A decisão fascista e o mito da regressão: o Brasil à luz do mundo e vice-versa

Enquanto insistirmos na ideia de “golpes contra a democracia” continuaremos a bater com a cabeça na parede

Por Felipe Catalani*, no blog da Boitempo

“Contra-revolução significa: sedução ao suicídio
e envolvimento das vítimas na cumplicidade.”
Günther Anders, Sobre Georg Grosz1

Muitos ainda devem se lembrar da bagunça que o setor mais ensandecido da direita brasileira fez em torno da vinda de Judith Butler para uma conferência no Sesc em São Paulo em novembro de 2017, quando colocaram o rosto dela em um boneco de bruxa e, segurando bíblias em direção aos céus, gritaram paranoias que ligavam a ideologia de gênero (sic) à ONU e a George Soros etc. Na época, tanto esse grupo como Bolsonaro, MBL e outras bizarrices pareciam ainda uma espécie de maluquice exótica, um fenômeno sem pé nem cabeça – perigoso, decerto, mas não a ponto de acreditarmos que aquela coisa chegaria ao poder. Ainda é difícil de acreditar: Marcelo Freixo, diante das trapalhadas da bancada do PSL na Câmara, disse recentemente: “isso é um acidente histórico”. As piadas diárias aparecem ao mesmo tempo como um consolo pela via da banalização, como se elas dissessem aquilo que queríamos ouvir: “isso vai passar”. O que se vive é da ordem do absurdo e, apesar de tudo o que se faça politicamente, neste momento é como se todos estivéssemos de olhos fechados, sem norte, simplesmente esperando passar.

Na melhor das hipóteses, espera-se “voltar ao normal”. Essa esperança (?), no entanto, é já em si a normalização da situação. Abaladas por um choque traumático, as expectativas da esquerda são tragadas pela apatia no desejo de restaurar a “normalidade”, alimentado pela miragem do “sonho efêmero”, cuja interrupção, entretanto, já não produz nenhum despertar da consciência (se não for muito anacrônico falar nesses termos), mas somente “vertigens” e “transes” produzidos pela pancada na cabeça. É como se a explosão catastrófica produzisse um grande ofuscamento e nos afundasse em uma cegueira histórica na qual só se enxerga um vulto de normalidade no passado. Essa projeção retrospectiva de uma era estável de progresso normal, se for possível esboçá-la de forma breve, tem três dimensões:

1) Normalidade política, que garantia a capacidade do Estado de governar (com aumento da população carcerária, militarização da ordem urbana etc., mas isso é detalhe), que entra em crise após traições palacianas e a novela jurídica que todos conhecemos.

2) Normalidade econômica, em que se imagina uma espécie de crescimento rumo ao infinito no sonho – esse sim um verdadeiro transe – do Brasil potência, com o Cristo Redentor decolando na capa da The Economist etc. Note-se que de alguma forma a esquerda se tornou a última defensora da “força civilizatória” do capitalismo (que nunca entra em crise, pois ela será sempre uma marolinha ou mera ideologia das políticas de austeridade), enquanto a nova direita (militares inclusive) reconheceu a face bárbara de seu fim de linha – e está vencendo mundo afora ao se apresentarem como os Cavaleiros do Apocalipse.

3) Normalidade social, em que a explosividade dos conflitos sociais (que nunca desapareceram) são neutralizados com dinheiro e por meio da financeirização da pobreza.2

Enfim: fingimos que ninguém sabia que se tratava de uma bomba-relógio, e preferimos acreditar na maldição brasileira de um eterno retorno do mesmo, no caso, a formação abortada e a condenação ao passado (é sempre mais cômodo culpar a “elite do atraso” para lavar as próprias mãos) – e nisso sempre reaparece a conversa de que estamos “retrocedendo” cinquenta, cem ou duzentos anos. Ledo engano: o futuro é aqui.

Pois bem, voltemos àquele evento no Sesc de 2017, intitulado “Os fins da democracia”. Ali, a filósofa Rahel Jaeggi fez uma intervenção sobre a categoria de regressão – tendo em vista os fenômenos contemporâneos, sem dúvida, mas tratava-se de uma análise estritamente conceitual. O clima era ainda determinado pelo abalo no Atlântico Norte de 2016, o ano da eleição de Trump e da votação do Brexit. Jaeggi se referia a uma coletânea que, poucos meses antes, fora lançada em cinco editoras europeias diferentes, intitulada justamente A grande regressão. No livro, a maioria dos autores não discutia exatamente a ideia de “regressão” e somente a tomava como dada. No entanto o pressuposto básico de tal ideia, para que se possa medir aquilo que regride, é o progresso – e aqui as coisas começam a ficar complicadas. A guinada mundial em direção ao assim chamado populismo de direita aparece como o movimento de uma horda de ressentidos incapazes de aceitar os “avanços morais” da vida que vinha se estabelecendo dos anos 1990 para cá (como inclusão, igualdade etc.). Uso as aspas porque efetivamente há um retorno da ideia de “progresso moral”, empregada pelos defensores da estabilidade ameaçada.

