A língua de Jesus: a necropolítica. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

A pergunta é oportuna em pleno natal: qual a língua usada no bate-papo que a futura ministra Damares Alves teve com Jesus em cima de uma goiabeira, em Sergipe, em 1974, conforme ela revelou na semana passada? Foi a mesma das canções de ninar com que Maria há mais de dois mil anos acalentava seu bebê? Como é que o menino se comunicava com o primo João Batista ao brincarem de esconde-esconde nas montanhas de Judá? Em qual língua José ensinava ao filho seu ofício de carpinteiro? Parece que as histórias contadas pela vó Ana e o vô Joaquim ao netinho eram no mesmo idioma usado por Maria para chamá-lo a jantar, algo assim como:

– Sai do sereno, menino Jesus! Sereno pode fazer mal! Vem logo pra dentro, menino! A sopa de lentilhas com ragu de cordeiro já está esfriando.

A receita da sopa foi transmitida por Ana à sua filha Maria em qual língua? É preciso saber se essa língua da intimidade do lar, coloquial, era a mesma em que Jesus foi julgado no Sinédrio e depois por Pilatos ou a que debateu no templo com os sábios anciãos. O evangelho dá pistas quando relata a viagem da sagrada família de Nazaré a Jerusalém na Páscoa Judaica. Jesus tinha doze anos, desapareceu e só foi encontrado três dias depois entre doutores cheios de empáfia. Maria ralhou com ele e – quem dir-te-ia! – recebeu a seguinte resposta:

– “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?” (Lucas 2:49).

Jesus não falou assim nesse português pedante. Aliás, na época de Cristo a língua portuguesa nem existia, estava dormindo dentro do latim e foi despertando devagarinho ao longo dos séculos, até desabrochar como a “última flor do Lácio”. A tradução posterior ao português, que passou por diversos filtros, não só linguísticos, construiu para o leitor brasileiro um evangelho obscurecido pela variedade escolhida, aquela ostentada por Michel Temer e pelos membros do STF, que arrotam “cultura” com mesóclises e outros bichos como sinal de poder da língua escrita.

O aramaico

Afinal, qual era mesmo a língua de Cristo? O menino Jesus nasceu em Belém, mas passou a infância em Nazaré, uma pequena aldeia com 20 casas, nos confins da Galileia, a pouco mais de 100 km de Jerusalém. Foi lá, no colo de Maria, que adquiriu sua língua materna, o aramaico, que se tornou a língua administrativa e religiosa da Antiguidade. Desde o séc. XII a.C. ela se expandiu por territórios atuais da Síria, Iraque, Turquia e costa Mediterrânea e sua escrita inspirou o alfabeto árabe. Era língua de prestígio.

No entanto, aquela variedade falada por Jesus – o aramaico galileu – era discriminada por “não seguir a norma padrão”, como hoje o português popular quando faz a alternância l/r e diz que “o que a gente ‘pranta’, a gente colhe”. Os falantes de aramaico galileu usavam “l” no lugar do “n”, algo assim como “nadrão que rouba nadrão tem cem anos de perdão” se fosse para justificar o habeas-corpus de Barrabás. Todo mundo se entendia, mas os galileus que não viviam na Judeia sofriam bullying por parte de outros judeus, como os nordestinos hoje no sul do Brasil.

Guardada a distância histórica e geográfica, Jesus era “pau-de-arara”, ele e alguns apóstolos. Pedro, um deles, sentiu isso na própria pele ao abrir a boca na noite em que Cristo foi preso e levado à casa de Caifás. Uma das criadas do sumo sacerdote passa no pátio, pergunta algo a Pedro e ao ouvi-lo, acusa:

– “Tu certamente és também um deles, pois, de fato, o teu modo de falar te trai”(Mateus 26:73).

Ele negou que fizesse parte do grupo de Jesus. O galo cantou. Pedro tentou tirar o loló da seringa, digo, o “nonó”, mas foi delatado pela sua língua de identidade, o aramaico galileu. Poderia negar em hebraico, língua que dominava tanto quanto o técnico Joel Santana o inglês, mas aí sua fala soaria como um cearense exclamando: Ai dónti bélive, bichinho!  O galo cantaria a quarta vez,

As outras línguas 

– Cristo falava aramaico – confirmou recentemente o papa Francisco.

– Negativo, ele falava hebraico – discordou o primeiro-ministro de Israel Benhamin Netanyahu.

Cada um puxou a brasa pro seu tambaqui. Mas os dois parecem ter razão, diz o linguista Ghil’ad Zuckermann: o aramaico era a língua de identidade de Jesus, usada em casa pelos pais e os avós, nas conversas diárias, nas brincadeiras, no mercado, nas canções e até nos sermões e pregações. Algumas frase soltas em aramaico foram conservadas na tradução do Evangelho ao grego. Na hora de morrer, que é a hora da verdade, Jesus retorna à sua querência, as últimas palavras foram em aramaico, sua língua nativa: Eloi, Eloi, lamá sabactháni (Marcos,15,34).

