrelevante”. É dar “uma leveza” a algo “que nunca pode ser leve”, prossegue na sala do seu apartamento na Madragoa, em Lisboa, onde há livros de pensadores africanos sobre o colonialismo empilhados no chão.

Ele quer vincar: a crítica não é a de alguém a confrontar publicamente a família. Está em paz. “Há muito mais famílias que tiveram escravos”, diz. “Não estou a denunciar. Todas as famílias que beneficiaram deveriam falar disto.” A questão é que a forma de lidar com este passado é transversal a tantas outras famílias, alimentada pela “propaganda” que existe em Portugal, nota. “Como é que se consegue perpetuar um mito?” Porque a maioria aprende a lidar com estas coisas de “forma irracional”, ou seja, “tolera” o que em outras circunstâncias não toleraria.

A história de Portugal, contada por portugueses, “é uma canção de embalar”. “A diferença entre o que se fala do colonialismo e o que realmente foi é assustadora. Quando começas a perceber a dimensão e a compará-lo com outros acontecimentos como o Holocausto, mas depois vais às festas dos santos populares e ouves a música ‘já fui ao Brasil (…) Goa e Macau (…) já fui um conquistador’, dá-se um curto-circuito”, nota.

Porque a nossa “auto-estima” como país “está muito agarrada ao orgulho” do período da Expansão. Questiona: “Esses ‘Descobrimentos’ acabam a partir do momento em que os portugueses chegam à costa africana e começam a matar pessoas para fazer negócio. Qual o problema de contar essa história?”

 

“Afro-beneficiário”

Além de livros, há discos vinil espalhados pela sala, cassetes, CD’s novos acabados de editar. Foi neste percurso de descoberta da música de raiz africana que Francisco Sousa se deu conta de que era preciso conhecer outra versão da História que não lhe era ensinada em profundidade nem na família, na escola. Hoje diz-se “afro-beneficiário”. “É uma questão delicada na minha família e em todas as que beneficiaram dos privilégios porque existe uma narrativa homogénea.”

É também difícil reconhecer que, famílias com as características da dele, que têm poder, “têm-no em grande parte por causa da exploração”. Ou seja, no período da escravatura e da colonização “houve alguém que chegou aos países, tirou direitos às pessoas, arrancou-lhes a terra, tornou-as coisas e não lhes pagava”. Foi o que em Portugal e noutros países europeus “deu margem de lucro para construir a riqueza”.

“Se essa riqueza consegue ser identificada, então isto tem que ser discutido. É mais do que sabido que o contexto em que se nasce é absolutamente decisivo. Reconheço esse privilégio, aliás, eu estou a beneficiar dele — e o maior benefício foi a educação que tive, em boas universidades. Isto é um grande tabu.” Mas as pessoas não querem falar disso, e vestem uma capa de “protecção”.

“Despolitização” do colonialismo

Não falar. Esconder ou silenciar. Há, de facto, uma história que não é olhada de frente. Depois de fazer dezenas de entrevistas para Memoirs — Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias, um projecto do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, a coordenadora Margarida Calafate Ribeiro refere o silêncio como a nota dominante. O Memoirs estuda as heranças coloniais a partir das segundas e terceiras gerações em Portugal, França e Bélgica.

A investigadora falou com pessoas nascidas entre 1960 e 1980 e notou “um certo silêncio melancólico e de luto pela descolonização”.

Outro dado que considera “grave”: tanto à esquerda quanto à direita, “continuamos a achar que a questão colonial não nos diz respeito”, vingando a concepção de que “sobre o passado não temos nada a ver”. É o resultado da “despolitização” que Portugal faz tanto da colonização quanto da descolonização.

Das entrevistas, ressalta “a presença de algum espírito de colonialidade na Europa”. “O processo de descolonização cultural demora muito tempo. É preciso descolonizar a figura do ex-colonizador e do ex-colonizado, e isso vê-se nas relações institucionais”, afirma.

No fundo, diz António Tomás, antropólogo angolano que viveu em Lisboa durante anos, mas que a determinada altura teve que sair para se doutorar na Universidade de Colombia, nos Estados Unidos, o problema é que “Portugal não tomou responsabilidade sobre o que se passou. Não houve um debate sobre os efeitos do colonialismo”, sublinha. E isso tem os seus efeitos.

