Massacre da Fazenda Santa Elmira: 29 anos de um marco na vida do MST

Episódio, ocorrido em 11 de março de 1989, representou o início de uma nova fase na luta pela Reforma Agrária no Brasil

Por Catiana de Medeiros, na Página do MST

“Uma praça de guerra: tiros, gente ferida, avião soltando bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. Desespero, gritos e choro por todos os cantos”. Este é a descrição de Frei Sérgio Görgen sobre o cenário provocado pelo então governo do estado do Rio Grande do Sul, na figura de Pedro Simon (MDB), e pela Brigada Militar no dia 11 de março de 1989, quando ocorreu o Massacre da Fazenda Santa Elmira, no município de Salto Jacuí, localizado na região do Alto Jacuí.

O fato histórico, que marcou a vida do MST, está documentado no livro “O Massacre da Fazenda Santa Elmira”, lançado em 2002 pela Novak Multimedia e escrito pelo próprio Frei Sérgio, que estava no local e também foi vítima do massacre. Mais de 29 anos depois, ele conta que, à época, foi chamado para contribuir na busca de uma solução pacífica para os problemas das famílias Sem Terra diante uma ameaçada de despejo. Ele diz que entrou na ocupação na mesma data em que ocorreu o massacre.

“O governador do estado pediu ao bispo de Cruz Alta, Dom Jacó Ilgert, intermediação para uma solução pacífica e prometeu que assentaria todas as famílias em tempo breve. O povo não acreditava mais no governo Simon, pois muitas promessas anteriores não tinham sido cumpridas. Mas o bispo teve uma atitude muito corajosa. Disse que, se os acampados aceitassem sair, ele residiria no acampamento deles até o governo começar a cumprir a promessa”, lembra.

Conforme Frei Sérgio, que hoje é dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o bispo iria então ao acampamento levar a proposta. Porém, tinha receio de que os Sem Terra não a aceitassem e de ser desmoralizado na intermediação. “Foi assim que eu e o Padre Paulo Ceriolli fomos convocados a ir até a ocupação, levar a proposta para os acampados, passar a informação para fora e aguardar o bispo”, recorda.

Frei Sérgio relata que, então, na madrugada do dia 11 de março de 1989 saiu junto com um grupo de agricultores que conhecia bem a região do Alto Jacuí. Eles andaram em meio aos matos até chegar ao acampamento, que estava rodeado e permanentemente sendo vigiado pelos soldados da Brigada Militar. “Aproveitamos uma troca de turno da guarda da Brigada e entramos. Os acampados aceitaram a proposta do bispo, meio a contragosto, a bem da verdade. Através de rádio amador, conseguimos passar a informação. Mas a Brigada desobedeceu o governador e negou o helicóptero para levar o bispo até o local”, acrescenta.

Luta em caráter de resistência

Adelar Pretto, à época com 23 anos de idade e hoje assentado da Reforma Agrária no município de Piratini, na região Sul do estado, também foi vítima do massacre, protagonizado por 1200 policiais. Ele lembra que o acampamento onde morava estava organizando uma ocupação para o mês de maio daquele ano e que, por este motivo, ele foi à Fazenda Santa Elmira para obter mais experiência no que se referia à luta pela terra em caráter de resistência.

“Eles chegaram com a reintegração de posse, mas o pessoal, que fez a ocupação no dia 9 de março, tinha decidido não sair e fazer o enfrentamento, pois buscava uma solução definitiva para as famílias acampadas. Chovia muito e dois dias depois, em 11 de março, os policiais começaram a cercar o acampamento. Os aviões começaram a baixar, jogando bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. Eles entraram atirando e muita gente foi baleada, pisoteada e cortada com baionetas. Aliás, muitas crianças ficaram machucadas ao tentarem se proteger. Eu fui baleado na perna”, complementa.

Pretto diz que os policiais fizeram os Sem Terra ajoelharem e erguerem as suas mãos na altura da cabeça, enquanto os revistavam. Eles apontavam as armas em direção aos trabalhadores e agiam de forma brutal, a fim de  intimidá-los e machucá-los. “Renderam nosso grupo, umas 100 pessoas entre  homens, mulheres e crianças. Eles faziam tortura física e psicológica, principalmente nos homens. Eu levei um chute nas costas e desmaiei, dizem que por uns 15 minutos. Quando nos colocaram num ônibus, ficaram procurando motivos para nos bater. Um guri vestia uma camiseta do Grêmio e apanhou por causa disso. Os policiais bateram nele com soco e coices”, acrescenta.