No entanto, segundo Harris Birkeland, em The Language of Jesus, existem indícios de que Cristo conhecia efetivamente uma segunda língua, o hebraico bíblico, idioma litúrgico judaico que se aprendia na escola da sinagoga, estudando as escrituras e que provavelmente usou na conversa com os doutores metidos a sabichões, todos eles com o currículo César devidamente atualizado. Além disso, pode ser que Jesus arranhasse o grego, língua franca que, como o inglês hoje, permitia se comunicar com pessoas de diversas línguas e de todas as regiões. É provável que seu julgamento por Pilatos tenha sido em grego.

A placa que Pilatos mandou pregar na cruz vinha com a inscrição “Jesus Nazareno, o rei dos Judeus” em três idiomas – aramaico, latim e grego (João 19: 18-20). Nas sociedades multilíngues, os usos e funções de cada idioma nos diferentes espaços sociais são determinados por políticas de línguas que definem qual delas será usada na escola, no tribunal, na igreja, no lar.

Quando tais medidas são decididas pelo Estado autoritário e excludente, as línguas minorizadas são silenciadas em detrimento de uma língua oficial. É o que o filósofo camaronês Achille Mbembe chama de necropolítica linguística, responsável, no caso do Brasil, pelo glotocídio que extinguiu criminosamente, em cinco séculos, mais de mil línguas indígenas.

A resistência

Na perspectiva da necropolítica está subjacente a ideia de que a diversidade de línguas é um castigo divino, tal qual na narrativa bíblica da Torre de Babel, e não o resultado da astúcia do ser humano, como pode ser interpretado no mito Os comedores de milho e a criação das línguas dos índios Makurap, de Rondônia. Por isso, a diversidade tem que ser eliminada. Nos dois casos, estão presentes as relações de poder, conforme dissertação de Cristiane Oliveira, que comparou as duas narrativas, uma registrada na Bíblia e a outra, dos Makurap, em “Terra grávida” de Betty Mindlin.

Os falantes das línguas minorizadas no mundo todo continuam resistindo e combatendo a necropolítica. Na Síria, onde até 2011 estava proibido dar aulas em qualquer língua que não fosse o árabe, a UNESCO diagnosticou o fim próximo do antigo aramaico – o neoaramaico ou siríaco – e apoiou a criação de uma escola de formação de professores, na fronteira com a Turquia, na cidade de Qamishli, para revitalizar essa língua que passa agora por um processo de ressurreição.

Em Israel, o Ministério da Educação atendeu solicitação dos cristãos maronitas para a introdução do aramaico no curriculum de uma escola primária na cidade de Jish, Galileia, na fronteira com o Líbano, cursada por 120 alunos. Lá, as crianças assistem diariamente um canal de televisão da Suécia, onde 80.000 imigrantes falam essa língua, usada na missa e no alto do templo de Jish onde há uma inscrição do Pai Nosso em aramaico.   

No Brasil, as escolas indígenas também resistem à necropolítica e buscam revitalizar as línguas discriminadas. A celebração do amor, que parece ser o tom do Natal, passa pelo respeito à diversidade de línguas. Cristo, pau-de-arara, índio perseguido, julgado e condenado à morte numa língua que não era a sua, parece ser o símbolo dessa resistência.

P.S. – Em Belém, não de Judá, mas do Pará, Cristiane Helena Silva de Oliveira defendeu nesta segunda (17/12) sua dissertação de mestrado: “Necropolítica linguística: silenciamento e resistência da língua Tenetehara nas aldeias do Guamá”, orientada por Ivânia dos Santos Neves, que presidiu a banca da qual participaram Ângela Fabíola Alves Chagas (UFPA) e José R. Bessa Freire (UNIRIO-UERJ). Foi lá, no Grupo de Estudo Mediações, Discursos e Sociedades Amazônicas (GEDAI) da Universidade Federal do Pará, coordenado por Ivânia, que me familiarizei com o conceito de necropolítica linguística, fonte inspiradora dessa crônica.  

Ver: Dona Fiota, a letra e a palavra

Comments (2)

  1. Não entendi seu comentário, Cristiane. O texto aqui postado corresponde exatamente ao original no Taqui Pra Ti, como citado. E nele o Autor faz referência destacada à sua dissertação, inclusive registrando título, banca e local da defesa no PS.

  2. Boa noite, apenas corrigindo, MBEMBE não trata diretamente de Necropolítica nas relações Linguísticas, pois para o autor (resumidamente) a Necropolítica é o gerenciamento e aniquilamento dos corpos, um conceito baseado no já famoso conceito de Biopolitica de Foucault. Já a categoria teórica NECROPOLÍTICA LINGUÍSTICA até o presente momento é apresentada apenas na dissertação de mestrado “Necropolítica Linguistica: silenciamento e resistência da língua Tenetehara nas aldeias do Guamá” de minha autoria a ser em breve disponibilizada no Blog do GEDAI. Solicito ao adm. desta página que verifique mais uma vez o texto original que já sofreu alterações. Obrigada!

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