Posto de outra forma, segundo a artista portuguesa Grada Kilomba, que vive em Berlim e tem trabalhado amplamente sobre o tema: continuamos a alimentar-nos de um passado romântico, sem o associar com “a culpa, vergonha, genocídio, exclusão, marginalização, exploração, desumanização”. O que a leva a analisar: “Ainda não passámos da negação. [O racismo] tem a ver com um processo psicológico que passa de negação a culpa, de culpa a vergonha, de vergonha a reconhecimento e de reconhecimento a reparação. Quando estou em Portugal sinto que estamos completamente na negação.”

Ao mesmo tempo, a história colonial e pós-colonial está tão omnipresente na sua vida quotidiana, “nas coisas mais banais do dia-a-dia”, que é inevitável trabalhar sobre isso, diz a artista.

Porém, é essa história colonial que mantém a normatividade, lembra. “Ainda somos confrontados com esta lógica de continuidade colonial: os mesmos corpos marginalizados ficam à margem.”

Isso tem que ser radicalmente alterado, e só acontecerá quando quem está agora à margem chegar a posições de poder, defende. “Só assim podemos descolonizar. É uma transformação colectiva”, diz.

O mais urgente de descolonizar em Portugal? “O mais urgente é tudo”, responde a também autora de Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. “Portugal é um país extremamente ambivalente. Ao mesmo tempo que as pessoas são simpáticas e acolhedoras têm um racismo latente brutal. Lidar com estas duas medidas é muito difícil.”

António Tomás também o nota: não há um racismo de ódio, mas um racismo “paternalista e de inferiorização” dos negros, do “branco que é o patriarca e dos negros que são escravos”.

A viver fora de Portugal há anos, reconhecida internacionalmente, Grada Kilomba sente que os artistas e intelectuais negros que têm uma abordagem mais crítica à história colonial não têm tido espaço em Portugal. “Somos muitos em termos demográficos mas percebi que os espaços estavam bloqueados”, diz.

Privilégio de ser representado

É essa ausência de espaços em Portugal para os intelectuais negros se desenvolverem que António Tomás também sublinha. “Nunca seria um professor universitário em Portugal” – apesar de ter dado aulas em França e de agora dar aulas no African Centre for Cities, da Universidade da Cidade do Cabo. “O intelectual negro só está autorizado a falar sobre certas questões. Há um gueto intelectual, não há espaço para que os negros cresçam e se pronunciem e falem de outras questões que não sejam sobre as suas questões.”

O que nos leva ao privilégio branco, sobre o qual Grada Kilomba tem reflectido: “Quando falamos de branquitude estamos a falar de entidades e de estruturas políticas, não de uma pessoa que é boa ou má.” Ou seja, “não tem a ver com moral”. Tem a ver com o facto de, “por questões históricas, sociais e políticas” haver um grupo de pessoas com “acesso a privilégios”.

Porque, explica: “Há um privilégio branco que eu não tenho como mulher negra. Uma mulher branca tem acesso a estruturas, a uma representação, a uma voz que eu não tenho. Quando abro o jornal não me vejo representada, entro num supermercado e não vejo as minhas crianças nos champôs. Sou constantemente confrontada com uma imagem que não é a minha e com a falta de representação. É um privilégio ser representado.”

Trata-se, no fundo, de encarar esta realidade com responsabilidade: “Quer dizer que estamos a fazer escolhas: como decidimos e como transformamos espaços para que, quem foi historicamente excluído, tenha o mesmo acesso.”

Francisco Sousa tem estado a reflectir sobre estas questões e aceita expor a história da família porque acredita que ela simboliza algo mais abrangente e mais profundo. Acha também que é preciso, por isso, fazer “uma retribuição”. Olha para o trabalho que desenvolve com músicos africanos como uma forma de “devolver” à sociedade. Mas há muitas mais: “Se querem viver numa sociedade igualitária, por que é que as pessoas têm medo de quotas para negros, por exemplo?”

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