Enfim, menos de um ano depois, o Brasil se alinhou a essa tendência mundial e ganhamos nosso próprio capítulo na “grande regressão” do populismo de direita e, de forma igualmente rápida, passou-se a fazer a projeção retrospectiva de uma “era de progresso” que teria antecedido a atual queda. Nosso primeiro sintoma de perdedor foi essa enxurrada de apologia e a nostalgia precoce em relação àquilo que Nancy Fraser (uma das autoras do livro mencionado por Jaeggi) chamou criticamente de “neoliberalismo progressista”, que funcionava em seu auge como uma simbiose entre direitos humanos e capitalismo globalizado, ou, nos termos da autora, misturava “ideais truncados de emancipação e formas letais de financeirização”3. No caso brasileiro, esse período corresponderia ao neoliberalismo inclusivo do lulopetismo, mas pode muito bem se estender até o iluminismo de mercado da era FHC. As polarizações desse período garantiam ao mesmo tempo um equilíbrio e um consenso: por isso não foi exatamente com entusiasmo que o PT viu o PSDB, seu adversário clássico que sabia jogar as regras do jogo, desmoronar nas últimas eleições (e que agora, após a vitória de Doria no Estado de São Paulo, está renascendo com uma face bem mais macabra). Se formos periodizar essa era que chega ao seu fim, a do “neoliberalismo progressista”, podemos dizer que é a ordem do mundo do imediato pós-Guerra Fria que se encerra agora.4

De todo modo, na sintomatologia do desmoronamento, há um apego melancólico àquilo que parece sólido (no caso, a estabilidade do suposto progresso). Esse tipo de atitude retrospectiva não é algo exatamente novo. Habermas, por exemplo, se torna efetivamente um teórico da normalidade europeia, cujo lastro era o Welfare State e a pacificação dos conflitos sociais no período do pós-guerra, somente no momento em que ela começa a ruir. Uma espécie de solidariedade com o Estado de Bem-Estar no instante de sua queda. Afinal, ele é testemunha da mudança de época, da crise do trabalho e da “nova opacidade” histórica, e sabe muito bem que a “utopia de uma sociedade do trabalho perdeu sua força persuasiva.”5 Claro, não se trata de comparar o fim das políticas de gestão social do período neoliberal ao fim das ambições universalistas dos direitos sociais da época do Estado de Bem-Estar (em que se visava colocar limites à mercantilização do mundo da vida), que foi uma ruptura de época mais dramática.

Na situação atual, seria preciso fazer algumas observações sobre o desalento que se exprime especificamente no meio intelectual (acadêmicos e artistas), e que vai pra além das expectativas rebaixadas (no caso, não se trata das expectativas de emancipação, mas simplesmente das expectativas de carreira). Há alguns meses, Vladimir Safatle disse em uma intervenção pública que provavelmente a “classe” intelectual havia se tornado uma das mais conservadoras do país, como se para ela bastasse voltar no tempo uns cinco anos para que tudo ficasse bem (vamos colocar sete, para que a subtração volte para antes de 2013, que não raramente é visto como o pecado original que nos levou à queda do paraíso).6 Afinal, em escala mundial, os acadêmicos poderiam ser contabilizados dentre os grupos “beneficiados” da globalização. E efetivamente, não há como separar o neoliberalismo progressista da globalização acadêmica, com seu vasto mercado de congressos internacionais, papers, prestígio, citações etc. Para além do clima de conformismo, lobby de si e networking (outro nome para financeirização da amizade) que predomina em congressos internacionais, creio que quando Safatle disse que os acadêmicos eram os novos conservadores, tratava-se uma provocação em outro sentido, pois afinal, dito de forma genérica, o acadêmico contemporâneo é quase que naturalmente um “progressista”. Mas justamente: o curioso é que os progressistas se tornaram restauracionistas.7

