As eleições e as comparações perigosas

Afinal, quem é o Trump brasileiro? Bolsonaro poderia ser equiparado a uma Marine Le Pen? Debaixo desse tipo de “comparação perigosa”, a que mesmo as esquerdas são convidadas, fica o ímpeto do desfoque de herança colonial. É como se para nos apoderarmos de nossa própria história precisássemos da comparações europeias ou, pelo menos, advindas do hemisfério norte.

Por Flávio Aguiar, no Blog da Boitempo

Acompanhando de longe, do ponto de vista do olhar, e de perto, do ponto de vista do coração, o processo surreal das eleições brasileiras, me vejo cotidianamente confrontado com o “reino das comparações perigosas”.

A mais recente diz que Fernando Haddad pode ser o Ivan Duque (presidente da Colômbia, tido como fantoche de Uribe) brasileiro.

Mas a mais perigosa é a que diz ser Jair Bolsonaro “o Trump brasileiro”. Bolsonaro não tem nada de Trump, do topete às atitudes intempestivas.

Nada em Bolsonaro é intempestivo. É tudo calculado, milimetricamente, para agradar a seu eleitorado cativo. Até a escolha do General Mourão, este cara meio bronco que considera africanos malandros e índios indolentes, na melhor maneira de séculos atrás.

A escolha de Mourão foi a resposta à consolidação da chapa Chuchu-Chicote pelo PSDB. Ambos sabem que disputam a mesma seara: a extrema-direita brasileira. Se Chuchu-Chicote deseja chegar ao segundo turno, é daí que ele deve roubar votos que seriam destinados a Bolsonaro-Mourão.

No máximo, e olhe lá, Bolsonaro poderia ser equiparado a uma Marine Le Pen de saias, ou um Gert Wilders moreno, quem sabe um Matteo Salvitti grisalho.

Trump, no Brasil, equivale a Chuchu, seguido de Chicote. São as mesmas ideias anacrônicas. O mesmo impulso de privatizar tudo, de acabar com todos os progressos civilizatórios que tivemos desde 1988, a mesma gana de se empalmar do Estado Federal para desarticular as benesses aos pobres que ainda restarem depois do vendaval Temer.

Mas debaixo dessas “comparações perigosas”, a que mesmo as esquerdas são convidadas, fica o ímpeto do desfoque de herança colonial. Muitos dos positivistas do século XIX viam a História Brasileira como uma História Francesa com um século de atraso. Por isto compararam o 15 de novembro ao 14 de julho, e a insurreição do Belo Monte (rebatizada como Guerra de Canudos) à insurreição restauradora da Vendeia, no século XVIII. Precisamos de um Euclides da Cunha de uma obra titânica, como “Os sertões”, para desfazer o equívoco, embora a sua estrutura continue vingando entre nós.

É como se para nos apoderarmos de nossa própria história, precisássemos da comparações europeias ou, pelo menos, advindas do hemisfério norte.

Não precisamos disto. Bolsonaro é Bolsonaro, um ignorante alçado a líder do ressentimento dos que se sentem ameaçados pela ascensão dos pobres a tudo que viam como seus privilégios: de aeroportos a shoppings.

Chuchu e Chicote são os que disputam este setor e aliam a ele os que se querem “bem pensantes”, os pessedebais da vida que acham que política “é para gente séria”, não para ser decidida nas urnas.

Marina/Eduardo são os brotos verdes da desilusão: se lançam como balões ao ar, cheios de gás, oriundos dos ninhos onde nasceram, mas sem grandes esperanças de passaram além dos horizontes.

Meirelles é mesmo o filhote de Temer e de sua própria riqueza. Vai adiante até onde seus milhões chegarem e até onde as misérias de Temer permitirem.

Boulos é Boulos, maior que o PSOL que o abrigou. Pode ser que com ele o PSOL deixe de ser uma legenda regional do Rio e de alguns bairros de São Paulo.

Lula é Lula, Haddad é Haddad, Manuela é Manuela, um triângulo inédito na História do Brasil. A ver onde chegam.

O que se precisa reconhecer é que a trajetória brasileira é inteiramente original. Não tem paralelo. E assim precisa ser estudada.

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*Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras.

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