Em busca de novas narrativas – parte 5. Por Cândido Grzybowski

do Ibase

Ainda pensando nos princípios e valores éticos que devem estar na base de uma economia do cuidado, trago aqui algumas questões incontornáveis sobre ciência e tecnologia. O extraordinário desenvolvimento científico e sua aplicação prática na forma tecnológica transformaram radicalmente nossas relações entre nós mesmos e as de troca com a natureza, condição da vida. Não é minha intenção focar no como se deu tal desenvolvimento, mas na nova ética que ele impõe.  

A questão é que nós, seres humanos, nos tornamos uma força capaz de concorrer com as forças naturais, transformá-las e até implodir a natureza. Como afirma o físico alemão, Hans-Peter Dürr, no livro “De la Science à l´Éthique: Physique moderne et responsabilité scientifique” :  “Nós adquirimos assim a capacidade de intervir diretamente no jogo delicado das forças que asseguram a estabilidade do meio ambiente natural”(em tradução livre). O que isto traz de implicação para a teoria e a prática científica é o que autor trata. Mas o fato histórico essencial é que mudamos nós mesmos, o nosso modo de ser e agir, como sujeitos. Diante deste fato, para a reflexão que trago aqui me inspiro muito em outro alemão, filósofo, Hans Jonas. Em “O Princípio Responsabilidade: Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica”, ele afirma: “… já que a ética tem a ver com o agir, a consequência lógica disso é que a natureza modificada pelo agir humano também impõe uma modificação na ética”. Como a intervenção técnica humana afeta a crítica vulnerabilidade dos sistemas ecológicos, é necessário pensar uma nova teoria ética sobre a natureza como uma responsabilidade humana. Entre nós latino-americanos há um pensamento avançado e novo, de pensadores como Alberto Acosta e Eduardo Gudynas, que avançam no sentido de direitos da própria natureza.

Na minha avaliação, já avançamos muito nos parâmetros éticos para um novo agir de cuidado, de respeito e de responsabilidade no desenvolvimento e uso de novas tecnologias na relação com a natureza. Sendo uma questão ética para a coletividade humana, ela se torna também um princípio que deveria ser referência da nova política. Por exemplo, desde na Conferência da ONU Rio-92, foi claramente adotado o princípio da precaução científica, que limita a adoção de novas tecnologias diante da falta de evidências e consensos no mundo científico sobre impactos na natureza. Ou seja, se admite a responsabilidade humana na questão. No entanto, tal princípio vem sendo sistematicamente desrespeitado pelos governos e pelas empresas. É emblemático o caso dos produtos transgênicos e de uso de agrotóxicos na agricultura, cuja liberação está acima do que a maioria dos estudos alerta sobre os grandes riscos de sua utilização, tanto para o meio ambiente, com ameaça real de destruição da biodiversidade– é emblemático o grande debate na Europa sobre o extermínio das abelhas – como para a saúde humana. Até aqui os interesses das grandes corporações do agronegócio preponderam nas decisões políticas de órgãos reguladores.

O problema é que tudo isto ainda sai pouco das esferas muito restritas, mesmo na área acadêmica das mais importantes universidades do mundo. A própria ciência saiu da busca de saber compreensivo e integral, de admiração com a fantástica maravilha da vida e do Planeta e de respeito diante de complexidade, para se tornar um pesquisar frenético, super especializado, segmentado, instrumental, financiado por grandes empresas capitalistas em busca de descoberta de soluções específicas, de maior produtividade e, portanto, de maior lucro na competição por acumular mais e mais. Decididamente, ciência, como tendência, não está do lado do cuidado, apesar de sua enorme responsabilidade na questão das tecnologias e seus impactos. Ciência hoje é avaliada pela quantidade de novidades que viram patentes – os tais direitos de propriedade intelectual com valor de mercado.