Dito isso, parece que ocorreu uma inversão: por um lado, os progressistas se voltam para o passado, querem evitar a “decadência” dos valores democráticos, e assumem uma posição reativa (que era desde o século XIX a posição dos conservadores clássicos, dos teóricos da decadência etc.). Por outro lado, os populistas de direita, isto é, os reacionários, se tornaram “progressistas” no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro – mas por isso são apocalípticos. Apocalípticos porque amigos do apocalipse, porque eles não têm pudor em acelerar o processo de devastação do meio ambiente, em aniquilar pessoas (ou simplesmente deixar morrer, como no caso italiano em que impediram que um barco de refugiados atracasse) e em transformar a sociedade em uma guerra de todos contra todos em que sobrevive o mais armado – e isso não é nenhum “retorno à Idade Média”, é o próprio ápice do desenvolvimento capitalista, cuja verdade não é nenhuma versão democrática e luminosa de sociedade, mas sim esse grande Nada destrutivo. Daí a afinidade entre niilismo e a “ponte para o futuro” (ou o cínico “future-se”). A referência temporal dessa nova direita não é nenhum passado, mas essa “nova era”, que é, para eles, “a última cruzada” (para usar o título de uma grotesca série sobre “história” do Brasil produzida por um grupo de direita bem amparado financeiramente, e que já foi vista por quase 2 milhões de pessoas).8  Enquanto para a nova direita “tudo que é sólido se desmancha no ar”, a esquerda mais do que nunca tenta se agarrar àquilo que parece firme. E então ocorrem coisas estranhas: nunca se deu tanta carteirada com títulos, prêmios etc. Como resposta ao ressentimento anti-intelectual, ao ataque à universidade e às figuras grotescas da direita (como Olavo de Carvalho e cia.), a esquerda se torna bacharelista, fazendo autoelogio contabilizando os pontos no Lattes, ostentando título de doutorado etc. Uma atitude que, além de vergonhosa, não poderia ser pior do ponto de vista estratégico.

Podemos arriscar dizer que nesse momento consolidou-se em escala global uma espécie de abismo moral, para além da tradicional diferença social e econômica, que separa as classes médias escolarizadas (urbanas) e as classes populares. Para o progressista, regressivo é o outro. Nesse contexto, em especial nos países europeus e nos EUA, aparece uma retórica de um falso antifascismo que funciona simplesmente como desprezo de classe (já no Brasil, isso se mistura à tradicional visão paternalista sobre os pobres, que são sempre reduzidos a objeto ou alvo, seja de políticas sociais ou securitárias – o que produz a certeza embriagante de que eles estão, ou ao menos deveriam, estar do seu lado). Durante as eleições de 2016 nos EUA, Hillary Clinton se referiu aos eleitores de Trump, que eram maioria em regiões empobrecidas como o rust belt, como os “deploráveis”. “Para essas populações”, diz Nancy Fraser, “os danos da desindustrialização são complementados pelos insultos do moralismo progressista, que cotidianamente os retrata como atrasados culturalmente.”9 A humilhação econômica é intensificada pela humilhação moral. O moralismo progressista caracteriza as elites urbanas como avançadas, esclarecidas, cosmopolitas, e as massas de perdedores como estúpidos, manipulados, ressentidos, intolerantes etc.

Para o teórico das fraturas francesas, o geógrafo Christophe Guilluy, a figura do deplorável nasce no instante daquilo que ele chama o fim da classe média ocidental.10 Se no período dos “trinta gloriosos” do pós-guerra a classe média trabalhadora funcionava como elemento de integração no American ou European way of life (período em que mesmo as populações imigradas se integravam econômica e socialmente com maior facilidade), a crise da sociedade salarial, a desertificação do mundo do trabalho e a progressiva desintegração social transformaram essas antigas classes médias em white trash sedentarizado (na França, nos “petits blancs”),11 e um abismo as separa das elites nômades. Para termos um exemplo, basta olharmos para o campo francês: onde imagina-se o idílio dos pequenos produtores de vinhos e queijos, um agricultor se mata a cada dois dias.12 Por fim, os perdedores da globalização convertem-se nos moralmente incapazes de se adaptar à nova vida democrática. Enquanto potenciais eleitores de governos populistas autoritários (em que o nacional retorna com força), essas classes (ou ex-classes) tornam-se, ironicamente, classes perigosas. Só que agora é a esquerda progressista que teme as classes perigosas.

