Compromisso com o defeito. Por Janio de Freitas

Bolsonaro é parlamentar há quase três décadas, o que não faz dele um democrata

Na Folha

Os dois assumem o “compromisso com a democracia” cobrado de ambos por editoriais escritos e falados. O inverso cairia melhor, com os cobradores cobrados por um compromisso com a democracia, sobretudo na TV. Mas vá lá.

A cobrança a Haddad não tem sentido, inexistindo atitudes ou palavras suas de conotação antidemocrática. Nem as tiveram as presidências petistas.

A cobrança a Bolsonaro deu ao bolsonarismo, inclusive o disfarçado, a resposta contra os que apontam o seu autoritarismo: “ele assumiu o compromisso”. Mais do que duvidoso.

Sem ter escritos, Bolsonaro adaptou o lema de Fernando Henrique: “esqueçam o que eu disse”. A Petrobras já entrou e saiu da lista de privatizações várias vezes. Paulo Guedes já foi “o posto Ipiranga” que acumularia diversos ministérios, caiu a conselheiro sem poder de decisão, e ainda não parou de subir e descer, repetido e contestado.

O mesmo com o general Mourão. Estaríamos todos armados, sendo este o plano contra a criminalidade, e logo uma parte foi desarmada, voltou à condição policial, e não se sabe mais.

Assim ocorre com todas as afirmações de Bolsonaro, remotas ou recentes. Um traço pessoal que desacredita todo compromisso seu.

O “compromisso com a democracia” tem, no entanto, uma causa mais expansiva de invalidade. No laboratório do candidato, o que está em elaboração pode-se chamar de nada menos do que um governo dos generais.

Em presença numérica, sim, como já informado por Bolsonaro: “o governo vai ter militares em muitos postos”, “vão ser só 15 ministérios, uns cinco vão ter ministros militares”. Mas, além do número, há a índole que conduz esses militares.

Os generais hoje na reserva são os capitães, majores, coronéis do suporte à ditadura. Foram formados no autoritarismo e para o autoritarismo.

É nisso que faz a identificação mútua entre o grupo de generais e Bolsonaro, entre a corporação militar e Bolsonaro.

É a concepção de militar sem contribuição intelectual, desde que a escola francesa foi aqui substituída, com a chegada da Segunda Guerra Mundial, pela instrução americana, mecanicista e sem cultura.

Por oito anos, iniciados no governo Lula e terminados ao começar o segundo mandato de Dilma, o general Enzo Peri conseguiu a façanha, como comandante do Exército, de manter sua oficialidade em estrito profissionalismo, respeito à Constituição e à margem da política.

Aeronáutica e Marinha já seguiam essa linha, e continuaram. O sucessor de Enzo Peri, general Villas Boas, não teve a mesma firmeza, à falta da mesma convicção. O escorpião da anedota outra vez provou sua advertência psicológica e sociológica.

Ser parlamentar não é sinônimo de democrata. Bolsonaro é parlamentar há quase três décadas, mas não é democrata. Já disse e fez muito mais do que o necessário para demonstrá-lo.

O divulgado como seu programa não contém nenhuma proposta, por mínima que seja, destinada a fortalecer o incipiente regime democrático.

Dos generais que compartilham esse programa, nada se ouviu naquele sentido, hoje ou no passado. Bem ao contrário.

A verdade é que compromisso constitucional configura um desafio histórico e moral para as Forças Armadas da América Latina. É por defeito de fabricação. E não tem recall.

Foto: Folha

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