Pelas ruas de Manaus: o pau cessou no Brasil? Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

“No beco do ‘Pau-não-cessa’ / há muito que o pau cessou /
 já nem se lembra a polícia / do tempo que o visitou”.
(Luiz Bacellar – Frauta de Barro, 1963)


Morro de vergonha com a decisão do ministro Luiz Fux (pronuncia-se fucks)  do STF de suspender a investigação sobre as mutretagens do motorista Fabricio Queiroz envolvendo a família Bolsonaro, num montante que daria para comprar 700.000 pedalinhos. Fux atendeu pedido de Flávio Bolsonaro, que antes fingira ser o maior interessado em tudo esclarecer. Como previu o então senador Romero Jucá, em conversa gravada que todo o país ouviu, é preciso fazer um pacto nacional “com o Supremo, com tudotem que resolver essa porra, tem que mudar o governo para estancar essa sangria”.

Essa porra” era a luta contra a corrupção. O governo mudou. A sangria estancou. Indignado e impotente, com a nação acocorada e apática, não quero exorcizar agora os demônios. Por isso, peço licença a eventuais leitores para me refugiar nas ruas de Manaus e mudar totalmente de assunto, num momento fugaz de alienação. Retomo uns rabiscos de 1996 sobre uma lei municipal que trocou o nome de mais de 3.700 logradouros da cidade, antes com denominações de pessoas vivas, letras, números, palavras esdrúxulas ou repetidas.

O beco da Dica

No bairro de Aparecida, há muito tempo o legislador já havia trocado nomes estranhos. O Beco da Bosta mudou para Rua Carolina das Neves, em memória da proprietária de alguns barracos, de nacionalidade portuguesa, já falecida. Hoje é Rua Elisa Bessa. Lá no Beco Pau-Não-Cessa, onde as brigas há muito deixaram de existir, como canta o nosso bardo maior, o seu Bento montou uma fábrica de cachaça e surgiu a denominação mais apropriada de Beco da Indústria.

Alguns becos tiveram um up-grade. O Beco da Dica, que desagua na Rua Leonardo Malcher, foi elevado à categoria de rua, mas continuou sendo da Dica. Lá você não encontra nenhuma “sugestão”. Dica aqui não é “dica”, mas apelido de alguma Raimunda caridosa que, como qualquer Raimunda, pode até ser feia de cara, mas é sempre boa de coração, segundo dito popular.

Outro que subiu de categoria foi o Beco do Normando, no bairro dos Bucheiros, agora Rua Normando. Duas alterações interessantes: um beco virou a Travessa Francisco Beleléu, em homenagem a Francisco Rodrigues, o Beleléu, grande craque de futebol, de dribles curtos e lançamentos precisos, que nos alegrou na década de 50 com seus gols. E a Rua Vista Alegre passou a ser Rua Kid Queiroz, ainda que seria mais justo chamá-la de Pedro-Paulo-Kid, os três irmãos sempre unidos do São Raimundo, que moravam em três casas gêmeas voltadas para a vista alegre do igarapé e suas catraias.

Em São Jorge, a Liberdade deixou de ser rua para constituir-se em travessa. A Rua da Mucura passou a ser poeticamente Estrela Dalva e a Rua Pico das Águas virou Rua Joana Galante, o que poderia até ter incomodado o juiz Lafayette Vieira, que na época investiu contra o jornalista Mário Adolpho responsável por comparar a sede do Poder Judiciário à Casa da Mãe Joana.

Em Flores, a pornográfica Avenida Penetração I e II transformou-se em Av. Edmundo Soares. A Passagem São Geraldo, no bairro do mesmo nome, perdeu denominação tão singela e ganhou em troca o nome raro de Beco Jarlece Zaranza, em homenagem a uma professora.

Beco Bate-panela

Engana-se, no entanto, quem achar que mudar o nome de rua significa mudança de sua situação. Nenhum filme será rodado no ex-Beco Japurá só porque trocou para Beco Gary Cooper. A ciência não vai florescer da noite para o dia no antigo Beco Ipixuna porque agora é Beco Francis Bacon. E o famoso Buraco do Pinto não terá sua cavidade aterrada, nem se transformará num galinheiro, por deixar de ser buraco e passar a ser Beco dos Pintos no plural.

Não é só nome de rua que não deve repetir. Homônimos deviam ser proibidos para evitar confusão. Tem o nosso Arlindo Porto, que compartilha o nome com o ministro da Agricultura. José Dutra, o nosso “how dou you do Dutra”, divide o nome de batismo com um senador petista do Nordeste. Tem um xará do PC Farias loteando Manaus e há quem jure existir em Salvador, na Baixa do Sapateiro, um negão alfaiate chamado Expedito Theodoro, o colunável de Manaus. 

A mudança de nomes de ruas originou um rolo enorme para os Correios. E para o Poder Judiciário, que durante algum tempo não consegui notificar ou intimar pessoas e instituições registradas nos autos em endereços antigos.

Nos seus “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, Cora Coralina faz uma declaração de amor à paisagem triste, ausente e suja dos becos suspeitos e mal afamados de Goiás. Qual declaração podemos nós fazer a esse beco sem saída chamado Brasil? Aqui o pau cessou e não se bate mais panela, nem com o Queiroz dançando e o Aécio, cheio de processos, votando a reforma da Previdência

P.S. – Lei 343/96 | Lei nº 343, de 12 de junho de 1996 assinada pelo prefeito Eduardo Braga define nova denominação dos logradouros públicos da cidade de Manaus, dispõe sobre sua identificação, e dá outras providências. Define ainda o que é beco, travessa, rua, avenida, alameda, estrada e rodovia.

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