Basta ver como o “progressista” reage às manifestações populares potencialmente “anômicas”, sem identidade fixa em um sistema político regulado, como foi no caso dos gilets jaunes na França. Uma vez que o termo “populismo” é utilizado para se referir de forma genérica ao retorno das paixões políticas (em oposição à suposta sobriedade da racionalidade liberal democrática), toda expressão do acúmulo de sofrimento social é vista, de antemão, como uma explosão de irracionalidade prestes a ser manipulada e seduzida por populistas13. E não foram poucos os que se apressaram a caracterizar os manifestantes como xenófobos, homofóbicos, racistas etc., sempre na busca do meliante moral no meio da multidão insurrecta, tal como a grande imprensa sempre fez. E como disse uma jornalista na televisão francesa comentando as manifestações e as destruições das lojas de luxo na avenida Champs Elysées: “não há mais super-eu!” Ao que tudo indica, no horizonte restauracionista está também a restauração de um recalque bem feito.

Diante dessas manifestações e dessas classes anômicas e perigosas, entra em funcionamento uma nova ideologia que opera como uma chantagem. Como percebeu uma socióloga atenta à dimensão ritualística das práticas sociais no capitalismo (refiro-me à Silvia Viana), somos continuamente exortados a agir com muita cautela nesse mundo perigoso, pois qualquer movimento brusco que desrespeite os rituais pode estragar tudo e evocar a fúria dos deuses – no caso, o Deus mercado.14 Nada mais adequado do que tal chantagem diante do perigo da urgência perenizada, afinal, “numa sociedade de risco, mudar a sociedade simplesmente tornou-se o risco supremo.”15 A ameaça de uma grande catástrofe se converte em retórica da obediência. A democracia se torna um jogo de alto risco em que é preciso apostar sempre baixo, cada vez mais baixo, para evitar grandes perdas. No presente estado de crise, o risco das alternativas dramáticas (e nem precisamos evocar o “socialismo ou barbárie” de Rosa Luxemburgo) se traduz como evitação do futuro. Por sua vez, a nova direita quer acelerar a catástrofe tendo em vista a produção de um fim que é a abertura de uma nova época. O governo brasileiro (assim como vários outros, como o de Salvini, Orban etc.) é um governo escatológico em todos os sentidos do termo: trata-se de um governo do fim, governa-se para acabar com tudo. Porém, “acabar com tudo” pode muito bem funcionar como uma fonte de esperança, ao menos desde o Antigo Testamento – ou mesmo em um registro da vida pessoal: “essa catástrofe é a chance da minha vida”, diz o personagem em Cenas de um casamento (1973) de Ingmar Bergman, quando a vida do casal vira um inferno e o matrimônio vai por água abaixo (algo que, em larga medida, é provocado pelo próprio personagem).

Recentemente, Bolsonaro cometeu um ato falho curioso: ele disse algo sobre “quantos aqui votaram em mim até eu sendo o mais ruim”, ao invés de “menos ruim”. Há uma verdade aí: em alguma medida, o voto no Bolsonaro foi uma recusa do “menos pior”, da chantagem de sempre. Ele foi uma aposta no pior. Para ver se “algo acontece”, como se podia escutar da boca de eleitores do Bolsonaro nas ruas em outubro, daqueles que sabiam que ele era o que ele de fato era. Já em 1967, em uma conferência sobre aspectos do novo radicalismo de direita, Adorno via ali um “desejo de uma grande desgraça”, um desejo de catástrofe.16 Por outro lado, nós (a esquerda em geral) nos tornamos aquilo que Günther Anders chamou de “apocalípticos profiláticos”. O que isso significa? Essa profilaxia significa que “nossa paixão apocalíptica não conhece nenhum outro destino senão o de evitar o apocalipse”,17 algo inédito na história das escatologias. Talvez isso nos ajude a pensar como se vive um estado de crise.

