Julgamento do assassinato de Vicente Canãs se estende para segundo dia de júri

Por Guilherme Cavalli, da assessoria de comunicação – Cimi

Iniciado ontem, 29, em Cuiabá (MT), o júri que investiga a morte do missionário Vicente Canãs prosseguirá nesta quinta-feira para as fases de sustentação oral. Está no banco dos réus o delegado aposentado Ronaldo Antônio Osmar, acusado de contratar os assassinos de Vicente. Impune há 30 anos, é o último sobrevivente envolvido na emboscada que vitimou o irmão Jesuíta. A acusação é sustentada pelo Ministério Público Federal. 

Participam do julgamento quatro sobrinhos do religioso vindos da Espanha, além de indígenas que conviveram com Kiwxi, nome dado ao missionário. “Viemos para o Brasil na esperança de redimir a memória do assassinato com justiça. Esperamos que o julgamento traga paz a Vicente”, suplicou Maria Canãs. “É um processo que dura três décadas e que os responsáveis não podem permanecer impune”.

Sobrinhos de Vicente com Thomas, amigo e primeira pessoa a encontrar o corpo do missionário. Foto: Guilherme Cavalli Cimi

“A presença dos sobrinhos no julgamento é a prova do compromisso de justiça. Ele morreu pela demarcação do território Enawenê Nawê. Nós já pressentíamos que um dia iriamos encontrar morto”, lamenta Thomas Lisboa, companheiro de Vicente e um dos primeiros a encontrar o seu corpo. “Quando encontrei o corpo do meu irmão, permaneci cinco minutos chorando e fazendo memória da sua pessoa”.

Vicente e Thomas recebiam constantes ameaças de fazendeiros e madeireiros que invadiam a terra tradicional dos Enawenê Nawê. Em uma carta datada no dia 20 de setembro de 1984, Kiwxi escreve a Thomas – batizado pelos Myky como Jaúka – sobre os riscos que corriam. “Eu não vou mais à Cuiabá, não vou sair da área e deixar os Enawene Nawe ameaçados”. Mesmo sob ameaças, Vicente sustentou a opção feita aos 21 anos, quando decidiu entrar na Companhia de Jesus e ser missionário junto aos povos indígenas. “Vamos assumir as coisas até o fim. Se tiver que morrer, vamos morrer todos! É mais uma razão, Jaúka, para que você urja a necessidade de se resolver em definitivo essa questão da área, pois a insegurança agora envolve muita gente”.

Contradições: réu e suas testemunhas

Ronaldo Antônio Osma trouxe como sua testemunha dois ex-colegas da Polícia Civil e um médico. Contudo, a contradição dos depoentes evidenciou a fragilidade da narrativa de defesa ao ponto de afirmar que elas estariam “caducas”.

Em 1983 o réu respondeu processo por abuso de poder. À época, Osmar foi afastado do caso que investigava o assassinato de Vicente por “atrito com índios”, segundo depoimento de João Evaristo Capetinga, diretor da Policia Civil do Mato Grosso na época do crime. Capetinga é um dos três convidados da defesa de Osmar. Contudo, garantiu que o acusado de agenciar a morte de Vicente Canãs, no processo de investigação do assassinato, ouviu depoimentos e conduziu diligências sem autorização do delegado responsável pelo caso. Osmar escolhia e encaminhava as testemunhas para serem ouvidas em Cuiabá.

Por fim, por não condizerem com a tese de defesa, Ronaldo Osmar desqualificou as testemunhas escolhidas para validar sua versão dos fatos. “Estão caducos”, proferiu. “Estou com uma certa idade mas ainda sei das coisas. Esses já estão esquecidos e não podemos mais acreditar no que dizem ou não”.

“Buscamos os depoentes a partir do processo. São depoentes do processo, não do Ronaldo Osmar. Não combinamos nada com nenhum deles. Nunca nos reunimos para combinar fala”, remendou um dos advogados.

Ronaldo Antônio Osma, o último réu vivo acusado de agenciar a morte de Vicente Canãs. Foto: Guilherme Cavalli Cimi

O médico legista apresentado pela defesa desqualificou os três laudos que se encontram nos autos do processo. Questionado pelo Ministério Público Federal (MPF), sustentou que sua avaliação que, segundo depoente durou aproximadamente uma hora e sem equipamentos suficientes, conste de maior validade do que os laudos periciais realizados pelo Instituto Médico Legal (IML) de Cuiabá e por dois grupos de pesquisas, um da Universidade Federal de Minas Gerais (MG) e outro da Universidade de São Paulo (USP).

O físico atlético de Vicente passou a ser apresentado, segundo o médico Joaquim Delfino Neto, como um corpo doentio. Trouxera um médico para atestar patologias no missionário que era responsável pelo serviço de saúde dos Enawenê Nawê. A arguição do médico levava a entender que a perfuração constatada na região abdominal seria uma úlcera, enquanto distintas documentações afirmam que o orifício foi provocado por objetos cortantes. Primeiro advertiu que o corpo de Kiwxi encontrava-se estranhamente mumificado – sem indícios de putrefação. Depois, afirmou que a perfuração na região estomacal condizia com uma úlcera em estado avançado de decomposição. Se perdeu.

Perjura. Sob responsabilidade de falso testemunho, garantiu ter lido nos diários do missionário o testemunho de que ele sofria de problemas estomacais. O sociólogo jesuíta responsável pelo trabalho de compilação dos diários de Vicente adverte que em nenhum dos 15 cadernos há relato de doença ou indicações de úlceras. Ainda, na documentação processo consta que os diários de Vicente não encontravam-se mais no seu barraco quando o médico legista esteve no local para exumação do corpo.

No primeiro julgamento em 2006, quase duas décadas depois do assassinato, a 2ª Vara Federal em Mato Grosso inocentou por seis votos a um o delegado aposentado de Polícia Civil de Juína. Em 2015, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região determinou a realização de um novo júri para julgar a morte de Vicente Canãs. O desembargador Italo Fioravante Sabo Mendes aceitou o pedido do Ministério Público Federal (MPF) que indicou invalidade do primeiro julgamento por não considerar provas substanciais apuradas durante o processo.

O segundo julgamento segue no dia de hoje, 30, às 9h00.

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