Ai, Suzano, não chores por mim. Por José Ribamar Bessa Freire

No Taqui Pra Ti

A chacina na escola estadual de Suzano, região metropolitana de São Paulo, na quarta-feira, com dez mortos e onze feridos, é uma reedição de Realengo, no subúrbio carioca, quando um ex-aluno invadiu a escola em abril de 2011, matou doze estudantes, feriu dez se suicidou. Os dois casos reproduziram o “school shootting” frequente nos Estados Unidos. A reação que ambos provocaram se assemelham: os jovens atiradores foram satanizados como “monstros” e “psicopatas” e, para prevenir outros massacres, surgiram propostas genéricas e descabeladas.

Foi assim que o senador Major Olímpio (PSL-SP, vixe, vixe) reproduziu agora, quase palavra por palavra, as declarações na época do governador Sérgio Cabral e do presidente do Senado José Sarney. Para o major é preciso “enfrentar os demônios armados com instrumentos semelhantes”.

– “Se a legislação no Brasil permitisse o porte de armas, um cidadão de bem na escola, seja um professor ou um servente, evitaria a tragédia, impedindo que prosseguissem a marcha da morte deles” – declarou o senador, policial militar e porta-voz de Bolsonaro. No entanto, ele não conseguiu explicar porque meninos armados usam a escola como palco de ações homicidas e sequer se perguntou o que estão querendo nos dizer quando se suicidam, depois de matar e ferir colegas e professores.

Escola de boiolas

Outra foi a pergunta de Olavo de Carvalho, guru da família Bolsonaro, que indicou o atual ministro da educação para o cargo. A propósito da carnificina na Universidade Estadual da Virginia, em que morreram 33 pessoas, incluindo o atirador, um sul-coreano, De Carvalho no artigo “Educando para a boiolice” (Diário do Comércio 23/04/2007) – pergunta:

– Por que ninguém atacou o coreano maluco enquanto ele recarregava sua pistola?

Morador de Richmond, Virginia, usa como dado empírico o depoimento de seu filho Pedro, que estudou por aquelas bandas. O rapaz afirma: “É uma educação para boiolas”. De Carvalho, responde então, estabelecendo o elo causa-efeito: a “epidemia de frescura na escola” forma alunos “tímidos, fracotes e efeminados”. 

Assim, como “passam o ano inteiro só aprendendo boiolice”, ensinada em “cada página dos manuais didáticos” e nas aulas, “cada vez que um professor abre a boca em sala de aula, espalha mais um pouco desse entorpecente pedagógico nos cérebros infanto-juvenis”. Trata-se de “uma covardia abjeta, um desfibramento da alma, uma pusilanimidade visceral que os educadores de hoje em dia consideram o suprassumo da perfeição moral. É a fórmula da pedagogia usada nas escolas públicas americanas” – escreve o guru de Bolsonaro que não explicita em que consiste o conteúdo curricular nem a metodologia desse ensino/ aprendizagem tão eficaz.

Aux armes, citoyens! O autor defende a paudagogia e a mudança do currículo humanista que ele chama de “boiola”: “As escolas têm de ensinar os meninos a serem mais agressivos, a planejar sua defesa e reagir com igual agressividade. O treinamento tem de ser tão intensivo e levado tão a sério quanto o assassino leva a sério sua missão de matar”.

No entanto, não foi assim que reagiram dois “cidadãos de bem”, vizinhos de outro “cidadão de bem”, em cuja casa foi encontrado um arsenal. Numa terça-feira, 4 de julho de 1995, Jair Bolsonaro parou sua moto num sinal em Vila Isabel e foi assaltado por dois bandidos a quem entregou sua pistola Glock calibre 380 e a moto Honda Sahara. Em junho de 2016 seu filho Carlos, vereador, foi assaltado na Avenida Maracanã e entregou tudo o que tinha. Nenhum tiro foi disparado. Felizmente.

A paudagogia

Olavo de Carvalho insiste, porém, no “modelo pedagógico” que transforma a sala de aula num campo de batalha e que deve ser implantado no Brasil, cuja situação é ainda “mais desesperadora que a dos americanos” porque no nosso país “a boiolice está espalhada entre homens adultos, nas ruas, nas fábricas, nos escritórios e essa gente tem medo de armas até quando vistas pelo lado do cabo”.

Naquela ocasião, ironizamos aqui no Taquiprati (29/04/2007), apresentando proposta de mudança curricular para incorporar o “treinamento intensivo”. No Maternal, aquecer as crianças com disciplinas obrigatórias como “Xingamentos e Palavrões” “Tapas, Bofetes e Mordidas” e “Pistolas de água”. No Ensino Fundamental seriam ministradas “Armas brancas” e depois “Introdução ao manejo de armas de fogo”, como pré-requisito para “Técnicas de Pontaria”, “Tiro ao alvo I e II” e “Explosivos e Granadas”.

O que há doze anos era um simples exercício de ironia para mostrar o absurdo da paudagogia, eles levaram a sério e enfatizaram o discurso da violência, como política de estado, banalizada pela “brincadeirinha” de mostrar arminhas com a mão. Armar professores é uma proposta demente e insana, é a derrota da inteligência. O acesso generalizado às armas de fogo aumenta o risco de suicídios, de homicídios e de tragédias similares às de Suzano, como concluem várias pesquisas recentes realizadas nos Estados Unidos. Essa glorificação do macho predador, como projeto político, pode nos conduzir a recuperar o australopithecus que vive dentro de nós.

Não é a escola que deve ficar “macha”, mas a sociedade, com quem ela dialoga e que a abriga, que deve recuperar os valores humanistas. O “monstro”, “o demônio” não são os dois assassinos de Suzano, que tanta dor e tristeza causaram, eles algozes, mas igualmente vítimas da sociedade que os produziu. A pedagogia da violência de Olavo de Carvalho evidencia que a sociedade brasileira está gravemente doente. Nesse trote, esse mar de dor e de luto vai se repetir com mais frequência em outras escolas se não houver resistência à política de armamento generalizado que estimula esse espetáculo macabro.

– Sim ao porte de livros! Não às armas! Esse foi o lema levantado em cartazes na manifestação em Suzano que contou com mais de 15.000 participantes. Uma “arma”que deve ser usada é o livro de Miguel de Cervantes, um dos escritores mais geniais da literatura mundial. No “Discurso sobre as armas e as letras”, capítulo XXXVIII de D. Quixote, ele afirma:   

“Malditos esses demoníacos instrumentos de artilharia, cujo inventor deve estar no inferno como prêmio por sua diabólica invenção capaz de cortar a vida de quem a merecia gozar por longo tempo”.

Esse louco genial, visionário maluco-beleza, anteviu no século XVII a loucura patológica – que hoje só beneficia a indústria de armas – causadora do choro de Suzano, de tantos suzanos que continuarão chorando pelo Brasil, ao incentivar que “un infame y cobarde brazo quite la vida a un valeroso caballero”. Taí  a Marielle e o braço covarde de Ronnie Lessa que não o deixam mentir.

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