Na definição clássica de um historiador, a crise é uma situação que clama por uma decisão.18 O “estado crítico”, originalmente um termo médico que designa o indivíduo que está entre a vida e a morte e que é, portanto, um estado de sofrimento, é transposto para o campo da política e da sociedade. Podemos dizer que o capitalismo, enquanto uma forma social que, de maneira imanente, produz crise, é portanto um sistema que, a partir de si, produz situações que exigem uma decisão. Diante de tais situações, o fascismo aparece como uma promessa de decisão (no caso, uma decisão que envolve sempre seleção e eliminação, ou seja: morte). Nesse contexto, pensemos em tal caráter “decidido” disso que parece ser uma “onda populista de direita” que atravessa o mundo. Recentemente, o primeiro ministro da Hungria, Viktor Orban, ciente de seu apoio popular, disse que a “democracia não é necessariamente liberal”. Isso que aparece por um lado como uma tendência “antidemocrática” é entendido do outro lado como uma “revolta da democracia contra o liberalismo19, como diz o cientista político búlgaro Ivan Krastev, também um dos autores do livro A grande regressão. E de fato, em todos esses casos não estamos falando de ditaduras implantadas via golpe de Estado, mas de “regimes majoritários” democraticamente eleitos. Krastev faz algumas observações pertinentes sobre isso que ele está chamando de “novos regimes majoritários”, tendo em vista sobretudo o Leste Europeu, mas que porta características comuns tanto a Bolsonaro quanto a outros casos desse “novo populismo de direita”. O que esses políticos e frentes partidárias prometem e ameaçam (e esse vínculo entre promessa e ameaça está no cerne desses movimentos) é “uma vitória não ambígua20. Se a promessa produz uma espera e uma expectativa, é igualmente daí que a ameaça, enquanto o negativo da promessa, extrai sua força – basta lembrarmos o quanto a ameaça estruturou o discurso bolsonarista durante a campanha, que vai desde o “é melhor jair se acostumando” até as ameaças mais concretas – e o que desnorteia a oposição é a dificuldade de saber quais das ameaças serão cumpridas, e quais são apenas um blefe. Agora no poder, os anúncios ameaçadores e desnorteadores assumem forma de governo. No entanto, menos como governo e mais como agitação política, há uma mística da ameaça que funciona como fonte de energia política para esses movimentos. E tal ameaça vincula-se, por sua vez, a uma expectativa de decisão em uma situação de crise.

É inerente ao liberalismo uma certa “indecibilidade” (como dizia Carl Schmitt), que é própria à ideia mesma de alternância de poder. De modo que o apelo da democracia liberal, como observa Krastev também, é que “quem perde uma eleição, não precisa temer perder muita coisa”: basta reorganizar-se e esperar as próximas eleições, ou seja, quem perde não precisa se exilar nem entrar para a clandestinidade e nem teme ser preso. Por outro lado, “quem ganha não goza de uma vitória total e completa”21. Provém daí também um certo sentimento generalizado de que eleições não mudam nada: vai governo, volta governo, os problemas são administrados, empresas são privatizadas e re-estatizadas, e as coisas permanecem mais ou menos iguais. Nesse contexto, o sistema político que contém o poder do executivo passa a ser visto como algo ruim que barra as verdadeiras transformações, no limite, como um aparato burocrático que impede que o executivo cumpra suas promessas. O que mudou – e é isso que traz apelo para esses candidatos que prometem uma vitória não ambígua – é que agora, ao menos aparentemente, as eleições têm caráter decisivo, isto é, a política como luta e decisão (ou seja, como anti-política) voltou – só que pela direita22, que, em sua “última cruzada”, encampou uma luta pela vitória final. Isso pode dar a impressão de que há um novo “primado da política”, tal como se pensava quando da crise do velho liberalismo e da ascensão fascista nos anos 1930. Porém, também isso é equivocado. Quer dizer, o “primado da política” só funciona quando ele é idêntico ao primado da economia. Desintegração social e autoritarismo político não são enxertos externos à lógica econômica e que dela podem ser removidos, mas são inerentes a esta crise que se arrasta: de 2008 para cá já ficou muito evidente que não há “solução” para a crise estrutural do capitalismo, que só poderá se reproduzir sob um estado de exceção econômico, vivido sob a iminência de um estouro (no caso, da bolha financeira que sustenta a economia em escala mundial).

Ao mesmo tempo, faz parte desses governos e desses movimentos o ataque a instituições políticas independentes. Porém, também isso é visto pelo povo que o elegeu não como um ataque à democracia, mas o contrário, como a realização da vontade democrática contra o sistema. No final de dezembro do ano passado, quando houve a possibilidade de Lula ser solto por meio da decisão de um ministro do STF, não só um procurador trouxe de volta a “piada” do Bolsonaro Jr. de que bastaria “um soldado e um cabo” para fechar o STF, como essa piada, na versão de uma hashtag que clamava pelo fechamento do STF, chegou aos trending topics na internet. Ou seja, todas essas “jogadas” que incluiriam quebrar as regras do jogo institucional são recebidas não como golpes “contra a democracia”, mas estariam efetivando a vontade da maioria contra a minoria perdedora. Mesmo um mafioso como Moro não parece estar perdendo popularidade após as denúncias recentes de ilegalidade. Aliás, é preciso entender que máfias também produzem adesão e aceitação. As milhares de camisetas e bandeiras que colocam Bolsonaro como o “Poderoso Chefão” do filme de Coppola mostram que, com algo de fantasia infantil, há uma aura positivamente projetada que, na figura do mafioso, vincula moralidade e brutalidade, ordem e ilegalidade, proteção e ameaça.

