A garotinha

Por Roberto Tardelli, no Justificando

A foto que estampa o jornal Folha de S. Paulo diz muito além do que foi capturado. Que concepção ideológica é essa que impeliu o soldado “armado até os dentes” a revistar a mochila da menina, aliás, negra menina, como todas as que se percebem na foto? Não teria dúvidas em dizer que, aos olhos do soldado que a revistou, ela é tão inimiga quanto os adultos que persegue a tiros?

A criança de hoje é o inimigo de amanhã e não é coincidência ela ser negra.

O estereótipo do inimigo, todo inimigo precisa de uma forma, de uma consubstanciação, até para que o soldado tenha como discernir seu inimigo de seu aliado. Em quem atirar, afinal, se todos falam a mesma língua, se todos usam as mesmas roupas, se todos vão para os mesmos lugares e se ninguém dali quer tomar o poder, mas apenas seguir suas vidas e pagar as consta do mês?

O inimigo imaginário de uma guerra unilateral enlouquece seus combatentes, pela singela razão de não existir o inimigo pronto, armado, para tomar o poder e instalar um novo governo. Não, nessa guerra, o inimigo há de ser criado, inventado, esculpido nas paredes graníticas do preconceito racial.

A menina negra é a inimiga de amanhã e deve temer desde já, desde hoje; seus pais devem saber que os soldados atirariam naquela criança se ela corresse ou cuspisse ou xingasse o soldado que a revistava, tão corajosamente quanto um rato revista o queijo.

A criança há de ser a portadora do recado. Eles estão dispostos a tudo. Não haverá lei, princípios constitucionais, garantias, nada. Não haverá porque nunca houve.

Desde sempre, caveirões, exércitos, forças especiais, policiais militares, milícias paramilitares tomam as vielas dos morros cariocas. Vê-los em ação virou rotina no Jornal Nacional.

Quando um vai preso ou é morto, verifica-se o pior: ele se veste igual aos demais moradores da comunidade e, muitas vezes, é tão pobre quanto eles. Seu negócio tem custos adicionais que ele não controla, que ele não pode negociar, mas apenas pagar a propina para quem a exige, apenas comprar as armas de quem as oferece, geralmente tão fardado quanto os que recolhem o dinheiro.

A novidade é que desta vez, o blindado entrará, não sem antes deixar um carimbo na porta do gabinete do (ex)-governador: SOB NOVA DIREÇÃO.

O Ex-Governador do estado, o Pezão, quando muito, poderá sorrir em uma foto ou outra, nada mais do isso, todavia. Em seu lugar, um general. Pareceria assustador, se não fosse terrificante. Militares e democracia definitivamente não foram feitos um para o outro.

A menina poderia trazer em sua mochila coisas perigosas, como livros, por exemplo. Não apenas os de matemática, mas de outros que ensinassem a ela que a liberdade é uma conquista e que chegará o dia em que ela terá de tomá-la daquele soldado que corajosamente exibiu sua metralhadora para uma inimiga de oito anos de idade.

Ela crescerá e essa imagem não lhe há de sair da memória. Quando se lembrar da tragédia que virá, quando for dizer às pessoas do genocídio que testemunhou, ela poderá dizer que tomou de volta a liberdade que lhe tomaram, que ela pôde, com sua liberdade na mão, determinar ao covarde soldado que a abordou que desaparecesse com aquela arma e fosse embora, ele e sua pátria racista, ele e seu general, que fabrica inimigos, ele e sua guerra contra seus semelhantes, seus irmãos, seus vizinhos, seus parentes.

Essa garotinha que seja nosso símbolo maior de resistência. Se de nada houver motivos para resistir à barbárie de uma intervenção absurda, que seja ela e sua infância nossa bandeira e nosso ideal. Por um minuto, desejei estar ali, desejei estar ali para mandar aquele soldado para o diabo. Não pude, posso apenas gritar aqui, por ela, por aquela menina, que viu de perto, como poucos de nós vimos, a opressão, o arbítrio e o racismo.

Será preciso que sintam neles próprios a dor que causaram em uma gente pobre, suada do trabalho informal, desempregada e desarmada? Se for, que lhes doa fundo.

Roberto Tardelli é Advogado e Procurador de Justiça Aposentado.

Foto: Capa do jornal Folha de S. Paulo com sobreposição da tarja.

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