Angela Davis: ‘O feminismo negro de Marielle Franco visava transformar o mundo’

Filósofa e ativista norte-americana participou de conferência em homenagem a Marielle em Princeton.

Por Andréa Martinelli, no HuffPost Brasil

Para a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, “o feminismo negro de Marielle Franco visava entender e transformar o mundo”. A frase foi dita durante homenagem à vereadora na universidade de Princeton, nos Estados Unidos, na última quinta-feira (14), data que marcou um ano do assassinato de Marielle.

O discurso foi o mais esperado da conferência “Feminismos Negros nas Américas: Um tributo à ativista política Marielle Franco”, organizada pelo Brazil LAB e pelo Instituto Princeton de Estudos Internacionais e Regionais. Além de Davis, estavam presentes Débora Diniz, Giovana Xavier, Djamila Ribeiro e Mônica Benício, ativistas brasileiras que viajaram a convite do evento.

Segundo jornal Daily Princetonian, feito por universitários, Davis afirmou que o ativismo de Marielle tinha a intenção de representar não apenas um único grupo, mas a todos. “Estou extremamente triste por nunca ter tido a oportunidade de conhecê-la pessoalmente”, disse a filósofa, que só conheceu o trabalho que a vereadora realizava no Rio de Janeiro após a notícia de seu assassinato repercutir entre jornais internacionais.

Ao lembrar que Marielle, além de ativista, era uma autoridade eleita ― em 2016, ela foi eleita vereadora da cidade, com mais de 46 mil votos ― Davis pontuou que as feministas norte-americanas devem ficar mais atentas e trabalhar em diversas frentes de atuação, incluindo ativistas ligadas ou não ao governo.

Em sua fala, ela destacou o protagonismo de mulheres não brancas que foram recentemente eleitas para o Congresso norte-americano como Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e Ilhan Omar. Além de lembrar as mortes em Ferguson e problematizar a violência policial existente nos EUA.

Segundo Davis, Marielle acreditava que, mesmo com sua perpetuação de mais de 500 anos, o racismo poderia ser enfrentado no Brasil e destacou que a vereadora usava a frase “eu sou porque nós somos” de forma recorrente.

Para ela, os “feminismos negros” de hoje estão se movendo em direção a uma abordagem universal, com ênfase na comunidade. E enfatizou que o feminismo pode ser uma ferramenta para entender o mundo de diversas formas, e que a universidade, em muitos momentos, é um ambiente limitante. 

“A interdisciplinaridade nos permite reconhecer o conhecimento que é produzido em locais fora das universidades (…). O feminismo negro nos convoca a reimaginar nossas conexões, nossas relações e como elas podem ser expressas nas estruturas obsoletas do Estado-nação capitalista.” 

Davis completou sua fala afirmando que, mesmo após sua morte, acredita que Marielle “continua sendo um farol de esperança para as pessoas que, ao redor do mundo, acreditam profundamente na possibilidade iminente de uma transformação radical no Brasil, nas Américas e em todo o planeta.”

O ativismo de Angela Davis

Na década de 70, a filósofa e ativista Angela Davis integrou um braço do grupo Panteras Negras nos Estados Unidos e foi membro do Partido Comunista. Ela foi presa e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”, que deu nome a um documentário, dirigido por Shola Lynch.

Atualmente, ela é professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e desenvolve trabalho intenso sobre a questão prisional nos Estados Unidos.

Grande crítica do sistema judicial e prisional no mundo, Davis, ao longo dos anos, tem realizado discussões e estudos sobre o chamado “abolicionismo penal”, por entender que existe uma relação entre encarceramento em massa e escravidão que, na verdade, reforça um “instrumento de perpetuação da violência”, e não o combate a ela.

Desde os anos 1980 Angela Davis faz constantes visitas ao Brasil. “As pessoas me perguntam: ‘Você já esteve no Rio?’ Não. ‘Você já esteve em São Paulo?’ Não. Mas estive em Salvador e de novo e de novo”, disse, ao iniciar palestra na UFBA, em julho de 2017. “Quando uma mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela”, disse na conferência.

Foto: Revista Fórum

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Juliana Roque

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