E se há a consciência de que as “regras do jogo” são na verdade empecilhos para essa vontade majoritária (de modo que torna-se legítimo quebrá-las), é porque existe ao mesmo tempo a consciência (genuína) de não-identificação entre vontade popular e aparato político-estatal, ou seja, de que as tais “regras do jogo democrático” não passam de um jogo de cena para a manutenção de uma certa estrutura. Basicamente: a disjunção entre legalidade e legitimidade está dada. E aqui entra um outro aspecto: como nota Krastev, “os partidos populistas não são somente vencedores implacáveis, mas péssimos perdedores. A convicção deles de que falam pela maioria torna difícil para eles aceitarem a derrota eleitoral. O resultado é [por toda parte] um número crescente de eleições contestadas e a ascensão da mentalidade de que ‘a eleição só é justa se nós a ganhamos’.”23 Essas linhas foram escritas quase dois anos antes da eleição de Bolsonaro e ao mesmo tempo não poderia ser mais condizente com o processo das últimas eleições, quando o então candidato pronunciou diversas vezes: “não aceito nenhum outro resultado senão minha vitória”. Antes mesmo das eleições, o PSL já estava fazendo uma campanha para boicotar o resultado das eleições ao divulgar (falsamente) que as urnas estariam sendo fraudadas. Havia uma página do próprio partido para receber denúncias de “mal-funcionamento” das urnas chamada “fiscais do Jair”, o que instigava uma paranoia que já não era pequena em meio à guerra de informação e desinformação que estava acontecendo (lembremos que já em 2014 o PSDB de Aécio Neves contestou a apuração do segundo turno, o que já significava um primeiro abalo institucional).

Quebrada a estabilidade do pacto social, surge um clima de assassinato no ar. Em janeiro deste ano, quando o prefeito da cidade polonesa de Gdansk foi brutalmente assassinado, Joachim Gauck, um eminente político alemão, criticou na imprensa o “clima de ódio e desconfiança” que domina a Europa.24 Há aí um curioso subtexto, pois ele coloca como sintoma de um mesmo “clima” tanto aquele assassinato quanto outras posições “extremadas”, anti-europeias por assim dizer, movidas por ódio e desconfiança (que no imaginário democrata alemão, e também na política da proteção da constituição [Verfassungschutz], inclui ao mesmo tempo neonazistas, a extrema esquerda e terrorismo jihadista). Esses dois elementos (ódio e desconfiança) são significativos, e de fato se reforçou, também em escala global, uma espécie de campanha contra o ódio. Como se o ódio e a fúria fossem, em si, algo potencialmente fascista; como se diante do acúmulo intolerável de sofrimento social e de humilhação todos devessem manter os bons modos da civilização liberal; como se a realidade não fosse suficientemente odiosa. Diante de tal cenário (e isso ocorreu durante as eleições brasileiras), tratou-se de evocar a empatia, o amor e o bom-senso (esse entendido como o respeito àqueles rituais mencionados acima). Entretanto, quanto mais clamava-se por compaixão, quanto mais apelos morais se fazia, mais perverso se tornava o outro lado. Por fim, naquele momento, foi a direita que soube encaminhar o ódio acumulado – e como a história nos ensina, o ódio pode mover montanhas.

Do outro lado, a desconfiança. Certamente, há uma característica da paranoia (que pode se converter em paranoia fascista), que é a suspeita, a crença de que há algo ruim invisível operando por trás das coisas (geralmente, o judeu). Mas há uma verdade nessa suspeita. Por um lado, a atual descrença no mundo é fundada no sentimento de que o mundo não vai durar. Por outro, não há como deixar de notar que processo de desagregação social e quebra de laços de confiança andam juntos: mas isso é consequência e não causa. O leitor de mídias alternativas (por onde podem circular também as famigeradas fake news) pode ser por vezes um crente ingênuo, desprovido de discernimento crítica, mas é antes de tudo um desconfiado, que deseja rejeitar as aparências. Há em jogo uma fúria interpretativa sedenta de explicação. Do lado do establishment, a suspeita em si passa a ser vista como potencialmente fascista, e contra ela, conclama-se a uma cega e devota confiança nas coisas – no progresso, no desenvolvimento, no mercado, nas instituições, na grande imprensa, nas políticas sociais, na gestão etc. Os desconfiados passam a ser dignos de desconfiança. E então os desconfiados são desmoralizados – são todos terraplanistas, antivacina, em suma, inimigos da civilização. Os desconfiados só podem estar sendo manipulados por hackers russos que disseminam fake news, única explicação plausível para fenômenos “anômalos” como Brexit, Trump, separatismo catalão etc. Não se trata de minimizar o papel da manipulação direta e das fake news, que se converteram em verdadeiras armas. Porém, ao mesmo tempo, a “manipulação” e os hackers russos aparecem como explicação conveniente e fácil para explicar coisas desagradáveis (leia-se: tudo aquilo que se desvia da ordem do bom senso liberal). E não tardou para também na França escreverem que os gilets jaunes estariam sendo instigados com fake news enviados por hackers russos25 (sempre a grande mãe Rússia, fonte de todo mal e de toda irracionalidade a destruir o ocidente…).