O saber científico como bem comum e patrimônio de toda humanidade, gerado sempre pelo compartilhamento entre cientistas, está se tornando privado e fonte de expansão capitalista. A bem da verdade, contra a própria ciência, em última análise. Lembro aqui o enorme esforço científico colaborativo mundial empreendido para entender o zica vírus e buscar a vacina imunizadora ou o melhor remédio de controle de seus impactos na gestação das mães e nos novos bebês, o futuro da própria espécie humana. Uns aprendem com as buscas e até fracassos de outros. Sempre foi assim na ciência. Mas com o produtivismo e mercantilismo que cercam a ciência hoje, quem chegar primeiro à solução terá o direito – melhor seria definir isto como privilégio – nada ético de propriedade intelectual e, ao vendê-la, ganhar muito com isto. Também é importante lembrar que o avanço científico e tecnológico de nossa civilização atual depende muito do financiamento público para a guerra, para matar e dominar, não para felicidade humana e o bem viver. E o que dizer de um bem comum como a internet, grande invenção humana, mas virada base de grandes negócios privados?  Google, Facebook, Amazon, entre outras com seus aplicativos vendem a nós mesmos, em última análise, sem nos pagar um tostão pelos dados que lhes forneceremos ao usar seus chamados “serviços gratuitos”, nesta nova forma de acumulação primitiva da quarta revolução industrial do capitalismo.

Diante da ameaçadora mudança climática devido à “colonização” da atmosfera pelas emissões acumuladas de nossa civilização movida dominantemente pela queima de energia fóssil, sem nenhum cuidado, por desmatamentos e extrativismos desenfreados, ao invés de caminharmos para a mudança radical do modo de usar a natureza, estamos sendo bombardeados pelas ideias de economia verde e propostas de geoengenharia. Elas reproduzem e exacerbam a mesma base científica e técnica, as mesmas forças de mercado, portanto, mais negócios e frentes de expansão. Até os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – da Agenda 2030, acordada na Assembleia da ONU de 2015, está contaminada por tais ideias, sem mudar a lógica das forças de mercado. Uma referência de análise crítica a tudo o que tal caminho representa como ameaça é do ETC Group, do Canadá.

Enfim, levantar a questão da ética do nosso agir tecnológico como seres humanos impacta diretamente a civilização produtivista, consumista e mercantilista do capitalismo, exatamente a promotora de um desenvolvimento científico e técnico de domínio total da natureza, desqualificando qualquer consideração sobre responsabilidade, cuidado, limites naturais, integridade de sistemas ecológicos, mudança climática. Estamos ainda longe de conseguir impactar o grande público com tais considerações. É aí que reside a questão de como criar outra narrativa, que valorize a ciência e técnica, mas demanda responsabilidade e avaliação de impactos, que exige a prática da precaução como princípio ético e prático.

Resistências, emergências e novas formas de relação com a natureza pipocam pelo Brasil afora, na região e no mundo inteiro. O que elas trazem de radical é a demonstração que nova tecnologia supõe nova relação entre nós mesmos. Ou seja, não é possível nova tecnologia sem uma perspectiva socioambiental, de mudarmos como nos relacionamos entre nós mesmos junto com a mudança do modo como nos relacionamos para trocar com a natureza, que nos dá as condições de viver. Estamos diante da necessidade de buscar nova ciência e nova tecnologia, mas não independentemente de transformar a organização social, econômica e política que a sustenta.

Vista assim a questão, a tarefa, não é só identificar, mapear e divulgar tais experiências como exemplos, para que se multipliquem. Precisamos ir além. Faz-se necessário produzir uma narrativa capaz de disputar hegemonia, como questão ética e como cosmovisão. Para isto é preciso que integremos as experiências de desenvolvimento e uso de novo saber científico e técnico, inspirado no saber, nas vivências e práticas de amplos setores da população, nas cidades e no campo, numa nova referência e em uma nova utopia, para além de resistência concreta indispensável e fundamental. Temos que confrontar a civilização capitalista como modo de produção e de vida com questões éticas, com uma nova visão tanto da economia como da ciência e da técnica, de estilos de vida, de modo de viver em sociedade, cuidando-se mutuamente e cuidando a natureza para as novas gerações.

Rio, 07/05/2018

Deixe uma resposta

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.