O assentado conta que a ação da polícia durou cerca de 3 horas dentro da ocupação. Os Sem Terra que estavam machucados e baleados foram levados para a sede da fazenda. De lá, foram encaminhados para o Hospital Regional Santa Lúcia, em Cruz Alta, onde receberam precários atendimentos — um Sem Terra que estava com a batata da perna atingida por um tiro de mosquetão, suja de terra e com grama, levou pontos sem que a região fosse antes limpada. “Por uma decisão do Movimento, nós saímos de lá. Eu vim a Porto Alegre, outros foram para Passo Fundo, para que pudéssemos nos recuperar”, lembra Pretto.

O trabalhador ressalta que o acampamento de onde vinha se preparava para fazer uma ocupação de latifúndio no mês de maio daquele ano, porém, devido ao massacre e à situação de crise que se instalava, a ação foi abortada. “Acabamos suspendendo. Foi feita uma greve de fome, encabeçada pelo Frei Sérgio, no Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, que forçou o governo a desapropriar áreas para a Reforma Agrária. Depois disso, os primeiros assentamentos criados foram na região de Bagé”, argumenta.

Conjuntura da época

O massacre ocorreu no período da Nova República, transição da ditadura militar para a democracia. Além disto, recém tinha sido aprovada a nova Constituição Federal. De acordo com Frei Sérgio, a situação dos trabalhadores do campo era de muita miséria, mas ao mesmo tempo de muita organização de base e disposição de luta. Neste contexto, o MST crescia em organização e em capacidade de enfrentamento.

“O MST vinha num crescente significativo, organizando a sua base, ampliando os seus quadros e formando muita gente. A conquista da Fazenda Annoni tinha sido um marco recente de animação para a luta. Porém, ao mesmo tempo em que o MST se organizava para garantir uma vida mais digna às famílias, o latifúndio também se organizava através da UDR (União Democrática Ruralista) e, de forma cada vez mais virulenta, ameaçava e praticava violência”, destaca.

Segundo Pretto, naquele período, o MST, que até então estava bastante atrelado à Igreja Católica, se afirmava como um movimento social de luta pela terra no Brasil. As ocupações, ressalta, sempre vinham seguidas de ordens de despejo, mas com a decisão de passar a resistir a elas o cenário mudou. “Foi um período muito duro e difícil, mas foi necessário para que o MST se tornasse o que é hoje”, alega.

Frei Sérgio comenta que naquele período houve muito enfrentamento direto. “Muita gente foi assassinada Brasil afora na luta pela terra. Houve uma tentativa de criar um Plano Nacional de Reforma Agrária no Governo Sarney, mas os latifundiários e a direita bloquearam qualquer possibilidade disso acontecer. Por isto, os canais se fechavam cada vez mais e era preciso ir além de acampamentos, caminhadas, protestos e ocupações com saídas negociadas. Então, com muita seriedade e responsabilidade, com muitos meses de preparação, o acampamento do Salto do Jacuí decidiu e se preparou para resistir ao despejo. E assim aconteceu”, recorda.

A brutalidade da Brigada Militar na ação de despejo, ordenada pelo juiz Hécio de Souza Costa, do município de Sobradinho, foi um dos fatos mais marcantes para Frei Sérgio. “Pareciam estar dopados. Não havia razão para tanta fúria. Dezessete pessoas foram hospitalizadas, algumas em estado grave. Vinte e três foram presas. Dezenas com ferimentos de todos os tipos. Nenhuma morte; algo quase milagroso com tanta violência e tanto tiro”, avalia.

Episódio marcante

De acordo com Pretto, após o Massacre da Fazenda Santa Elmira, o MST começou a ser respeitado por “aliados e inimigos” e a sociedade passou a apoiar a extinção da UDR. “Ela representava o latifúndio atrasado e foi banida pelo grau de violência que usava. Ronaldo Caiado, que à época era o presidente nacional da UDR, concorreu a presidente da República e fez menos de 2% dos votos”, lembra.

Para Frei Sérgio, o episódio “mostrou a coragem coletiva e organizada e a rebeldia camponesa altamente politizada”, além de ter criado um fato de repercussão nacional e internacional. Depois do ocorrido, todas as famílias que ocupavam o latifúndio foram assentadas e a luta pela Reforma Agrária “subiu para outro patamar”. “Houve mais respeito por parte da autoridade da época para com o Movimento, que se territorializou em muitas novas regiões do Rio Grande do Sul através de seus assentamentos. E o Massacre da Fazenda Santa Elmira constituiu-se num símbolo da luta pela terra no Brasil”, finaliza.

Massacre impune

Mais de 29 anos depois, todos os responsáveis pelo Massacre da Fazenda Santa Elmira continuam impunes. Em momento algum o então governador Pedro Simon, nem seu chefe de segurança, e outros atores envolvidos reconheceram que houve excessos na ação de despejo.

Ilustração do livro de Frei Sérgio sobre o massacre.

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