Dito tudo isso, cabe lembrar algo óbvio: o fascismo, para utilizar a boa definição de João Bernardo, não é simplesmente a revolta, mas a revolta na ordem.26 Portanto, é a normalização, e não somente seu elemento de desordem (uma tendência interna a essa forma social), que constitui o elemento fundamental de compreensão do fascismo. Dito de outro modo, o fascismo é antes a desordem organizada (e nesse sentido, ele é a caricatura do “espírito de contradição organizado” e da ideia mesma de revolução). Ou como coloca Marcuse de forma precisa, ele é a “organização terrorista das contradições do capitalismo”27. E se falo de fascismo não é para opô-lo à democracia perdida. Lembremos que durante o pós-guerra alemão, na era dourada das sociedades democráticas integradas, Adorno considerava, ao refletir sobre a “elaboração do passado”, que “a sobrevivência do nacional-socialismo na democracia é potencialmente mais ameaçadora do que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia.”28 Enquanto insistirmos na ideia de “golpes contra a democracia” continuaremos a bater com a cabeça na parede. Pois isso que estamos chamando de fascismo (no Brasil e no mundo) é, em certa medida, “democrático”, tanto no sentido de que tais regimes foram eleitos por maiorias, quanto no sentido de relativa preservação da normalidade institucional. Por outro lado, pensar o fascismo no interior do regime democrático significa pensar aquilo que permite a normalização mental e jurídica do extermínio e da violência de Estado contra setores da população (a saber, a população negra e pobre), que não é de agora. E se tem algo que setores do movimento negro e dos movimentos da periferia vêm enfatizando contra a mitologia do “sonho interrompido” é que a fantasia de salvar a democracia (a normalidade), quando chega nas zonas geográficas de exceção, se mostra como retórica esvaziada. Se a exceção geográfica não é uma anomalia, mas diz a verdade sobre a regra, o mesmo vale para a história – e nem é preciso citar o que Benjamin dizia sobre os ensinamentos da tradição dos oprimidos.

Fechou-se o que aparecia como tempo da ordem e do progresso, onde era possível a “política positiva” no sentido comteano. São tempos críticos, e a crise é ingovernável. O que significa que a tentativa de domá-la tende a ser cada vez mais violenta. É tempo de destruição, e ela pode vir de vários lados. Há recusa em fermentação. Uma recusa que pode se converter em decisão. Tudo pode acontecer.

* * *

Felipe Catalani é doutorando em Filosofia pela FFLCH-USP. Para o Blog da Boitempo, escreveu “Aspectos ideológicos do bolsonarismo” e traduziu “Detesto quem anda com uma pistola no bolso”, de Pier Paolo Pasolini.

