O pesquisador questiona os limites do que está posto

Por Priscila Aurora Landim de Castro, no Justificando

Caminhava para a universidade quando recebi a mensagem de uma amiga filósofa e psicanalista que está realizando o doutorado sanduíche na Sorbonne. O texto motivou que ligasse para ela. Gastamos duas horas falamos sobre as nossas vidas e alguns temas que guardam correspondência nas nossas pesquisas. Compartilhamos o medo do futuro e do atual contexto político brasileiro. Desligamos a chamada afirmando uma para outra que precisávamos trabalhar e assim fizemos. Nesse caso, o termo trabalhar significava estudar e produzir conhecimento, atividade que tem sido especialmente desqualificada atualmente enquanto categoria de trabalho.

Terminei a conversa já no prédio da universidade onde desempenho a atividade de pesquisadora visitante desde o início de 2019.  Saí da minha sala, fui buscar um café e, como todos os dias que me antecederam, encontrei uma veterana antropóloga britânica debruçada sobre os livros. Contrariando a imensa maioria dos outros pesquisadores e professores, ela tem o hábito de estudar/trabalhar de portas abertas. Todos os dias fico admirada com a disciplina daquela professora, cujo corpo amadurecido pela idade parece suportar com afinco o fato de estar mergulhado em uma miscelânea de livros e anotações. Eventualmente, parece que ela, a professora, devora os livros; noutras vezes penso o contrário, seriam eles a devorá-la. Tento imaginar o peso das ideias que habitam aquela cabeça cujos cabelos brancos escondem a face. Ela coloca um fone de ouvido e, assim, permanece horas, dias, semanas, meses, anos estudando-trabalhando.  Assim como ela, existem muitos pesquisadores executando tarefa semelhante nesse exato momento.

Regressei para o meu escritório e foi a minha vez de bater cabeça com o meu objeto de pesquisa. Planejei estender o trabalho até mais tarde, mas a cabeça não ajudou. Voltei para casa ao final do dia e, a noite, liguei para um amigo historiador que também é pesquisador. Conversamos longamente sobre a minha pesquisa e um livro que tinha revisitado. Deitei-me meia noite e acordei às 5h40 cheia de ideias, com o corpo cheio de energia, falando sozinha como que se narrasse os meus achados para uma plateia. Isso é muito comum aos pesquisadores: dormimos e acordamos com o tema de pesquisa. Ele nos ocupa num nível tão intenso e profundo que até nosso imaginário mais inconsciente é ocupado por ele. Todavia, algumas ideias não suportam sequer uma noite mal dormida. Seria esse o destino daquela ideia? Talvez.

Deitamos, acordamos, rolamos, brigamos e gozamos com a pesquisa. Às vezes dormir é difícil. Às vezes pensar é difícil. Todavia, vez em quando, algumas ideias nos fazem sorrir, um sorriso acanhado, mas ainda assim realizado.

Entre os ofícios que conheço, a maternidade figura entre aqueles cuja rotina e condições podem ser comparáveis aos processos envolvidos na pesquisa. Não sou mãe, mas escuto e acompanho a história de mulheres a respeito do cansaço, as noites mal dormidas, os desconfortos mental, afetivo e físico que a maternidade suscita. E, apesar de tudo isso, o prazer e o gozo de gerar aquele serzinho que demanda delas força e paciência que elas desconheciam até então.

Assim como as mulheres, o pesquisador gesta e pare ideias. Também experimenta desconfortos corporais, mentais e afetivos. Perde e revisita a fé em conceitos, perspectivas, alternativas e prognósticos. Erra algumas vezes, acerta noutras. Tem crises, chora, desabafa, recolhe-se, sente medo, vergonha, hesitação.

Parir gente e parir ideias são os ofícios mais bonitos que conheço. Parimo-nos muitas vezes ao longo da vida e o trabalho do pesquisador, assim como o do artista, envolve os atos de provocar a si mesmo e aos outros, questionar os limites do que já está posto, tentar ir além e, assim, dar à luz a algo.

São muito os mecanismos que valemo-nos para dar à luz, entre eles figuram a criatividade e a loucura.  Imagine o nível de criatividade que Newton teve para desenvolver as três leis que fundamentaram o estudo sobre a gravitação universal em 1687. Sem internet, computador, laboratórios modernos, certamente ele teve que recorrer a muita criatividade para imaginar o que imaginou. Naturalmente o fez mediado por métodos indutivos e dedutivos, os quais compõem a rotina de formação do argumento científico. Mas, ainda assim, aqueles postulados foram resultado de muita imaginação porque fazer ciência envolve uma alta capacidade imaginativa. Não a imaginação delirante, refiro-me à imaginação daqueles que prospectam ver além.

Há alguns anos, um físico compartilhou comigo algumas regras da organização do seu campo de pesquisa. Disse-me que a física comporta grupos profissionais nomeados como físicos teóricos ou experimentais. O oficio dos físicos experimentais consistiria em criar experimentos capazes de validar ou refutar modelos teóricos que não tenham sido objeto de experimentação. Isso porque algumas teorias suscitam complexas condições de experimentação, alto rigor tecnológico, os quais podem nem existir no momento da sua proposição. Imagine, por exemplo, os elementos da tabela periódica, suas configurações eletrônicas e atômicas descritas muito antes da invenção dos computadores e laboratórios modernos.  A produção desse conhecimento envolveu muita imaginação, experimentação e pensamento indutivo/dedutivo como estratégias de superação dos limites materiais e técnicos.

A capacidade criativa e imaginativa do pesquisador é caracterizada por uma maneira singular de criar imagens e nominar processos sobre o passado, o presente e o futuro. É um exercício psicanalítico da vida em suas diferentes expressões. Seja por meio das perspectivas matemática, biológica, química, física ou social, pesquisar envolve revirar as entranhas e tentar encontrar as raízes, construir conexões e pontes. Esse é o ofício do pesquisador.

Pesquisar é nominar o mundo. Pessoas precisam de palavras para descreverem-se, para encontrar um lugar no mundo, para existir no mundo. Um país igualmente precisa de narrativa para constituir-se. Os artistas e os pesquisadores exercem essa tarefa, não em regime de exclusividade, mas cumprem uma função importante nessa empreitada.

Defender a ciência é defender a produção de um padrão de conhecimento que esteja submetido à exposição dialógica, à refutação e ao método. Temo o destino de um país que desvaloriza e pune pesquisadores e artistas. Temo as palavras que serão usadas em substituição a esses discursos. Temo o embrutecimento e a atrofia das ideias e dos diálogos. Temo a extinção das imagens e das palavras. Temo a morte do discurso. Meus temores não dizem respeito a uma mera reserva de mercado resultante do meu ofício de socióloga. Meu medo decorre da presunção de que um povo destituído das palavras e da narrativa tem como destino a sua morte simbólica e cultural. Desmobilizar e boicotar a pesquisa e a educação tem como desdobramento o colapso da memória e das possibilidades de formalização de uma narrativa sobre o passado, assim como, a reinvenção do presente e a designação de um futuro diferente da realidade que experimentamos agora.

Priscila Aurora Landim de Castro é doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília, pesquisadora visitante na School of Social Sciences, Cardiff University, no Reino Unido, e pesquisadora Associada ao Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança – NEVIS/UNB.

Manifestação Candelária, 15/05. Foto: Tania Pacheco

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