Assim que o contrato foi assinado com a empresa Máximus, em janeiro deste ano, no mês seguinte a ONG Nova Cambuquira solicitou acesso aos documentos da exploração e recebeu como resposta da Codemig que o contrato já estava classificado como de “sigilo reservado”.

“A água está se tornando algo estratégico economicamente pela sua própria escassez. O edital não prevê limite máximo de exploração. A gente não sabe o quanto a empresa pode explorar nem o quanto isso afetará o recurso hidromineral e os povos das águas da Mantiqueira”, afirma Lemes.

Fora essas questões, a ONG Nova Cambuquira encaminhou denúncias para investigação em relação a possíveis irregularidades administrativas do presidente da Codemig, Marco Antônio Castello Branco. Logo após ocupar o cargo na companhia, ele se tornou sócio de um empreendimento do ramo de cerveja, água mineral e afins. Em resposta, a companhia afirmou que “não há qualquer irregularidade ou conflito de interesse, já que Marco Antônio Castello Branco não é administrador, mas acionista da empresa Krug Bier, que não participou da referida licitação”.

Alvo antigo do MP

Em 2014, três anos antes do edital de privatização, os Ministérios Públicos estadual e federal entraram com a ação civil pública para que fossem adotadas medidas preventivas e protetivas em relação às águas de Cambuquira pelos entes responsáveis (Codemig, prefeitura de Cambuquira e Copasa – Companhia de Saneamento de Minas Gerais, que chegou a explorar as águas da cidade em 2007). A Codemig iniciou o procedimento licitatório apesar desse processo. Foi nesse contexto que o MPMG solicitou a suspensão da licitação.

A companhia mineira informou a The Intercept Brasil que desconhece esses estudos de vazão e contaminação e que a empresa contratada “deverá custear programas de monitoramento hídrico do controle de vazão e da qualidade das águas”. Em nota, enfatiza ainda que “a licitação não busca privatizar fontes e parques, mas estabelecer uma parceria produtiva com sócio apto a assegurar a execução do serviço com qualidade, em benefício de Minas Gerais e dos mineiros”.

”A situação é séria, a gente não tem um controle social dessa exploração”

Em fevereiro deste ano, o juiz federal Luiz Antônio Ribeiro da Cruz deu uma sentença atendendo parte dos pedidos dos Ministérios Públicos, mas negou a liminar de suspensão do edital. Na decisão, ficou determinado que a Codemig e os outros envolvidos façam o monitoramento das vazões das águas trimestralmente por dois anos e apresentem projetos de saneamento e de recuperação das águas e margens do córrego.  Ainda cabe recurso.

“Nossa esperança hoje, é via recurso, mas a Justiça é lenta. A licitação funcionou com fortes indícios de fraudes, ignoradas. A situação é séria, a gente não tem um controle social dessa exploração”, conclui a advogada Ana Paula Lemes.

Segundo sua avaliação, “vamos ver cada vez mais grandes corporações tendo o domínio e a posse desse bem que é essencial a vida, um direito humano”. O fato de a água mineral no Brasil seguir as regras de exploração determinadas pelo código minerário, com viés desenvolvimentista e econômico – nota Lemes – “coloca em xeque um recurso hídrico e alimento que tem que ser preservado para futuras gerações”.

ONGs e moradores reiteram que essas privatizações estão sendo executadas sem participação da sociedade, “de uma forma violenta”, acrescenta Lemes.

A Codemig esclareceu que antes de lançar o edital, o Governo de Minas Gerais realizou prévia consulta pública sobre o tema, entre os dias 7 e 23 de fevereiro de 2017, “um processo dialógico, democrático e transparente”.

Foto: Canal do Rio Bengo, no Parque das Águas, em Caxambu, Minas Gerais, uma das áreas de atuação da Maximus (Rubens Chaves/Folhapress)