O que as bombas enviadas a adversários de Trump ensinam ao Brasil

Por Mayra Cotta, especial para o blog do Sakamoto*

Barack Obama, Hillary Clinton e a CNN receberiam, em sua correspondência, um envelope com uma bomba. George Soros – bode expiatório preferido da extrema-direita nacionalista na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil – recebeu uma bomba idêntica, em envelope com o mesmo remetente, na última segunda.

O FBI confirma que bombas adicionais também foram mandadas para John Brennan, antigo diretor da CIA, conhecido por ser muito crítico ao presidente Donald Trump, Maxine Waters, congressista do Partido Democrata da Califórnia, e Eric Holder, antigo procurador-Geral da República sob o governo Obama. Todas as cartas tinham como remetente a antiga diretora do partido democrata, Debbie Wasserman Schultz.

Isso acontece enquanto o país se prepara para as chamadas Midterm Elections, no próximo 6 de novembro, quando eleitores vão às urnas escolher os seus representantes para o Congresso. Apesar de receber menos atenção que as eleições presidenciais, as Midterms são extremamente relevantes: elas determinam qual partido terá maioria no Congresso. Atualmente, os Republicanos têm maioria tanto no Senado quanto na Câmara, mas os Democratas acreditam ser possível reverter esse quadro, se não nas duas Casas, pelo menos em uma delas.

Importante lembrar que as últimas Midterms, em 2014, antes de as primárias presidenciais começarem, tiveram o índice de participação mais baixo da história com apenas 36% do eleitorado comparecendo para votar. Naquele momento, o cenário eleitoral que se desenhava era que a disputa seria entre Hillary Clinton (esposa do presidente que consolidou as principais reformas neoliberais no país nos anos 1990) e Jeb Bush (irmão do presidente que forjou provas sobre armas de destruição em massa para invadir o Iraque, em 2003). Bernie Sanders e Donald Trump ainda não apareciam com força em nenhum radar político.

Desde então, o país se polarizou intensamente. A vitória de Trump e a ascensão meteórica de Sanders demarcaram uma linha nítida no espectro político estadunidense.

Na Flórida e na Geórgia, candidatos apoiados pelo movimento Our Revolution, de Bernie Sanders, estão concorrendo contra republicanos diretamente conectados a Trump. No Texas, um estado onde os republicanos são tradicionalmente muito fortes, seus candidatos estão sob o risco de perder para os democratas. Em Nova York e em Seattle, republicanos estão enfrentando novatas da política, que ganharam a nomeação democrata por meio de muito trabalho de base e propostas bem mais à esquerda. Nos Estados Unidos, ao que parece, o caminho encontrado para enfrentar Donald Trump e a ascensão da extrema-direita no país foi fortalecer a esquerda e intensificar suas demandas.

Muitos se pronunciaram sobre o atentado durante a última quarta-feira. A Casa Branca em comunicado oficial denunciou os ataques e falou que “os responsáveis deverão responder pelos seus atos.” Hillary Clinton caracterizou o atual momento como um “período perturbante de profundas divisões” no país. O chefe do Senado republicano, Mitch McConnel usou a expressão “terrorismo interno”, enquanto o prefeito de Nova York, Bill deBlasio denunciou os atos como “uma vontade de semear o terror.” Talvez as palavras mais relevantes tenham vindo exatamente do senador Bernie Sanders, que afirmou: “atos de violência não tem lugar na nossa Democracia. Neste país, nós fazemos enfrentamento político com palavras e ideias, e não com punhos e bombas.”

Em um comício político na noite desta quarta (24), em Wisconsin, um dos estados do chamado Rust Belt (Cinturão da Ferrugem) que decidiu as últimas eleições presidenciais, Trump disse que a mídia precisa ser mais responsável e adotar um tom de maior civilidade. Segundo ele, a hostilidade vivida hoje no país é decorrência dos “falsos ataques.”

A tática de culpar seus adversários por posturas e atos que ele mesmo pratica é a marca registrada do modus operandi de Trump. Desde que foi lançado ao centro do debate político nos últimos anos, o presidente vem acumulando demonstrações de incivilidade que deixam até os seus mais fervorosos apoiadores constrangidos. Ele já fez chacota com um repórter com deficiência física, disse que os mexicanos que vêm para os EUA são estupradores, frequentemente dá apelidos jocosos e racistas a quem o enfrenta, como “Pocahontas”, “imbecil”, “fraco”, “esquisito” e “mole”, usou o palanque de comício para colocar em dúvida o depoimento de uma médica que acusou o último indicado a Suprema Corte de estupro, xingou os atletas negros que se ajoelharam em protesto contra o racismo institucional no país durante o hino estadunidense. Isso apenas para citar alguns exemplos.

Enquanto alguns vão dizer que tudo volta ao normal porque nenhuma bomba de fato explodiu ou sequer chegou ao seu destinatário final, é preciso entender que atos desse tipo possuem consequências para além de sua letalidade. Eles buscam intimidar e calar os adversários, apostando na violência como meio de interromper a política.

Em seu último filme, Farenheit 11/9, Michael Moore diz que muitos eleitores foram às urnas em 2016 e votaram em Trump como forma de “atirar um coquetel Molotov nas velhas instituições políticas.” E de fato sobravam razões para se estar insatisfeito com os representantes da democracia liberal estadunidense. Quando o discurso de candidatos como Trump, contudo, instrumentaliza as frustrações com a política institucional para criar uma plataforma eleitoral baseada na violência contra adversários e na intolerância contra minorias, o “coquetel Molotov” simbólico facilmente se transforma numa bomba que explode e mata de verdade.

Qualquer semelhança com o Brasil, definitivamente, não é coincidência.

*Advogada e pesquisadora do Departamento de Política da New School for Social Research em Nova York.

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