Black Friday: Por que um dia de compras mobiliza mais que a educação?, por Leonardo Sakamoto

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Sugestão para esta Black Friday: não compre com o fígado. Comprar é bom e todos nós temos nossos desejos de consumo. Mas cheque a fatura do seu cartão de crédito, os extratos bancários e os empréstimos – dos CDCs, passando pelas consignados até aquela grana que você tomou do amigo e nunca devolveu. E reflita se a sua renda está minimamente garantida pelo próximo ano antes de cair na esbórnia e comprar, em 12 prestações, aquele descascador eletrônico de ovo cozido que você nunca vai usar, mas que o cara do comercial da TV disse que, sem ele, você não é nada.

Mas também, reflita: quanto tempo depois de uma compra impulsiva você percebe que aquilo não lhe trouxe felicidade? E a culpa te consumiu por dentro? Afinal, somos um país cristão… E o horror: o vazio da falta de significado que aquilo tudo lhe traz pode dar uma paúra que antiácido nenhum resolve. Nem aqueles mais perfeitos que pipocam em anúncios felizes que passam antes dos vídeos na internet.

Adquirir um produto e, através dele, o pacote simbólico de cura e inserção social prometido nem sempre resolve os problemas. Você acredita que precisa dar um presente para alguém a fim de provar que ama? Objetos de desejo coletivo são realmente úteis para você? Ou só está procurando um estilo de vida pré-fabricado para ser encaixar pois trabalha tanto que não consegue construir o seu próprio?

Presenteamos nossos filhos, pais, amigos para demonstrar carinho em nossa ausência achando que isso resolve. Mas não resolve. Aliás, ”o que deveríamos ser” ou o que ”deveríamos viver” normalmente não é resultado de uma auto-reflexão, mas de alguém martelando algo em nossa cabeça, dia após dia, em comerciais, anúncios, novelas e filmes.

A felicidade pode ou não incluir um celular. Mas quem deveria escolher isso seria a própria pessoa, não o mercado e a publicidade em nome dela. A ela, deveria ser garantido, pelo Estado, o direito de que seja um sujeito pleno em todas as suas capacidades e, portanto, capaz de tomar decisões como essa.

A ”classe baixa com poder de compra, mas ainda fora de patamares mínimos de dignidade, pois não teve acesso a serviços públicos de qualidade”, batizada como ”nova classe média”, alcançou a inclusão social através do consumo. Vendeu-se a ideia de que uma pessoa se torna parte da sociedade a partir do momento que ela porta um smartphone com tela grande. Sendo que seria melhor que sua inclusão ocorresse também via a garantia de serviços de educação, saúde, cultura e lazer de qualidade e as consequências positivas que isso traz.

Outra inversão é que muitos de nós ficam tanto tempo trabalhando que tornam-se compradores compulsivos de símbolos daquilo que não conseguiremos obter por vivência direta. Em promoções, como esta, em que a porteira está aberta e o convite par isso está feito.

Através desses objetos, enlatamos a felicidade – pronta para consumo, mas que dura pouco. Porque, como os produtos que a representam, possui sua obsolescência programada a fim de garantir, daqui a pouco, mais dinheiro a alguém. As próprias campanhas contra o consumismo desenfreado e pela proteção ao meio ambiente podem ser, quando superficiais, bons pacotes fechados para o consumo imediato e o alívio rápido da consciência, visando à compra de uma indulgência social ou ambiental. Já que a contradição é inerente ao capitalismo e à sociedade de consumo, por que ter pudores ao explorar isso? Sextas-feiras como esta só ajudam a catalisar o processo.

Enfim, comprar é importante, pois gira a economia, gera empregos, realiza nossos desejos, supre necessidades, compensa frustrações, controla o povo. Mas, se for às compras, lembre-se, contudo, que montar uma pipa com papel de seda, organizar um piquenique no parque, ir a algumas exposições bem legais (com ou sem gente nua), pegar emprestado um bom livro, abraçar seu filho ou filha, perder-se num sarau literário e, é claro, ir à praia, se você teve a sorte de viver à beira-mar ou na beira de um rio (se ele não tiver sido consumido pela lama da Samarco, tornando a vida insustentável), não custam quase nada.

Mas são tão grandes que não cabem em caixas de papelão, não podem ser embrulhadas com papel de presente ou mesmo entregues por serviço de encomendas expressas. E, certamente, você não vai querer devolve-las decepcionado com a realidade.

Imagem: Clientes brigam por produtos na Black Friday de 2016. Reprodução: GloboNews

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