O valor do jornalismo e o genocídio indígena

Por Pedro Varoni, no Observatório da Imprensa

A reportagem “Genocídio” do jornalista e escritor britânico Norman Lewis ( 1908-2003), produzida no final dos anos 1960 e publicada na última edição da revista piauí, é um conteúdo que não pode passar despercebido diante do excesso de informações a que somos submetidos no dia a dia. O tema é a violência contra os povos indígenas brasileiros e a forma como historicamente prevaleceu a impunidade. Meio século depois, o relato tem sua validade ancorada no melhor jornalismo: levantamento de informações contextualizadas, reportagem de campo em amplos territórios e capacidade de prender o leitor com uma narrativa que valoriza os detalhes sem perder o foco no genocídio indígena como marca que atravessa nossa história.

Publicada originalmente na Sunday Times Maganize em 1969 e também em livro — “A View of the World” — a reportagem, traduzida por Renato Marques Brett, é um desses casos raros em que se percebe com nitidez a capacidade do jornalismo impactar a sociedade. A sua repercussão estimulou a criação da ONG inglesa “Survival International”, organização que trabalha pelos direitos dos povos indígenas. Uma demonstração de como o discurso é capaz de provocar mudanças nas práticas.

O jornalista faz um relato histórico a partir do século XVI e conta detalhes da dizimação e escravização dos povos indígenas com requintes de violência que desconstroem a ideia de que somos uma civilização pacífica. Disputas por territórios e riquezas naturais justificam toda sorte de desumanidades contra os índios: rajadas de metralhadoras, bombas atiradas por aviões, injeções com o vírus da varíola.

O artigo “Povos da Megadiversidade”, escrito pela antropóloga da Universidade de São Paulo (USP), Manuela Carneiro da Cunha, também publicado na edição de janeiro da piauí, elucida a reportagem de Lewis. A antropóloga lembra a decisão do Ministro do Interior, General Afonso Augusto de Albuquerque, de nomear, no final dos anos 1960, uma comissão de inquérito administrativo para apurar os delitos praticados pelo Serviço de Proteção aos índios. Instituição que antecedeu à criação da Funai, fundada na época do projeto desenvolvimentista militar que via os índios como entraves ao desenvolvimento.

A Comissão Figueiredo, como foi conhecida, em referência ao procurador federal Jáder de Figueiredo que a presidiu, resultou num relatório de 7 mil páginas datilografadas depois de um trabalho de campo em uma centena de postos indígenas, com relatos de estupros, assassinatos e roubos contra os índios. O relatório foi divulgado em março de 1968, meses antes do AI-5. Teve repercussão internacional e chegou a ser assunto de primeira página do The New York Times. O documento foi arquivado e ignorado até que, em 2012, o pesquisador Marcelo Zelic o identificou no Museu do Índio e se tornou fonte para a Comissão Nacional da Verdade.

A professora Manuela Carneiro da Cunha esclarece que, meio século depois, pouca coisa mudou. “Os índios continuam sendo mortos a bala e resistindo como podem à espoliação de suas terras. Declarações do presidente Jair Bolsonaro estimularam, antes mesmo de sua posse, a violência contra os índios, as populações tradicionais, os funcionários da Funai e os do Instituto Chico Mendes.”

Se a violência permanece, houve uma mudança na percepção da importância das reservas florestais. A diversidade biológica e social, representada pelos indígenas, é hoje um diferencial do Brasil. “Na era da biomédica e da busca por princípios ativos, a floresta em pé e seus melhores conhecedores, que são as populações tradicionais, tornam o Brasil um campo de imenso potencial para a inovação de ponta”. A homogeneidade é um perigo para todos os sistemas, dos financeiros aos ecológicos. E o que os povos indígenas produzem, de graça, é a diversidade.

A antropóloga recorre ao artigo 231 da constituição de 1988 — a mesma que o Presidente eleito prometeu cumprir. “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições”, bem como os territórios necessários à reprodução física e cultural dos povos. Sobre as expectativas para o setor com o governo Bolsonaro, a Professora Manuela é categórica. “Perguntaram-me há alguns dias o que esperava do novo governo. Minha resposta é esta: espero que cumpra a constituição de 1988”, conclui.

A constituição passa a ser, nesse momento, um objeto de consulta e pesquisa obrigatório para os jornalistas comprometidos com a democracia e o exercício crítico da profissão. A visão da importância dos territórios e costumes desses povos como valor simbólico e material da diversidade que temos a oferecer ao mundo, não pode ser desconsiderada por razões humanitárias, mas também estratégicas.

O ponto de encontro entre os dados do Relatório Figueiredo e o trabalho de Lewis nos dão a medida da dimensão do lugar do jornalismo. O procurador Jáder de Figueiredo Corrêa foi um dos entrevistados e o repórter avalia o relatório.“Tinha um tom sereno-fleumático, quase-razão ainda maior da eficácia de seu conteúdo, que revelava e denunciava atrocidades”. Logo no início da reportagem, Lewis identifica um ponto cego em suas fontes: a falta de sinceridade e de responsabilidade social. “A aversão em apontar a direção de onde a desgraça se aproximava”. O seu trabalho demonstra que o valor da informação jornalística como forma de transformação social passa pela identificação dos pontos cegos – o não dito em todo dizer. Cinquenta anos depois, precisamos, mais do que nunca, dessa perspectiva.

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Pedro Varoni é jornalista, editor do Observatório da Imprensa e pesquisador em pós doutorado do Departamento de Informação e Cultura da ECA/USP.

Foto: Fábio Nascimento /Mobilização Nacional Indígena

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