Notas

1 Günther Anders, Mensch ohne Welt: Schriften zur Kunst und Literatur  (München: Beck, 1993), p. 226.
2 Sobre o assunto, ver o artigo de Gabriel Feltran, “O valor dos pobres: a aposta no dinheiro como mediação para o conflito social contemporâneo”, Cad. CRH [online]. 2014, vol.27, n.72, pp. 495-512.
3 Nancy Fraser, “Progressive neoliberalism versus reactionary populism: a Hobson’s choice”, em: The Great Regression (Cambridge: Polity, 2017). Mais adiante, ela define: “Em sua forma estadunidense, o neoliberalismo progressista é uma aliança das principais correntes dos novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBTQ) de um lado, e, do outro, setores de negócio baseado em serviços de luxo simbólico (Wall Street, Silicon Valley e Hollywood).”
4 Essa periodização foi apresentada primeiramente, até onde sei, pelo cientista político Ivan Krastev e retomada recentemente por Paulo Arantes.
5 Jürgen Habermas, “A nova intransparência: a crise do Estado de Bem-Estar Social e o esgotamento das energias utópicas”, Revista Novos Estudos Cebrap, set. 1987.
6 Vale notar que tal discurso, mobilizado nos últimos anos sobretudo pelos setores mais conservadores da esquerda, finalmente foi assumido pelo outro lado (a nova direita), que aceitou o presente. Isso será coroado pelo novo filme (que não assisti) de um diretor olavista intitulado “Nem tudo se desfaz: como vinte centavos iniciaram uma revolução conservadora”. É curioso observar como nesse momento a direita olha com simpatia e apoio as insurreições populares, mesmo que elas não sejam de antemão uma manifestação de direita, e tampouco se desdobrem nessa direção, como foi o caso dos gilets jaunes na França, que no início foi visto com interesse tanto por Trump quanto por bolsonaristas.
7 Salvo engano, foi Paulo Arantes quem disse recentemente que a luta na educação frente ao atual desmanche não pode ser luta por restauração, pois justamente não há nada a “restaurar”.
8 Apesar de insuportavelmente ruim, valeria a pena estudar esse material. Além de apresentar um revisionismo “contra a mentira apresentada nas escolas”, é importante compreender o efeito visado de tal empreitada para tocar o coração e as almas dos brasileiros (a série é composta por entrevistas com “intelectuais” como Olavo de Carvalho e outros picaretas). Na série, assim como nos discursos da extrema direita em escala global, há a tentativa de “levantar a moral” dos humilhados socialmente ao identificá-los a uma tradição nobre de heróis, cujo aspecto de “vilões” teria sido uma perversa invenção da esquerda. No caso brasileiro, isso vai dos conquistadores aos militares. Trata-se de uma narrativa que visa dar sentido à existência do indivíduo, que sai de uma situação de fraqueza e ganha virtudes guerreiras.
9 Nancy Fraser, idem.
10 Christophe Guilluy, No society: la fin de la classe moyenne occidentale  (agradeço a Fernando Vidal pela indicação de leitura, feita no contexto de uma conversa sobre os gilets jaunes).
11 No Brasil, imitando os liberais americanos e europeus, é Jessé Souza que retoma esse tipo de argumento ao dizer: “Bolsonaro é o representante do que podemos chamar de lixo branco. […] Bolsonaro é a vingança deste lixo pobre branco sobre o negro e o pobre que melhorou de vida.” Leneide Duarte-Plon, “Carta de Paris: Jessé Souza: a Lava Jato desqualificou a justiça”, Carta Maior, 4 jul. 2019.
12 Guilluy, cit.
13 Utilizo o termo “populismo” aqui por ter se tornado corrente, mas ele é inadequado. Em certa medida, ele se torna também um instrumento do “centro moderado” para identificar os “extremos”, à direita e à esquerda, da mesma forma como o conceito de “totalitarismo” fora utilizado ao longo do século XX.
14 Reproduzo de forma livre uma formulação sua compartilhada em debates, conversas etc.
15 Paulo Arantes, O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência (São Paulo: Boitempo, 2014).
16 Theodor Adorno, “Aspekte des neuen Rechtsradikalismus”, 4 jun. 1967, Universidade de Viena. Infelizmente, por enquanto está disponível (aqui) somente o áudio em alemão dessa palestra (em breve uma tradução será providenciada).
17 Günther Anders, Dia atomare Drohung (München: Beck, 2003), p. 179.
18 Reinhardt Koselleck, Crise e Crítica (Rio de Janeiro: Contraponto, 1999).
19 Ivan Krastev, “Majoritarian futures”, em: The Great Regression  (Cambridge: Polity, 2017).
20 Ivan Krastev, cit.
21 Idem.
22 Cf. Rute Pina e Emilly Dulce, “Abriu-se a porteira da absoluta ingovernabilidade no Brasil, diz Paulo Arantes”, Brasil de Fato, 13 nov. 2018.
23 Ivan Krastev, cit.
24 Recentemente, também na Alemanha foi assassinado o prefeito de Kassel, do CDU. Ao que tudo indica, foi um ato coordenado por neonazistas: o prefeito era uma das principais figura entre os conservadores a apoiar políticas de asilo para refugiados.
25 Por exemplo: Marianne Enault, “Gilets jaunes : la Russie est-elle derrière de faux comptes qui attisent la contestation sur les réseaux sociaux?”, Le Journal Dimanche, 9 dez. 2018.
26 Ver seu monumental Labirintos do fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta (edição independente, 2015). Disponível para download aqui.
27 Herbert Marcuse, Counterrevolution and Revolt (Boston: Beacon Press, 1972), p. 28.
28 Theodor Adorno, “O que significa: elaboração do passado”, trad. Wolfgang Leo Maar, disponível aqui.


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